Mulher-elétrica III

Falamos sobre cordas metálicas com Josyara, Camila Godoi, Karen Dió, Yzalú e Sandra Coutinho

850 total views, 2 views today

Fotos: Isabela Yu

Aos 14 anos, fiz minha primeira aula de violão. Era em uma escolinha dessas de bairro e meu professor, vamos chamá-lo pelo nome fictício de “Carlos” era, essencialmente, um metaleiro convicto orgulhoso de seu recém-adquirido corte de cabelo. Na época, eu só tinha uma única colega que compartilhava o hobby. Ela, aliás, também era aluna do tal “Carlos”. Conversando com as minhas amigas de hoje, aparentemente, o cenário se repete. Eu desisti na época do vestibular, sem nenhum arrependimento. Odiava ter que aprender as músicas do repertório da escola e ser lembrada de que eu não fiz a lição de casa da semana – tentar reproduzir a maneira dogmática que meu instrutor via a atividade. No caso da Thaís Regina, também jornalista e colaboradora do Monkeybuzz, o motivo da desistência foi porque suas aulas giravam em torno das músicas do Renato Russo. No final das entrevistas da série, as entrevistadas geralmente aproveitaram o gancho para me perguntar se eu não tocava e acabo me lembrando dessa história.

Na última edição de Mulher-elétrica, bati um papo com a Theo Charbel, multi-instrumentista e professora de guitarra determinada a quebrar esse clichê das mulheres que abandonam ou desistem de suas trajetórias frente às cordas. “Comecei a pensar que poderia desenvolver uma metodologia legal para deixar as mulheres confortáveis para aprender. Sinto que elas têm receio de ir até uma escola em que serão designadas a um professor desorientado que não será capaz de entender o que elas querem. Moral da história, voltamos para o mesmo Legião de sempre”, retoma. O lado positivo disso tudo é que ainda que o cenário seja árido, há mulheres persistindo e resistindo ao fazerem música. Mulher-elétrica é uma pesquisa, uma abertura para reflexão, um registro em texto e imagem dessas personagens da história da música independente no Brasil. Aliás, o especial terá um total de cinco edições, ou seja, se tem sugestões, entre em contato e, claro, não deixe de ler os perfis a seguir.

JOSYARA

Encontrei Josyara na semana que antecedeu seu show no Coala Festival, em São Paulo. Entre ensaios e planejamentos, a artista baiana, nascida em Juazeiro, se organizava para a apresentação do repertório de seu segundo disco Mansa Fúria (2018). Se para compor em casa ela gosta mesmo é do violão acústico, que toca desde os 10 anos de idade, para o ao vivo é acompanhada do violão eletrico – “para dar essa sonoridade mais metálica”, como explica. O canto e o instrumento cresceram juntos em sua vida, como “raio e trovão”. 

Na época em que começou a se aventurar no mundo das cordas, escutava Adriana Calcanhoto e Cássia Eller, assim como Marisa Monte e Pitty. “Foi essa roqueira que me levou para esse universo, até conhecer outras influências gringas, tipo o Nirvana, que conheci vendo as entrevistas dela (Pitty)”, conta. Hoje em dia, continua escutando Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, assim como bandas contemporâneas, como Pietá, BaianaSystem e Giovani Cidreira. Na infância, quem ensinou Josy a tocar foi uma amiga da mãe, a Rose, que se apresentava em barzinhos da cidade, e a guiou por entre as músicas de seu repertório na noite: “Eu diria que foi por coincidência, mas acho que tem muito essa ligação/identificação da mulher que está tocando e cantando uma mulher que me ensinou a cantar e tocar violão. Havia muitas mulheres por perto”. 

Como o violão percussivo foi crescendo em você? Quando você começou tocar, o violão era para tocar músicas de outras pessoas ou para compor as suas músicas?

Tocava muito músicas de outras pessoas porque eu fazia barzinho. Lembro que, desde o início, eu gostava de fazer a harmonia do meu jeito porque eu tinha que mudar a tonalidade para poder cantar. Criava muita coisa de ouvido e ia fazendo do jeito que era mais confortável para interpretar, rearranjando aquilo. Isso foi um ensaio para entrar na composição. Comecei a compor mesmo, de querer mostrar minhas músicas, com 14 anos, quando fiz meu primeiro show. Nesses shows, eu cantava outras coisas. Tinha uma banda de Rock e gostava dessa coisa do Rock’n roll, da distorção, mas já mostrava minhas criações. O violão percussivo surgiu nessa caminhada. Saí de Juazeiro e fui pra Salvador, que é pura percussão, é a África no Brasil total. Os tambores estão ali e eu sou da rua, da noite, isso foi me influenciando de certa maneira. Conheci o Samba de roda que é muito esse violão e está mais presente em mim como influência ou um sotaque, eu diria. Foi a partir desse meu olhar de rua, de querer reproduzir certos ritmos e também pela necessidade de fazer um show de voz e violão completo. Como eu não tinha condição de ter uma banda, comecei a fazer shows de violão e voz, assim foi surgindo a sonoridade que eu tenho hoje. 

Para onde você acha que a sua música está caminhando?

Então, sou muito da canção, da melodia, da harmonia. As músicas que eu já tô pensando, fazendo um registro para ano que vem, estão vindo mais cíclicas, de mantras, com letras grandes até. Nunca fui de “estrofe e refrão”, já não tinha muito isso. Agora está mais falado, eu diria: tem melodia, mas está de outro jeito. Algo está se modificando, acho que o tempo que estamos vivendo. Ainda tenho esse sentimento da cidade grande que já se instaurou em mim. Por exemplo, há dois anos eu estava me percebendo aqui, mesmo tendo chegado há cinco anos. Agora identifiquei São Paulo como minha casa e o concreto vai moldando meu jeito de falar, de cantar e trouxe novas influências. Parcerias que eu não tinha, no primeiro disco, por exemplo, tinha só uma, enquanto no próximo trabalho vai ter mais dessa troca com parcerias que também influencia na poesia, além da troca pessoas e cidade.

Então, você acha que essa nova paisagem te transformou?

Muito. Meu primeiro disco é Bahia total. Tem lembrança do meu sertão, que é de uma criança que está em mim. E, não é algo que está tão longe também porque minha avó e irmãos ainda moram lá. Depois, vem Salvador, que já é uma cidade grande, mas é litoral e tem outra dinâmica. Mansa Fúria fala justamente disso: o sertão, o litoral e São Paulo… As músicas não deixam de ter esse olhar que nota tudo, mas estou me sentindo do mundo. Tem essa coisa de se modificar, de se reivindicar ali. 

O sentido de Mansa Fúria mudou de quando você o criou para agora?

Não, acho que, pelo contrário, ainda se dão muitos sentidos em mim. Tem isso, não é só um sentido. A música é muito antiga, de uns 10 anos atrás, quando me veio essa comparação, tipo: já se foi minha alegria, depois, quando eu estava feliz ou quando eu encontrei o amor, diversa a inconstância da vida mesmo. Isso tudo na comparação com o mar, porque tenho uma coisa muito forte com o mar. A praia que eu sempre vou, a Porto da Barra, é uma piscininha, mas tem dias que está agitado, já tomei caldo. Então, Mansa Fúria é como o mar, essa mansidão que tem muita fúria. Eu me identifico como pessoa porque tenho muito de tranquilidade, porém sinto que tenho esse lado de potência de fúria, dessa raiva revoltada, de incômodo.

Você se sente pressionada pela tag ‘canção’?

Não. Não tem que ter forma. Acho que meio tem que respeitar. Às vezes é uma frase grande, gigantesca, mas faz sentido eu dizer isso tudo, e como colocar na melodia? Eu falo ou me estendo. Belchior fazia muito isso de atropelar as palavras. Não tem muita forma e eu não penso muito. Não seria uma artista de produção industrial no sentido dessas coisas porque eu tenho que sentir para compor, tem que ter vontade, necessidade. Isso vem de vários jeitos, uma frase que se repete muito, ou uma estrofe. Na verdade, é ter uma sensibilidade musical para entender que a música acabou ou precisa continuar. É maturação, como na natureza, você não vai pegar o fruto verde, tem que deixar que aconteça. 

Quais temas estão te instigando a cantar?

Acho engraçado porque quando falam de Mansa Fúria é realmente esse sentido manso, com a poesia às vezes um pouco mais forte. Sinto esse momento agora porque tenho muitas canções de amor e de uma certa saudade. “Mansa Fúria” fala de saudade, mas fala de um lugar de exaltação, de quando for ver o mar, por exemplo. Ou em “Rota de Colisão” que tem o sertão, mas não estou falando que estou com saudade. Essas músicas falam de uma saudade mesmo, do amor romântico que eu quero resignificar por eu amar mulher e não querer reproduzir essa coisa normativa, heterosexual. E também esse lugar da política, de ter medo de dizer mas dizer mesmo assim. A gente que é mulher tem muita insegura em como dizer as coisas, parece que tem que estar tudo ajeitadinho e nem sempre é assim, quero trazer o modo de dizer mais rústico, cru, direto. Muita música tem esse lugar de falar o que eu sinto, o que veio primeiro. Vou mudando depois com as novas criações. Às vezes eu ficava com medinho de como falar as coisas. É claro que tem algumas palavras e expressões que tem que cair em desuso mesmo, mas o que eu estou querendo dizer é de deixar fluir. 

CAMILA GODOI

“Deixei a lousa, o giz e as equações de engenharia para focar na pauta feminista”, explica Camila Godoi, uma das mentes por trás da banda jundiaiense Clandestinas e uma das roadies do cantor Johnny Hooker. A artista foi professora de engenharia química durante 21 anos, faltavam apenas 4 anos para se aposentar, mas a ânsia de transformação foi muito maior. “Sinto que atuo como educadora, tanto que tenho medo, vergonha de falar que sou artista. Acho que é uma zona de conforto, falo que sou uma militante que está usando a música”, conta. Camila sempre escutou muita música, por sinal. Diz que foi influenciada pela geração dos anos 1980, como As Mercenárias e Joy Division, assim como pelo Jazz. Começou a aprender a tocar violão somente aos 41. O contrabaixo apareceu aos 45. Hoje, aos 47, não pensa em fazer outra coisa. 

A banda, assim como o mundo dos instrumentos, é um processo compartilhado com as outras integrantes do grupo Alline Lola, Natalia Benite e Aline Maria todas na casa dos 30+. O primeiro ensaio da vida delas foi no dia 16 de janeiro de 2017 e, apenas 15 dias depois, elas já tinham uma data marcada em São Paulo. O repertório da Clandestinas conta com 17 músicas, sendo que apenas 6 estão gravadas e disponíveis em versão demo no Bandcamp. Futuramente, essas músicas estarão no Contrabanda(o), um disco cheio. No tempo na ativa, essas faixas já apareceram em rádios na gringa, assim como no doc-poema “Pluma Forte”, de Coraci Ruiz. 

O filme acompanha quatro mulheres, que não se conheciam, mas que compõe coletivamente um poema, interpretado ao longo do registro. Um momento marcante do processo: “Ela gravou um show inteiro, selecionou uma parte e queria que a gente tocasse duas vezes uma música. Recusamos porque é muito forte para nós, ela (a música) fala das mulheres que morrem por serem quem são. Tem um momento que fica somente eu no contrabaixo marcando o tempo, cada uma pega o megafone e narra essa história de violência que a gente sofre. Depois, tem uma catarse, em que a gente manda os machistas e fascistas se foderem. É um momento explosivo com o público. Mas, antes disso, a gente chora, eu choro, depois tenho que voltar para cantar. Quando a gente faz o ‘vão se foder’ é momento de libertação muito grande. A música com a performance no meio acaba dando uns 7 minutos e é extenuante, não dá para fazer duas vezes. Então, ela [a diretora do filme] acaba gravando em um take e aproveita essa música e um trecho de uma outra música que fala ‘vou desobedecer, o patriarcado que vá se foder’.” 

Muito, mas muito além, do exercício criativo, as canções do grupo nasceram como uma ferramenta poderosa para fortalecerem-se e para fortalecer outras mulheres. “A música tem um alcance mais fácil de capilarizar. Com as nossas músicas, corpos e afetos, a gente vai combatendo o machismo, o patriarcado, a LGBTfobia, o racismo e as várias opressões que sofremos enquanto mulheres”, explica sobre a decisão.

Por que você escolheu o contrabaixo?

Sempre gostei do som do contrabaixo, som grave, desde muito criança. Eu era menina ainda e sempre gostei de Jazz, então acabei vivendo o boom do Jazz, essa pulsação do Jazz me encantava muito. É até engraçado porque, às vezes, a gente está ensaiando, compondo ou fazendo um arranjo e a Natália pede uma sugestão na bateria, eu falo ‘usa o surdo’. Ela brinca que eu sempre vou para os graves. Eu não tinha percebido, a Natália que falou. Minha relação com violão é interessante porque eu sempre gostava de tocar a nota mais grave, que “seria o baixo” e depois fazia um dedilhado no resto do compasso. Sempre tocava o violão como se fosse um contrabaixo, agora que eu tenho contrabaixo toco como se fosse violão, é assim para mim. Quando comecei com o contrabaixo teve um primeiro momento de dúvida, de como colocar as músicas que eu tinha feito no violão no contrabaixo. Mas, agora que já componho a partir do contrabaixo, ele me leva para ritmos, antes minhas músicas eram mais melódicas, agora tem uma pegada mais rítmica. Diferente do violão, hoje eu faço a parte instrumental no contrabaixo para depois pensar na letra, as últimas que eu compus foram assim. Sempre gostei muito, artistas como Charles Mingus, um clássico do Jazz e ele compunha, mesmo tocando baixo, contrariando a ideia de que o baixo está ali só para manter o ritmo. Quando eu era mais jovem, a banda As Mercenárias foi muito importante para mim. Tem a Sandra Coutinho, uma baixista que eu admiro muito. Joy Division, que virou New Order depois da morte do Ian Curtis, eu sempre admirei o Peter Hook [baixista da New Order]. Por isso que o contrabaixo ficou comigo. Acho que a divisão de instrumentos foi muito natural, o irmão da Lola é guitarrista, então ela já tinha esse desejo de tocar guitarra. A Natália sempre teve vontade de tocar bateria e a Aline, nesse primeiro momento da banda, fazia percussões, porque a gente sempre deu tempero diferente para nossa banda, mesmo sendo uma banda de Rock. Às vezes falam que a gente é Punk. 

Foi um processo bem bacana, principalmente de acolhermos nossos medos. Fizemos 105 shows em dois anos e meio. Não em espaços tradicionais de shows, nossa busca como sempre foi norteada para alcançar mulheres e levar reflexões para as pautas feministas e LGBT, a gente tinha condições para comprar um PA e equipamentos simples, mas a gente tem a mesa de som, caixa de som, amplificadores, que facilita alcançar esses espaços não convencionais. Muitos dos nossos shows acontecem assim: a gente vai em um Instituto Federal faz uma roda de conversa no pátio com os educandos e depois fazemos o show. Isso se repetiu muitas vezes em universidades, escolas, espaços militantes, ocupações culturais. Tocamos na Unesp em uma sala de aula. Na Unicamp também. A Amelinha Teles, uma mulher incrível e grande amiga nossa, lutou na guerrilha do Araguaia, é uma das fundadoras dos Promotoras Legais Populares. Na campanha do Haddad, do 2º turno, ela deu um depoimento sobre tortura, narrando como o Ustra, herói do Bolsonaro, trouxe os filhos dela para a verem sendo torturada. Ela estava dando um curso na Unicamp sobre feminismo e nos chamou para tocar na sala de aula. Então, o fato de termos feito vários shows é por termos os equipamentos, simples, mas que faça a gente ser ouvida. A gente leva, monta e faz o show. Tenho um amigo que é um grande musicista, inclusive é meu professor de luthieria, ele me fala: “cada ensaio vale por 10 aulas de músicas, cada show vale por 10 ensaios.”

Como foi pensar na militância por meio da música, além das palestras e rodas de conversa?

Nós já fazíamos isso enquanto militantes, já estávamos envolvidas. Além disso, todas nós somos educadoras. Sou da área de engenharia, a Natalia é educadora ambiente, a Lola educadora artística, a Aline de línguas. Sentimos necessidade de aprofundar na educação popular. Coordenamos, nos últimos dois anos, a Aline e a Natália ainda continuam na coordenação do Curso de Formação Feminista de Promotoras Legais Populares, esse rolê que está associado à Amelinha Teles e, na América Latina, existe há 30 anos, no Brasil há 25. Capacitamos mulheres para acolher outras mulheres em situação de risco e violência, o que envolve como lidar com os equipamentos públicos, conhecimento de leis, as partes teóricas dos vários feminismos, das várias mulheres, como acolher uma mulher em situação de risco e violência, defesa pessoal. Eu faço as oficinas de defesa pessoal. O curso é de um ano, para capacitar mulheres a lutarem pelos seus direitos e principalmente de acolher. 

A música surgiu quando pensamos que ela poderia potencializar isso. Efetivamente tem tido uma ressonância muito grande. Há três semanas, nós fizemos um show no auditório da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, sede na capital, era um seminário nacional de Promotoras Legais Populares, então havia mulheres de todo o Brasil. O curso já tem um vínculo com a nossa banda. Nossas letras trazem questões da pauta feminista, de combate. Mas, acho que duas coisas distinguem nossa banda: a primeira é a preocupação em cantarmos de modo que qualquer pessoa possa entender o que estamos falando para que alguém que nunca escutou nossa banda entenda o que foi dito. A guitarra, o contrabaixo não precisam estar tão alto porque o que importa são nossas vozes. E todas as vozes são principais. Não é porque eu canto mais vezes que a minha é a principal, não, todas são principais. Todas têm que soar no mesmo volume. É uma meta nossa cada vez mais dividir o vocal para que todas cantem. 

Esse encontro [seminário das Promotoras Legais Populares] foi lindo porque havia umas 300 mulheres e dois homens apenas que eram funcionários da Defensoria como técnicos de som. Nós chegamos carregando nossos instrumentos, bateria, tapete, etc., no auditório que não é um espaço feito para show, e conversamos com as mulheres organizadoras para montarmos o palco. Esses homens perguntaram se tínhamos falado com a banda para saber se ‘eles [da banda]’ achavam o espaço bom para tocar. Eram 300 mulheres e apenas dois homens, que foram os únicos incapazes de perceber que nós éramos a banda, como se fosse inconcebível que mulheres pudessem ser a banda. Essas coisas acontecem. Uma vez estávamos em um bar, em Jundiaí, que naquele momento estava tendo um grande destaque, trazendo várias bandas e era uma noite Clandestinas. Então, nós éramos as estrelas, a gente ia fazer a discotecagem com uma playlist feminista e depois faríamos o show. Chegamos e tinha um brother esquerdomacho montando os equipamentos, eu e a Natália perguntamos se ele queria ajuda, ele respondeu ‘sim, busca uma cerveja para mim’, como se mulher só fosse capaz de servir cerveja. É aquela hora que você fica com vontade de matar. Devíamos ter chegado como estrela, esnobado e ainda reclamado dele. Queríamos ajudar porque a gente trabalha com isso, nós damos oficinas de técnicas de som para mulheres, que é uma outra preocupação da banda. Como tivemos esse privilégio, que envolve também privilégio de classe, de ter nossos equipamentos e aprender a mexer de forma empírica, sem medo de errar e dar merda porque era tudo nosso, fomos desenvolvendo nossa expertise para montar um palco. Então, procuramos disseminar o que aprendemos através das oficinas de técnica de som para manas, nenhuma de nós manja muito, mas passamos o que sabemos. 

O ano de 2016 foi um ano em que os coletivos de Jundiaí estavam muito fortes, com poder de ocupar espaços bastante significativo. Desde então, o poder público foi criando várias medidas restritivas que foi sufocando esse movimento. Mas a gente sempre estava no backstage, mas era assim: esse é o seu espaço, vai montar decoração porque é mulher, né? Não tínhamos esse protagonismo. Foi muito interessante para nós colocar a cara à tapa. A gente não se sente segura no palco até hoje, mas uma olha para a outra e se fortalece. Quando uma erra não tem essa cobrança, dá um abraço e está tudo bem, acho que isso foi muito fortalecedor para nós.

E de estilo de música, o que você gosta e busca trazer?

Eu sou uma mulher do século passado. Quando eu falo da década 1980 para as pessoas, sinto o que meus pais sentiam quando falavam da década de 1960 para mim, os Beatles, Rolling Stones. Agora eu falando de Joy Division, New Order, Clash, é engraçado, pareço a senhorinha contando histórias. Particularmente, a minha formação musical dá-se nesse período: eu tenho uma memória afetiva, com as bandas da década de 1980. Já nos anos 1990, quando eu entrei para fazer faculdade na Unicamp em 1991, tinha acabado de ser lançado o Nevermind e a onda do Grunge entrou e foi um revolução na minha vida. Aquilo foi muito forte, eu andava com calça jeans, camiseta branca, camisa de flanela ou amarrada na cintura, mas sempre com ela. Nirvana, Alice in Chains, Pearl Jam, era muito forte. Foi muito cultural de colocar pra fora as emoções, nas festas de caloura era isso que tocava. Musicalmente, quando eu vou compor, acabo trazendo mais essas referências dos anos 1980, mas eu sei o quanto o Grunge foi importante na minha vida. Tem um vídeo que um amigo gravou durante um show nosso [Clandestinas], um dos poucos que fizemos em uma casa de show, eu lembro que ele pega um outro menino que é jornalista e ele falou ‘nossa, isso é Joy Division’. 

A banda como um todo, até por termos idades diferentes, não tinha um repertório em comum, eram gostos musicais distintos. A gente nunca sentou para ouvir músicas juntas. Então, por não termos ouvido música juntas, no ensaio não tinha essa história de ‘faz desse jeito igual fulano da banda tal’, nunca teve. Era uma coisa que eu estranhava porque eu assistia ensaio dos meninos e eles comentavam ‘solo de fulano’. A gente nunca teve esse hábito de ouvir um som juntas, a não ser coisas da militância. A Natalia gosta muito das banda do Pará, a Aline tem um repertório da MPB, a Lola gosta muito de Céu, Anelis, e eu tenho essa bagagem mais anos 1980. A Gaby Amarantos foi a Natalia que trouxe, eu não conhecia. A gente teve essa troca e também é o que dá esse tempero para Clandestinas. As pessoas têm essa dificuldade para classificar a gente, às vezes falam que somos Punk pelas músicas de protestos. Temos só uma música inglês e romântica, todas as outras são músicas que trazem reflexões. A gente acaba compondo uma coisa que é muito própria. Então, as pessoas começaram a falar que a gente é Punk. ‘Como assim? somos fofas, tem Baião no meio da música’. Aí eu compus um Punk que é “Buceta de Pandora”. Mas, essa dificuldade de classificar a gente é porque “Na Lua, Ana” tem Samba, “Manifesto” começa com Funk, “Nenhuma a menos” vira um Baião na hora que a Lola vai sola e a Aline vai para o triângulo. E tudo bem porque não é uma preocupação nossa.

Um moleque com 15 anos ganha uma guitarra e junto com outros que não tocam porra nenhuma, fazem um show e vai a mãe, a avó, a tia, a namorada, todo mundo bate palma e aquilo vira uma banda. Enquanto nós [mulheres] nos cobramos para que tudo saia perfeito. – Camila Godoi

Você dá aula de violão? 

Sim. Dou aula de violão para mulheres, um outro projeto também focado no fortalecimento de mulheres. A prática pedagógica é construtivista, como sou educadora, há anos trago essa experiência, e feminista no sentido de falar “mana, tá tudo bem, a gente não tem que se cobrar, não tem que ser perfeita.” Eu uso como exemplo a Clandestinas, no sentido de “olha só, a gente erra e mesmo assim tocamos na rádio, a nossa banda cover vai tocar melhor que a gente”. Com 15 dias de banda, a gente estava tocando no Mundo Pensante, foi algo tipo “vamo? então vamo”. É importante começarmos a ocupar esses espaços, com nossos corpos que não seguem um padrão machista de beleza, com nossos afetos que vão contra a heteronormatividade, com nossa idade. O projeto de dar aulas de violão para mulheres surgiu nesse sentido de fortalecer outras mulheres. A maioria das minhas alunas são mulheres que justamente tinham vontade de aprender a tocar violão, mas tinham medo, insegurança. A práxis pedagógica deixa essas mulheres em um lugar confortável, ajuda essas mulheres a entenderem que cada uma tem seu tempo de aprendizagem e perspectivas diferentes também. Nenhuma de nós tem que ser perfeita, nenhuma de nós tem que se cobrar. 

Nós mulheres nos cobramos de tudo o tempo todo. Um moleque com 15 anos ganha uma guitarra e junto com outros que não tocam porra nenhuma, fazem um show e vai a mãe, a avó, a tia, a namorada, todo mundo bate palma e aquilo vira uma banda. Enquanto nós [mulheres] nos cobramos para que tudo saia perfeito. A gente [Clandestinas] têm privilégio de classe, sim, mas a coisa mais fantástica que é mérito nosso é essa coisa do “vamo se jogar e enfrentar esse palco com um monte de macho olhando pra gente”. 

E de criar ambientes seguros. Em shows feministas tem o lance de acolher, o “girls to the front”, do riot grrrl. Enquanto banda de qualquer cara eles não estão nem aí. 

Sim. Os corpos têm diferenças de potência física e os meninos não têm esse cuidado ou a questão do ‘merecemos e vamos estar aqui’. É legal prestigiarmos outras mulheres porque hoje, por exemplo, saiu o line-up de um festival de Jundiaí e só tem bandas de homens, mesmo com a Clandestinas sendo de lá. Infelizmente, nós somos a única banda de mulheres mais estruturada de Jundiaí. Mas se não fossemos nós, existem outras bandas de São Paulo maravilhosas como a Cosmogamia, Bioma, Bloody Mary… 

Posso contar uma história? No início de 2018, uma casa tradicional de shows de Jundiaí nos chamou para abrir o show de uma banda chamada Rock Rocket, uma banda que já fez sucesso, tocou na MTV e que, infelizmente, está voltando. A gente ficou empolgada porque era uma casa grande, nos preparamos. Fomos ouvir as letras das músicas e eram extremamente misóginas, cultura do estupro, transfóbicas, eu não lembro o nome da música, mas tinha uma frase assim ‘dá uma porrada, joga no porta-mala e te levar pra minha casa’, explicitamente um estupro. Ficamos na dúvida se a gente abria o show para esses caras ou não. Decidimos por enfrentar esses machos e tocar. A gente resolveu então convocar todas as manas na surdina, precisávamos de torcida, não só de plateia, tipo Palmeiras X Corinthians, mesmo. Se a coisa fosse para uma agressão física, íamos precisar das manas lá. Foi lindo porque lotou de mulheres, todas do rolê feminista, nossas amigas, a casa lotada. Tocamos aquela música que mencionei antes que a gente chora, para depois tocar outras músicas de fortalecimento, são músicas mais pra frente no sentido de estarmos unidas e vamos enfrentar isso juntas. No meio dessa música durante a parte do megafone a gente ia citando as letras dos machos que estavam lá no público. Ainda com o megafone eu falei que: “quem consome, quem compõe, quem convida para tocar, estão reproduzindo a cultura do estupro”. Fizemos um enfrentamento, não citamos o nome deles, mas citamos as letras deles. Foi lindo porque acabou e teve aquele momento de encontrar no camarim, eles deram parabéns e tudo, até porque o público era nosso. Acabou o nosso show, a gente foi embora, o nosso público também foi. Eles tocaram para meia dúzia de pessoas. Antes de começar, estávamos preocupadas porque não sabíamos como ia ser. Isso só foi possível porque todas as manas estavam lá, se elas não tivessem, talvez a gente tivesse apanhado ou ouvido um monte de merda. Fazer esse enfrentamento só foi possível porque as manas estavam lá.

YZALÚ

Há 15 anos no cenário independente, a rapper e violonista Yzalú se prepara para o segundo disco, o sucessor do Minha Bossa é Treta (2016). Isso enquanto trabalha as músicas do EP Quântica (2019), composições ao lado de Shirley Casa Verde e participa do projeto itinerante Psicopretas. “Esse EP nasce de uma celebração de uma amizade entre mim e a Shirley. Nos conhecemos há quase 9 anos, e nos encontramos dando oficina de música em uma penitenciária de Guarulhos. Existe uma história de duas manas pretas que se vêm na necessidade de partilhar e se encontrarem no palco porque cada show é um encontro nosso”, explica sobre a dobradinha. 

Para o futuro trabalho, sua sonoridade se encaminhará pelo Trap. Desse universo, ela cita Blood Orange, Nathy Peluso e Summer Walker como suas novas paixões musicais. Claro, sem nunca deixar Lauryn Hill de lado. Virginiana, o processo criativo é minucioso e passa por diferentes camadas de possibilidades: “Venho percebendo a composição desde o ano passado, sentindo qual é o caminho. A estética visual do álbum também já venho construindo, porque é de onde eu parto. A partir da linguagem visual do álbum consigo trabalhar na sensação do que quero trazer nas letras, na forma como vou me comunicar com o interlocutor”.

Como são feitas as suas composições? 

Varia muito. Tenho estado muito mais atenta às minhas inspirações. Então, se sinto uma frase aqui, vou escrever para não esquecer porque inspiração é magia, é presente. A arte, a música é algo superior. Às vezes, vem um presente para mim e eu escrevo para não esquecer. A construção é a mesma forma, desde Minha Bossa é Treta, em 2016, foi um desafio compor por meio de beats, de instrumentais porque eu tinha muito essa relação com o violão. Mas, depois me abri porque foram poucas composições que fiz através de instrumentais, a maioria foi com a ajuda do violão. Agora mais do que nunca estou aberta para a compor a partir de instrumentais. Pego muita coisa da internet, beats que me causam alguma sensação e vou discorrendo. Sou virginiana, muito detalhista. Então, às vezes, uma composição para mim dura, não é tão rápido assim, dura meses inclusive, isso me incomoda. Então também estou trabalhando para que seja algo que tenha essa coisa de “escrever aqui, agora e já era” porque tenho muita coisa para falar, quero falar de vivências, quero falar em primeira pessoa. Venho sentido a necessidade de falar em primeira pessoa, das minhas experiências, de uma maneira que toque em quem apertar o play, que seja interessante e curioso permanecer nesse play. Me importo muito de como vai ser a sensação de quem vai ouvir. Por esse motivo, percebo que tudo é um complemento, a linguagem visual, a estética do que vai ser a capa, as faixas, o nome das músicas e na maneira como vou dialogar. Se vai ser em primeira pessoa, como vou direcionar essa relação com a pessoa que está escutando para que ela entre no meu universo e possa ser cúmplice do que estou relatando?

De que forma o violão se apresentou a você?

O violão sempre foi meu escudo, o rap veio depois. Apesar de ser ouvinte do rap, o violão veio primeiro, mesmo percebendo em mim a tendência de ser uma rapper. O violão veio de uma forma arrebatadora, eu desenhava muito na época e quando conheci o violão foi tipo “cara, é isso, fica aí desenho um dia eu volto”. Sempre tive predisposição para o violão, então eu ficava horas numa música, diferente de quem pega o violão, coloca o primeiro acorde, passa dois dias e fala “não é para mim”. Morei na Bahia por três anos também, onde tive mais contato ainda com a música brasileira. Quando voltei para São Paulo, especificamente para São Bernardo do Campo, me reuni com o Essência Black, que é um grupo de meninas pretas rappers. Foi muito impactante e elas gostavam do fato de eu tocar violão. Eu era tímida, então elas cantavam e eu tocava violão. Fui bebendo dessa fonte do saber de uma mulher preta. Já sabia que eu era mulher preta, de pele clara, as manas que estavam comigo tinham a pele retinta, então tem muito mais a questão do racismo declarado. As manas precisaram ir por outros caminhos, mas eu me percebi querendo dar continuidade mesmo notando todos os desafios que eu teria dentro da música. Além de ver a música por um lado informal – “eu só quero tocar”. Tem fotos minhas de 2004 vestida como se fosse uma Lauryn Hill e ia para os teatros da cidades, me apresentava de boné, camiseta do Bob Marley como se fosse uma rapper ainda, mas eu não tinha noção do que eu estava sabendo. Não tinha essa transparência para mim. 

Dei uma pausa porque minha condição existencial de mulher preta me afeta dentro dessa sociedade desigual. Então, dei uma pausa com a música e fui trampar. Nesse meio tempo, já tinha tocado em bares. Em 2007, gravei alguns vídeos tocando, meu irmão me impulsionou nisso (releitura de raps). Era ele que trazia notícias do Rap porque ele estava na rua e eu enquanto mulher não podia sair, tinha que ficar em casa. Com o violão, sempre escutando o Rap e vivenciando o Rap da minha quebrada, um pouco distante, até porque eu só podia sair para trabalhar, não podia ir para a galeria comprar meu vinil como os caras. A mana percebe a rua, sobretudo dentro do Rap, de uma forma diferente e isso precisa ser pontuado e respeitado. Percebi que, no Youtube, as pessoas estavam vendo os vídeos de releitura de Facção Central, de Realidade Cruel, de 509-E. Isso chamou atenção na época. De repente, me vi no meu primeiro evento de Rap, com mais de 5 mil pessoas, – e eu entro antes do Facção Central, com violão. Me perguntei o que estava fazendo ali, mas a coragem falou mais alto. 

Só fui gravar meu disco em 2016. Antes, eu era só conhecida como a mana que fazia releitura dos Raps, sendo até subjugada pelas pessoas, porque o violão também era uma coisa super nova no Rap do Brasil. Sendo que já tinha a Lauryn Hill arrebentando no Unplugged dela com violão em mais de 20 músicas. Quando vi o Unplugged, falei “caralho, eu faço isso, mas faço isso no Brasil”. Já tinha a pegada do Rap no meu violão, já compunha as canções para a rítmica do Rap, as batidas, não era um Rock. Aí vem Minha Bossa é Treta que começa a ser fomentado no final de 2013. Nesse momento, começo a me dedicar para o disco, mas trampando pra caramba de segunda à sexta, saia de casa às 6h e chegava às 22h. E, precisando respirar para ter força de fazer minha música. Essa é a realidade muita mana artista. Vim morar em São Paulo, para dar conta de trabalhar e fazer meu álbum. Em 2015, pedi saída do trabalho, me preparei obviamente porque cada vez mais estava tendo responsabilidade na música e no trabalho. Precisava escolher. Mas, escolhi o que me chamava porque ser a artista e fazer arte independente no nosso país, onde a cultura e a arte estão em último lugar (e nesse momento nem sei em que lugar estão) é um puta desafio. Eu poderia ter escolhido continuar no meu trabalho de segunda à sexta, ganhando meu salário, mas foi um chamado da música e eu fui. 

É importante frisar que o fator determinante foi quando, na empresa em que eu trabalhava, a diversidade que estava sendo trabalhada era para as mulheres brancas. Agora, as mulheres brancas estão alcançando cargos executivos, depois será a vez do cara preto, depois ainda a mulher preta, possivelmente depois eu, porque sou amputada também. Talvez, eu possa contribuir muito mais com a minha arte. Em 2012, já tinha lançado “Mulheres Negras”, que foi uma música no violão e foi para as universidades e se tornou um símbolo do feminismo negro no Brasil. A partir de 2012, que essa música foi lançada, percebi os movimentos acontecendo. Na própria empresa que eu trabalhava, as manas pretas estavam chegando. Em 2014, decidi ir para o caminho da música porque vou poder contribuir para essas manas que estão chegando. Em 2016, antes de lançar Minha Bossa é Treta já tinha passado um ano de hiato sem trabalhar de carteira assinada, mas foi incrível porque as coisas começaram a se mover, os contatos começaram a chegar e as pessoas a querer Yzalú nos lugares. O disco nasce como um respiro, como uma necessidade. Já sabia que eu sairia na capa seminua com a prótese à mostra, esta sou eu, estou convidando vocês para conhecer meu universo. E realmente teve essa esfera, pelos feedbacks que eu recebo, de que possibilitou esse respiro para mulheres que são invisibilizadas, silenciadas, que não têm a possibilidade de expressar e verbalizar suas dores. A arte é essa potência, que dá abertura e que eu peço licença para poder adentrar e discursar por meio das minhas sensações.

A mana percebe a rua, sobretudo dentro do Rap, de uma forma diferente e isso precisa ser pontuado e respeitado. – Yzalú

Teve algum momento específico em que você percebeu esse caráter transformador?

“Mulheres Negras” foi uma música que me deu esse gatilho de que realmente existia algo que ainda pulsava e havia necessidade de ser expandido, sobretudo para mulheres. Foi uma música que abriu esse campo. Honro inclusive você estar aqui e abrir espaço para eu falar sobre meu lado musicista porque, muitas vezes, o fato de falar sobre minhas vivências, que acabam sendo a realidade de outras manas, não necessariamente significa que coloco a militância na frente da minha arte. Através da música, tenho espaço para poder falar e essa é minha militância. Mas, eu posso falar sobre outras coisas, sobre o amor e minhas conquistas, que é tão revolucionário e militante quanto, porque quantas manas ainda estão necessitando falar das dores? Mas também temos que falar das nossas conquistas. O próprio EP Quântica fala disso também, das energias e de que a mana também merece conquistar, não pode achar que você não merece. Roubaram da gente nosso merecimento. Vamos abrir esse campo para nos colocarmos realmente como merecedoras. Esse campo se abriu um pouco a partir de “Mulheres Negras”, depois Minha Bossa é Treta deu continuidade mas de um outro lugar diferente de “Mulheres Negras”.  

O violão estará no novo trabalho?

Sim, pode ser em uma transição ou interlúdio. Mas, hoje eu sinto a necessidade ter o teclado comigo, porque ele traz uma sonoridade rica. Não que o violão não tenha uma sonoridade rica também, mas é que o meu violão já tem essa relação com o Rap, com a batida mais crua, em que as construções harmônicas giram em torno de quatro acordes, muitos deles menores. Por exemplo, em “Deixo Ir” [faixa do Minha Bossa é Treta] chegam umas harmonias mais do MPB, um Lá com sétimo aumentado ou Lá com nona. Hoje eu sinto necessidade dessa expansão sonora, para me sentir mais contemplada sonoramente falando, para que eu possa expandir minhas sensações e inspirações. O violão me deixa um pouco limitada.

Que idade você tinha quando escreveu a primeira música?

Uns 15 anos. A primeira música que compus mesmo foi uma Bossa Nova [risos]. Estava super apaixonada, sofrendo, ficou bem Bossa Nova. Porém as próximas, todas, foram Rap. Foram muito dessa expansão de consciência, de lugar, que enxerga a pirâmide a partir da base e como ela se movimenta sendo uma mulher da base. Já vinha levantando a mão da resistência. As minhas primeiras músicas foram nesse sentido. 

Você ainda escuta Bossa Nova?

Super. Não é à toa que o álbum leva “Bossa” no nome. São canções que eu ainda coloco no meu violão e estudo, a Bossa Nova. Eu ainda tenho esse desejo de trazer isso para o meu show, da coisa só da voz e violão. Acredito muito na potência da voz e violão, da beleza de sentar no teatro e ouvir uma voz e violão. Também tem essa outra perspectiva de uma mana da quebrada, da periferia que traga essa Bossa Nova, ‘que olhar é esse, sabe?’, intercalando com Rap no violão e trazendo música brasileira, um Gilberto Gil, Caetano… Ainda sim, sou muito estudiosa, eu reverencio tudo o que foi construído. Eu jamais me apresentaria sem ter concluído uma música do Gilberto Gil no violão.

KAREN DIÓ

Diretamente da cena Hardcore santista, Karen Dió mudou para São Paulo há três anos na tentativa de trabalhar seu projeto solo, depois de participar de “sete ou oito bandas, o bastante para aprender muito”, explica. Por aqui, encontrou uma banda nova, a Violet Soda, com quem soltou dois EPs no ano passado (Here We Go Again e Tangerine), e agora se prepara para lançar um disco em novembro. O novo single, “I’m Trying”, saiu em setembro e é uma prévia para a sonoridade do próximo trabalho. “Hoje, eu canto do jeito que eu canto, que não sei que jeito que é porque ainda estou descobrindo, por causa da Sandy & Júnior que eu ouvia quando tinha oito anos, do Paramore, do The Interrupters – que é super recente. Uma coisa que eu gosto muito é misturar o melódico com drive, de estar na parada melódica e do nada vir um drive rasgado”, explica a cantora, compositora e guitarrista. 

Aos 13 anos, ganhou o disco Admirável Chip Novo (2003) em um sorteio da escola e nada foi o mesmo depois disso. Além da brasileira, foi influenciada pela canadense Avril Lavigne, graças a postura “independente e autoral”. Inspirada a tocar as próprias músicas, que vieram na mesma época, Karen também participava do coral da escola e começou a tocar guitarra. “Quando eu fiz e mostrei minha musiquinha para minhas amigas e elas gostaram, a gente se encontrava e tocava as minhas músicas e de bandas que gostávamos – Avril, CPM22…”, relembra. Os covers ainda existem no seu outro projeto, a Hit Rock Billy Pops, uma banda para festas, com repertório de hits das Spice Girls e da Britney Spears. Uma de suas memórias afetivas favoritas de apresentações ao vivo é de cantar “Song 2” no meio do seu colégio católico, época de suas primeiras apresentações, aos 15 anos.

Você começou a tocar violão antes da guitarra? 

Guitarra veio primeiro. Violão é uma parada muito melódica que eu gosto muito, mas penso que se uma música fica boa no violão provavelmente ela vai ficar muito massa na guitarra. A maioria das músicas componho no violão e depois que eu passo na guitarra. Mas para tocar é guitarra, violão não. Quando eu comecei a tocar e queria ser uma guitarrista mais virtuosa eu tive a Donna R, da The Donnas, como uma grande influência. As outras mulheres guitarristas são mais de atitude do que de virtuosidade.

Você busca o lance do virtuoso? 

Eu confesso que dei uma piorada. Teve época em que eu queria ser mais virtuosa, então tinha a digitação bem mais rápida, treinava mais. Voltei a tocar agora e ainda seguro, se treinasse um pouco mais, eu seria melhor. Mas ,eu consigo solar normalmente. Também não exijo muito de mim na guitarra porque eu sou cantora, é muito difícil administrar as duas coisas, tento equilibrar da melhor forma possível. No final das contas, eu canto mais do que toco, meu foco é esse, estou ali para fazer a caminha e umas variações na guitarra como riff, solo ou base. Minha preocupação maior é sempre manter isso de uma forma mais saudável para também não ser tão virtuosa porque não é a cara da banda. A gente é mais Punk Grunge, então é mais tranquilo. Acho importante também conhecer nossa voz e estudá-la. Eu nunca tentei ser igual a alguém porque eu não vou ser. Eu sempre soube qual era minha voz, minhas limitações, qual parte fica legal e fico rodando em cima disso, variando dentro do possível. É importante a gente se conhecer, aceitar e pegar nossas referências e juntar com o que a gente é. Quando vim para cá, fiquei com essa parada de tocar. Agora, pensamos em eu não tocar algumas músicas para ficar mais livre no palco, interagir, correr. Sou bem espoleta de pular na galera, descer, fazer uma zona. 

Falando da Pitty e da Avril Lavigne nos anos 2000, havia aquela defasagem de mina no rolê. Você acha que melhorou?

No underground, sim. Acho que melhorou bastante. A minha referência é dos anos que elas vieram, de 2000 para a frente, e no mainstream existem mais mulheres, com certeza. Mas, no Rock aqui no Brasil é aquela tristeza. O esquema é unir forças no underground porque uma hora vão acabar notando a gente. Existem milhares de bandas no underground: a Cosmogonia, Demonia, que é uma banda de Natal incrível. Tem várias bandas de meninas no underground que estão começando a ser notadas. Mas, a última banda de Rock relevante no Brasil foi a Pitty, em 2003. Então, as coisas estão muito atrasadas. Teve a Leela também na época, mas ainda falta bastante coisa. Está melhorando agora, os homens estão começando a entender que é o nosso espaço também e que sim, é obrigação a gente estar presente nos eventos, nos festivais. É nosso dever correr atrás disso porque se não fizermos ninguém vai fazer. 

Santos tem uma cena Hardcore, né? Como andam as coisas por lá? 

Tem uma super cena de Hardcore. Tanto que eu tive que sair de lá porque ninguém ia notar as paradas que eu fazia. Essa cena mais alternativa, mais Grunge, fora do Hardcore, é um pouco mais difícil de ser percebido lá. Tem que estar com uma banda grande ou vir para cá. Tive que sair de Santos para eles saberem que eu existo. É massa porque a cena cultural é muito forte, mas ao mesmo tempo tem que se atualizar. Tanto que não tem mais casa de show direito, tem estúdio que está fazendo show para ver se a gente consegue ter esse movimento. Estou falando também da minha perspectiva, de quem saiu de lá há quase três anos. O que eu sinto é isso. Tem amigos meus que estão lá pedem: “Karen, me fale um selo daí para a gente fazer conexão”.

SANDRA COUTINHO

Não sei nem por onde começar. Bom, encontrei a baixista em seu apartamento no bairro de Pinheiros. Era um sábado a tarde. Ela vive com dois gatos e três baixos – comprou o da foto quando ainda vivia na Alemanha. “Esse que toco é o mais novo, deve ter uns 22 anos”, diz Sandra, a única Mercenária restante da primeira formação, de 1982. Originalmente, ela tocava acompanhada de Rosália Munhoz (vocal), Ana Machado (guitarra) e Edgar Scandurra (bateria). Ao longo do tempo, renovou os parceiros de palco. Hoje, toca ao lado de algumas instrumentistas requisitadas. Na bateria, pode recorrer a Michelle Abu, Naná Rizzini ou Pitchu Ferraz. Na guitarra, Mari Crestani ou Silvia Tape. O próximo show marcado é no dia 31 de outubro, no Sesc Pinheiros, acompanhadas da banda Charlotte Matou um Cara. 

O repertório das apresentações são de faixas dos discos Cadê as armas (1986) e Trashland (1988). No ano passado, o selo Nada Nada lançou o vinil “Baú 83-97” com músicas gravadas entre 1983 e 1987. Um detalhe: elas estavam em fitas K7 na casa da mãe da Sandra. No lado A, são 10 músicas inéditas e, do lado B, um show ao vivo no Sesc Pompeia e de uma gravação em estúdio.  Gostaria muito que a banda crescesse, fizesse um single e pudesse vender mais, para mais Sescs do interior. É difícil porque não tenho mais o que puxar, no sentido de novidade, de lançamento. Para mim é uma frustração porque ainda estou achando que vai acontecer um dia, ao mesmo tempo que se acontece significa que a banda não é mais o que é. A sina é ser porão mesmo. ” O público dos shows varia entre fãs mais novos do que a banda e pela turma que sempre foi apaixonada banda Pós-Punk: “Às vezes converso com o Edgard ‘você imaginava que com a nossa idade íamos estar tocando Polícia ou algo do gênero?’”.

Em quantos projetos você está trabalhando no momento?

Tenho, basicamente, o Mercenárias. Toco eventualmente com o Edgard [Scandurra] quando ele faz o projeto Benzina. Sou chamada para tocar em aniversários de bandas e eventos assim. Fico enroscada porque já estou há 14 anos de volta e fiquei 14 anos fora. Esses anos que eu fiquei fora, nasceu uma outra Sandra lá. Era bem longe do Rock, até de um Pós-Punk e tal. Era uma praia super experimental e bem de composição também. Fui chamada para fazer composição de dança de teatro, instalações, uma coisa mais multimídia. Desde que eu voltei, parece que fiquei amarrada em uma Sandra que foi criada aqui, a Sandra baixista das Mercenárias. Por um lado é legal porque é uma banda que sobrevive do repertório de 32/36 anos. Tocamos o mesmo repertório, sou a única das Mercenárias. Mas ao mesmo tempo parece que é difícil sair dessa zona de conforto, que possa ser minha, ou desse lugar que me colocaram. Parece que não tem nenhuma outra porta para eu sair dessa casinha. 

Você se cobra para isso acontecer?

É uma questão pessoal minha, psicológica. Fiz tanta coisa lá fora, tocava sozinha, programando tudo, carregava 30 quilos de equipamento. Caminhei por todo o processo tecnológico, trabalhava com Atari, equipamentos que, hoje em dia, é museu. Todas as experiências sonoras que fiz lá fora se perderam quando eu voltei. Ninguém faz ideia de que elas existem. Ao mesmo tempo, parece que ninguém dá atenção, ninguém acredita que eu faço outra coisa. Para mim, também, é difícil fazer uma Sandra solo e pensar em vender esse tipo de coisa aqui. Tenho essa crise criativa, tenho muita coisa que precisa sair, mas fico nessa jaula do Mercenárias. Lá dentro [Mercenárias], não consigo fazer nada porque são outras pessoas que entram e saem, elas não têm isso como objetivo conceitual ou profissional, elas chegam, tocam e saem. Tenho um monte de teminhas. Mas, por exemplo, banda é muito prática porque você chega no ensaio e, de repente, você vê a ideia se formar. Sozinha é toda uma construção. Na Alemanha, eu não tinha muita opção, programava tudo, passava tudo por um outro sistema, ia no palco e fazia arranjo de mil coisas [piano, bateria, trompete] e me apresentava sozinha. É uma trabalheira, porém, ao mesmo tempo, quando você programa sozinha, você leva 100% do seu conceito. Quando você está com outras pessoas, ou elas têm a mesma praia que você ou vai ter sempre choques estéticos. 

Ultimamente, não encontrei um parceiro para casar uma ideia e levar uma coisa como núcleo. Tenho que encarar sozinha e me dá uma preguiça. Porque eu tenho uma ideia, mas então tenho que ligar um programa, um cabo, gravar uma pista, depois outra, quando acho que está bom, lembro que não sou técnica de som e o sinal do baixo não está excelente. Meu próximo passo é tentar encontrar alguém para vir em casa e me ajudar a montar um pré-set. Assim, se eu fizer alguma coisa eu já saio com uma qualidade, depois dá para mixar, masterizar fora e entrar no mercado. O mercado é estranho porque é rápido demais. Antes era LP, agora é single. Como é single? Essa atualização e essa velocidade de estar diariamente enchendo as pessoas [todo dia postando algo] é bem desgastante, por um lado. Parece que o antigamente era menos avançado, mas era mais prático. Você mandava uma mala postal, a pessoa recebia, abria e ficava com aquilo. Hoje é muito rápido, evento atrás de evento, todos falam que vão comparecer e ninguém vai. É ilusório achar que as pessoas se comunicam hoje, uma secretária eletrônica funcionava muito mais e éramos menos estressados. Você chegava em casa, escutava e respondia tudo no seu tempo. Hoje eu tenho dificuldade de conversar com as pessoas porque elas estão automaticamente conectadas em ficar trocando ideia paralela. E não há profundidade, fica todo mundo boiando, tanto que há pessoas que perguntam repetidas vezes algo que já foi dito ‘lá em cima’ em uma conversa de Whatsapp, por exemplo. Ou elas não olham o que foi falado antes, elas não conseguem voltar a conversa. Fico puta às vezes com essa falta de presença. Às vezes, você se permite ser invadido, você se sente obrigado a responder aquilo, naquele momento. Nisso, você ignora o que está do seu lado, esse é o grande problema.

Abri mão do meu conforto porque as pessoas estavam gostando, fiz muitas vezes isso. Estava ponto de desistir e de repente a resposta do público era numa alegria, vinham conversar comigo. Não podia parar. – Sandra Coutinho

Qual foi a primeira performance ou show que você assistiu que foi marcante?

Me lembrei de três coisas. Uma é de quando eu estudava Jornalismo na ECA e na frente ficava o prédio de música. Alguém me chamou para ver uma performance lá. Era uma sala pequena com um piano de cauda, sentamos e logo depois entrou o Arrigo Barnabé desacordado porque tinha virado uma garrafa de 51. Ele já estava questionando a própria estrutura da escola de música porque muita gente que estudou lá dizia que era muito difícil a questão de avançar. Eu assistia os festivais da Cultura pessoalmente. Tive um prazer muito grande de ver o show do Arrigo e ver que metade da plateia vaiava, mas eles eram obrigados a ouvir aquela dissonância, cada pausa e cada vez que eles entravam era delirante. Era um prazer ver o Arrigo quebrando a cara de tantas pessoas. É diferente de você estar em um show onde todos vão esperar uma dissonância. O que me fez querer fazer a banda foi um show que o meu marido na época foi gravar para um documentário dos punks. Ele fazia cinema e precisava filmar esse show, era um lugar no Bom Retiro. Quando entrei no salão estava tocando Os Inocentes. Para mim, foi interessante porque eu via aquilo de uma forma muito grande, as pessoas pegavam o microfone e cantavam, era uma interação. Na prática, eles estavam rompendo com a questão do palco X público. O que tanta gente de performance tentou fazer, os punks faziam na prática. Isso foi determinante. Estava estudando a música e decidi parar. “Estou estudando música para quê? Vou escrever coisas e ficar num castelo com as pessoas lá embaixo?”. Esse foi o gatilho para fazer Mercenárias. 

Na hora que você foi montar a banda, já sabia que queria tocar baixo? 

Minha formação é de piano, mas eu tinha uns bodes. Cheguei a ter piano elétrico e o carregava por aí. Mas, às vezes, quando íamos para um sítio, todo mundo ficava louco e queriam tocar piano todo mundo junto, era um instrumento muito coletivo. Não me entendia com o instrumento. Quando fomos fazer a banda peguei o baixo e vi minha linguagem crescer naquele instrumento. Me resolvi tocando baixo.  A minha identificação foi de primeira, sou muito percussiva. Foi bom porque comecei no instrumento. No piano, já sabia onde estavam todas as notas. Quando comecei no baixo era muito intuitivo, nem sabia onde estava cada nota, a gente foi construindo sem conhecimento teórico. O que sempre tenho é o conceito, onde quero chegar, o que quero provocar. Com elas (da banda) isso foi fácil porque todas eram meio tortas, a Ana metia a mão na guitarra e já saia um acorde estranho, nunca saia um acorde maior ou menor, era intuitivamente mesmo. Eram quebra-cabeças que eu montava e saia um resultado deliciosamente estranho, não é um estranho desagradável, chato, barulhento. Mercenárias é um estranho agradável. Éramos mulheres também, então o violento não ficava tão violento. Mesmo hoje em dia, tocando as músicas mais paulera, o violento entra suavemente. É assim que vejo. Acho que a Rosália era bem carismática e performática, ela voava no palco, de um lado para outro. Lembro que tocamos, se não me engano, no Banco do Brasil e uma mulher comentou que a Rosália tinha incorporado um demônio no palco (risos).

Como foi retomar com a banda depois de voltar da Alemanha?

Não, isso foi depois. Achava que era impossível porque a Ana já tinha parado a guitarra. A Lu ou o Leo já tinha sido preso. A Rosália era a última pessoa que achei que toparia. Depois de um tempo que voltei, alguém perguntou para o Edgard se ele não queria fazer as Mercenárias, ele falou comigo. Como o projeto era fazer um festival no Sesc, falamos com a Rosália e ela topou. A gente fez esse show com a Giorgia na guitarra, eu, a Rosália e o Edgard. No segundo, a gente chamou a Pitchu. Ficamos um bom tempo nessa formação: eu, Rosália, Giorgia e Pitchu. Teve muita crise, muita mesmo, mas pelo menos estávamos eu e a Rosália, 50% da banda original, o que garantia a sonoridade. Depois, a Rosália resolveu parar, fiquei mal, fiquei quase um ano sem fazer. Tentei encarar um trio, cantando tudo. No começo foi muito difícil porque me estranhava cantando, não me sentia confortável. Mas, as pessoas gostavam. Abri mão do meu conforto porque as pessoas estavam gostando, fiz muitas vezes isso. Estava ponto de desistir e, de repente, a resposta do público era uma alegria, vinham conversar comigo. Não podia parar. Eu ficava inconformada com a Rosália porque parecia que ela não via esse lado, o quanto era importante para as pessoas ela continuar no palco. Achava até egoísta da parte dela, mas tive que entender, é uma opção dela querer parar. Hoje em dia estou tranquila. Mas, teve um período desconfortável. A formação mudou também e ficou melhor porque a Pitchu e a Georginha não faziam backing vocals, então eu me desdobrava para fazer tudo sozinha. Mercenárias o tempo todo tem duas vocais, era uma vocal líder e eu e a Ana sempre fazendo vocal, faz parte do arranjo da banda. Isso não acontecia com elas [Pitchu e Georgia]. Me sentia mal cantando, parecia que eu não estava dando valor para o meu próprio trabalho, eu estava levando para o palco uma música ruim. Quando parei de tocar com elas, apareceu a Michele e a Silvia. A Silvia já tirou todas as músicas, ela não tocava guitarra, mas ela gostava de Mercenárias e tirou todas as músicas. Quando a gente foi tocar em Belo Horizonte, se eu não engano, foi o primeiro show que fiz perfeito. Tudo afinado, não teve nenhum erro. Foi delicioso. Antes tinha muito erro, sempre acabava errado, eu no palco rindo, mas escutando tudo errado.

Qual seria a sua pira de hoje em dia? 

Na Alemanha, fiz muito improvisação porque casei com um alemão músico que tinha essa praia. Ele tocava piano, violino, viola, escrevia. Cabia um monte de coisa. Tenho um arsenal de pedais. Estudei muito sonoridade e da última vez que fomos fazer uma improvisação, foi impossível porque os caras não paravam de tocar, não tinha silêncio, espaço. Cada um tem uma praia, um conceito. A música de improvisação tem várias vertentes, mas não encontrei nenhuma vertente aqui que me identifico. Ou parto para o composicional mesmo. Por exemplo, para mim, o Paulinho Barnabé é compositor, o que ele faz é composição e as pessoas tocam o que ele escreve. O Arrigo idem. Tudo o que é fruto da composição é escrito e as pessoas são intérpretes. Talvez, para fazer uma ideia rolar, vou ter que gravar uma demo e falar “é assim a composição”, tentar ir para esse lado que não é nada popular. Talvez, eu tivesse espaço em um Sesc instrumental ou festivais. Ou montar uma segunda banda Pós-Punk. Banda sempre abraça um público maior do que um trabalho mais composicional, com detalhes que dependem muito da qualidade de equipamento. 

851 total views, 3 views today

Autor: