Música Brasileira Hoje: Pérolas aos Porcos

Aquilo que é produzido no país em 2014 tem tudo a ver conosco, cabe a nós decidirmos aproveitar

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Fotos: Fernando Galassi/Monkeybuzz

Há um fenômeno que eu observo em pessoas ao meu redor e, confesso, comigo mesmo algumas vezes durante um bom show (às vezes em espaço pequeno, às vezes em um festival, ou até mesmo na rua), quando paro para ouvir um belo disco (ou quando nem paro, deixo tocando e vou fazer outra coisa que precise de atenção) e já aconteceu vendo algum videoclipe também. É uma sensação de “que bom que estou vivendo essa época”. Mais que isso, é “que bom que é viver isso no Brasil”, já que essas músicas que geram o tal fenômeno costumam ser em português, com elementos propriamente daqui e uma sonoridade tipicamente contemporânea. É bonito ver o estado em que as coisas chegaram e fazer parte disso, mesmo apenas como ouvinte.

Observo isso em pessoas ao meu redor, repito. São conversas que temos sobre o tema, sorrisos durante as apresentações, compartilhamentos empolgados em redes sociais e confissões de novos amores por tal banda ou álbum. Ainda assim, por mais gente que esteja nessa pegada, me parece sempre que trata-se de uma “minoria” (termo delicado para falar nesses dias, mas me refiro a um grupo pequeno no todo, sem conotações). Parece existir uma grande resistência para esse som de “aqui e agora” – o que é, resumidamente, infeliz.

Um primeiro motivo para isso é algo do qual somos inculpáveis: Nós, brasileiros, temos uma mentalidade de colonizados. Olhamos para a metrópole, o dominador, como superior e a grama em volta da casa do senhor é muito mais verde que a que está ao redor da senzala. É como se nascêssemos com uma ideia de que aquilo importado é sempre melhor que o produzido em nossas terras. Por conta desse aspecto cultural (que não escolhemos, simplesmente fomos criados assim), não é incomum alguém falar que não gosta de, por exemplo, música ou cinema brasileiro, como se “brasileiro” fosse um gênero (quando, na verdade, existe uma produção muito plural nas duas áreas).

Como sempre existe uma reação para toda ação, há também o outro lado, o da supervalorização do tupiniquim. Esse nacionalismo, por vezes, ganha ares quase ingênuos quando aparece com argumentos do tipo “é bom porque é brasileiro”, ou com discursos de “temos que valorizar o nacional” e acaba se apresentando apenas como antagonismo ao modelo vigente (o culturalmente enraizado, do colonizado) – o que é sim necessário às vezes, principalmente na tentativa de trazer o pêndulo para o centro quando ele está no outro extremo. A Semana de Arte Moderna de 1922 e o Tropicalismo são dois exemplos de momentos benignos em que os olhos precisaram ser abertos para o Brasil.

Uma coisa que os dois lados da moeda tem em comum é a consequência de um forte segregacionismo entre os produtos culturais feitos no país e os que vem de fora – já que apontar como diferente, independente de se bom ou ruim, acaba fazendo uma exclusão, quando tudo poderia vir de uma só forma para o ouvinte: É tudo música. Pode notar como a regra geral é sair uma lista de melhores “nacional” e outra “internacional”, como se as produções não pudessem se misturar. É interessante imaginar alguém que acorde querendo ouvir música “internacional” em um dia e “nacional” no outro. Se não é assim que consumimos os produtos culturais, eles podem nos ser apresentados de outra forma.

E talvez os dois lados ajam assim também por outro aspecto cultural nosso de quem foi colonizado, que é o de tentar ser reconhecido. Sabe quando alguém vem comentar muito surpreso que um artista brasileiro se deu bem no exterior? Ou o quanto as pessoas fazem questão de ver um filme daqui concorrer e ganhar um Oscar? É como se houvesse uma necessidade de mostrar que “somos capazes” de algo, um desejo quase adolescente de ser visto como gente grande. É por isso que em um momento de fim de ditadura e Diretas Já que falava-se muito em um Rock Nacional, uma capacidade nossa de fazer música igual a deles.

Isso leva a outro ponto, que é o quanto o termo “nacional” se tornou irrelevante, às vezes até mesmo equivocado. O brasileiro não precisa ter o nível crítico muito desenvolvido para notar que não há muita unidade entre as diferentes regiões da nação. O tal do Rock Nacional podia gritar “Brasil, mostra a tua cara” porque tinha, de fato, uma expressão nacionalista. A banda que faz um som tentando parecer gringa e cantando em uma língua estrangeira é brasileira por naturalidade no RG, mas de Nacional não tem nada.

E é aí que chegamos em uma das maiores qualidades da música de hoje, aquela do fenômeno de se orgulhar e tal: Ela não precisa tentar ser nada, porque já é muito. Ter raízes explicitamente no “verde e amarelo” não a torna boa ou ruim, mas única. São bons instrumentistas, compositores e intérpretes que não precisam ser comparados com os de outros países – poderiam, no sentido de apresentarem o mesmo nível de qualidade, mas não é a comparação que gera validação. O som fala por si só, e fala no português daqui para não deixar dúvidas.

Ainda assim, parece que é uma parcela pequena dos quase 200 milhões de habitantes do Brasil que está aberto a esse som. E mesmo dentre os tais “nacionalistas”, aqueles que também influenciam na segregação, existe um saudosismo (devo dizer, desnecessário) de épocas menos “complexas” da nossa música, já que a produção de hoje tem no pluralismo uma de suas maiores características (o som lembra o de tal época, flerta com aquilo que vem de tal lugar e vai ao encontro de referências daqui e dali ao emsmo tempo). Ora, o passado, o já conhecido, é emocionalmente seguro. Sabe a tal da zona de conforto? É menos arriscado ficar em um som já consagrado, já aceito, sem ineditismos. Como seria se Os Mutantes, Novos Baianos, Milton Nascimento ou Los Hermanos pensassem assim?

O que não pode ser ignorado é que vivemos hoje um dos momentos mais ricos da música feita no Brasil justamente por isso (e se você é daqueles que precisam de uma validação gringa para aceitar alguma coisa, saiba que os estrangeiros já estão sabendo e propagando essa ideia). Ela tem um sabor de coisa nova, vem com ares de produto de alta qualidade e é extremamente relevante culturalmente em dois âmbitos. O primeiro é para a História, com seu lugar certo na linha do tempo, depois do antes e como introdução pro que ainda vem. O segundo, é para os ouvintes.

Se os discos feitos hoje não narram o Brasil, narram bem o brasileiro. Nosso cotidiano é contado para além dos estereótipos futebol-Carnaval-novela, você ouve e se reconhece tanto pelos elementos da sua vida no geral, quanto nos mais íntimos, e escuta na sua língua-mãe sobre as coisas que pensava serem familiares só para si. Está aí uma vantagem que temos em relação aos gringos, eles nunca aproveitarão plenamente nossa arte.

Não temos culpa pela cultura da colonização, mas cabe a cada um de nós escolher como dialogar com ela. Foram os estrangeirismos que nos deram do Samba aos ritmos regionais, da mesma forma que o Rock injetou uma nova força na cultura dos últimos 50 anos, então não tem cabimento querer se fechar para o que vem de fora, assim como não faz sentido não estar aberto ao que é feito aqui e hoje.

Se a música brasileira é cheia de verdadeiras pérolas, não sejamos porcos.

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.