Neil Davidge – Por Trás Da Escuridão

Músico já produziu bastante coisa bacana e agora apresenta material autoral

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Quando surgiu, na virada dos anos 1980/90, Massive Attack chamou a atenção do mundo para a cena musical de uma cidade da Inglaterra: Bristol. Mesmo que, num espaço de dois anos, o mundo fosse sacudido por uma nova leva de bandas e artistas britânicos através do Britpop, a cena musical Eletrônica da Velha Ilha, ainda que definitiva e definidora, jamais recebeu a atenção merecida. O velho porto no oeste do país, outrora porta de entrada para gente de vários países africanos e caribenhos, herdara a pluralidade cultural dessa gente e apresentava o resultado em forma de arte. No ir e vir de jovens pelas festas, casas noturnas, soundsystems e batalhas de MCs, Neil Davidge não era apenas mais um naquela multidão sob os céus cinzentos e chuvosos.

Massive Attack foi o primeiro grupo a manifestar que o futuro da música havia chegado. O lançamento de Blue Lines (1991), foi a ponta de um iceberg cultural imenso e não decodificado totalmente até hoje. Mesmo que o grupo (formado então por Tricky Kid, Robert “3D” Del Naja, Andrew “Mushroom” Vowles e Grant “Daddy G” Marshall) liderasse uma pequena revolução, a cena de Bristol já existia antes dele. Alguns grupos e artistas da cidade já haviam gravado discos e feito sucesso, mas, em 1990, quase nenhum era mais famoso que o DNA. Com Neal Slateford e Nick Batt no controle, o duo ganhara reconhecimento mundial por conta da versão dançante de Tom’s Dinner, faixa do disco Solitude Standing, que a cantora americana Suzanne Vega lançara em 1987. O original, apenas uma declamação da letra, fora posicionado sobre uma batida típica da época e alçara vôo nas paradas de sucesso do mundo. Neil Davidge fez parte da concepção da releitura e entrara para o DNA na mesma época.

Ele havia saído da faculdade, onde estudara artes, e voltara para a cidade, no mesmo circuito de bandas e artistas, já devidamente embebidos na cena do Trip Hop. Logo Davidge andaria com o pessoal do Massive Attack, sobretudo com Mushroom, de quem se tornou amigo. Assistiria à ascensão de artistas como Portishead e veria o lançamento de seu primeiro disco, Dummy, em 1994. Neste mesmo ano, o segundo disco da banda de seu amigo, Protection, daria continuidade à exploração do lado negro da Força em termos de música e releitura das batidas rítmicas ancestrais, indo do Reggae/Dub ao Hip Hop.

Em 1996, Davidge foi convidado por Mushroom para produzir a gravação de uma versão para um velho sucesso de Smokey Robinson, famoso com as Marvelettes, The Hunter Gets Captured By The Game. A canção seria lançada na trilha sonora do filme Batman Forever. Logo depois, participou de Fake The Aroma, outra canção para discos coletivos, nesse caso, o álbum HELP, para ajuda às vítimas da Guerra na Bósnia. Os resultados de ambas as canções foram bastante satisfatórios e o produtor, arranjador e pensador musical foi adicionado ao grupo na posição de “quarto Massive”, uma vez que Tricky deixara a banda logo após o lançamento do segundo disco. Davidge começou a trabalhar com o trio remanescente e o fruto dessa interação e da absorção das novas influências veio com o álbum seguinte, Mezzanine.

O que era cinzento na música do grupo tornou-se bem escuro e assustador. Climas insinuantes vieram por todos os cantos e canções como Angel, Dissolved Girl, Inertia Creeps e Teardrop tornaram-se preferidas dos fãs do Massive. A presença de Davidge na banda e sua participação neste “turning point”, trouxe uma projeção nova para o Massive e o grupo passou a ser mais solicitado para remixes e releituras, a exemplo do que havia acontecido na época do lançamento de Protection, quando o então trio apareceu ao lado de Madonna em sua versão de I Want You, de Marvin Gaye.

Davidge participou de releituras para canções de gente como UNKLE (Rabbit In Your Headlights), Craig Armstrong (This Love), Manic Street Preachers (If You Tolerate This), Primal Scream (XTRMNTR), Dandy Warhols (Goddess) e uma versão para Nature Boy, gravada por David Bowie especialmente para a trilha sonora do filme Moulin Rouge, em 2001. Ao mesmo tempo, várias canções recentes de Massive Attack foram parar na telona, integrando trilhas de filmes tão variados quanto The Jackal, Matrix e Snatch. Além disso, séries de TV também buscariam as canções da banda, sendo que Teardrop seria adotada como abertura de House a partir de 2004. Em 2003 surgiria mais um disco do grupo, 100th Window. O novo trabalho traria Massive Attack reduzido a Robert Del Naja e Davidge, uma vez que Mushroom saíra por divergências artísticas e Daddy G fora criar seus filhos. O disco trazia as participações de Damon Albarn, Sinéad O’Connor, Horace Andy e vinha envolto numa aura de problemas. A banda Lupine Howl fora chamada para colaborar com o Massive durante as gravações mas vários desentendimentos tiveram lugar e a dupla precisou refazer quase todas das canções por conta do resultado original não ter chegado nem perto do esperado. Como consequência, o Lupine Howl nunca apareceu nos créditos de 100th Window. Apesar de interessante, o álbum não chega perto dos climas claustrofóbicos dos trabalhos anteriores.

Davidge e 3D lançariam a interessante trilha sonora de Danny The Dog em 2004, usando o nome Massive Attack. Em 2006 seria lançada a compilação de sucessos Collected e a de lados-B Obelisk mas os dois só lançariam um trabalho como banda em 2011, com o interessante Heligoland. Esse suposto hiato não significou descanso ou ostracismo para eles, que iniciaram uma prolífica carreira como compositores e arranjadores de trilhas para o cinema, sempre assinando como Davidge/Del Naja. Vieram os scores para Bullet Boy (2005), Trouble With Water (2008), além de dois trabalhos solo de Davidge, as trilhas para Push (2009) e Citizen Koch (2013), além de participações em outros scores, como Miami Vice (2006) e In Prison My Whole Life (2008), quando Davidge escreveu e produziu What Up Man, cantada por Snoop Dogg. A composição de trilhas sonoras para games também foi um filão em que Davidge se meteu. A música do multiplatinado Assassin’s Creed (2007) é da dupla mas o grande sucesso viria com o lançando da trilha de Halo 4, que o levou para o Top 50 da parada da Billboard em 2012, algo impensado, inesperado e bastante legal.

Depois de todos esses anos, Davidge sentiu-se à vontade o suficiente para lançar um disco solo. Slo Light foi lançado há menos de um mês e empreende uma vigorosa releitura dos primeiros dias do Trip Hop, mas escapando do tom nostálgico e revisionista com muita criatividade e conhecimento de causa, típico de um dos arquitetos dessa sonoridade. Abaixo, listamos alguns momentos dourados em que Davidge esteve presente. E a resenha do novo disco você também lerá aqui no Monkeybuzz em breve.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.