Mumford E Fãs

Até onde vale a pena mudar seu trabalho na corrida pelo sucesso?

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De tempos em tempo o Rock surge com um novo grande nome. É uma banda ou artista que vai resgatar o estilo de alguma entressafra ou purificá-lo de algum mal comercialóide em que se meteu por conta da influência de alguma força maior e maligna. Talvez nem seja por estes motivos, fruto da observação conspiratória do crítico musical, pago para olhar com desconfiança em todas as direções. O que acontece com certa frequência é a chegada de alguém num patamar mais alto de sucesso, visibilidade e importância e tal mudança de status pode significar perdas ao longo do caminho, seja de fãs, seja de integridade, seja de referências. Em alguns casos, o processo pode ocorrer com risco mínimo. Qual será o caso de Mumford & Sons?

Estamos a poucos dias do lançamento do terceiro álbum de inéditas do quarteto britânico, Wilder Mind. Já foram reveladas duas das 12 canções do disco, Believe e The Wolf, e ambas já mandaram avisar aos admiradores das pequenas epopeias Folk Country de Marcus Mumford, Ted Dwayne, Ben Lovett e Winston Marshall que o grupo deve ter feito uma espécie de êxodo rural musical. Explico: Se os álbuns anteriores, Sigh No More (2009) e Babel (2012) eram bons exemplos de alquimia de novo e velho, urbano e rural, sob a forma de canções com forte apelo espiritual e voltadas para um passado distante, talvez o novo trabalho não tenha tanta preocupação com tais referenciais, abrindo mão deste vínculo estético em favor de um modelo mais cosmopolita e contemporâneo de Rock, ou seja, Mumford & Sons teria deixado a sua Hinterland musical inabalável, imexível, que serve como norteador de sua própria existência em favor de um abraço demorado aos vapores e luzes da cidade grande. Veja, são metáforas, sabemos que os sujeitos não moram naquela comunidade que aparece no filme A Vila, de M.Night Shyalaman, mas talvez sua música busque a mesma pureza de atitudes e vínculos que os pobres habitantes das casas do longa tenham buscado. Agora, com o proverbial terceiro álbum, após um bem sucedido CD/DVD gravado ao vivo no prestigioso Red Rocks, no coração da América, o grupo pode ter desembarcado em algum terminal rodoviário de 2015.

Isso é ruim, gente? Será que devemos esperar a pureza cristalina do começo de carreira de um grupo musical? E mais, será que tal característica deve permanecer após algum tempo de estrada? Não é mais lógico pensar que o artista, como qualquer pessoa, é capaz de mudar com o tempo? Pense que o sujeito pode ser um zé ninguém em um dia e, um, dois meses depois, após seu grupo fazer sucesso, ser catapultado aos píncaros da fama. Não é o caso dos sujeitos do M&S, mas eles estão a caminho disso. São uma boa aposta de uma gravadora multinacional, a Island, vinculada à Universal, dona de um catálogo histórico que pode conter gente como Bob Marley, Grace Jones e Cat Stevens, entre outros. Se o modelo de indústria musical como existia há alguns anos praticamente faliu, há que se reconhecer o valor de um esforço industrial na direção de um artista contemporâneo justo quando é possível acessar praticamente tudo pela Internet. Mesmo assim, contra a lógica de mercado de 2015, alguém vai colocar o suado dinheirinho no lançamento mundial do terceiro álbum da banda, vai barganhar por colocá-la em festivais ao redor do mundo, possivelmente fará com que o quarteto viaje pelos quatro cantos da bolota azul e branca, provavelmente caindo em terras brasileiras em pouco tempo. Repito: isso é ruim? O público do Bonnaroo 2015, o primeiro destes eventos a ter o grupo como atração confirmada, vai se prender aos argumentos de integridade e estética?

Mas – dirá você – é preciso abrir mão de convicções e estéticas para agradar a mais gente? Talvez. E provavelmente será da vontade dos músicos o aproveitamento dessa chance de tocar algo com cara de novo. Sim, os velhos sucessos estarão presentes – é impossível imaginar uma apresentação dos sujeitos sem The Cave, por exemplo – mas também estarão canções novas e elas são o combustível de qualquer carreira. Se os fãs podem torcer o nariz para algo que não remeta a uma festa de quintal em 1870 em forma de música, talvez alguém, que nunca tenha parado para ouvir o grupo, possa notar algo instigante em Believe, por exemplo, que conserva algo de épico e das explosões contidas das canções mais antigas. Outra pessoa pode achar interessante o andamento rapidinho e Post-Punk de The Wolf, conectando-o a alguma melodia/arranjo que já conhece e desses dejà vus e “dejá ouvis” surgem os tentáculos da identidade musical e do que esperamos que as músicas façam por nós.

Falando francamente: fiquei sabedor do poder do grupo em um evento bastante simples ocorrido aqui em casa, quando meu enteado confessou que admirava uma menina que conhecera e, entre outras coisas, mencionou que a tal mocinha se interessava por bandas novas e legais, entre elas, Mumford & Sons. Comentou o tanto que ela estava ansiosa pelo novo disco e tal. Poucos dias depois, minha esposa me pede algum link para que uma amiga do trabalho, de faixa etária totalmente distinta da paquera de meu enteado, possa ouvir “a nova do Mumford & Sons. Cocei a cabeça e pensei que, de fato, tais eventos, por menores que sejam, não são coincidência. O grupo está em fase decisiva da carreira, fazendo escolhas, aceitando riscos e partindo para um novo patamar. Você precisa se preparar para acompanhá-los ou, como eles, fazer a escolha de deixá-los de lado. Talvez haja uma outra banda para te representar em forma de música, vá saber. E, do mesmo jeito, alguém pode ouvir as canções do novo trabalho e, finalmente, depois de tanto tempo vagando na escuridão surda, encontrar nos vocais de Marcus Mumford e nos arranjos de seus comparsas, a voz que sempre buscou. Assim é o Rock e nem a modernidade neoliberal parece capaz de tomar conta desse processo.

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MARCADORES: Novo álbum

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.