Na encruzilhada, para sempre

Na nossa COVER STORY, BNegão fala sobre a volta do Planet Hemp, o recente caso de censura, o legado do PT, o Brasil de Bolsonaro (e Moro) e o problema do “guarda da esquina”

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Fotos: Lucas Repullo/Monkeybuzz

BNegão chegou para apresentar seu set munido de um saquinho com 6 pendrives. “Não sou DJ”, deixa claro o release do projeto BNegão Bota o Som, que, segundo ele, tem a missão de servir como “terapia dançante” para quem está na pista. “A discotecagem tem que fazer o que a rádio não faz”, defende.

Indo do Rap ao Samba, do Drum N’ Bass ao Arrocha, o set encarna a variedade que construiu o imaginário musical de BNegão. E o desejo de explorar essa variedade é o motivo pelo qual, em 2020, ele irá se afastar do Seletores de Frequência, com quem já lançou três discos e faz show há quase 20 anos. Mas, que fique claro: não é para fazer menos, é para fazer mais. A musicalidade inquieta, que despertou no Punk brasileiro dos anos 1980 e, hoje, rende até um show de releituras de Dorival Caymmi, está em sintonia com sua postura política. Na verdade, os dois universos, para o carioca, parecem indissociáveis. 

Basta falar de música, para que o assunto caia em política. E basta falar de política, para que o assunto caia em música. No dia seguinte ao set, em meio à volta do Planet Hemp, a um recente caso de censura e ao Brasil de Bolsonaro, BNegão falou sobre música e política e música & política. Claro – entre um gole e outro de suco detox –, com a calma de sempre.

Como foi essa decisão de pausar o Seletores?

Vamos pausar em junho do ano que vem, depois da turnê de encerramento. Tem um monte de coisa que eu quero fazer, com outros sons e que não cabem ali na dinâmica de banda. Mas tá tudo tranquilo, todo mundo é amigo, a gente se fala todo dia. Até “Injustiça”, a primeira música que eu vou lançar nessa fase solo, já tem participação de dois do Seletores. O Robson, baterista, especialista de Ska, e o Nobru, que é o baixista do Seletores e guitarrista do Planet. O som é um Rock Steady que eu tinha lançado com o Firebug e ficou num limbo underground. E é uma das letras que eu mais gosto e decidi regravar, mudei o tom e coloquei ela mais pra frente. E a letra, mesmo feita antes, é daquelas que não perdem validade e tem tudo a ver com o Brasil.

Reflete esse momento de agora em especial?

É inspirado no Brasil. Eu vi uma entrevista do Kleber Mendonça Filho e me identifiquei bastante, porque rola direto comigo. Ele falou sobre isso, de muita gente ficar falando de “profeta”, de artista que faz premonição do Brasil. E na verdade, é saber ler o Brasil, a situação. O que eu falo é o que acontece o tempo todo, em ciclos. A gente tá andando em círculos. Infelizmente ainda tá valendo. Porque a gente nunca resolve as coisas, só finge que resolve. O PT até pareceu estar resolvendo um monte de coisa, mas muitas coisas tinha que ter metido bronca mais profundamente. Os caras estiveram 12 anos no poder, deu uma mexidinha aqui, outra ali. Mas foi dar um soprão e acabou tudo. Não pode. Quando a parada é profunda, não é um soprão que faz acabar.

De que maneira você enxerga o legado do PT?

Eu nunca achei que tava bom. Eu costumo falar que fiquei feliz 10 minutos quando o Lula ganhou. Foi tipo “êêêê… Pô, pera aí? É isso mesmo? Mas esse Vice aí? E essa carta ao povo brasileiro?”. A carta ao povo brasileiro foi a carta aos bancos brasileiros. É basicamente “banco, elites, fiquem tranquilos que eu não vou mexer com vocês não, vou ficar fazendo outras coisas aqui”. E tinha que ter mexido. O clássico do Brasil é a péssima distribuição de renda, que massacra o povo e faz toda a merda acontecer. E isso não foi mexido. Teve um monte de coisa foda e eu reconheço todas elas. Bolsa família foi fundamental. Mas o profundão? Não rolou. E também não precisava de Copa do Mundo, de Olimpíadas. Antes da Copa, a Dilma tinha uma aprovação muito maior. Daria para tocar a reforma da previdência, a reforma política e avançar. 2013 começou com isso: um pedido para avançar. Não ficar fazendo acordinho para manter tudo estável. Acabou que teve uma disputa. A direita, a princípio, se apavorou com as manifestações de 2013 e, depois, a Globo achou que seria uma boa pegar isso para ela. E falaram: essa manifestação é contra o governo. Acabou que, no jargão que se usa, os caras disputaram a rua, e ganharam. A gente tá sofrendo essa parada até agora. O golpe em cima do golpe em cima do golpe. 

Você vê, então, que a eleição do Bolsonaro tem grande influência das manifestações de 2013?

Por essa disputa, deu nisso. Teve a parte que tava querendo avanços do governo e não só não teve avanços, como teve retrocesso. Nem a direita queria o Bolsonaro na parada. Mas foi o que pintou, nego abraçou e é essa parada inacreditável. Um cara que não pode nem ser síndico do condomínio de milícia dele. E que é estimulado pelo antipetismo. Os caras conseguiram fazer uma campanha ridícula 24h antipetista. Na época, lá em 2014, era uma campanha tão pesada, que eu lembro que o meu amigo DJ Castro, mesmo sendo anarquista, que odeia partidos e tal, me falou e eu concordei: dava vontade de colocar uma camisa do PT, sair na rua e ficar encarando todo mundo. Era e é uma coisa tosca. E hoje a gente vive um momento muito complicado energeticamente falando.

A graça na discotecagem é fazer uma pessoa dançar muito ao som de uma música que ela não conhece. E sair de lá sabendo mais do que quando entrou, porque a discotecagem tem que fazer o que a rádio tinha que fazer e não faz. É um caráter informativo também.

Bate um desânimo geral?

O desânimo existe, mas eu me recuso. Não faz parte da minha personalidade. Todas as paradas que eu fiz até hoje são com o intuito de dar uma porrada nesse desânimo, uma bombada de energia. A discotecagem, que é terapia dançante, tem que ser uma parada transcendental de sair com a energia pronta para as batalhas. E no caso das bandas, com as letras, as paradas são feitas para dar um choque nos peitos tanto no público quanto em mim.

Falando nisso, ontem, durante o seu set, o público puxou um grito contra o Bolsonaro e você gritou junto. Depois, você puxou um contra o Sérgio Moro, que a galera também gritou junto. Como você vê o esforço de desconstrução da figura do Moro? 

Infelizmente o que aconteceu foi o seguinte: no final, como a gente vive numa sociedade capitalista, tudo é grana. Voltando à boa aprovação da Dilma antes da Copa. Na época, os meios de comunicação gigantes, que são feitos para ter a opinião do patrão, sempre milionários, estavam ainda mais empenhados na parte política. É errado falar que o jornal é vendido. Porque o jornal já é dos caras. Então, eles tão vendo o lado deles. Aí rola a falta de honestidade de assumir. Sempre rolou esse tipo de campanha, mas, no início, durante esse período, seguraram a bronca. Aí o povo começou a ficar sem grana, veio Copa, aprovação caindo. E os meios de comunicação enfiaram na cabeça das pessoas, entre o futebol e a novela, que são amigos do povo. E o Moro foi construído por Globo, Veja. A Veja agora tá “voltando”, mas porque os jornalistas tomaram conta e fizeram um “a nave é nossa”. Não mudou porque teve um “despertar”. É porque mudou a galera lá dentro. 

Pensando na população, você acredita nesse despertar?

Nego tá num momento agora muito hipnotizado, muita gente ainda do povão acredita que o Moro super-herói. O que acontece é que os caras pegaram uma demanda popular eterna: político corrupto preso. Mas daí ninguém vê a seletividade, não vê nada. E basicamente ele só prendeu quem estava no círculo do Lula, mesmo os caras do PMDB. Que, aliás é outra coisa que eu nunca suportei durante o governo do PT. Uma coisa é você chegar e falar: a política no Brasil é assim, alianças são feitas. Mas um tem que se manter aqui e o outro ali. Os caras ficaram tipo “Você aqui, meu irmão! Vem cá, dá um abraço, vamo fazer um churrasco”. E dá nisso. O Cunha foi isso, o PT colocou lá. O cara é ladrão desde sempre, quem não sabia? Cunha… o Rio de janeiro que criou essa merda toda… O Bolsonaro…

E o Witzel?

O Witzel é pior ainda do que o Bolsonaro. Bolsonaro é burro pra caralho, o Witzel não é burro pra caralho. Aí é mais problema ainda.

Você se surpreendeu com a eleição do Witzel?

Não é surpreendente, porque ele usou o mesmo mecanismo, de WhatsApp e fake news. O Witzel tava com zero % e disparou. Tendo apoio da massa dos crentes da Universal, do Malafaia, do RR Soares. E aí foi. E também teve esse lance de o cara saber falar o que a pessoa queriam ouvir, para responder “é isso aí”. O clima da galera é de que estavam fazendo uma aliança para livrar o Brasil do PT. Os caras fizeram a parada perfeita. Uma campanha publicitária bizarra, em um esquema meio que imbatível. Fez o Trump, fez o Brexit e fez o Bolsonaro. No Brexit agora, neguinho acordou. Mas, aqui, os caras ainda tão achando que fizeram a revolução com Moro, Bolsonaro. E eles acham que isso é despertar. Então, fodeu. Mas eu sempre fui contra tudo e contra todos. Tô acostumado nesse cenário. Se não der para mudar, eu quero incomodar. Se eu for um grão de areia, vou ser um grão de areia lá no olho do gigante. E eu vou continuar fazendo as minhas coisas no meu microcosmo. 

Eu não gosto da palavra “eclético”. Eu sou um cara que gosta de música profundamente. Um amante da música, ponto.

Para esse momento, na arte, como se pode pensar em estratégias? É mais de leve ou é porrada?

Essa música, “Injustiça”, é meio o que eu tenho pensado sobre isso. Não consigo não fazer música porrada, tá em mim. Mas essa é uma música redondinha, leve e ao mesmo tempo com a letra porradona. Não é uma coisa só para iniciados, pode chegar na vovó e trazer gente para um tipo de pensamento. A ideia para esse retorno solo é seguir essa linha.

Vai ser com beat, com banda?

Vai ser o que eu tiver na pilha. Tem beat, banda, misturado. Vai ter Rock Steady, versão de Ratos de Porão, música eletrônica, Arrocha carioca, 150BPM porradão, por aí vai… Esse conceito de várias coisas, de tudo ao mesmo tempo agora, me acompanha desde sempre. Gosto de muitas coisas muito diferentes. Na época que comecei a ter banda de som pesado, ouvia mais jazz e blues que qualquer outra coisa. Eu preciso me expressar do jeito que eu quiser me expressar. Isso é uma coisa que me influenciou a finalizar a banda. Com os Seletores, tem que ter o consenso, e eu quero pensar e fazer. Essa parada me dá insônia, se eu não colocar para fora.

É tanta coisa junta, que você tem um show cantando Dorival Caymmi…

Esse sou eu. Fui atingido pelo disco Caymmi e Seu Violão (1959), quando tinha uns 15 anos de idade. Sem bula, sem nada. Peguei o disco num sebo e, por sorte, com esse eu fiz o que faço sempre com um disco especial: coloquei o disco para tocar na vitrola, quarto vazio – o mesmo quarto até hoje – desliguei a luz, entardecer e fiquei ouvindo. Esse disco me trouxe sensações que eu nunca tive com nenhum. Foi um disco de “antes e depois”, da mesma forma que discos de Punk, como o Inocentes, o Dead Kennedys, ou de Rap, como Racionais ou Public Enemy.

E essa paixão virou um show?

A minha ideia era transmitir o que senti quando ouvi e todo show me arrepia. Mas ele só aconteceu porque fui basicamente empurrado, que nem quando eu era moleque e tinha que aprender a nadar e ficava na borda da piscina. O professor no Maracanãzinho só me jogou no meio da piscina e aí finalmente aprendi a nadar. E, no caso do show, foi o Devanilson, que não está mais entre a gente, programador do SESC Pompeia, que ficou falando “vamo marcar esse show, vamo marcar esse show”, aí no fim ele marcou. Nos ensaios, eu falava para desencanar disso, achava grande demais. Aí marcaram, não tinha mais o que fazer e eu me joguei. Lembro da estreia, eu sozinho no camarim, ouvindo o barulho da plateia e pensando: “será que isso foi uma boa ideia? ”. E já ouvi a campainha para entrar e não tinha mais jeito. Cada música foi uma vitória. Agora tô tranquilão, mas é o show mais complicado que já fiz, porque voz e violão não tem caô. E ainda fazendo Dorival Caymmi, que é um dos maiores. É tão profundo, que eu me recusei e me recuso a ficar preso num estilo. Normalmente, é isso que me chama na música. É o ritmo também, mas é a profundidade. 

E para ser tão eclético…

Então, eu não gosto dessa palavra. Eu sou um cara que gosta de música profundamente. Um amante da música, ponto. É que eclético soa meio superficial, tipo “vou pegar aquele negócio ali e colocar na minha música, porque os artistas têm usado” e não é a minha onda. Eu fico bolado quando nego fala que eu sou pesquisador. Eu vivo aquilo ali. Não é pesquisa, é vivência. Eu não tô ali só na parte mental, é bem mais sensorial.

Como então é o mapeamento das suas influências?

Eu sempre tive interesse por música, a vida inteira. Enchia o saco dos meus pais para ir aos shows, aí vi Blitz, Barão Vermelho, ainda molequinho. Ouvia muito rádio desde sempre. Quando eu jogava botão comigo mesmo, o tempo do jogo era 5 músicas. E teve a Rádio Fluminense, que mudou a vida de muita gente. Me mostrou muita coisa e me instigou a procurar, porque a programação tocava de Suicidal Tendencies a Arrigo Barnabé, Thaíde a Itamar Assumpção. Aí fui que fui. Descolando disco, indo em show no Circo Voador. Eu ganhava ingresso ligando na rádio. Nos anos 1990, começou aquele papo de “fim do vinil”, eu já tava meio perto dos 20 anos e começaram a se desfazer de vinis. Minha coleção cresceu principalmente na hora que o CD chegou. A galera falava “o vinil morreu” e eu falava “deixa morrer aqui em casa”. Muita coisa eu tive o primeiro contato no vinil. 

Se não der para mudar, eu quero incomodar. Se eu for um grão de areia, vou ser um grão de areia lá no olho do gigante.

Hoje como você ouve música?

Eu sou streaming total. Dei uma segurada no vinil, porque a parada chegou num nível tão bizarro de vício, que eu tava deixando uma grana que nem tinha. Às vezes eu vou em sebo, loja, e nem fico olhando os vinis, para não cair na tentação, que nem quem parou de beber e não pode ir para o bar. Se for um das antigas, eu descolo. Mas, se eu for abduzido por uma loja, fodeu. Eu tento não ser (risos).

Acompanha as novidades?

Não fuço tanto quanto eu gostaria, mas as coisas acabam chegando. Gosto muito do momento atual da música brasileira. Uma pena que isso não tenha reflexo de forma grande para população, porque nego tá perdendo muita música boa. Tem muita coisa que já até considero velha, o Monkeybuzz provavelmente também (risos) e muita gente também, mas que o grande público não conhece. Tipo BaianaSystem, Bixiga 70, Orquestra Nômade, Senzala Hi-Tech, AfterClap, ÀTTØØXXÁ, Vandal. O Baco eu acho foda, o Djonga é absurdo. E uma coisa no meio do caminho, que faz o comercial e faz o underground e que eu acho foda pra caralho é o Tropkillaz. Curumin, Anelis, muita coisa. Memória jamaicana, né? Na hora que pergunta, some tudo. Mas o momento da música brasileira é excelente mesmo. Com a tecnologia, fazer música ficou mais barato. Então, além de chegar mais, os artistas conseguem fazer mais.  

Você é ligado em artistas novos internacionais?

Eu ouço mais brasileira em geral. Internacional eu ouço coisa mais antiga. Apesar de eu ter influência brutal de música norte-americana e jamaicana, quanto mais rolam essas tretas políticas aqui do Brasil, mais eu tenho vontade de ouvir música daqui. Tanto que, por exemplo, quando vou discotecar 4 horas, eu curto fazer as 2 horas iniciais sempre só de música brasileira. Depois dou uma mesclada. O normal é tocar música brasileira que tá acontecendo agora. E é porque anda muito boa mesmo, porque a produção é foda. Não é forçar a parada. Aproveito para apresentar coisas. Eu costumo dizer que a graça na discotecagem é fazer uma pessoa dançar muito ao som de uma música que ela não conhece. E sair de lá sabendo mais do que quando entrou, porque a discotecagem tem que fazer o que a rádio tinha que fazer e não faz. É um caráter informativo também. Eu comecei a fazer discotecagem quando o Planet foi preso.

Você não tava, né?

Não tava. Graças a Deus e ao Funk Fuckers, que tinha um show marcado na periferia do Rio, onde não tinha nem P.A. Show lotado, o público achando que a gente que não queria tocar. Fiquei puto, achando que deveria ter ido viajar com o Planet. E, na época não tinha internet, fui para casa puto. Aí já no outro dia, acordei de ressaca, porque a gente ficou bebendo o dia inteiro esperando o cara do som, liguei a TV e vi a notícia de que o Planet tinha sido preso, mas já tinha sido liberado. Aí pensei: normal. Fui para Volta Redonda numa festa e os caras falavam: “Tá fazendo o que aqui? Tá preso não? ”. Vi que eles tinham sido liberados em um show de BH, mas tinham sido presos de novo e de verdade em Brasília. 

Agora, o Planet vai voltar…

Então, a parada tá rolando geral. Desde 2012, fazendo shows. Público sendo renovado. E finalmente vamos lançar coisa nova. Acabamos de começar. Gravamos as bases em Santo Antônio de Jesus, interior da Bahia, na fazenda de um camarada, onde tem um estúdio. Ficamos lá 10 dias e saímos com 11 músicas.

Com o Black Alien junto também?

Não, o Gustavo não. O Gustavo não tá na parada nem de longe. Isso é uma coisa que a galera pode esquecer.

Nem um feat?

Não tem, ele tem que fazer a parada dele. Eu falo direto, o Gustavo é meu irmão, a gente faz show junto, falei com ele ontem. Tô felizaço com o caminho que ele tá. E no caminho que ele tá seguindo, por conta dessa parada de sobriedade, é outro momento, outra parada. Então, assim, para os fãs: esqueçam, não precisam perguntar “mas e o Gustavo?” (risos). Quem sabe ele participa de um som da minha carreira solo.

Os sons novos do Planet vão vir com que pegada?

A produção foi nossa junto com o Nave Beatz, aí tem umas bases dele e o Mario Caldato deve mixar algumas coisas. As músicas tão bem diferentonas, ainda tamo metendo bronca e vendo qual é, mas vai ter coisa de samba, vai ter peso, vai ter punk rock… não dá para adiantar tanto, mas são músicas diferentes do Planet normal.

Tão pensando nesse disco com algum “deadline”?

Tamo bem no meio do caminho, entre o deadline e o percurso natural, o flow. Eu sou bem a favor do flow (risos). Ainda estamos nessa decisão, se a gente vai correr para lançar esse ano ou no começo do ano que vem

Você e o D2 ficaram um tempão sem conversar. Como foi o reencontro?

A gente ficou anos sem se falar, brigadaço. Não podia nem estar no mesmo lugar, com 2 mil pessoas. Era bem nível “fodeu, o cara chegou, o cara tá aí”. Tinha 2 mil pessoas e dava ruim. E ficou essa parada um bom tempo. Sempre me dei bem com a mulher dele, com a mãe dele, encontrava na rua, cumprimentava e aí surgia o assunto e acabava a conversa (risos). Sempre rolava uma parada clássica com o Marcelo Yuka, que ele chegava para mim e falava “vem cá, Bernardo, quando é que cê vai parar com essa frescura com o Marcelo?”, aí eu falava “quando cê parar com essa frescura com o Falcão”. Aí ele desencanava (risos). Ficou anos nessa. Aí eu tava com o Turbo Trio, em um festival em Brasília. Já tinha dado entrevista boladão falando que tinha saído do Planet. O Marcelo tava no quarto do DJ Nuts, que era no mesmo andar do meu, aí abriu a porta do elevador foi tipo velho oeste. Eu, cansadão, aparece ele. Um olhou para cara do outro e falou “ah mermão, foda-se, vem cá, dá um abraço, acabou isso, tá tudo certo”. Aí rolou a volta, que, a princípio, seria só o show do Circo Voador tocando o Usuário (1996). No fim, continuou e agora a gente tá preparando um álbum de inéditas.

E o D2 atualmente é um dos símbolos contra o governo, bem ativo nas redes…

Ele voltou, graças a deus (risos)

Ele voltou?

Ele voltou.

Quer entrar nessa?

Não, não precisa, mas ele voltou (risos). É que teve um tempo que ele tava pop geral. Quando ensaiamos a volta do Planet, bem lá atrás, eu falava “vai se foder, Bolsonaro. Quem é fã do Bolsonaro não pode curtir Planet”, e a gente discutia sobre isso. Daí rolou essa iluminação dele. Até porque a gente é do Rio e é responsável por essa merda.

Se o Planet surgisse hoje, atingindo o público como atingiu, como seria a repressão?

Ia dar merda. Mas naquela época a gente vivia um período de abertura. A parada tava andando. Eu costumo dizer que nunca senti o Brasil numa democracia, sempre me senti num limbo. A gente sempre tá entre a democracia e o regresso. Naquela época, a gente andava em direção à democracia, agora estamos andando no sentido oposto. Cada época tem uma conjuntura diferente e aquela época coincidiu com o Planet estar gigante. Nosso projeto era só gravar uma fita demo. Ninguém esperava que fosse dar no que deu. A conjuntura política da época, toda a turma musical que surgiu, foi no momento certo da geração. Não dá para fazer apostas de como seria hoje em dia, porque a conjuntura é outra. 

Em relação à opressão, quais são as diferenças entre as conjunturas?

Tem uma frase clássica da época da ditadura militar que é “eu não fico tão preocupado assim preocupado com os generais, o problema é o guarda da esquina”. O que aconteceu com a gente em julho, em Bonito (MS), foi reflexo disso. Os caras que já são sanguinários, bizarros e escrotos e ficam ainda mais imponderáveis. Se sentem no momento deles. Porque, se por acaso chegar na estância mais sinistra, os caras vão tá a favor deles. E isso que é o perigo.

O que aconteceu em Bonito?

Foi o guarda da esquina. No caso, um guardão, porque a gente descobriu depois que o cara era tipo xerife da cidade, o rambo do bagulho. Esse cara tinha comandado uma ação policial numa oficina de skate. Foram para cima dos moleques, tocando o terror. Foram exercitar a barbárie deles. Prenderam a mulher que era responsável pela oficina e um grafiteiro/professor que viu tudo e foi interceder. Isso dois dias antes do festival. Eles passaram uma noite na delegacia, sofrendo violência física e psicológica, e, no dia do show, esse professor tava na passagem de som, ainda inchado. Ele contou a história. Na hora do show, já depois de ter falado sobre Bolsonaro, Moro, sobre a morte do Cacique no Amapá, comecei a falar dessa história. E isso foi a gota d’água. Duas músicas depois, pediram para parar e falaram que o show tinha que acabar às 3h, e a organização já tinha falado que eu tinha tempo liberado. Tavam contando que a gente fosse peitar, porque eles falaram “se não acabar as três, vai ter que ter uso da força policial”. Ia dar uma merda fodida, tinha 3 mil pessoas. Eu falei para o público que a polícia tinha ido ali, mandado parar e que a gente só ia tocar mais duas músicas. Foi “Qual É o Seu Nome?”, que fala sobre violência policial, e “Dança do Patinho”, para mandar o Bolsonaro e o Sergio Moro tomarem no cu. E acabou o show. A polícia fez a dispersão do show empurrando geral, usando gás de pimenta. Eles já tavam a fim de fazer merda. Só que se a gente continuasse tocando, ia ser muito pior.

Teve peso você já ter falado do Bolsonaro, do Moro?

A gente fala sempre nominalmente. Estilo Punk anos 1980: Bolsonaro e Sergio Moro são canalhas. E depois ainda falamos do caso regional, aí vem essa intimidação na base da porrada com aquele pensamento de “esses caras também mandaram o capitão tomar no cu, agora vamo foder com esses caras”.

Você sente que a opinião pública, no geral, reage como ao contexto geral brasileiro?

As pessoas estão na Dança do Patinho. Por exemplo, o debate da reforma da previdência. Eu sou um cara que não tem nada a ver com isso, não vou usufruir disso, nem contribuo. Aí, eu, que não tenho nada a ver com isso, fico discutindo, tendo embates bizarros e violentos com um monte de gente, fazendo um barulho do caralho e a pessoa que precisa da parada basicamente tá falando “não enche meu saco, deixa o capitão trabalhar”. O que me deixa tranquilo é que eu consigo ter esse debate sem me aprofundar emocionalmente nisso. Sou um soldado imparável.

E o que fazer?

Continuar fazendo. E entender, parar para pensar. Uso de inteligência no nível máximo, estratégia no nível máximo. É como se a gente tivesse vivido até agora no colegial, fazendo prova para vestibular e no momento tamo fazendo prova de doutorado. Tem que usar tudo que aprendeu até hoje, em todos os sentidos. Inclusive, para não desanimar. O que você não sabe, aprenda. O que pode salvar é basicamente amor, criatividade, inteligência… tudo o que esses caras odeiam. E a própria estratégia de combate. Ir para rua é importante também, rola bonito, mas o mais importante é tentar entender o que tá acontecendo, porque é diferente de outras coisas. Não é 1984, do Orwell. Vai além. E tem que ter convocação de hackers de primeira qualidade.

O que você tá achando da vaza jato, do Intercept?

Eles tão falando coisas que a gente já sabia, agora com provas cabais. Só não via quem não queria.

O Paulo Leminski dizia que só existe um segredo: tudo está na cara…

Exatamente, e o cara é de Curitiba. E Curitiba, para mim, é isso. É 351, um lugar que eu amo. É Leminski. Como bom detonador de clichês, não associo Curitiba com esses merdas.

Nessa luta atual, você sente a esquerda rachada?

Não existe só esquerda. O anarquismo nunca é levado e consideração. Eu conto muito com os anarquistas. Meu coração é metade e metade. A metade pragmática é a esquerda, e a metade lúdica, do amor, é anarquista. 

Outro termo então: a oposição está rachada?

A oposição sempre foi rachada. A diferença é que agora a direita também tá rachada. É a extrema-direita, os caras são burrões e se racham entre si. Isso pode ser a diferença para gente agora. E quando eles brigam, não é “que se foda”, é “que briguem mais”. São idiotas na sede de poder e isso pode ser fundamental no meio dessa confusão, misturado com a nossa ação inteligente. O dia a dia é fundamental. E mais do que ser contra uma coisa, se organizar para ser a favor. Eu acredito na revolução pessoal, de tentar ser melhor do que era ontem e não estagnar. Para as pessoas a sua volta, para o seu bairro, a sua cidade. E outra coisa. Lógico, dá raiva ver gente próxima, da família, que votou no Bolsonaro. Mas temos que ver quem tá de bobeira e chamar para conversar. A mesma coisa que as pessoas fizeram no vira voto. Se a gente tivesse mais três semanas, talvez desse resultado. Talvez. O vira voto tem que ser eterno, tanto que o Bolsonaro parece que tá em campanha até hoje. Ele continua idiota igual. Nem vereador deveria ser. Que dirá presidente. 

Nem dono de banca de jornal…

Nem dono de banca. Ele ia abrir um ponto da milícia na banca. E você pode ter certeza, das pessoas que votaram no Bolsonaro, lógico tem os 30% homofóbico, fascista escroto, nazi, racista. Mas os outros 70% são voadores, achando que tão fazendo revolução. E essa é a galera que a gente tem que “trazer de volta”, com a mesma energia da época da eleição. 

Se não, fica pregação para convertido?

Isso. Até, de uns tempos pra cá, eu pensei em dar um tempinho de xingar o Bolsonaro. Foi que nem o lance do Fora Temer. Já gritei um monte de vezes. Mas rolou uma época em que você não podia fazer nada, sem gritar “fora Temer”. Você vive a vida inteira para politizar a vida das pessoas, canta isso o show inteiro. E aí você não grita “Fora Bolsonaro” e a galera acha que você não é politizado. (risos). A parada básica não é convencer as pessoas de que as suas ideias são as certas. É mostrar o que tá acontecendo com o país e o que vai acontecer com ela. Ponto. No momento que a gente se encontra grande fronteira entre civilização e barbárie, é preciso saber que a responsabilidade é nossa. Esse eterno vira voto. 

Você parece ter muita paciência e calma para debater sobre política…

A parte espiritual para mim é fundamental, não tem como só ver o mundo material. É importante para poder ter força de trabalhar a favor do que você acredita. Eu tive a época de ser muito “do contra” violentamente. E você gasta uma energia ali que acaba entrando para seara do ódio, da raiva. Faço questão de afastar isso. A coisa começa a te corroer. Você pensando de forma amorosa, mesmo se posicionando e lutando, é só benefício e a coisa vai muito mais longe, você não se quebra no caminho. O ódio é uma energia vampiresca e é parente do medo. A gente tá onde tá por causa do medo, que elegeu Bolsonaro, Trump. A política do medo é mais velha do que andar pra frente. 

E a sua fé tá onde entre as figuras políticas do Brasil?

Eu boto fé no Freixo, na Sâmia Bonfim, no Jean Wyllys, mas nem por isso sou Psolista. E um cara que parte da esquerda odeia, mas eu gosto, é o Ciro. Ele faz um contraponto em alto nível. Mas não votei nele, porque ele colocou a Kátia Abreu de vice, aí ficou difícil.

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ARTISTA: BNegão