Mulher-elétrica II

Papos guitarrísticos com Lucinha Turnbull, Theo Charbel, Anna Tréa, Michele Cordeiro e Nina Oliveira.

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Fotos: Isabela Yu

Logo que o primeiro capítulo desta matéria que acabou virando uma série foi publicado, uma porção de indicações de personagens surgiram. Fiquei feliz. Parece-me que há, e sempre houve, muita mulher tocando guitarra por aí. O que acontece, e continua acontecendo, é que esses trabalhos não são celebrados como deveriam.

É nesse sentido e com essa energia que seguimos para a segunda parte de “Mulher-elétrica”. Em 2017, o jornal The New York Times já declarava no título de uma reportagem especial: “O Rock não morreu, ele agora é governado por mulheres”. Por ali, nomes como Laetitia Tamko ou Vagabon, Victoria Ruiz do Dowtown Boys, Lindsey Jordan do Snail Mail e Sophie Allison do Soccer Mommy apareciam (e brilhavam). Isso sem falar que a guitarra em si vai para muito além do Rock.

No final da matéria, uma playlist com todos os nomes citados aqui te espera. E aí, quantas meninas você já escutou hoje?

LUCINHA TURNBULL

Na maior parte dos casos, o nome de Lucinha Turnbull (ou Lúcia) aparece seguido sempre do adendo “a primeira guitarrista brasileira”. O tal título “grudou” na artista graças ao seu talento inegável com as cordas. “Acho que pode ter tido outras guitarristas, mas que botaram a cara e apareceram para o público, dizem que fui eu”, disserta a respeito da alcunha.

O bullying também não era muito diferente do que as musicistas, infelizmente, ainda precisam enfrentar hoje em dia. “As pessoas sempre me perguntam se era muito difícil por causa dos meninos. Não era, só era meio chato. Aquela coisa do tipo: ‘me vende essa guitarra, me vende esse pedal’ – como se você não soubesse reconhecer um bom instrumento. Ou outro guitarrista combinar o volume do amplificador e o dele estar o dobro do seu, então a sua guitarra não aparecia.”

“Na minha concepção, as pessoas acabam gostando porque eu também gosto muito do que estou fazendo. Não comecei a tocar para mostrar que mulher sabia tocar, era porque eu gostava, só isso”, relembra. A curiosidade e a destreza no instrumento lhe renderam algumas parcerias históricas: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Guilherme Arantes, Erasmo Carlos, Itamar Assumpção, Moraes Moreira, Jorge Ben Jor entre muitos outros compõem a lista.

E claro, talvez sua comparsa mais significativa, Rita Lee. Ao lado dela, surgiu a breve Cilibrinas do Éden, que realizou apenas um show em sua história. Isso porque, pouco depois, elas cresceram e tornaram-se a Tutti Frutti – banda em que permaneceu até 1975. Dois anos depois, Lucinha ainda gravou os clássicos de Gil Refavela e Refestança e, mais recentemente, em 2017, colaborou com Edgard Scandurra e Silvia Tape no lançamento de EST.

Em voo solo, a guitarrista ainda lançou o seu primeiro e único disco, Aroma (1980). Faixas de Gil, Gonzaguinha e Rita Lee figuram no álbum que, até hoje, não tem uma sequência. Segundo Lucinha, ela ainda está por vir, mas sem previsão de lançamento. De 2016 para cá, a artista se apresenta em shows de repertório eclético: suas originais se misturam a músicas dos seus ilustres parceiros e amigos para além de homenagens a seus ídolos como Beatles e Bob Dylan. “Tenho uma música com a Mathilda Kovak que é eterna. Ela se chama ‘Classe Média Requentada’”, orgulha-se do setlist.

“As pessoas te colocam em um compartimento: ‘ah, é roqueira’… Eu lembro vagamente de ouvir músicas em gaita de fole e chorar. Ficava com saudades de sei lá o quê… Depois, minha grande paixão musical foi My Fair Lady [1964]. Assisti umas três vezes a montagem com Bibi Ferreira. Economizei dinheiro de comprar balinha para comprar o disco do Ray Charles. Não é só Rock’n’Roll, nunca foi.”

Qual é a história da sua primeira guitarra?

Quem me ajudou a escolher foi o Liminha, era 1972, em Londres. Uma cópia de Les Paul. Antes, eu só tinha o violão ­­– que tenho até hoje – chamado Horácio. Essa de hoje é a Ruby, uma Washburn HB35, cópia da Gibson ES 335. Dei esse nome por causa da música (homônima) do Ray Charles – “They say Ruby, you’re like a flame”…

Você começou a tocar depois de presenciar algum show?

Não foi show. Gosto de música desde criança e tocava de tudo na minha casa – Nat King Cole, Elizeth Cardoso, as coisas que minha mãe ouvia, música italiana, francesa… Em algum momento começou a aparecer discos do Beach Boys em casa. O lance foi quando ouvi Beatles no rádio – e eu nem sabia que eles eram lindos! Meu irmão frequentava uma loja chamada High Five, que ficava na Augusta, era “A” loja, né? Tinha cabines para ouvir discos e perguntei se ele sabia quem era a banda nova. Aí, ele disse que tinha LP deles. Ouvi “I Want to Hold Your Hand” e pronto. Escuto até hoje e descubro coisas novas… As pessoas falam que ficou bom depois de Rubber Soul (1965), mas não acho. O começo já é uma porrada. O A Hard Day’s Night (1964) é uma loucura, tem toque de Jazz. “All My Loving” é quase Ska, isso em 64. O que acham legal neles – que eu adoto e me identifico – é que é uma mistura de tudo, vai muito além.

Como as cordas apareceram na sua vida?

Ganhei o violão aos 11 – ou 13, minha mãe não está mais viva para me confirmar –, e ficava enchendo o saco das pessoas para me ensinarem a afinar. Ficava tocando sequência de Dó, aos poucos fui aprendendo, acorde de Mi, sétima, e a criar calo. Tinha uns vizinhos cariocas que tocavam um pouquinho. Aí, tive uma banda do prédio chamada Capops (Cagando e Andando Para a Opinião Pública) – tinha 13, tocava pandeiro e cantava. Quando morei em Londres, estudei em uma escola chamada International House (que não existe mais), tive um professor gato de 22 anos – uma gracinha. Ele tocava com a namorada, que era uma outra professora de escola e que tinha 24 anos, e com um cara de 26 na Solid British Hat Band. Eu estava com 16 na época. As músicas contavam histórias loucas, desde defendendo os pedestres – por causa de toda loucura dos carros – até uma chamada “Gay Is Good”. Isso tudo naquela época, 1969/1970, então virei a bebê do grupo, eu com meu primeiro violão de nylon. A gente tocava por uns trocados, uns sanduíches em alguns clubes.

Depois, foi o Teatro Oficina, onde toquei guitarra em uma montagem do “O Casamento Pequeno Burguês”, do Bertold Brecht e Kurt Weil, uma montagem do Luiz Antônio Martinez Corrêa, o responsável pela volta dos musicais no Brasil. Abri um show dos Mutantes em 1971 porque andava com eles depois que voltei de Londres. Sabe como é, ne? Você pode ser um idiota mas morou em Londres. No meu caso, não sou uma idiota, mas tinha isso, andava com eles. 1971 teve a peça, depois viajei para Londres com Liminha, Rita e Leila Lisboa, mas a banda folk já não existia mais porque o casal estava grávido. O rapaz que escrevia as letras deles tinha montado outro grupo, uma banda enorme chamada Everyone Involved, com dois bateristas e era um absurdo. Nela estava o Richie começando, um neném, ele com uns 20 e poucos e eu com 19.

Teve essa coisa de Londres quando comprei a guitarra, ainda fiquei um tempinho no Oficina, então a Rita me chamou para fazer uma dupla quando acabou os Mutantes. Durou um pouquinho, depois ela quis dar um tempo. Então me chamou para montar o Tutti Frutti. Aconteceu aquilo tudo, muito show, muita temporada… Não sou saudosista, mas tenho saudade de temporada – terça, quarta, quinta, sexta e duas sessões no sábado e domingo. Os meios de divulgação eram TV, rádio, jornal, filipeta e lambe lambe. Lembro quando tive um lambe na Avenida Paulista, falei: “caceta, que máximo!”.

“Não comecei a tocar para mostrar que mulher sabia tocar, era porque eu gostava, só isso” – Lucinha Turnbull

Que tipo de som você buscava?

Sempre gostei muito de fazer ritmo com a guitarra. Lá atrás, nos anos 1970, quem tocava base era considerado coisa menor, “só toca baste porque não sabe solar”, mas não era nada disso. Nunca tive vontade de solar para caralho, sabe aquelas coisas? Barulhos estranhos… (risos). Quem recuperou a dignidade da guitarra rítmica foi Nile Rodgers, com o Chic e a discoteca. Gosto do som do instrumento, de sentir a madeira quando toco.

THEO CHARBEL

São as trocas que a música pode proporcionar que interessam a Theo Charbel. A multi instrumentista, arranjadora, compositora divide o seu talento com o mundo de diferentes maneiras. Uma delas é sendo professora. Theo dá aulas particulares de violão e guitarra para mulheres que buscam um espaço seguro de aprendizado. Assim, ela combate o cenário machista que, tristemente, ainda é uma realidade nas escolas de músicas mais tradicionais. “Há algumas aulas, uma aluna me contou que fazia aula com um cara que dizia: ‘ah, você não serve para tocar, nunca vai conseguir’. Que desserviço faz um homem desses na cabeça das minas”, relembra indignada.

Para além da sala de aula, ela também é a responsável pela guitarra e a viola caipira que aparecem na Gali, a bateria da Papisa, Ema Stoned, florcadáver e, em seu projeto solo, toca todos os instrumentos. Neste último, conseguiu fazer um lançamento em 2013, Flow, mas se prepara para, em breve, colocar um sucessor na rua. “Meu instrumento de formação é o violão e a guitarra, toco desde criança. Sempre fui fissurada na bateria. Meu pai trabalhou em estúdio durante muitos anos, sempre que ia ver ele, ficava mexendo lá. Coisa de criança, fazendo barulho. Acho que todo mundo tem uma curiosidade porque é um som forte, tem várias peças que você não entende como funcionam…”, tentou explicar, durante a nossa conversa, sobre a sua divisão entre as cordas e os tambores.

Quando rolou o primeiro show com banda?

Meu pai gravou uma música minha quando eu tinha 11 anos. Ele sempre gostava de gravar a minha voz nas músicas dele. Lembro que ele chegou bem despretensioso, foi uma gravação caseira. Ele é muito animado, gosta muito de produzir, tocar junto. Então, eu tocava com a minha família, na casa dos meus avós, na dos meus meus tios. Mas, show de Rock, mesmo, foi aos 16. Tocava baixo numa banda de covers. Depois fui tocando violão em uns saraus da faculdade. Fazia muito cover, muita versão, aí colocava uma música minha no meio para ninguém perceber. Tinha essa vergonha. 

Suas músicas ficavam guardadas?

Componho desde a primeira vez que peguei no violão, mas levou uns bons aninhos até chegar o momento de mostrar para todo mundo. Mostrava para os meus pais, para a minha família que sempre me apoiou, etc. Sempre fui muito tímida. As pessoas nem acreditam, ou não parece, porque estou sempre conversando, trocando ideias. Então mostrava minhas músicas para eles, até perceber que tinha músicas demais e ficou aquela vontade de gravar. Meu pai tinha o estúdio caseiro e, depois de um processo muito intimista, eu e ele, consegui fazer o Flow.

Como rolou a transição do violão para a guitarra? 

O violão veio primeiro. Ganhei no Natal, aos 10 anos, e tenho até hoje. Se chama Alan, é um violão de madeira espanhola, muito macio de tocar. Ele é pequeno, mas não é infantil, só é menor do que os outros. Meu companheiro de vida, vivia tocando nele. Via muita MTV, então ouvia uma música e aproveitava para tirar de ouvido, achar o tom. Sempre gosto de exercitar o ouvido. Sempre falo para minhas alunas que é um bom jeito de conhecer o instrumento, de ficar íntima com ele. Se você quer compor, fica menos difícil de tirá-las da cabeça para o mundo físico. Que nota ou que arranjo você quer passar pro violão? Eu era inseparável do violão, dormia com ele, levava o dia inteiro, levava para a escola. Chegou a guitarra? Dormia abraçada. Sobre essa (a da foto): eu e meu pai compramos a mesma, mas essa é dele porque eu vendi a minha, mas uso como se fosse a minha. Ela tem uns 10 anos. 

Quem eram as suas referências? 

Tenho essa memória muito forte do clipe “Fly Away”, do Lenny Kravitz, com a Cindy Blackman tocando bateria. Os clipes do Hole também eram muito marcantes. Não escuto muito a banda, nem é uma das minhas referências, mas lembro dos vídeos. Ver muito Sonic Youth e Radiohead de madrugada. Uns sons mais “distorcidões” daquela época me chamavam a atenção. Hoje em dia, acabo pegando muita influência da Brittany Howard do Alabama Shakes. Gosto muito dos timbres, acho vintage. O jeito que ela trabalha os riffs… Uma pessoa genial, me espelho muito nela. Acompanhei os shows da Maria Beraldo quando ela lançou o Cavala (2018) e fiquei fascinada. O momento do show em que ela faz umas experimentações performáticas com a guitarra é incrível. Outra pessoa que também achei incrível foi a Josyara, com o Mansa Fúria (2018). Ela toca violão de um jeito tão lindo e sorridente sem deixar de fazer coisas cabulosas, acordes difíceis, tempos muito marcados, como se fosse a coisa mais fácil do mundo. Por fim, é claro, a Lucinha Turnbull que é uma lenda viva. Vi ela no Psicodália e descobri o Cilibrinas muito depois de ouvir Rita Lee e os Mutantes.

O que você deseja passar para as suas alunas?

Meu pai deu aula de violão e guitarra durante a vida toda dele. Comecei a pensar que eu poderia desenvolver uma metodologia legal para deixar as mulheres confortáveis para aprender. Sinto que elas têm receio de ir numa escola e aprender com uns caras que vão ensinar nada do que elas querem – o mesmo Legião Urbana de sempre. Tinha muitas amigas que pediam indicações de aula, então decidi me arriscar. Na época, usava o Facebook e tinha muitos grupos de mulheres nas artes. Via meninas se lançando com projetos autônomos, se vendendo, pensei: “por que não passar para frente o que eu já sei?” E, principalmente, entender o que a pessoa quer. Não vou ficar ensinando a matemática da música. Tem a ver com o que a pessoa quer. Se é compor: estudar, entender como a criatividade funciona, etc. Criatividade é um exercício. Pensam: “Ah, as pessoas têm dom, têm talento!” Isso, nada mais é do que uma prática, uma tarefa, um trabalho de foco. Sempre tenho uma conversa clara com elas a respeito de expectativas. Qual é o seu objetivo? E cada aluna vai ter um ritmo diferente, não vou ficar cobrando coisas que ela não pegar. É seguir em frente. É importante que seja um ambiente seguro, horizontal.

Conta um pouco sobre a cena de Cuiabá, por favor.

Quem faz um trabalho incrível lá é a Estela Ceregatti, uma musicista muito legal. Tive oportunidade de conhecê-la. Tinha muito sarau na universidade, nesse movimento que rola nas federais. Então a galera nem tinha projetos fixos, se juntava e tocava. Banda só de mina durante muito tempo foi só a Esmalthes, de Hard Rock. Hoje nem deve ter mais, mas elas foram a referência de lá. Também tem o Cavernas Bar, o bar mais underground de Cuiabá, que perdura por anos por insistência do dono. Durante muito tempo, foi o único bar de rock e lugar acessível para as bandas tocarem. Já toquei finais de semana seguidos porque era o único lugar que tinha.  Toquei com bastante gente de lá, em bandas covers. Sinto que Cuiabá vive uma ressaca depois de um movimento muito forte no Mato Grosso. Começou o Grito Rock, teve o Festival Calango, vários festivais que circulavam bandas de Goiânia, do Sudeste. Teve muita banda de Goiânia por lá, vi muito Black Drawing Chalks. Morreu essa cena lá e ficou nesse pós-morte, uma coisa indefinida, amargurada, a galera desacreditada. Hoje em dia, para fazer as coisas lá tem que ser do zero, criar público, espaço, mídia. Fiz turnê no Mato Grosso, Primavera do Leste, Chapada dos Guimarães, em lugares que são carentes disso. Quando eles vão no show se doam muito. E tudo é feito na raça, do zero, tento inventar formas de levar esse movimento para lá. Tem a questão do Sertanejo. Acho irado Sertanejo de raiz. Gosto de ouvir e tocar viola, é complicado querer viver de Rock lá, tem que dar muitos pulos e muitas voltas. 

“Há algumas aulas, uma aluna me contou que fazia aula com um cara que dizia: ‘ah, você não serve para tocar, nunca vai conseguir’. Que desserviço faz um homem desses na cabeça das minas” – Theo Charbel

Você está trabalhando em um segundo disco? 

Estou em um processo de descobrir como retomar meu projeto solo porque fiquei meio parada nele. Foquei muito em ser instrumentista, dar aula, mexer com produção, acabei deixando de lado. Lancei esse single pela Coletânea Sêla (“Transbordar”) que começa mansinho e termina num Rock Progressivo. Faço umas doideiras dessa, nem eu sei pra onde tá indo. Estou numa fase de experimentar. Usei três tracks de baixo, mixei a bateria de um jeito muito diferente – tirei todos os graves do começo e coloco só no final. Estou me reconhecendo como produtora musical. Vou lançando aos poucos, sem pressa.

Na SixKicks, era Rock mais pesado e tem uma música que chama “Forrock”. Tocava um Forró no meio, caixas de Maracatu, ritmos de Cuiabá – Lambadão e o Rasqueado –, com a ideia de trazer isso para as nossa músicas, misturar junto do Grunge, e do Stoner. Dá para pegar veias de vários lugares. Sempre fica aquela coisa de Rock massante, saudosista dos anos 1970, que a galera fica falando que “o Rock morreu”. Acho ótimo que não se faça o mesmo, não precisa fazer a mesma coisa, dá pra misturar com tanta coisa. Timbres do mundo Pop, muitas bandas usando sintetizador, batidas eletrônicas, até mesmo as bandas que eram Punks e foram pro Disco – caso do No Doubt e do Blondie. Não tem problema nenhum mudar. Mas, sempre acabo indo pra ele. E trago muitas coisas além do Rock: um pouco de Samba, Disco Music, coisas bem bregas, mas acho que o gênero, mesmo, acaba sendo Rock. Tem muita guitarra pesada. Gosto muito de distorção, de fuzz, timbres estranhos que machucam o ouvido, misturo muita coisa.

ANNA TRÉA

O primeiro show da vida da Anna Tréa a emocionou tanto que a compositora, produtora e multi instrumentista nunca mais pensou em outra profissão. A experiência da apresentação ao vivo da Banda Didá, no Museu do Ipiranga, foi tão poderosa que transformou para sempre a artista em desenvolvimento. Atualmente, ela mantém um relacionamento próximo com a Didá, a primeira banda de percussão de Samba Reggae formada inteiramente por mulheres, que há 25 anos segue resistindo.

Com isso, vem investigando-se por meio da música, em busca das percussões que não param de tocar em sua cabeça. “Tenho uma memória bizarra, todo um banco de dados com harmonias, letras, possibilidades. Tudo o que não tenho para as memórias cotidianas, para a música é muito. Parece que ela vem e imprime uma digital que vai ficar no seu corpo para sempre”, explica. Anna nunca esqueceu de letras gigantescas de músicas que escreveu ainda na adolescência, de modo que parte dessas composições acharam uma “casa” em seu disco de estreia, Clareia (2016). Agora, está buscando os ritmos de seu próximo álbum, que deve se concretizar após uma temporada fora do país. 

Quando conversamos, ela estava se preparando para partir, com pelo menos uma certeza: irá acompanhada de sua guitarra de glitter. Feita sob encomenda há dois anos, a artista sabia que queria carregar um pouco de sol por onde estivesse: “Sinto necessidade de verão, de calor, de alegria, sou super summer person.” O jeito sincero, a delicadeza artística e a proeza com as cordas também lhe rendeu uma carreira estabelecida na arte de sidewoman profissional. Tocou ao lado de nomes como Emicida, Arrigo Barnabé, Gaby Amarantos, além de ter integrado a banda do programa “Conversa com Bial”. 

Para onde você acha que o seu som está caminhando? 

Estou num processo de experimentação. Tem momentos em que alguns detalhes querem ficar mais evidentes – estou nessa de entender um novo fio condutor. Sempre trabalhei com texturas orgânicas, mas estou numa fase que tenho gostado de coisas processadas. Sinto vontade de dançar mais. De repente, o fio condutor dessa nova sonoridade seja uma ponte entre a música baiana, as percussões baianas e o Folk. Me emociona muito. Já tenho bastante disso no som, mas tende a ficar mais evidente nas próximas produções. Uma busca para trabalhar mais com o corpo, deixar a voz mais na frente. Falar com as pessoas, falar com as mãos. Soltar o instrumento e conversar com o corpo. 

Quais outros tipos de música você mais se interessa?

A música daqui é muito viva. Os ritmos são vivos. Muita coisa daqui veio de outros lugares. A música negra do mundo, onde tudo nasce do Blues, nasce da África. Me vejo sampleando coisas que me emocionam. Tem música que vou ouvir porque gosto do baixo, da bateria, um detalhe que aparece no meio. Essas coisas que vão entrando e ficando. Chamo de centrífuga sonora. No final, se você bebeu café e leite, é café com leite, não é mais café e nem leite. As coisas vão encontrando lugares na gente. Tem coisa que passa, emociona e fica. Tem coisa que só passa. Não acho que eu faça racionalmente uma seleção das coisas. A característica da minha arte é justamente um compilado de samples. Acho que de todo mundo. Hoje, essa questão do Folk está mais viva em mim, da música baiana, mas pode ser que já já não seja mais isso. Tenho muito forte também o Groove e Funk norte-americano. Em algum momento, isso vai estar mais para fora do que agora. Tem muito desse pensamento imediato que precisamos tomar cuidado. Foi o que eu mais tive que conversar a respeito do primeiro disco. É só o primeiro. Não me vejo fazendo outras coisas, então tenho muito tempo para experimentar.

O que veio antes: cantar ou tocar? 

Sinto que caminham juntos. A referência que tenho da infância é turva, uma névoa de lembranças. Lembro de festas em casa e eu ficar transitando entre as pessoas. Essas festas tinham rodas de Samba, então tinha sempre instrumentos em casa. Lembro deles serem proibidos, sabe? Lembro da sensação de que eles iam me descobrir, então eu só encostava neles. Não lembro quantos anos eu tinha, nem andar eu andava. O que aconteceu, no meu caso, é que a dança veio antes, porque era como eu interagia com aquilo. Comecei a fuçar instrumentos de percussão. Lembro também de uma vitrine de algum lugar em Diadema, onde eu morava, e ficar estatelada com uma guitarra. Isso eu tenho: a sensação de querer aquilo. Tinha uma lei que todo bairro tinha que ter um lugar de cultura gratuito. Meus pais apareceram com um violão que eles ratearam com alguma tia, só apareceram com um. Nesse centro tinha aula de muita coisa, então me inscrevi em tudo. Ao passo que estudava violão, fazia canto, coral, dança contemporânea, break, aula de DJ, aula de grafite, todo os dias lá. Acho que o centro cultural foi o grande culpado de eu ter essa arte 360°. Realmente, consigo me expressar através do corpo, da voz, das ideias, sei desenhar…. Trabalhou essa parte da expressão, que era uma dificuldade na fala. A fala nunca foi fácil, sempre fui muito tímida, então todas essas possibilidades me davam a oportunidade de falar. Não sei se teve uma coisa que veio primeira, apareceram conectadas no melhor momento em que poderiam aparecer: na infância, que é quando você não tem muito pudor, você só quer dançar. Primeiro soltei as amarras para depois ir organizando as coisas, com os cursos que fui fazendo conforme fui ficando mais velha. 

Fui estudar música na Fundação das Artes, e ia caindo várias fichas. Minha relação com os instrumentos sempre foi de toque. Quando peguei o violão, o acorde nem saia direito e eu já ia fazer uma letra. Minha mãe tinha uma gravadora, então passei a criar em cima das fitas. Aprendi os primeiros acordes e já comecei a escrever para tentar conectar coisas. Passava muito tempo nesse mergulho; no cheiro do instrumento, no toque – essa fase foi muito importante. Essa questão técnica que é uma característica do meu trabalho, o violão percussivo, só é assim porque eu sempre gostei de dançar Samba, ritmos brasileiros, coisas rítmicas do mundo. Ficava tocando de um jeito em que eu poderia escutar essa percussão. 

Lá no começo, quando estava começando a estudar na Fundação, um amigo me perguntou no que eu estava pensando enquanto tocava. Pensei: “como assim?”. Nunca tinham me perguntado isso. Estou pensando aqui na percussão na minha cabeça – fui para casa com essa lição. Me dei conta que era sempre tentando encontrar as percussões que estavam na minha cabeça para me conduzir. Como eu ficava muito enfurnada – e sozinha – precisava sempre achar caminhos. Tive sorte da minha família me incentivar muito. Ganhava um monte de cacarecos, apitos, sempre cheia de coisinhas. Minha tia comprou uma bateria para mim, como só podia tocar meio dia, passava o resto do dia tentando entender como eu usava. Colocava o microfone atrás dos sons, surdo, pesquisando o instrumento. A coisa do fazer. O raciocínio veio muito tempo depois, até entender que existiam plugins que faziam esses efeitos…

Você tem um instrumento musical favorito? 

Tenho fases. A vida vai chamando e você fica próxima do instrumento que tem usado mais. Estou numa fase muito guitarrística agora. Quando pego meu violão de nylon penso: “como eu fiquei tanto tempo longe de você?”. Meu objetivo é buscar uma rotina onde eu possa usar todo mundo. Teve uma época em que eu consegui, deixava tudo montado. Tudo é muito apaixonante. Tem coisa que precisa fluir. É uma característica minha: a fruição das coisas. Se estou curtindo tocar bateria, vou tocar mais bateria.

Quando a guitarra apareceu na sua vida? 

Ela demorou para chegar. O primeiro violão foi com 8 anos, que eu achava que já tinha passado da hora, já chegou tarde. A guitarra veio com 12 ou 13. Era a minha grande paixão, era ela que eu queria. Fui descobrindo que queria caminhar com os dois juntos. Ela sempre foi protagonista da parada, junto da voz, que era algo desafiador, por causa do lance da timidez. A aula de canto era o grande pânico da minha semana – amor e ódio. A guitarra me possibilitou de desenvolver o canto aos poucos. Conseguia fazer música, que era o que eu queria, e aos poucos ia desengavetando a voz. 

Você poderia compartilhar os maiores aprendizados do primeiro disco?

Gosto muito dele. Ele tem uma sensibilidade, uma entrega e uma verdade muito especial. Ponto positivo é esse mergulho. Tem muita água, muito sangue. Coisas de produção é para aprender mesmo, admnistração da própria carreira, de confiar e de aprender a deixar as pessoas a participarem de seus próprios processos. Não é que foi um processo egoísta, mas eu estava sempre insegura para pedir tudo – desde dica até ajuda. Isso é uma coisa que aprendi: as pessoas estão afim de estar junto, de somar, de contribuir com seu trabalho, sendo uma coisa boa para nós. Até hoje, tento unir a arte das pessoas. Quando você vai em um show, normalmente temos uma atitude passiva, sendo que esse show poderia ser muito mais revolucionário na vida das pessoas se a gente conseguir se enxergar ativo. Consciente ou inconscientemente fico tentando quebrar essa quarta parede e estar mais próxima por nós, vai ser bom para gente. 

O primeiro disco é uma condensação de tudo o que eu vivi. Dizem que o primeiro é o mais difícil, que é contar uma história do seu começo, mas sinto que ele não foi tão solto assim. Queria fazer um disco voz e violão, precisava fazer os dois funcionarem juntos, os outros elementos surgiram depois. Gravei os dois juntos, ai comecei a pensar em outras possibilidades. Fiz um arranjo de violão para cada música. Mergulhava conforme dava, já que na época fazia muitas turnês. Enlouqueci. Uma das músicas foi escrita nesse processo de enlouquecimento dentro do estúdio, a “Abre Asas”, é uma música que fala sobre coragem. Gravei o violão, continuei com aquilo na cabeça. Uma semana, duas, três… Foi chegando perto da gravação e ela não se resolvia. Um negócio muito mais profundo do que um amor. Desencanei. Foi uma loucura, teve até eleição no meio das gravações. Já estava muito pilhada de saúde, dormi, gravei no dia seguinte, tudo certo. Já tinha muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, acordei no outro dia nada bem, uma sensação de ferrugem, o corpo todo estranho. Tivemos que cancelar, o que foi pior ainda, porque tinha muita gente envolvida. Me senti pior, fui escrever, que é a minha terapia. Escrevi: “Teu olhar tá realmente onde cê tá? / Tanto foi, você já é outro lugar / Novo tempo, novo vento, novo ar / Nova vida, teu momento de voar”. 

Era o que estava acontecendo: tudo conspirando para eu gravar o primeiro disco, a vida acontecer e entrei em pânico. Doido que essa é a música mais festejada de todos os tempos para todo mundo. Vem desse lugar onde a gente se encontrar, de se ter coragem. Não para coisas grandiosas, mas para o dia a dia. Às vezes tá frio, você precisa de coragem pra sair da cama e pedir aumento, enfrentar reunião. É uma música que se conecta muito com as pessoas, mexe em lugares. Todo momento você precisa lidar com coisas e às vezes precisa de coragem. Até a Beyoncé precisa de coragem. Foi legal esse processo. Chorei loucamente, escrevi. Quando entendi que eu tinha ido ao estúdio e vivido essa situação era justamente a profundidade que eu não ia alcançar se eu não tivesse vivido. Foi quase um burn out. Queria fazer a música, fui frustrada para o estúdio e a letra surgiu.

“Essa questão técnica que é uma característica do meu trabalho, o violão percussivo, só é assim porque eu sempre gostei de dançar Samba, ritmos brasileiros, coisas rítmicas do mundo. Ficava tocando de um jeito em que eu poderia escutar essa percussão.” – Anna Tréa

Quem são as suas referências?

De guitarra? Várias pessoas. De guitarra feminina tem uma já falecida, a Emily Remler. Agora, vejo um crescimento da troca de informação, porque tocando a gente sempre esteve. Quase contemporânea, tem a Mônica Agena, uma referência para mim. Na época em que nos conhecemos, ela estava começando a trabalhar com o Natiruts. Yusa, multi instrumentista cubana, também. De percussão, a Priscila Brigante.

MICHELE CORDEIRO

Não tem tempo ruim para a guitarrista Michele Cordeiro. Sidewoman profissional, ela já acompanhou incontáveis bandas desde que começou a vida na noite paulistana aos, surpreendentes, 14 anos. “Vida de freelancer, tinha umas fases que eu passava várias madrugadas tirando música porque eu fazia baile de formatura, casamento e o repertório é gigantesco”, recorda sem muita saudade do período. Atualmente, a guitarrista acompanha o rapper Emicida, o multi Paulo Miklos e integra a banda de apoio do programa global Só Toca Top. Divide-se entre guitarra, violão e cavaco e resolve, com esses instrumentos, qualquer estilo de som. Há um ano, vive ao lado de sua Stratoscaster da foto, modelo especial de sua parceria com uma marca de guitarras customizadas.

Nosso bate-papo aconteceu pouco depois de seu retorno da Europa. No velho mundo, fez oito shows em 20 dias com Emicida – e garante que não é sempre que rolam furacões como esses. Entre a agenda agitada, no entanto, começa a brotar o desejo de estrear um projeto autoral: “Nunca sentei e fiz uma canção com melodia e letra. Sempre foram coisas separadas. Em geral, quando estou estudando ou tocando – curto um pedaço e gravo”, reflete sobre o exercício criativo.

“Algo que não é guitarra, mas me influencia muito no sentido de produção é Dua Lipa, Ariana Grande, Troye Sivan – Pop mesmo, gosto dos timbres.” – Michele Cordeiro

Você escolheu a guitarra ou ela te escolheu?

A gente se escolheu (risos). Ganhei um violão dos meus pais com nove anos, quando comecei a fazer aulas. Aos 14, ganhei uma guitarra deles e entrei numa banda. Fiquei meio perdida um tempo, não sabia como organizar, porque sempre fui estudando sozinha e não conseguia manter um fluxo. Perdia o caminho do estudo e não sabia onde ir. Lembro que fui fazer uma aula de teoria de partitura com um saxofonista e ele disse que estava estudando lá em Osasco – onde nasci. Como não pensei em fazer faculdade de música? Tinha 19 anos, prestei e fiz. Já vinha de vários anos tocando na noite de São Paulo e sentia que essas aulas me completavam. É difícil você aprender um monte de coisa no instrumento e não aplicar em lugar nenhum. Ou contrário, ficar tocando e não saber como evoluir a partir de certo ponto.  

Você sempre foi adaptável aos diferentes gêneros musicais?

Nem sempre escutei de tudo, mas sempre toquei de tudo, mesmo. Comecei fazendo bandas de evento, então o repertório é vasto – Samba, Pagode, Sertanejo. Até lembro dos primeiros testes que fiz para uma banda de evento: comecei tocando Rock, beleza. Chegou a parte dos Pops, foi ok. Samba, meu Deus, o que vou fazer agora? Não ouvia, não sabia como tocar, fui me virando. 

Quem eram seus ídolos do Rock? 

Escutava muito Aerosmith quando era pré-adolescente. Ainda gosto muito da linguagem do Joe Perry, mas não escuto tanto. Rock com Blues na guitarra é algo que gosto até hoje. Percebo que é a minha maior influência. Escutava Slash, que a galera geralmente escuta. Nunca fui muito da fritação, de ouvir Stevie Vaughan ou Satriani, essas coisas virtuosísticas. Escutava coisas Hard Rock, Punk, Ramones, coisas juvenis, Emocore – essa mescla com Punk, com guitarras mais duras… Cada fase tem uma coisa. Algo que não é guitarra, mas me influencia muito no sentido de produção é Dua Lipa, Ariana Grande, Troye Sivan – Pop mesmo, gosto dos timbres. Tem outras fases mais Rockabilly. Ou escuto Jazz porque estou estudando. Varia bastante. Música brasileira foi uma coisa que demorei para começar a ouvir e hoje gosto muito. Lembrei do Tame Impala que faz uns timbres muito sintéticos e legais. Gosto muito do efeito de guitarra e dela crua. A pedaleira expande muito as possibilidades, é muito legal. Uso o set básico, overdrives, delay, “reverbzinho”. Comprei um fuzz no ano passado, coloco ele no meio de umas ideias, não tenho usado muitos timbres sintéticos. 

Em que momento o cavaquinho entrou na sua vida? 

Nunca pensei que fosse tocar. Surgiu no show do Emicida, porque tem uma música no show que é um Samba Canção. Na hora, pensei que meus dedos não encaixavam – é muito pequeno. Dei uma sofrida, mas fui entendendo a dinâmica do instrumento. Não toco, mas toco. Pensei que se eu consigo tirar essa música, consigo tirar outras. Sempre que tem samba no programa, eu faço cavaco. Amor e ódio. 

NINA OLIVEIRA

Rabiscando músicas desde os 16 anos de idade, a cantora e compositora Nina Oliveira está pronta para o primeiro disco. Mais do que pronta, na verdade: suas canções já são gigantes na internet. Só o vídeo de “Dandara” ao vivo no Sofar Sounds conta com 1 milhão de visualizações. Se esse ou outros hits como “Disk Denúncia” ou “Naíse” ainda não fazem parte do seu repertório, você pode se lembrar dela no casting do álbum visual de Luiza Lian Oyá Tempo (2017). Quem acompanha o programa The Voice Brasil, curiosamente, viu a artista entrar no time de Michel Teló, na primeira fase da competição musical. De qualquer forma, seja cantando no Coral Jovem do Estado de São Paulo ou levando a plateia do TEDX Talks às lágrimas com sua voz e violão, Nina pertence ao palco.

Hoje, aos 22, está em nova fase. Navega pela vida adulta com muita reflexão e densidade. Capricorniana, a cantora tem os dois pés no chão: “Não acredito em talento. Tem pessoas que acreditam. Tudo o que a gente faz é uma habilidade que vem de uma prática. Tenho facilidade para cantar, mas isso sem iniciativa não faz sentido nenhum.” Desde que começou a colocar sua voz no mundo, Nina nunca mais conseguiu parar de pensar em música. No momento, está sonhando com o primeiro disco que, a cada dia, parece estar mais próximo de se concretizar.

Quando você descobriu que queria cantar?

Sempre quis cantar, mas tinha uma barreira social e uma barreira psicológica. No fim das contas, não era uma barreira de verdade, era uma ilusão de que as pessoas do meu meio social, da minha classe, do meu nível financeiro, não poderiam ser artistas. Porque, para ser artista, você precisa ter muito dinheiro e ser artista é realmente caro. Mas, arrancar uma folha de papel e escrever, gasto zero reais. Comecei a estudar com 16, por acaso, porque queria passar mais tempo fora de casa. Achei um curso técnico de canto numa escola pública e comecei a estudar. Meu pai começou a falar para os amigos que eu ia ser cantora, eu falava que não. Depois de um ano: não conseguia imaginar um futuro que não fosse com música. Percebi que as possibilidades profissionais na música não são apenas a cantora do mainstream, que assina um contrato milionário com uma grande gravadora. Tem muitas outras possibilidades. Poderia ser cantora em um outro nicho, mas também poderia ser professora, ou arte educadora, que poderia ser instrumentista, acompanhar outros cantoras, produtora musical… Tem muita coisa que dá para fazer na música, né? Então, quando saquei que poderia viver disso sem ser famosa, cantar na TV, fiquei mais aliviada e comecei a aceitar que queria ser cantora. Passei a investir mais tempo porque dinheiro não tinha. Investir mais tempo em me educar na música e no mercado. 

E o violão acabou aparecendo no caminho? 

Junto do canto. Quando comecei a estudar no curso tive três semestres de uma matéria de instrumento complementar. Queria muito aquilo. Tinha aula uma vez por semana, mas andava com ele todos os dias. Tocava no ponto de ônibus, no intervalo do Ensino Médio, dentro do metrô, em qualquer intervalo. Aprendi alguma coisa. Acredito que sou uma boa cantora e sou razoável no violão. Me ajuda muito, é o instrumento que faço show, uso para compor, muito útil.  É muito útil saber tocar um instrumento harmônico mesmo trabalhando majoritariamente com a voz. A guitarra é um sonho que ainda estou tentando processar. Não tenho uma, mas estou sempre em ambientes em que posso tocar. A guitarra é um violão moderno, que você liga na tomada, tem um milhão de possibilidades de som, de distorção e um milhão de botões que eu ainda nem sei usar. Ela abre um leque de possibilidades sonoras que eu gosto e quero trazer para minha música. 

“Depois que fiquei sozinha, percebi que não sabia muita coisa sobre mim. Comecei a me conhecer, como é a dinâmica da minha pessoa, gosto comer desse jeito, dormir quantas horas…” – Nina Oliveira

Seus sons estão ficando elétricos? 

Povo usa o termo eletroacústico, né? Não tenho muita propriedade para usar isso, mas vou chamar assim. Tem muita coisa que gosto musicalmente que soa bem orgânico. Gosto muito de percussão, de som de pele de couro, que você bate – sons orgânicos. E gosto também de sons eletrônicos, sintéticos… Tuyo faz isso, eles têm essa organicidade do som, que eles trazem com o violão e as vozes, mas eles colocam synth, beats, uns efeitos na voz. Acho muito bonito, não enveredo pelo mesmo gênero que eles, meio Folk, mas é uma referência de misturar elementos. Estou montando o quebra-cabeça. Ouço a bateria desse som e penso que seria muito legal. Juntando peças. Quero gravar disco, tenho muitas músicas que fazem sentido dentro de um disco. Pensar o que é esse som, qual é a estética que quero chegar, não sei o nome, sei quais sons. 

Compor é um um momento solitário? 

Comecei a compor em parceria. Então, à princípio, a música se apresentou para mim como uma atividade colaborativa. Mesmo eu tendo me proposto uma carreira solo, a atividade me foi apresentada em parcerias. Era natural chamar um amigo para compor, para escrever, nunca fazia nada sozinha. O fazer sozinho é bem legal, ele é um pouco mais íntimo. Fazer com alguém é fazer concessões, vira uma coisa que é do coletivo. Quando você faz sozinho, a única coisa que te surge na cabeça: “quero expor isso?”. Tem coisas que é muito “tô tirando a roupa aqui, tô ficando nua”, de verdade. Estou caminhando para um momento de me descobrir, de me conhecer melhor como pessoa. Acabei de entrar na vida adulta, que mulher é essa que me tornei? Sou responsável? Não pago as contas em dia? Tenho muitos amigos? Vou pra balada? Sou a pessoa adulta que gosta de ficar em casa vendo Netflix de verdade? Ou isso é uma desculpa?

Estou num momento muito individual. Isso se reflete na arte que quero desenvolver. Tenho cantado muito sozinha, tenho tocado muito sozinha, tenho feito muitos coisas solo, até me meto a fazer um momento do meu show com banda apenas eu e meu violão, faz parte do processo de me conhecer melhor. Há um ano e meio passei a morar sozinha, terminei um relacionamento… Depois que fiquei sozinha, percebi que não sabia muita coisa sobre mim. Comecei a me conhecer, como é a dinâmica da minha pessoa, gosto comer desse jeito, dormir quantas horas… Quando percebi isso, comecei a transpor nas coisas que estava escrevendo, as coisas mais recentes têm muito a ver com ser dona da minha vida, dona das minhas escolhas, com ter autonomia. Estar sozinha e isso ser muito bom. Não tem solidão. Tem uma felicidade e uma satisfação muito grande em me perceber como indivíduo. 

Desabafo muito. O que a gente não leva para análise, coloca no papel. Ou coloca no papel e leva para análise. Não só como processo terapêutico, mas como exercício criativo. No começo, eu mais inventava histórias do que falava de mim. Agora estou mais corajosa. Beira infantilidade o sentimento que me atravessa quando escrevo, sabe? É a minha verdade. Outro dia, estava vendo o show de um amigo e ele falou: “estou muito feliz de estar aqui, mostrando a minha verdade para vocês. Pode não ser a melhor do mundo, mas é minha”. Caraca, é isso. É a minha verdade, é como se eu estivesse me carimbando no papel. Aí fica aquela coisa: e se ninguém gostar? Se ninguém gosta da minha música, elas não gostam de mim. Isso é um sentimento muito infantil, mas é o que rola. Não gostou da minha música, não gosta de mim. Não gosta dos meus filhos, é melhor não falar comigo.

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