Música Brasileira: Um Século de Inovação

Delicie-se com nossa lista de canções que quebraram padrões em suas respectivas épocas, abordando o século 20 inteiro

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A música popular é um traço marcante do século 20. Significou o ingresso de pessoas que jamais poderiam participar da vivência da música, possibilitando algum contato com essa forma de arte. Com o passar do tempo e as mudanças tecnológicas e sociais, a música adquiriu este aspecto popular, no sentido de ser o oposto da forma erudita ou acadêmica. Existia fora dos saraus dos nobres, passava como tradição entre as gerações, mas passou a ganhar força com as grandes invenções daquele século, que respingaram no período seguinte como indícios irrefutáveis do aumento das cidades, do surgimento das classes trabalhadoras e, em países como o Brasil e os Estados Unidos, da integração de grandes contingentes de negros e mestiços nas populações nacionais, transformando estes dois enormes pedaços de terra em celeiros de novos ritmos e misturas musicais.

Em termos de Brasil, a canção popular evoluiu da influência europeia a partir da integração com ritmos negros, sobretudo o samba. A partir disso e pelos motivos acima, a música produzida no país indicou tendências estéticas, acompanhou movimentos intelectuais e foi ganhando mais e mais importância a partir do pós-guerra, sobretudo pela aproximação com os Estados Unidos, dentro da lógica da nascente Guerra Fria. As políticas de desenvolvimento do governo JK – o chamado “Cinquenta Anos em Cinco” – além de trazer novos artefatos para as casas brasileiras, como a vitrola ou novos e mais potentes rádios, viabilizou melhorias nos estúdios. Com a nascente integração do país na área de influência dos Estados Unidos, ritmos de lá vieram a influenciar a cultura do país, respingando na música popular.

Dentro do espírito que norteia o Monkeybuzz, esta lista procura mostrar canções que inovaram em seu tempo. Que significaram avanços ou rupturas com o que acontecia. Em alguns casos, foram retratos incontestáveis do momento em que surgiram, muitas vezes trazendo os eventos do cotidiano com precisão, desde o comecinho do século 20 até o primeiro ano do seguinte.

1916 – Bahiano – Pelo Telefone

Um dos primeiros registros fonográficos feitos no Brasil, Pelo Telefone é um Samba de Donga, composto em plena década de 1910, sobre como era complicado ser negro e pobre num país como o Brasil, que se achava europeu. Pensando bem, em quase cem anos, pouco mudou, não?

1939 – Francisco Alves – Aquarela do Brasil

Esta gravação é o primeiro registro do descomunal samba exaltação composto por Ary Barroso. A letra e a melodia são exemplos de como é possível obter harmonia sobre qualquer tema, em qualquer época. Não dá pra imaginá-los separados. A interpretação de Francisco Alves é atemporal. O verdadeiro hino nacional.

1940 – Dorival Caymmi – O Mar

Uma das canções praianas mais belas de todos os tempos, O Mar tem uma gravação original bastante intrigante e incrivelmente moderna. Com arranjo que reproduz com exatidão os sons marítimos, além de uma duração acima do normal para o rádio, O Mar tem letra com uma narrativa triste e apaixonada. Um grande marco.

1952 – Lupicínio Rodrigues E As Três Marias – Felicidade

O gaúcho Lupicínio Rodrigues foi o inventor do que se entendeu como “dor de cotovelo”. Compôs marchinhas de carnaval e sambas-canção, mas Felicidade é seu maior feito musical. Também é conhecido por ter composto do hino de seu time do coração, o Grêmio. Lupe faleceu em 1974 aos 59 anos.

1959 – João Gilberto – Desafinado

Música de Tom Jobim, letra de Newton Mendonça, interpretação de João Gilberto, numa graciosa mea culpa sobre o jeito diferente de se cantar Bossa Nova, em oposição às vozes empostadas do Samba-Canção e do Bolero, então vigentes. Cinematográfica, amorosa, brejeira, Desafinado é a Bossa Nova aplicada ao indivíduo.

1963 – Jorge Ben – Mas Que Nada

O primeiro disco de Jorge Ben, Samba Esquema Novo, já entrega, pelo título, sua intenção: modernizar e rejuvenescer o samba, levando-o para uma repaginação em termos de conteúdo e referencial. Era um movimento espontâneo, no qual Jorge trafegava com desenvoltura. Em Mas Que Nada, ele criou um refrão sem significado, que, com o tempo, para muitos quis dizer Brasil.

1965 – Roberto Carlos – Quero Que Vá Tudo Pro Inferno

Dentre tantas canções memoráveis do Rei, esta, do tempo em que não aspirava ou ostentava epítetos, é a mais representativa de uma juventude brasileira que está esquecida dos documentários sobre a música dos anos 60. A grande maioria do Brasil era fã da Jovem Guarda e Roberto mostrava nesta canção, o quanto essa música inocente poderia ser raivosa.

1967 – Tom Jobim – Wave

Uma das mais belas melodias já compostas, Wave dá nome a um primoroso álbum de Tom Jobim, de uma época em que ele começava a deixar a bossa nova para trás e se banhava no Jazz americano sem, no entanto, deixar de lado a brasilidade com a qual aprendia a lidar aos poucos. A gravação de João Gilberto em 1976 é outro assombro, com arranjos do alemão Claus Ogerman.

1968 – Mutantes – Panis Et Circensis

A canção, integrante do disco Tropicália, é de autoria de Caetano Veloso e Gilberto Gil, mas sempre será de propriedade dos Mutantes, por conta dessa interpretação histórica. Cheia de efeitos psicodélicos, arranjos enlouquecidos e extremamente sintonizados com o melhor produzido em Estados Unidos e Inglaterra na época – cortesia de Rogério Duprat – Panis Et Circensis é um marco histórico.

1968 – Gilberto Gil – Domingo No Parque

A narrativa como se fosse uma versão apocalíptica e cinematográfica do Cordel, a orquestra arranjada por Rogério Duprat, a participação das guitarras e vocais dos Mutantes, tudo em Domingo No Parque contribui para que ela tenha características únicas e atemporais. A grande canção do Tropicalismo.

1969 – Jorge Ben – Domingas

Jorge Ben nunca foi Tropicalista, jovem guardista, sambista ou adepto de qualquer rótulo. Sua música sempre foi um ato de absoluta magia, pegando pedaços de elementos do Samba, misturando com informações do rádio, fazendo-os revestir letras e narrativas vivenciadas num subúrbio imaginário do Rio de Janeiro. Domingas, homenagem a sua esposa, traz letra perfeita e um dos arranjos mais belos de toda a música brasileira, cortesia de José Briamonte.

1970 – Tim Maia – Azul Da Cor Do Mar

Ao longo de sua carreira, Tim Maia foi muito mais um intérprete do que cantor/compositor. No entanto, os momentos em que cantou suas próprias canções são absolutamente iluminados. Azul Da Cor Do Mar, com letra dolorida e sonhadora (inspirada num poster de mulher pelada, dizem), arranjo impecável e vocais absolutamente Soul, é um desses momentos imaculados.

1971 – Chico Buarque – Construção

Com uma impressionante cadeia de versos terminados em palavras proparoxítonas, Construção segue uma tendência de urbanização do Samba, incorporando-o a uma realidade de classe média em meio à vida na cidade grande. É erudito e pouco popular, mas é um dos momentos mais iluminados da poesia de Chico Buarque.

1972 – Milton Nascimento e Lô Borges – Clube Da Esquina 2

Uma das mais belas gravações de Milton Nascimento, Clube da Esquina 2 foi composta em Niterói, Rio de Janeiro, mas traz a resultante do clima plácido e rural que a música Pop mineira sugeria nessa época. A versão original, sem letra, é o próprio Brasil em forma de música.

1973 – Tom Jobim – Águas de Março

Em 1973, Tom Jobim não era mais um mero arquiteto da Bossa Nova, mas um compositor brasileiro dos mais completos. Influenciado por Villa-Lobos, Ravel e dotado de uma carga impressionante de informação sobre o Brasil, Tom criou essa obra de arte atemporal, capaz de parecer um livro de Graciliano Ramos em cerca de três minutos e meio.

1974 – Paulinho da Viola – Sinal Fechado

Uma das mais belas canções de todos os tempos, Sinal Fechado é uma impressionante variante do Samba. É um vislumbre terrível de um futuro opressor que se materializa. Paulinho teria escrito a canção no fim dos anos 60, após o AI-5, e sua letra seria a exposição da perda da afetividade entre as pessoas. A principal interpretação da canção é de Chico Buarque, que batizou seu disco de 1974 com o nome da música.

1974 – Raul Seixas – Gita

Uma das canções mais misteriosas da obra de Raul Seixas, Gita dá nome a seu terceiro disco. Com inspiração no livro hindu Bhagavad Gita, a canção é dramática, lírica, exagerada e dá o tom exato de como a parceria com Paulo Coelho deu forma a aura mística de Raul, tornando-o uma das maiores personas da música brasileira em todos os tempos.

1975 – Gilberto Gil – Refazenda

Faixa-título do disco em que Gilberto Gil revê suas raízes com a música mais regional, Refazenda é um achado. Composta com a ideia de mostrar uma nova apropriação dos valores tropicalistas numa ótica pós-exílio, Gil parece visitar um Brasil imaginário, psicodélico e lírico, ao mesmo tempo real, viável e acolhedor. Um milagre de três minutos.

1975 – Rita Lee – Esse Tal de Rockenrow

Parceria entre Paulo Coelho e Rita Lee, essa canção foi um dos grandes sucessos do segundo disco de Rita com o Tutti-Frutti, banda que a acompanhou a partir de sua saída dos Mutantes. A letra fala de como o Rock preenchia espaços na vida cotidiana, sendo comparado a um caso amoroso. Sensacional.

1977 – Banda Black Rio – Maria Fumaça

A própria materialização da cena Black Rio, ainda que devidamente limada de seu conteúdo mais político. A Banda Black Rio surgiu com a proposta de de apropriar do Funk americano, fazê-lo passear com o Samba e gerar uma nova entidade musical. Em momentos como esta canção, que tem o título de seu primeiro disco, esse objetivo foi totalmente alcançado.

1977 – Guilherme Arantes – Meu Mundo E Nada Mais

Primeira música do primeiro disco de Guilherme Arantes, que foi o grande marco do Pop radiofônico, com inspiração progressiva e calcada em artistas como Elton John. A letra é linda, os vocais de Guilherme são milagrosos e sua execução da melodia ao piano é sublime. Uma das maiores canções Pop brasileiras de todos os tempos.

1978 – Caetano Veloso – Terra

Contida num dos grandes discos de Caetano, Muito (Dentro Da Estrela Azulada), Terra é uma canção que traz divagações dos tempos da prisão e do exílio do compositor baiano (e de Gilberto Gil), em 1969/71. Sua narrativa é bela mas extramamente triste, alternando inconformismo e lirismo.

1979 – João Bosco – Linha de Passe

De autoria de João Bosco e Aldir Blanc, Linha de Passe é uma vigorosa e ousada apropriação de elementos estéticos do Samba, misturando-os com narrativas do imaginário popular do brasileiro, tangenciando futebol, comida e memórias do Centro do Rio, do tempo em que ele era o centro do próprio Brasil.

1982 – Blitz – Você Não Soube Me Amar

Nada poderia ser mais inédito na música brasileira dos anos 80 que essa canção, com influências trazidas pela New Wave, pelo teatro e pela irreverência carioca, tudo ao mesmo tempo. A Blitz inaugurou o rock dos anos 80, tornando-o possível e real, exatamente com Você Não Soube Me Amar.

1983 – Lulu Santos – Como Uma Onda (Zen Surfismo)

Gravada para a trilha do filme Garota Dourada, essa canção de Lulu Santos e Nelson Motta é bastante emblemática do início do Rock nacional oitentista. Com uma levada dolente e muito próxima de ritmos latinos, Como Uma Onda tornou-se um clássico, até hoje obrigatório nos shows de Lulu Santos.

1983 – Ultraje A Rigor – Inútil

Lançada como compacto e, posteriormente, no álbum de estreia da banda, Nós Vamos Invadir Sua Praia, Inútil é um exemplo de letra irreverente, criticando um comentário do então presidente João Figueiredo, de que “o povo brasileiro não sabia nem escovar os dentes, logo, não poderia votar para presidente”.

1986 – Paralamas do Sucesso – Alagados

O grande indicativo que Paralamas do Sucesso havia evoluído de uma banda da Zona Sul carioca para um grupo capaz de absorver influências musicais que poderiam vir do Brasil, da África ou do Caribe, sem esforço, com a capacidade de fazer algo pessoal e novo. O terceiro disco do trio, Selvagem? é um marco no Rock nacional.

1986 – Titãs – O Que

Um dos grandes sucessos do disco Cabeça Dinossauro, que significou uma mudança estética na obra dos Titãs. A letra de Arnaldo Antunes consegue trazer as influências de poesia concreta para o idioma Pop sem maiores problemas. Destaque para a produção impecável de Liminha.

1991 – Racionais Mc – Fim De Semana No Parque

A primeira música do grupo paulistano a ser ouvida longe da realidade da periferia da maior cidade do país. Com produção limitada e samplers de Dumingaz, de Jorge Ben, a letra é um retrato da desigualdade entre as realidades sociais de habitantes do mesmo centro urbano.

1994 – Chico Science e Nação Zumbi – Rios, Pontes E Overdrives

Do primeiro disco, Da Lama Ao Caos, esta canção sintetiza a proposta de fusão entre o Maracatu, o Hip Hop e percussão brasileira/universal, mostrando várias possibilidades.

2001 – Los Hermanos – Casa Pré-Fabricada

A grande canção do segundo disco do grupo carioca, Bloco do Eu Sozinho. Há ecos de MPB e influência de guitarras de bandas como Weezer no arranjo, mas a letra é 100% herdada de vertentes mais românticas e tradicionais da música brasileira.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.