Mudar de estilo é conveniente após o sucesso?

É natural que muitas bandas e projetos se moldem e mudem no decorrer dos anos. Mas e aquelas que mudaram após o sucesso? O que causa isso?

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Se você é minimamente fã de música, a frustração já bateu a sua porta. Seja com a qualidade de um CD novo de uma banda que se ama, com um single mal escolhido ou até com uma performance morna ao vivo. É quase que uma relação de amor e ódio, podemos falar mal, mas não admitimos que outros falem. Como se as músicas dos próximos álbuns definissem uma nova temporada da sua vida. Mas e quando já nem reconhecemos a banda mais? E quando uma banda muda o cursor do som sem mais nem menos? Isso é mais comum do que você imagina.

A história é padrão. Várias bandas, projetos, solos, iniciam suas carreiras com influências próprias. Conquistam fãs, esses se tornam fiéis, promovem, divulgam, os artistas estouram. Fazem um CD se de impressionar, são bem cotados e notados e quando menos se espera sai um segundo trabalho. Completamente diferente. São tantos exemplos que é difícil relatar os mais importantes, mas de cabeça vem alguns.

Marina & The Diamonds seguia uma linha bem Indie no início, conquistou uma pancada de gente e resolveu ir para o Pop no seu segundo CD. Mesma coisa com The Drums, começou no Indie Surf e foi para o Post Rock. O rock entrou de vez no som do VETO, que era experimental, intimista, intenso. O Soul fez a cara do Mayer Hawthorne, e agora com Where Does This Door Go o Pop entrou na produção. MGMT chegou onde chegou por conta de seu Indie psicodélico, falsetes, até vir para o Brasil, serem criticados por um show morno e lançarem um trabalho Experimental não tragável. Coldplay saiu do orgulho melancólico pra ir para a felicidade das rádios. Até Strokes, que representava o Indie Rock sujo, sem firulas, resolveu ir para uma linha mais eletrônica, mais elaborada.

No Eletrônico, muitos reclamam de Beams do Matthew Dear, começou no Experimental minimalista e veio com uma obra mais vocalizada. Ital Tek saiu do Dubstep para ir para o Footwork em Hyper Real. Zedd abandonou o que lhe fez estourar, com remixes pesados no Electrohouse para artistas consagrados para lançar Clarity, uma compilação EDM de festival. E não precisamos ir muito longe. Antes mesmo do David Guetta sair do anonimato, suas produções viviam influências pesadas do Disco e Electro. Faixas do primeiro cd Just a Little More Love (2002) reforçam isso.

E, é claro, que existem aqueles que tem essa mudança como algo que virou identidade musical já. Daft Punk, Muse, Portugal The Man, Major Lazer são alguns que vem na minha cabeça agora.

Mas por que isso acontece com tanta frequência? Pensem vocês comercialmente falando. Quando o sucesso vem, o dinheiro vem junto, as maiores responsabilidades e preocupações de manter o nível. Para ajudar que isso aconteça, produtores, agentes e gravadoras se aproximam, trocam favores bem interessantes sob algumas condições. Entre elas, a obrigação de sempre trazer mais dinheiro e para isso é necessário algumas mudanças. É mais fácil angariar pessoas com som mais degustáveis. É aí que entra o comercial. É aí que o Pop se enfia no Soul, é aí que o EDM se mistura com o Electrohouse, é aí que as vozes entram no Experimental. É mais fácil de assimilar, é maior possibilidade de abranger mais público, é maior chance de trazer mais retorno financeiro e reconhecimento.

Fazer música é um processo de criação e depende muito do estado de espírito. Jogue a primeira pedra quem não mudou de opinião ou gostos. Você aguentaria trabalhar com a mesma coisa por 2, 5 ou 10 anos? Mas e quando não são influências externas? Basta pensar que isso é o que traz o pão pra mesa desses artistas. Bem possivelmente se um próximo trabalho não chamar atenção, a carreira vai entrar em declínio e dificilmente desponta de novo. Então a preocupação é essa. E para chamar atenção é necessário inovar. Essa palavra é perigosa para fãs. Se os próximos projetos não inovarem de alguma forma, trazendo um conceito novo, uma proposta nova, vão ser criticados e cair também. Logo é um bom motivo, se você gosta mesmo da sua banda favorita, de apoiá-los até a última gota de sua paciência deixar. Eles vão precisar.

É muito cômodo apenas reclamar. Difícil é seguir as exigências dos produtores, lidar com a gravadora, aguentar a pressão da crítica. É saudável sempre parar para pensar antes de julgar porque as bandas talvez sentem mais que os fãs de abandonarem o estilo que elas estavam à vontade em fazer. É tudo pela sobrevivência. É mais saudável analisar o contexto e, se for o caso, simplesmente acatar, ficar feliz que isso foi um sinal do crescimento de uma banda que você gosta. Se não der para engolir, você ainda pode ter uma biblioteca musical disponível para você nesse endereço com uma overdose de artistas calouros e veteranos bacanas para você cair de amores de novo.

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Autor:

Publicitário que não sabe o que consome mais: música, jornalismo ou Burger King