Na trilha de Fabiano do Nascimento

“Peixe fora d’água em Los Angeles”, o músico, após se despedir do Rio há quase 20 anos, gravou ao lado de Airto Moreira, dividiu palcos com Hermeto Pascoal e Arthur Verocai e foi parar na série Tiny Desk Concert – e nas pesquisas de samples de Madlib

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Fotos: Bob Flowers

Desde o início de julho de 2020, quando o vídeo de sua apresentação foi publicado no canal da NPR Music, Fabiano do Nascimento passou a integrar o time de artistas brasileiros que participaram da célebre série Tiny Desk Concert – ele se junta a Rodrigo Amarante, Liniker e os Caramelows, Danilo Brito, Jovino Santos Neto Trio e Luisa Maita. Feita em casa e de tela dividida com outros músicos, a performance do violonista é descrita pela rádio de Washington como “hipnótica e transcendental, uma amálgama de Afro-Brazilian jazz, folclore, bossa-nova e samba”. Pouco tempo antes, especificamente no dia 3 de março, Madlib, um dos produtores mais quentes e habilidosos do Hip Hop – cujo extenso catálogo de colaborações vai de Kanye West a MF Doom, passando por Erykah Badu e Freddie Gibbs –, tuitou que trabalhava naquele momento com “a música de Fabiano” – seguido de um emoji de “foguinho”. (O post, posteriormente, foi excluído – mas nós temos o print. De fato, não é muito comum beatmakers entregarem o ouro de suas produções por aí). O carioca e seu violão mágico têm tudo para caírem nas graças de sampleadores à procura de uma harmonia poderosa – como acontece com Arthur Verocai, com quem Fabiano já dividiu palco. Hermeto Paschoal e Airto Moreira são outros veteranos que pegaram emprestados os acordes dos violões de Fabiano em estúdios e apresentações ao vivo por aí. Mas, afinal, quem é Fabiano do Nascimento?

Durante a infância no Rio de Janeiro, Fabiano, que já tocava violão, viveu em um ambiente inundado pela música brasileira, principalmente por conta do tio, o músico Lucio Nascimento. “Eu cresci ouvindo Leny Andrade, meu tio tocava com ela. Eles ensaiavam na sala, na casa da minha avó. E eu tinha um outro tio que tocava bandolim num grupo de choro. Desde pequeno, era Choro, MPB, bossa nova”, relembra. Após morar um tempo em São Paulo, Fabiano se mudou para Los Angeles no final da década de 1990, para morar com a mãe. Até que ele retorna ao Brasil, quase maior de idade, e vai morar com o tio. O breve retorno, entre tantas mudanças, foi decisivo. “Aquela mudança de largar todos os amigos no Brasil foi super abrupta e radical e eu não gostei. Primeiro ano morando aqui [em Los Angeles], eu não tava curtindo. Fiquei numa deprê. E meu tio falou: ‘Fabiano, por que você não volta e vamos entrar de cabeça na música?’ Aí fiquei com o meu tio um ano e fiquei sem ir para a escola, só estudando violão direto”.

À época, Fabiano já praticava violão erudito brasileiro e estudava (e também tirava de ouvido) muitas peças de Villa-Lobos, Dilermando Reis e João Permambuco. “Também rolava muita bossa-nova, Tom Jobim. Meu tio tinha me dado Songbooks, sabe? Do Almir Chediak, do Djavan. Estudava muito isso aí, especialmente quando me mudei para cá. A mudança foi muito difícil, meu coração partiu mesmo. Sinto que meu coração tá sempre no Brasil”. Após o ano de imersão total no violão, Fabiano retornou novamente aos Estados Unidos. Foi quando ele, de fato, montou sua primeira banda: o Triorgânico.

Formada ao lado de Pablo Calogero e Ricardo “Tiki”Pasillas, a banda tocava em casamentos, pequenos shows na região downtown de Los Angeles, barzinhos e afins. “Não era uma banda ‘oficial’”, diz Fabiano. Oficial ou não, o trio chamou a atenção de Eothen Alapatt, o Egon, cérebro por trás da gravadora Now Again, e o resultado foi o disco Convivência (2009). Entre canções autorais e releituras, o disco e os shows com o Triogânico serviram de escola fundamental para Fabiano, principalmente por meio do saxofonista Pablo Calogero – e de suas “fogueiras”. “Ele foi um mentor para mim, vem do Brooklyn, tocou com muita gente fera do Jazz. Eu era bem garoto ainda, tinha vezes que a gente ia tocar e ele começava a tocar completamente aberto, viajado. E eu tinha que seguir. Na época, eu ficava até injuriado, nervoso. Mas ele me colocar nessas fogueiras foi uma grande escola. Sair do conforto e ter essa coragem de mergulhar”.

Surgindo de maneira espontânea, o trio também terminou sua breve jornada naturalmente. Fabiano já procurava outros sons e, segundo ele, durante a primeira metade da década passada, vivia uma época experimental. E assim, surgiu Dança do Tempo (2015), primeiro disco solo do músico. “Teve muita influência de histórias que eu vivi quando viajava para o Brasil e tocava com o Carioca Freitas. Uma figura interessante e misteriosa, tocou nos anos 1970 com o Egiberto Gismonti”. Carioca foi mais um mentor na vida de Fabiano e, experimental e esotérico, influenciou a sonoridade de Dança do Tempo, que contou com colaboração das mais ilustres na percussão: Airto Moreira. “Airto é atencioso, carinhoso, engraçado. Lendário. E um sábio”, conta Fabiano. “Na época, ele tinha feito uma cirurgia no quadril e queria tocar mesmo assim. Tocou lindamente e criou a magia do momento. E ele disse que eu tinha uma cabeça musical meio de ‘alien’ [risos]. E eu me sinto meio um peixe fora d’água aqui em L.A. mesmo”.

Com releituras magistrais de Hermeto (“O Ovo”, “Forró Brasil”), Villa-Lobos (“Étude”), Dilermando (“Se Ela Perguntas”) e Baden Powell (“Iemanjá”), além de temas próprios belíssimos (“Tupi”), o disco é um ponto de partida exuberante de Fabiano. Dois anos depois, chegou Tempo Dos Mestres, atmosférico e igualmente arrebatador, com novas versões de Baden Powell (“Canto de Xangô”), João Pernambuco (“Brasileirinho”), Naná Vasconcellos (“Já Que Tú”) e as autorais “Tempo”, “Matrisadan” e “Louva-A-Deus ‘Mantis’” – a última certamente inspirada na Floresta Amazônica, um dos lugares favoritos de Fabiano. Mesmo com o início prodigioso e prestigiado, o músico, hoje, acredita que esses trabalhos não representem tanto a sonoridade buscada por ele atualmente. Agora, após tantos mentores e influências, ele acredita ter encontrado sua trilha própria. “A vida leva a gente para vários caminhos e depois a gente fica ‘peraí, quem sou seu? Qual é o meu caminho?’. Podemos ficar tão fascinados com uma coisa culturalmente ou com outros músicos, que eles influenciam muito e às vezes até influenciam, digamos, ‘demais’. Com todo respeito e amor, você precisa dizer: não, espera, eu tenho que voltar ao que tô buscando”.

Já tocando entre “gente grande” desde muito jovem, Fabiano, além de aprender com todos esses mentores, também colheu referências e inspirações a partir das apresentações ao lado de ícones da nossa música. “Toquei com o Hermeto em Brasília, há uns 14 anos. Eu estava passando um tempo lá com um amigo, o gaitista Pablo Fagundes, e o Hermeto dava aula no Clube do Choro e eles convidaram os músicos para subir ao palco. Hermeto compôs uma coisa na hora e todo mundo aprendeu. E o Verocai eu conheci há 12 anos, aqui em L.A.. Já de cara, gostei muito. Ele tem uma simplicidade, mas que é profunda. Procura melodias fortes, bonitas. Depois, ano passado, toquei com ele em um show aqui, foi emocionante ver a recepção do público daqui”.

"Eu olho para uma coisa e quase começo a ouvir a música que vai junto com essa imagem que eu tô vendo. E fica comigo. Parece uma assombração quase."

TOP 5 de Fabiano

Hermeto Pascoal

–  “Música das Nuvens e do Chão”

– “Tertúlia”

–  “Voz e Vento”

–  “De sábado pra Dominguinhos”

–  “Alguma do Mundo Verde Esperança (2003)

 

Baden Powell

– “Choro Para Metrônomo”

– “Canto de Xangô”

– “Canto de Yemanjá”

– “Canto de Ossanha”

– “Bocoché”

Além dos mestres com quem compartilhou momentos no palco, e do próprio tio, decisivo para sua trajetória, Fabiano traz em seu sangue um especial vínculo com a música e a inventividade. Ladário Teixeira, seu bisavô, foi um saxofonista que ampliou as possibilidades do instrumento. Nasceu em Uberlândia – onde hoje há uma escola e uma praça com seu nome – completamente cego e aprendeu a tocar sozinho. Entre as décadas de 1920 e 1930, ele “recriou” o saxofone, adicionando novas teclas e notas. O sax ficou conhecido como “Modelo Ladário”. Fabiano diz que Ladário é uma “joia” da família e que a história do bisavô rende até brincadeira entre os amigos músicos. “Ele recriou o saxofone e só tem, tipo, três modelos no mundo. Um ficou com a família e alguém meio que perdeu, sei lá, uma loucura. Mas a gente sempre falou muito da história do Ladário, é de um tempo que não tem muito registro. Escutei duas gravações dele, um vinil bem antigo. São pedaços da história da vida dele. O Sam, saxofonista amigo meu, brinca que ele é a reencarnação do Ladário – ‘eu sou seu bisavô, você tem que me escutar’, ele diz [rindo]”.

O SOM DE FABIANO EM 3 TOQUES

“Acho que tô sempre buscando um som que faz com que as pessoas, ao escutarem aquilo, parem. E imaginem paisagens, cenários. Mas acho que eu tô apenas começando a descobrir qual é o meu som. Não tô tentando mostrar muita nota ou o virtuosismo do violão ou o quanto a gente consegue empurrar os limites do instrumento. Eu sempre procuro uma simplicidade.”

“Faz parte das minhas influencias, mas eu digo que ‘tento’ tocar Jazz. Eu amo, mas não reivindico que sou músico de Jazz.  É um estudo. Eu vou tentar tocar Jazz pelo resto da minha vida. Um dia, quem sabe. Não interessa de onde é. Os mestres da música de qualquer lugar do mundo sempre trazem muita informação. Eu absorvo certas coisas do passado e tento, hoje, ecoar alguns desses sentimentos”

“Música que a gente escuta e parece que leva a gente para um visual. Faz enxergar cenas. Naturalmente, eu nem faço de propósito. Eu olho para uma coisa e quase começo a ouvir a música que vai junto com essa imagem que eu tô vendo. E fica comigo. Parece uma assombração quase. Não tem muita firula. É mais um bom ritmo, uma boa melodia, um sentimento e a gente vai por aí.”

"A mudança foi muito difícil, meu coração partiu mesmo. Sinto que meu coração tá sempre no Brasil”

Após Dança do Tempo e Tempo dos Mestres, Fabiano lançou no início de junho seu terceiro disco: Prelúdio (2020), que, segundo ele, é um discreto primeiro passo para um “novo momento”, uma fase em que ele se desprende um pouco de rótulos. “É explorar a música mais pelo som do que pelo gênero. Pelo que mantém a curiosidade, o interesse. Gravo muita coisa com o violão. Aí outro violão diferente, depois um violão soprano. Com todo amor que eu tenho pelo violão, fico até entediado depois de um tempo. Essa exploração é uma forma de manter a curiosidade acesa”.

Sempre sedento por novos caminhos sonoros, Fabiano diz que Prelúdio, com gravações de dois anos atrás, já chega com delay. “O som já mudou muito. Há outros caminhos que fogem um pouco da tradição que venho carregando. Acho que eu tô desapegando um pouco. Terra de violão, Brasil, né? Tem tanto violonista monstro. Para tocar Choro e tal… Já foi feito, né? Os melhores já existiram, difícil alguém acrescentar algo para o gênero”.

O lançamento de Prelúdio veio alinhado com a apresentação na série Tiny Desk Concert, a qual Fabiano preparou em casa, com a ajuda de amigos músicos – cada um, também, em sua casa. “O Egon (Now Again) estava em contato com o pessoal e disse para eu preparar algo. Eu pensei ‘pô, Tiny Desk… Eles devem receber muitos pedidos para tocar’. Eu vinha fazendo uns vídeos split screen com os amigos, aí gravei a minha parte e a gente juntou com os vídeos dos meus amigos e deixou tudo como se fosse um take só. Mandamos para eles, eu tinha até esquecido já. E eles retornaram dizendo que tinham adorado”.

Seguindo paradigma semelhante de representantes dessa espécie de híbrido de MPB e Jazz, como Sergio Mendes, Eumir Deodato e o próprio Arthur Verocai, Fabiano recebe mais atenção para além das fronteiras brasileiras. E independentemente da apreciação ou repercussão na terra natal, ele vê com bons olhos a ida de artistas do Brasil para outros lugares do mundo. “Influencia cada artista de uma forma diferente. Eu não estou de maneira alguma me colocando no mesmo patamar, mas o mestre Moacir Santos, por exemplo, viveu muito tempo em Los Angeles e sua obra é icônica, única. Talvez não fosse da mesma forma, caso ele ficasse só no Brasil”. Ainda assim, o Brasil é sempre a inspiração suprema das composições de Fabiano. Segundo ele, aquele retorno ao país, lá nos idos dos anos 2000, para morar e estudar com o tio, ressoa e ressoará eternamente em sua obra. “Não tinha internet, eu ia para a Biblioteca Nacional e tentava caçar partitura. Essa formação ficou muito forte comigo. Até hoje me sinto um estudante disso. Uma vida só não é suficiente para aprender tudo”.

Há 20 anos morando nos Estados Unidos, Fabiano vê com angústia a atual situação política do Brasil e se inquieta frente ao desprezo institucional pelas criações culturais/artísticas/musicais tão únicas do país. “Eu fico até sem palavras. O Brasil tá muito assim… óbvio, na nossa cara. Eu não sei nem o que dizer… A música mais bonita do mundo e isso não é patriotismo. Realmente acho isso. E muita gente acha isso. É uma coisa tão absurda que a gente fica sem palavras”. É triste e desolador. Mas ouvir, cantar, tocar e celebrar o Brasil que amamos e queremos, como fazem Fabiano do Nascimento e (ainda) tantos outros, é resistir.

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