Na batida de Sango

O produtor de Seattle acaba de lançar a quarta parte de “Da Rocinha”, que destila a energia dos bailes Funk e conta com participações de Jé Santiago, niLL, VHOOR e Luccas Carlos; conversamos com ele sobre inspirações e o amor pelo Brasil

 1,165 total views

Fotos: Divulgação

À primeira audição, a musicalidade presente na série de discos Da Rocinha soa como se tivesse saída diretamente do Rio de Janeiro. Mas a mente criativa por trás do projeto é a de Sango, produtor americano radicado em Seattle, no estado de Washington.

Com 28 anos de idade, Kai Asa Savon Wright é um dos nomes mais palpitantes – ainda que discreto – da atual indústria fonográfica, principalmente quando o assunto é música brasileira. Inspirado pela energia presente nos bailes Funk cariocas e amparado por uma pesquisa que viaja por Soul, R&B e do Techno, Sango lançou, ao longo de seis anos, três discos de estúdio que iluminam as vozes da cena nacional e enaltecem a cultura brasileira.

No mais novo registro, Da Rocinha 4, lançado na última sexta-feira (25/09), ele recrutou artistas que vêm incrementando o Rap e o Grime nacional, entre eles: niLL, JXNV$, Jé Santiago, Luccas Carlos, Jao, VHOOR e SD9. A quarta parte do projeto chega cinco anos depois da última edição, pela gravadora Soulection. “Eu fiz vários testes para saber se as pessoas estavam gostando ou não. Agora eu sinto que elas estão prontas para ouvir o que eu realmente quero fazer”, explica o produtor em entrevista ao Monkeybuzz. Durante o intervalo entre os discos, Sango apareceu nos créditos de projetos de Tinashe, Kehlani, Kaytranada e Bryson Tiller, e se aventurouem remixes de músicas de Drake, Frank Ocean, James Blake e Justin Timberlake.

Além da série Da Rocinha, Sango soltou outros trabalhos de destaque na carreira solo, como Hours Spent Loving You (2016), De Mim, Para Você (2017), In The Comfort Of (2018), Moments Spent Loving You (2019), Grove (2019), SANGOZINHO (2020). Todos os lançamentos foram concebidos sob as asas do Soulection, selo/coletivo musical criativo – também encabeçado pelo produtor –fundado em 2011.

Versátil e inquieto, Sango chama a atenção e angaria cada vez mais admiradores não apenas pela gama de artistas e projetos com os quais contribui, mas por saber sintonizar a frequência da cultura/cena que deseja ecoar. Essa habilidade se reflete nas batidas das próprias produções, sejam elas do Techno, Soul ou R&B.

Com a música brasileira, o processo não foi diferente. “Sempre amei o Brasil, assim como tantos outros produtores, mas é importante ir ao país e aprender sobre ele”. O primeiro contato do artista com o Funk brasileiro foi online, durante uma fase do jogo Call of Duty, chamada de “Favela”. A curiosidade pelo ritmo foi ampliada pelo amigo e produtor Alisson “Kojack” Lopes, que conheceu pelo Twitter e lhe apresentou os primeiros funks. Os registros, inclusive, viraram sample da primeira parte da trilogia Da Rocinha 2, como “Passinho do Volante”, de MC Federado e os Lelek’s, “Quero te Dar”, da Gaiola das Popuzadas, e “Sento Rebolando Chamando Teu Nome”, de MC Pocahontas. Depois disso, tornou-se parte do público fiel de sets de DJs e MCs presentes no SoundCloud.

“Muitos chegam a dizer que sou praticamente brasileiro, porque eles percebem que eu não vou ao país para pegar o som e fugir com ele. Eu estou contribuindo com a música como americano e me certifico de que estou contando à América sobre o Funk do Brasil”

Você pode ter várias conexões na internet, mas elas serão limitadas em um determinado ponto”, explica. Com isso, programou a vinda ao Brasil em 2016 e se conectou com produtores e artistas brasileiros, entre eles Carlos do Complexo, MC Delano, DKVPZE, e, tempo depois, Luccas Carlos, JXNV$ (além de outros nomes por trás do Bloco 7, como BK’), SD9 e VHOOR. A sintonia entre eles foi imediata. “Muitos chegam a dizer que sou praticamente brasileiro, porque eles percebem que eu não vou ao país para pegar o som e fugir com ele. Eu estou contribuindo com a música como americano e me certifico de que estou contando à América sobre o Funk do Brasil”.

Em “Kalimba Funk”, por exemplo, Sango introduz o sample de “Kika uma Vez, Kika de Novo”, de Mc Jotinha, MC PR, DJ BL, lançada em 2019. O produtor conta que conheceu a música pelo canal da Kondzilla, no qual acompanha os lançamentos brasileiros. Em “Dia e Noite”, parceria com o Mano R7 & DJ 2L Da Rocinha, ele engata um Funk 150 BPM, ritmo que dominou o gênero nos últimos três anos, enquanto em “Lanso a Braba”, JXNV$ anuncia a marca registrada dos integrantes do Bloco 7, com o ad-lib “Fé, fé, fé”.

Por outro lado, para estreitar a relação entre as nacionalidades, Sango se debruçou no Techno da cidade em que nasceu, Detroit. Nas faixas “Cangaíba to 7 Mile” e “Rocinha to King Drive”, esse mergulho fica evidente. “Enquanto fazia o disco, ouvi muito o J Dilla e as produções dele. Faz parte do meu DNA, quando ouço, sinto que sou eu. É o que acontece quando as pessoas ouvem o Funk no Brasil”.

Idealizado inicialmente no Brasil, durante uma visita a amigos e idas a estúdios em 2019, as 14 faixas de Da Rocinha 4 foram envelopadas pela estética de uma estação de rádio online — linguagem comum na cena de música eletrônica e do Grime —, em meio a batidas fortes de Techno, de Samba, Soul e, principalmente, Funk. Embora esses elementos já tenham sido apresentados nos projetos anteriores, a terceira parte soa ainda mais azeitada e impulsiona artistas já em ascensão no país. “Eu queria fazer algo que ninguém estava fazendo, sabe? Fazer House Music, mas ser Funk. Fazer Techno, mas ser Funk”.

Ao dar um passo para trás e refletir sobre a própria trajetória, Sango pontua: “Minha música mudou, mas minhas ideias sempre foram as mesmas”. A fala vem logo após explicar sobre a necessidade que sempre sentiu de conectar as pessoas com a música. “No final, é sobre fazer música e fazê-las com outros artistas negros para movimentarmos a nossa cultura”.

 1,166 total views

ARTISTA: Sango