Não Quero Ser um Rockstar

Ter fama interfere no processo criativo dos compositores?

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Em uma recente entrevista realizada para o site i-D, Alice Glass, ex-vocalista do duo Crystal Castles deu algumas declarações explicando alguns dos motivos que levaram-na a tomar a decisão de sair da banda. Em uma destas, Alice comentou sobre o cansaço e o stress que ter uma banda de um porte relativamente grande gera para o indíviduo, alegando principalmente que: “Eu não tenho que responder a ninguém, e posso tomar meu tempo. Mesmo que apenas algumas pessoas venham aos meus shows, é bem melhor do que viver uma mentira tocando em estádios lotados.” Alice esbarra em um tema sensível sobre se a integridade de um compositor pode ser mantida, a partir do momento em que suas musicas entram no chamado “mercado musical”. Estaria ela exagerando ou, frente a toda a rapidez e uma demanda bem mais desgastante para o músico, ela estaria alertando os futuros músicos a desistirem desta forma de fazer sucesso?

Sem dúvida, o que Alice nos mostra tem sua validade. Embora a criatividade dependa de uma série de fatores, é impossível ignorar o fato de que o stress e uma rotina cansativa influenciam diretamente no processo criativo, podendo interrompê-lo drasticamente. Além disso, a ex-vocalista de Crystal Castles ainda mostra que o grande itinerário de shows e a expectativa de alguns fãs botou mais variantes nesta equação, ou seja, Alice sentia que alguns dos temas expostos, principalmente nos trabalhos mais recentes do duo deixavam de ter suas emoções como principal elemento das composições, fazendo com que, indiretamente, um pouco da demanda externa fosse incorporada a elas. Isto nos faz refletir um pouco sobre o quão benéfico ser famoso é para o compositor enquanto único transmissor de suas experências e sentimentos para o mundo.

Obviamente, não temos o menor intuito de responder se ser famoso hoje em dia vale a pena. A questão trazida pela entrevista de Alice serve para refletirmos sobre uma perspectiva que se apresenta bem mais como um caminho com várias opções a serem seguidas, principalmente no que tange o sucesso e processo criativo. Como cada artista tem seu ritual de composição, é impossível generalizar mas, deve-se ter em mente que a partir do momento em que a mensagem de um compositor é influenciada por qualquer outro fator além do interno, alteramos completamente a percepção que temos de um disco, por exemplo. Talvez seja por isso, que tantas bandas possuem seus primeiros trabalhos como considerados os melhores, já que, nesse primeiro momento, temos o conjunto em seu início de carreira, sem tantos fãs para esperarem algo. Também talvez seja por isso que, a partir do momento em que esta mesma banda tem mais fãs, o segundo disco é, normalmente, inferior ao segundo.

Esta realidade não é algo novo. Na verdade, o cerne desta questão já havia sido manifestado em inúmeros debates informais na década de 1980 e 90, quando o Indie nasce com seu ideal de independência, alegando principalmente que as grandes gravadoras teriam um controle muito grande sobre a sonoridade, desviando para algo que pudesse ser mais vendido. Hoje sabemos que, estar vinculado a uma grande gravadora não significa necessariamente que todo o poder criativo da banda é tirado, ainda mais porque justamente a sonoridade produzida pelo artista é o que atrai seu público e as gravadoras de fato veem isso como um instrumento de marketing. Hoje, com um barateamento de custo de produtos de gravação, qualquer um pode ter uma banda, lançar um disco e fazer “sucesso”, portanto, se lançar independentemente e, ter total controle sobre sua produção, já não é um sonho impossível (embora as gravadoras auxiliem muito na questão da distruibuição e veiculação das músicas).

No fim das contas, estamos rodeados por uma realidade completamente bipolarizada. Não é nossa pretensão dar uma lição de moral a Alice Glass e dizer que ela deveria ter mantido a banda embaixo do radar das “malígnas corporações” que tornaram-na desgastada e casanda. Ou de falar para bandas independentes nunca se assinarem. Entretanto, é interessante ver como o sonho antigo de fazer sucesso é totalmente arbitrário, sendo que cabe ao artista tentar dosar os dois pesos da balança (sucesso e criatividade). Nada atualmente é definido pelas escolhas empresariais da banda e, fazer sucesso hoje, é algo extremante relativo. Portanto, ainda é uma questão puramente de gosto e estética que move o mundo da música e, achar que estas gravadoras são inimigas das músicos já não é tão verdadeiro assim.

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.