Mulher-elétrica

Conversamos com cinco mulheres guitarristas sobre sua relação com o instrumento que escolheram para guiar suas travessias criativas

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Fotos: Isabela Yu

Há um sentimento ruim muito peculiar que tenho ao deparar-me com a seguinte contradição: ao mesmo tempo em que amo (e sempre amei) revistas de música, como é chato perceber que, nesse mercado, a mulher ainda é retratada de uma maneira tão arcaica, anacrônica e, nos piores casos, pejorativa. Nesse sentido, que alegria encontrar a She Shreds entre as minhas pesquisas. A revista é 100% dedicada ao trabalho de mulheres guitarristas e baixistas; conta com uma ótima edição de matérias e entrevistas, todas com artistas extremamente interessantes.

Fundada por meninas, há cinco anos, em Portland, no noroeste dos Estados Unidos, ela faz contraste nas bancas. Eu a encontrei pela primeira vez via Twitter, na verdade. Na época, uma imagem havia viralizado e nela a capa da revista estampava Satomi Matsuzaki, do Deerhoof, ao lado de uma outra publicação de guitarras com uma mulher seminua e objetificada em sua capa. Depois que, finalmente, encontrei um exemplar, levei-o para casa e percebi que, a cada página, parava para procurar todas as personagens retratadas no Spotify.

Foi me aventurando pelo site da She Shreds, inclusive, que eu descobri uma pesquisa feita pela Fender (marca de guitarras) que saiu no final do ano passado. Segundo ela, 50% das pessoas que estão comprando guitarras nos Estados Unidos são mulheres. E mais, dentro desse número, 19% são afro-americanos e 25% latinxs. Não é como se a gente precisasse de mais provas de que o perfil de um “rockstar” já não é mais tão masculino, mas caso ainda sobre dúvida, vale destacar algumas iniciativas. Uma delas, evidentemente, é o Women’s Music Event, que conta com um banco de profissionais mulheres de música em sua plataforma digital.

Neste ano, também, a SIM São Paulo – uma das nossas maiores conferências de negócios em música – lançou a primeira pesquisa do país sobre participação no mercado musical nacional. Aliás, para contribuir com o desenrolar do projeto, basta responder este questionário aqui. O resultado da coleta “Mulheres na Indústria da Música do Brasil” será apresentado na próxima edição do evento que acontece entre os dias 4 e 8 de dezembro no Centro Cultural de São Paulo.

Ainda há um volume maior de material e registros assinados por homens na arte e na ciência? Sim, mas é preciso pontuar que cada um desses projetos contam, também, a história da época em que foram produzidos. Acho que dá para fazer melhor daqui para a frente. Assim, organizei (totalmente inspirada pela She Shreds) uma lista com algumas artistas nacionais que tocam, compõem, se destacam no que fazem e, claro, são apaixonadas pela guitarra. Escute suas músicas e reconheça o valor de suas histórias.

YMA

Antes de suas aventuras pelo circuito independente com as músicas de seu primeiro disco, Par de Olhos (2019), Yasmin Mamedio estudou percussão erudita, trabalhou com fotografia e dedicou-se a uma extensa investigação entre suas possibilidades de composição.

Acontece que, na verdade, ela vem desde muito cedo querendo dar asas às suas ideias, mas, foi só ao completar 18 anos que a coragem para fazer isso apareceu. “Comecei a compor no violão, na guitarra e no teclado. Eram os instrumentos que tínhamos em casa. Foi aí que eu entendi que gostava muito de fazer aquilo. Depois, descobri que conseguia cantar para acompanhar as melodias inventadas”, lembra YMA – como é mais conhecida atualmente.

A relação com as cordas de metal vem de família. Nascida e criada na periferia da Zona Sul, a musicista vivia no estúdio caseiro de seu pai, outro guitarrista de mão cheia. “A guitarra entrou muito cedo na minha vida. Acho que foi um dos primeiros sons que ouvi em casa. Meu pai usava o instrumento como um ponto de partida, eu convivi com suas notas ecoando todos os dias”, recorda.

Prestes a voltar ao estúdio para gravar seus próximos quatro singles – menos de um ano após o lançamento do álbum de estreia – YMA está cada vez mais confortável no palco e íntima de suas diversas influências criativas. Sobre esses processos, ela pontua: “Às vezes, vem uma melodia, como foi com ‘Evaporar’ e ‘Pequenos Rios’. Comecei tirando as notas na guitarra, fui harmonizando e montei os arranjos no GarageBand. Depois, passei para os meninos da banda e fomos arrematando juntos.”

Tenho até receio de falar que eu toco porque isso já cria uma série de expectativas: de que tenha digitação rápida, manja de todos os pedais, captadores, corpo, tipo de madeira, etc. Aos poucos, fui entendendo meu lugar – YMA

E como foi o processo de inserir a guitarra no show?

O show no festival de lançamento do disco Saúde (2019) da Raça foi uma das primeiras vezes que toquei com ela no palco. Essa coisa de guitarra é complicada… Tenho até receio de falar que eu toco porque isso já cria uma série de expectativas: de que tenha digitação rápida, manja de todos os pedais, captadores, corpo, tipo de madeira, etc. Aos poucos, fui entendendo meu lugar. Sim, eu toco. Não sou “a guitarrista”, mas esse é um instrumento que me ajuda a compor. É uma ferramenta para explorar meu lugar criativo, um grande laboratório. De modo geral, tem sido um momento novo. No show que fizemos em Minas Gerais, por exemplo, avisei a banda que eu começaria a música de um jeito diferente, fui experimentando umas digitações. Nas próximas quero mais disso e, de quebra, ainda me dá muito apoio na hora de cantar. Canto melhor quando estou tocando.

Falando em alterações ao vivo, as músicas do disco mudaram muito ao longo dos shows?

Mudou bastante, mas é normal isso acontecer. O som não precisa ser exatamente igual ao do disco. Existe esse desejo de que o show seja uma experiência única. Assim, toda vez que tocamos, naturalmente, as músicas saem diferentes. Se acordo meio mal, se estou mais feliz, a energia muda. Tem dias em que rola o impecável, tem dias que não… Faz parte.

Estava vendo suas redes esses dias e acabei seguindo uma indicação de banda que você dava por lá. Virei fã de Crumb, você também tem ouvido bastante?

Sim! Nossa, a vocalista toca demais. Eles têm uma coisa meio Jazz que eu acho muito foda. Um dia eu chego lá! Tentei fazer aula de guitarra duas vezes, mas desisti. Da primeira, por causa de grana. Na segunda, foi com um amigo porque queria estudar standard de Jazz. Tirei umas músicas e isso, sim, expandiu muito a minha cabeça. Vejo que ela se utiliza muito desses acordes compostos no Crumb e arrasa. No Brasil, também, tem muitas mulheres que me inspiram, que tocam, compõem, cantam. Aqui vão mais duas, por sinal: a Bruna Vilela, do Miêta – que conheci em um projeto de música experimental no qual ela ficava só com a guitarra e foi lindo – e a Michele Cordeiro – que toca com o Emicida e destrincha a guitarra com os olhos fechados. Fora isso ainda tem Jadsa, Marcelle Equivocada, Papisa, Maria Beraldo, Gabi do My Magical Glowing Lens e por aí vai… Da gringa, tem a Emma, do Men I Trust que tem uma vibe mais parecida com a minha. Ela solta os acordes, umas firulinhas, bem relax. Muito diferente da pressão de uma St. Vincent, por exemplo, que espera-se do show que ela arregace na guitarra. Não que a Emma não ofereça isso também, mas estou indo ali para ver o conjunto da coisa e a guitarra faz parte desse todo.

JADSA

Nascida em Salvador, Jadsa teve sua primeira banda aos 13 anos. Depois disso, ainda participou de mais duas. Inspirada pelo Hardcore e pelo Punk Rock daquela mesma cena que revelou Pitty – de quem fazia cover –, começou sua composições dedilhando no violão e fazendo shows em barzinhos. Hoje, é multi-instrumentista, compositora de mão cheia, frontwoman, cantora e grande guitarrista. Inclusive, está se preparando para gravar o disco debut, que contará com co-produção de João Meirelles e ainda será o registro do encontro da artista com os músicos Caio Terra (baixo) e Bianca Predieri (bateria).

Entre as novas composições e ideias já que existiam, o trabalho vai tomando forma: “Tem música que fizemos no mês passado, que colou muito com a ideia do disco e com a energia que estamos agora”, disse Jadsa sobre o material das demos recém-gravadas pouco antes da nossa conversa. 

Se eu vim de tão longe até aqui é para meter uma porrada, sabe? Quando cheguei, fui com a minha mãe comprar uma guitarra, que resistisse a viagem, a tudo. É isso: vim pra cá para tocar guitarra. – JADSA

Como a guitarra surgiu na sua vida? 

Comecei a tocar guitarra quando vim para cá no ano passado. Senti a necessidade de ser muito sozinha. Então, precisava ter um peso. Precisava mostrar outra coisa, diferente do que eu fazia em Salvador. Voz e violão muita gente faz. Se eu vim de tão longe até aqui é para meter uma porrada, sabe? Quando cheguei, fui com a minha mãe comprar uma guitarra, que resistisse a viagem, a tudo. É isso: vim pra cá para tocar guitarra.

Qual é a história da guitarra dessa foto? 

Chamo de Mugunzá, mas aqui chamam de canjica. No nordeste é Mugunzá. Antes dessa, tinha uma Les Paul preta com dourado porque tocava nas bandas de Rock, Punk Rock, Hardcore. Achava muito pesada de peso e de som.

Você é ex-roqueira?

Que nada, Rock tá aí. Todo mundo é roqueiro a partir do momento em que você vai ao encontro do que quer. Tem o peso da palavra “Rock”, da pedra, de ser forte. 

Além de Pitty e da Janis Joplin, que outras referências você curte? 

Bikini Kill, Veruca Salt, Elastica, Smashing Pumpkins. Daqui do Brasil, Cássia Eller, Pitty tá aí resistindo… A Inkoma é a minha favorita, foi a primeira banda dela, tenho referências dentro da carreira da Pitty (risos).

MONICA AGENA

A primeira grande gig de Monica Agena aconteceu de forma inesperada: “Uma amiga falou que uma marca nacional estava precisando de alguém para ficar demonstrando os pedais para as pessoas na Expomusic. Nisso, os caras do Natiruts estavam passando por ali e foi assim que a gente se conheceu”, relembra a guitarrista que acompanhou a banda de Reggae Pop por anos. O encontro, no fim das contas, marcou toda sua experiência profissional: “Aprendi como que se produz um disco, criar arranjos, sair em turnê, tudo o que se precisa, como as coisas funcionam”. 

“Hoje, os timbres que aparecem são menos tradicionais. Isso, inclusive, está sendo questionado: ‘O que é um puta timbre?’ Sem dúvida, algo totalmente diferente das décadas passadas” – MONICA AGENA

Desde então, Monica não parou: já participou de turnês de Emicida e continua tocando as produções musicais e lançamentos de sua própria banda, a Moxine, fundada em 2009. Curiosa, a artista nunca deixou de lado as oportunidades de, neste caminho, aprimorar suas habilidades com o instrumento que escolheu tocar aos 12 anos. “É claro que, quando aprendi a tocar, nunca passou pela minha cabeça: ‘Quero acompanhar um artista’. Sempre quis ter minha própria banda. Queria tocar que nem o Slash”, e, salvo devidas proporções, assim o fez. Na época em que esses pensamentos lhe ocorriam, seus ouvidos estavam cercados dessas influências roqueiraças: Jimi Hendrix e Black Sabbath estavam entre seus preferidos. Hoje em dia, diz ser menos purista.

Desde quando você tem a guitarra da foto? 

Como eu toco com muita gente, além da minha banda, preciso de guitarras versáteis – que atendem a muitos estilos de som. Considero a Stratocaster funcional para as coisas que eu faço. Por exemplo, tem modelos que amo, como a Jaguar, mas que tem um som muito específico e não atende a tudo o que eu preciso: compor com cantoras, bandas de Rock, rappers. Estou com essa desde o começo do ano, não fico com o mesmo modelo muito tempo, vou experimentando. Fiquei dois anos com uma Gibson SG, depois troquei e assim vai. 

Como foi começar a cantar e tocar? 

Sempre tive bandas e nelas sempre fui a guitarrista. Na KREPAX, o Dionisio (Neto), é ator e dramaturgo, e a gente sempre dependia dele. Pensei comigo: “Vou cantar as músicas e não depender mais de ninguém”. Comecei a arriscar a cantar, fui me jogando e montei o Moxine. E o interessante é que, principalmente por estudar a guitarra, consigo ouvir bem os outros elementos. Além disso, escutei muito Jazz. As melhores lições de improviso e harmonia estão ali. É natural escutar Jazz para aprender, é realmente uma aula. O George Benson é uma puta referência para mim como guitarrista e artista: ele é foda no Jazz, é um puta instrumentista, canta muito bem e tem uma carreira consolidada. Mas, nessas de estudar guitarra, ser instrumentista e me abrir para o mundo comecei a pirar em outras coisas. Feminejo, Indie, Pop mainstream. Acho muito legal entender como a guitarra está presente nesses diferentes estilos musicais. Esses dias, aliás, o Bomba Estéreo lançou uma música com a Soffi Tukker. Fiquei prestando atenção na guitarra e cara, certeza que eles ouviram Chimbinha.

Você acha que há uma renovação no interesse e no uso da guitarra em geral?

Sinto que – na minha visão, não sei se está certo – enxergava a guitarra como um símbolo do Rock. Hoje as guitarras estão também na música Pop e são colocadas ali de uma maneira diferente. Vejo que estão recortadas, são mais sintéticas, loopadas. Não vêm com um som que antes me fazia falar: “Nossa, que timbre maravilhoso neste amplificador!” Não tem timbres tradicionais, mas mais experimentais. Até você escutar e começar a pensar – “Isso é uma guitarra mesmo?” Isso mesmo do timbre, inclusive, está sendo questionado: O que é um puta timbre hoje? Sem dúvida, algo diferente.

BRVNKS

Quando ainda era criança, Bruna Guimarães, a BRVNKS, aprendeu a tocar violão sozinha, em Goiânia. Ao longo dos anos, continuou praticando em casa, sem que ninguém a ouvisse, até sair com o EP Lanches (2016), quando se mostrou para o mundo. “Nunca tive a brisa muito séria de ter banda. Como qualquer adolescente, ouvia uns rock e ficava batendo cabeça – imaginando estar no palco – mas, não sabia que era só eu querer que dava pra fazer isso de verdade”, relembra a artista que hoje toca ao lado de Edimar Filho, Ian Alves, Rodrigo Gianesi e Heloisa Cleaver. Três anos depois desse lançamento, passou a morar em São Paulo, se apresentou como abertura para bandas gringas, fez diversos shows pelo país e lançou o primeiro disco, o recente Morri de Raiva (2019).

Ninguém sabia que eu tocava ou o que eu tocava – nem a minha mãe. Nunca fiz apresentação em colégio ou toquei para amigos. Era completamente reclusa a respeito disso. – BRVNKS  

Quando você mudou do violão para a guitarra? 

Só comprei a minha primeira guitarra depois que a gente já estava fazendo show. Tirando isso, tive violão a vida inteira. Comprei por necessidade. Se fosse para eu escolher, escolheria a bateria. Na época, eu acho que não tinha muita confiança para me oferecer para cantar e tocar bateria ao mesmo tempo. Hoje em dia, a gente anda conversando em ter eu tocando em algumas músicas, dar uma trocada nos instrumentos, seria legal (risos).

Existia algum projeto antes da BRVNKS? 

Nunca tive nada de música antes. Ninguém sabia que eu tocava ou o que eu tocava – nem a minha mãe. Nunca fiz apresentação em colégio ou toquei para amigos. Era completamente reclusa a respeito disso. Quando saiu o EP, todo mundo ficou chocado porque eu nunca tinha falado para ninguém que tocava (risos). 

Você poderia compartilhar algumas referências/ inspirações? 

A Courtney Barnett é perfeita. Também amo a Charlotte Cooper, baixista do Subways, a Cat Power e também babo na St. Vincent porque ela faz tudo isso de uma forma diferente. Aqui no Brasil, acho a Michele Cordeiro muito foda e tive a honra de tocar com ela no Popload do ano passado.

Como está rolando a recepção do primeiro disco? 

Acho que está sendo ótima. As pessoas entenderam bem as letras e se viram muito nas músicas. Também veio muita gente nova que conheceu a banda pelo disco. Muita gente acha que eu sou gringa, principalmente (risos). Está cumprindo o que prometeu. A maioria das músicas ainda é meio antiga, coisa que a gente tocava desde o começo dos shows, de uns dois ou três anos atrás. “Fred”,”I Am My Own Man”, “Tired” e “Tristinha” são mais novas e as que eu gosto mais – acho que também foi evoluindo (um pouco) para algo menos Rock. Estou feliz e satisfeita com como as coisas estão.

SOPHIA CHABLAU

Os pais de Sophia Chablau fizeram questão de que a cantora, instrumentista e compositora paulistana crescesse em um ambiente musical. Aos cinco anos, ela já começou a ter aulas de música. Naquela época, inclusive, lembra de não ter nem mesmo músculo o suficiente para mergulhar os punhos nas teclas do piano. Dois anos depois, aos sete, percebeu que seus dedos estariam mais felizes nas cordas de um violão. A primeira música de sua própria autoria veio aos onze: “Tocava empiricamente. Sempre usei o violão para para compor, ele nunca foi um instrumento para tocar cover. É uma parada para fazer paradas… (risos). Me expressar”, diz Sophia. Foi também com essa idade que montou a primeira banda, a Purple Hair. Aí, é claro, descobriu o que pretende fazer para o resto da vida.

Em 2016, passou a fazer shows como Besouro Mulher ao lado dos amigos Arthur Melino, Bento Hubner e Vitor Park. O grupo tem um EP, o Depois do Carnaval (2019), e bebe muito da canção brasileira e da vanguarda paulistana. Neste ano, estreou seu novo projeto, o Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, que conta com um single, o Idas e Vindas do Amor (2019) – “banda de Rock-triste-anarco-Gospel”. Nele, toca ao lado de Téo Serson, Vicente Tassara e Theo Ceccato.

Como surgiu o Enorme Perda de Tempo? 

Já conhecia eles, mas começamos a perder tempo juntos no começo do ano, quando fomos chamados para tocar no Rio de Janeiro. Rolou uma energia muito louca, fizemos um que foi tão legal que marcamos outro. Voltamos pra cá e o Thales Castanheira indicou a gente para gravar um single no Canoa. Foi lá que gravamos o Idas e Vindas do Amor. Ano que vem tem disco… Tudo rolou por causa desses dois shows que marcamos nas férias. Depois disso, já voltamos como uma banda e vamos tocar no CCSP.

Foi nela que você começou a tocar guitarra? 

Sim, o Vicente, nosso guitarrista, é um ótimo pianista, ele toca muito. Tem algumas que ele toca teclado e eu toco guitarra sozinha. Na Besouro Mulher é violão mesmo. Meu pai me deu esse daqui (da foto). Eu tinha um Tagima preto meio qualquer coisa, parecia uma parada meio Sertanejo quando eu colava no rolê. Ganhei quando fiz uma música, a “Madalena”, e ela virou hitzinho. Meu pai ficou muito feliz e dividiu em mil vezes esse Takamine. Ele toca viola de arco que é um violino um pouco maior, tem o trabalho solo dele, é um puta músico. Gostamos de coisas diferentes, mas nos unimos para escutar Paul Simon.

Quem mais você curte de som? 

Umas paradas novas que piro no som é da Ana Frango Elétrico. Conheci ela porque gostava muito do som e fui atrás dela, viramos amigas porque sou fã. Não consigo não falar da Ana, Maria Beraldo, Ava Rocha – uma tríade que gosto pra caralho. São compositoras e isso é algo que tem que ser valorizado na música. Gosto de ver mulheres compondo. Negro Leo, sou fissurada em Beatles, música brasileira, Gal, Samba, Baden Powell, Vinicius, João Gilberto, da canção. Stravinsky, da não canção…  

Quais são seus desejos a serem realizados musicalmente?

Quero trabalhar com várias coisas da música: gosto muito de trilha sonora, música experimental, eletroacústica, estudo mesmo. Fui fazer o curso de Composição Popular e Erudita porque queria aprender a compor e a entender como a coisa funciona estruturalmente. Os grandes compositores de música brasileira que amo, como Egberto Gismonti e Arrigo Barnabé, vieram do erudito. Pensava: “Bom, quero entender qual que é a base deles”. Acho que a música é algo que está aí, o que é erudito já foi popular e o que é popular talvez a gente vire em algum momento e fale que seja erudito. As coisas se fundem, são universos que conversam e podem complementar um ao outro. Tem aquele desespero, parece que já existe tudo, ou que uma hora vai acabar a chance de se criar algo novo. Penso em um texto de 1700, onde um compositor falou que já tinha explorado tudo na música. A música é infinita porque o ser humano é infinito.

Existe uma combinatória infinita de possibilidades…

E, se não tiver, você vai ressignificar as notas já combinadas. Uma música que é triste agora, no passado não significava isso. Depois que você solta uma nota, ela não para de tocar. No caso da guitarra, ela é o nosso saxofone. A guitarra é o saxofone das cordas. Você vai longe se associar saxofone a sexo. Você escuta um Jazz e de repente tá com tesão. Para mim, é assim. Essa chorada da guitarra, esses solos, remetem a coisas ardentes do jovem. Por muito tempo foi o violino também. Esse incômodo que a gente gosta – acho que falei algo um pouco sadomasô (risos). Saxofone é o sexo que a gente já conhece, guitarra é o sexo que a gente desconhece (risos). 

A Sasami tem uma frase muito interessante que fala que depois de estudar música clássica por muito tempo, ela teve uma epifania ao começar a tocar guitarra. [“Guitarras tem seis cordas; são como seis instrumentos diferentes (…). Uma pequena orquestra”, falou à She Shreds.

A guitarra limpa são 6 instrumentos diferentes e os pedais amplificam isso para um milhão de possibilidades. O violão tem mil possibilidades de instrumentos conhecidos. Na guitarra, é o desconhecido. Se colocar um pedal de fuzz com delay, que outro instrumento faz isso?

Abaixo, uma playlist que mistura a música dessas meninas com as artistas que as inspiram ou foram fundamentais para sua formação musical.

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