Música Eletrônica Feita Para se Escutar em Casa. É possível?

Existe mercado para produção de faixas lentas num mundo movido a grandes festivais?

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Enquanto os maiores festivais do mundo tem um line up coberto de artistas perambulando pelo estilos mais bombados do momento, desde o famoso e comercial EDM aos mais undergrounds Techno e Deep House, conseguimos ter outros tipos de música Eletrônica que não conseguem ser ouvidos nesse tipo de ambiente ou não angariam público suficiente para que se algomerem e aproveitem o que esse esse estilo oferece.

A matemática é simples. Durante grandes eventos, a seleção de músicos convidados é baseada em suas propostas e no que agregam, justamente pra levantar público e lucro para os organizadores e retorno aos patrocinadores. Salve alguns poucos festivais com propostas um pouco mais amplas, como o Pitchfork Festival – que vamos retomar no decorrer do artigo -, alguns produtores dedicam toda sua liberdade criativa não focando em tocar para multidões, mas em apresentar para milhares de sensações. Sei que generalizar é pecado, mas estou falando a partir de um prisma que se baseia muito no marketing. Sem entrar em questões muito filosóficas, existem sim estilos que cabem mais em iPod do que em festivais, que cabem mais no quarto do que em eventos.

Pecado mesmo é pensar que música Eletrônica é só o que toca nas festas, o que mexe o esqueleto, o que tenta te animar. Nem o Rock, nem o Pop ou Hip Hop se prendem a um estado de espírito. A melancolia pode estar diretamente ligada às batidas (como está há anos) e existe todo um mercado focado nessas pessoas que preferem fazer uma festa dentro de suas próprias cabeças, forrando pensamentos e recheando tudo com muitos sintetizadores arrastados.

Focando agora menos na sinestesia e mais em negócios, assim como tem muita gente que gosta de sair de casa e vivenciar a música ao vivo, tem muita gente que prefere comprar uma faixa para maior qualidade para se ouvir no conforto de casa ou para prestigiar seu artista. O público tem muito mais potencial de compra uma vez que não depende de espaço físico, estrutura de evento, organização, segurança e nem atração. Depende basicamente de alguns cliques. Pensando nisso, existe um estímulo grande de artistas em gêneros chamados “Soft”, seja o Chillout, o Minimal ou até alguns mais animados como Indie, R&B, Eletronica que tem BPMs mais baixos, mas com saída muito alta.

O raciocínio é simples. Enquanto no Electrohouse, Hip Hop, Trap, EDM, R&B, muito se envolve com a música comercial, com o hit por si só, a música vai para a rádio, viraliza na internet, muitos ouvidos aprovam e daí começa a caça pelas faixas. Esse tipo de prática mudou completamente o cenário da indústria fonográfica, em uma época em que se comercializavam muitos CDs, passou-se a se interessar por pequenos pedaços da obra. Sem botar a pirataria na discussão (que dá margem para uma série de outros assuntos), isso deu início a uma infidelização do fã em relação à própria música, ao trabalho do artista. Com as músicas Soft, como não há essa disseminação comercial (por ser um “lado-b” da música), a concentração desse estilo vai muito para grupos de discussão, blogs especializados, então achar alguma faixa ou artista vira caça ao tesouro. Essa dificuldade por achar algo que não seja mastigado e que necessita de um empenho maior, gera uma fidelidade maior do fã ao produtor, de valorização da sua obra, então há mais números de pessoas atrás de álbuns inteiros e de seus próximos dos próximos trabalhos.

Eu não posso focar aqui somente em melancolia. A música Eletrônica, na maioria dos seus estilos, têm seu lado-B. A parte underground de cada um é composta com aquele lado em que não se mastigou para entregar ao público, que não amassou as referências e entregou na bandeja. Geralmente, essas músicas não estouram também, mas, em contrapartida, não têm compromisso com agradar ninguém. Podem seguir o fluxo criativo do artista trazendo consigo faixas longas ou até conceituais para um trabalho que busca originalidade ao invés de disseminação. O público que consome esse produto aqui é menor, claro, mas também se mostra muito mais fiel do que o outro, dá mais valor ao processo de criação e ao artista. É aí em que o Pitchfork Festival se encontra. O evento, original de Chicago e hoje com filial em Paris, é conhecido por trazer nomes grandes da “nova cena musical” dos gêneros “híbridos” atuais (que o site adora resenhar e apoiar) e dá suporte botando diante de milhares de pessoas em um parque muito aconchegante. Quem é ligado em música tem o evento como um destino certo, principalmente pela experiência que o festival proporciona e que já tratamos aqui nas vezes que resenhamos. Vários artistas talentosíssimos do Rock alternativo ao Eletrônico Experimental, sem necessidade direta com barulho ou senso-comum de grandes festivais, vendendo uma oportunidade única de misturar a oportunidade de entrar em contato com o melhor e mais novo da música, com as pessoas mais antenadas e apaixonadas por músicas, por um lugar que inspira a música.

Sei que chega a ser incoerente diante de tudo o que foi dito anteriormente. Ainda bem. O Pitchfork Festival é um dos cases de marketing de eventos mais bem sucedidos do mundo justamente por sua fórmula inovadora, que vem desde a estratégia de um bom lugar (de acordo com sua proposta inicial) até a escolha de seus artistas e suas bancas comerciais no festival (seguindo preços acessíveis e opções variadas). E prova, acima de tudo, que é possível vangloriar o lado-b e que tem público para esse segmento. Afinal, o mundo da música não é feito somente do que é imposto pela rádio e ninguém é refém pelos gurus da indústria. Você consegue ver shows das bandas que mais gosta por sites de streaming ou ir atrás de suas obras raras e escondidas na profunda internet. Sendo lado-A ou B, não importa. O que importa é que você tem liberdade de cortar as cordas de marionete e seguir a linha que seus ouvidos acham mais confortáveis a qualquer momento. A Internet te espera.

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Autor:

Publicitário que não sabe o que consome mais: música, jornalismo ou Burger King