Nessa pegada da LEOA tu se envolve

Em “ORIGINAL MALOKERA”, Ex-Luísa e os Alquimistas renasce em busca do pop com raízes no reggae e no batidão

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Fotos: @ianrassari

A banda Luísa e os Alquimistas anunciou que estava se desfazendo no momento em que vivia sua fase mais madura: com quatro discos lançados, havia consolidado a própria estética sonora, chamada de bregapunk pelos integrantes, e alcançado o reconhecimento na cena da música alternativa brasileira, com performances ao vivo cada vez mais enérgicas e contagiantes. Publicado em junho de 2024, o comunicado, entretanto, transparecia a ideia de que algo chegava ao fim, mas nem tanto. Depois de uma turnê de despedida, Luísa Nascimento, a líder e criadora da banda, reapareceu como LEOA em um projeto definitivamente solo para lançar em junho deste ano o ORIGINAL MALOKERA, um disco que se distancia do trabalho anterior, mas sem provocar uma ruptura total com o que fora construído durante nove anos em grupo.

Desde que surgiu com Cobra Coral (2016), Luísa e os Alquimistas buscou construir uma sonoridade caracterizada pela mescla de ritmos que atingiu seu ápice no terceiro álbum, Jaguatirica Print (2019), no qual há de modo mais presente o brega e suas vertentes eletrônicas, o tecnobrega e o bregafunk. As experimentações de Luísa, sempre em parceria com o produtor Gabriel Souto, continuam na estreia solo, mas se expandem para outros ritmos. Se os primeiros trabalhos ficaram marcados pelo brega, a nova fase da artista potiguar é melhor identificada com outros ritmos do nordeste, a exemplo do batidão e do transa reggae, populares nos sistemas de sons do Rio Grande do Norte e da Paraíba — os chamados paredões. As sonoridades da América Latina e do Caribe, também presentes em trabalhos anteriores, desta vez aparecem através de estilos como a bachata, o reggaeton, a cúmbia e o corrido tumbado.

Apesar disso, Luísa não deixa de lado a gama de ritmos que experimentou ao longo da carreira. A diferença reside na atenção e espaço dado a cada um ao fundi-los com outros ao longo das 15 faixas do disco. O reggaeton, por exemplo, aparece no último disco da banda, Elixir (2022), na música “Guapetona”, mas em ORIGINAL MALOKERA ganha mais forma e contundência, sobretudo na última faixa, “Malokera”. De modo inverso, o brega perde espaço, mas não é abandonado — basta ouvir “Tropical do Brasil”, em parceria com a pernambucana Uana, ou “Trim Trim” para sacar as batidas de bregafunk de Jaguatirica Print. “Esse processo de renovação não pode ser assim ‘pega, joga todas as experiências no lixo’, não tinha como”, conta Luísa ao Monkeybuzz.

“Eu fui entendendo na discotecagem que tem muitas semelhanças entre o forró e a cúmbia, o sertanejo e o corridos tumbados, entre o brega e a bachata”

Essa transmutação sonora, caracterizada pela mudança que não rompe com o passado, está refletida no próprio nome escolhido por Luísa para a nova fase. LEOA representa a junção das iniciais de Luísa e os Alquimistas, ao mesmo tempo em que dá à artista uma imponência que ela sempre demonstrou nos palcos. Mesmo sem estar acompanhada por uma banda, com uma apresentação em formato reduzido, apenas com um DJ (Gabriel Souto) e uma dançarina, LEOA preenche o espaço com uma presença que contagia o público do mesmo modo que antes.

Na direção de arte do novo álbum, a figura da LEOA se evidencia pela escolha da juba, unhas longas e um figurino que remete ao animal. A inspiração, Luísa conta, veio da personagem Monga, a mulher-macaco, popular em circos e parques de diversões brasileiros. Em Natal (RN), onde Luísa nasceu, era possível encontrar a atração até o fim dos anos 2000. “Quando a gente estava pensando a estética desse trabalho, eu lembrei muito da Monga porque traz essa coisa da mulher que se transforma”, afirma.

Ao brincar com a ideia de transformação através da junção de elementos estéticos da cultura popular, a artista cria conexões que evidenciam a relação entre as sonoridades da América Latina. É o caso do brega e da bachata, um ritmo que nasceu na América Central nos anos 1960 e dialoga com estilo brasileiro pelo tom meloso e romântico (não por acaso, muitas músicas ganharam versões em ambos ritmos, como “Obsesión”, do grupo dominicano-americano Aventura, que se popularizou no Nordeste com a versão “Obsessão”, do grupo Vício Louco).

Em ORIGINAL MALOKERA, a bachata se apresenta na canção “Acesa”, em uma composição romântica e melodramática, como tinha que ser.

As conexões foram estabelecidas a partir da própria pesquisa musical da artista, que também passou a ter um trabalho como DJ nos últimos anos. “Eu fui entendendo na discotecagem que tem muitas semelhanças entre o forró e a cúmbia, o sertanejo e o corridos tumbados, entre o brega e a bachata”, disse. Dentro do mesmo processo de pesquisa, Luísa também voltou a dedicar mais atenção a um outro ritmo, central no álbum de estreia da banda, mas que recebeu pouco espaço posteriormente: o reggae e suas variações.

Na base, o reggae

Nenhum ritmo tem tanta relevância no primeiro álbum da carreira de Luísa, o Cobra Coral, como o reggae. Apesar de outros sons, o disco, o mais cru da banda, apresenta o ritmo, junto com o dub, sem tantos experimentos na maioria das canções. As mesclas entre estilos ganharam mais ousadia a partir do segundo disco, Vekanandra (2018), e resultaram em uma presença menor dos ritmos jamaicanos. Em ORIGINAL MALOKERA, o reggae e seus subgêneros reaparecem com mais intensidade, mas não do mesmo modo que em 2016.

Desta vez, a artista explora e conecta os diversos subgêneros originados do reggae na América Latina e no Caribe (dancehall, dembow e o reggaeton) com as vertentes mais eletrônicas surgidas no nordeste brasileiro, encontradas em hits como “Mulher Roleira”, do grupo maranhense Caribbean Hits, ou em álbuns como É O Ritmo Transa Reggae (2017), de Aldair Playboy. “Luísa curte outros sons, mas o que ela gosta mesmo é de reggae”, afirmou o produtor Gabriel Souto quando perguntado sobre a escolha de voltar ao ritmo. “Ela é reggueira, a verdade é essa”.

É dentro desse universo sonoro que surgem dois dos destaques do álbum: “Meu Reggae” e “Essa Bebê É Peso”, em parceria com os paraibanos Gil Bala e Pilove, respectivamente. O ritmo aparece ainda de modo mais orgânico em “Cidade do Sol”, uma regravação da canção escrita pelo potiguar Allan Negão, artista fundamental na cena do reggae do Rio Grande do Norte no início dos anos 2000 e que contribuiu para a formação de Luísa enquanto artista. Outras canções — “Toy Boy”, em parceria com Urias, e a já citada “Malokera” — também apresentam elementos extraídos da música jamaicana.

“Lembrou muito o ‘Cobra Coral’ por esse processo de fazer em casa. A gente acordava e começava a criar com a ideia que ela queria. Quando Luísa e os Alquimistas surgiu, foi assim” – Gabriel Souto

As semelhanças entre os primeiros discos não se encerram aí. Luísa conta que o processo de criação do álbum também se aproxima ao de Cobra Coral, no qual as músicas nasceram a partir das letras apresentadas por ela a Gabriel. “A maneira de compor foi mudando ao longo da discografia”, diz. “Nos outros discos, conforme a banda foi sendo mais agregada, eu também comecei a gostar de compor em cima de beats que já tinham sido feitos.”

A maioria das canções foi gravada em Natal no fim do ano passado, quando esteve na cidade para visitar a família e as amizades. Morando em São Paulo desde 2019, ela conta que voltar a criar um disco na cidade onde nasceu também se conecta com o seu início em 2016, quando começou a compor sozinha e a cantarolar melodias em casa. A ideia de formar banda ainda não existia de maneira clara — e durante algum tempo a própria artista não sabia se Luísa e os Alquimistas era uma banda ou projeto solo. “Eu trouxe de volta [nesse disco], sem ter essa consciência, esse modo de criar estando em casa, sozinha, ouvindo música e escrevendo minhas ideias”.

Os traços em comum com o primeiro disco da banda também são percebidos por Gabriel Souto, que abrigou Luísa no estúdio que possui em casa, no cômodo que também serve de quarto de hóspedes e onde o álbum foi gravado. “Lembrou muito o Cobra Coral por isso, esse processo de fazer em casa”, contou Gabriel. “A gente acordava e começava a criar com a ideia que ela queria. Quando Luísa e os Alquimistas surgiu, foi assim”. Por conta dessa configuração inicial, Luísa teve até o fim a maior autonomia dentro da banda. A continuidade gerou um processo mais coletivo, com referências e ideias surgindo dos diversos integrantes, mas era ela quem tinha a última palavra.

“Para sobreviver esses anos aqui, a gente precisa criar uma rede de afetos, se não a gente não aguenta. Essa rede sempre foi feita por pessoas do Norte e Nordeste, prioritariamente. Eu queria realmente fazer uma coisa que os feats fossem do Nordeste, que a gente tivesse sotaques fortes, mesmo”

No pop, a LEOA

Por que, então, encerrar a banda no momento mais maduro e partir para um projeto que não deixa dúvidas que é solo? “Era muita gente para cuidar”, responde a artista. “Sempre fui muito preocupada com tudo que todo mundo está passando. Muitas vezes esquecia de cuidar de mim”. Quando deu por si, Luísa sentiu que se quisesse continuar evoluindo na cena, teria de estar só. Foi quando também percebeu o momento que o cenário musical brasileiro atravessa. “No Brasil, muitas bandas estão acabando. Você perde reconhecimento. Você não vê mulheres de banda sendo indicadas como compositoras em um WME (Womens Music Event)”, diz.

Em ORIGINAL MALOKERA, o desejo da artista de alcançar maior reconhecimento é evidente na faixa que carrega o nome do novo projeto, LEOA. A própria formatação do disco mostra essa vontade, com a maior parte das canções construídas para serem hits, com letras chicletes e beats dançantes, prontos pra tocar em paredões. A compositora também mantém a característica de escrever em mais de um idioma, mas buscou priorizar o português, tendo em vista presença em playlists nacionais.

“Já vi minhas ideias no mainstream / Chegando lá no topo antes de mim” – Trecho da música “Leoa”

Um dos méritos da carreira de Luísa é construir um som universal a partir do lugar de onde veio, Natal, uma das menores capitais do Brasil. Não à toa, o nome dela é quase sempre um dos primeiros a serem lembrados como referência à cidade. No disco., essa presença acontece da primeira música, “084” (o DDD do Rio Grande do Norte), à última, seja em referências diretas, como em “Cidade do Sol”, em expressões locais (a exemplo do modo de usar a palavra “boy”) ou em menções a elementos da cidade, mas não restritos a ela — caso de “Tropical do Brasil”.

A artista também traz parcerias musicais que dialogam com esse universo, seja com artistas potiguares (Potyguara Bardo, Janvita e Amém Ore) ou de outros estados do nordeste, como já citados. A única colaboração de fora da região é Urias, que dialoga com Luísa no modo de compor em mais de uma língua e apresenta um dos sons mais originais do pop brasileiro hoje. Essa escolha, diz Luísa, foi feita a partir da própria experiência de migração e mudança para São Paulo, onde a noção de pertencimento é diluída e a ligação com o lugar de onde veio se torna mais forte. “Para sobreviver esses anos aqui, a gente precisa criar uma rede de afetos, se não a gente não aguenta. Essa rede sempre foi feita por pessoas do Norte e Nordeste, prioritariamente”, conta. “Eu queria realmente fazer uma coisa que os feats fossem do Nordeste, que a gente tivesse sotaques fortes, mesmo.”

Ao adotar o nome LEOA e apresentar o ORIGINAL MALOKERA, Luísa recomeça a partir de sua própria história e mira lugares mais altos que os alcançados pela banda, que espalhou a música produzida em Natal pelo Brasil e também fora, com turnê pela Europa, a partir de uma sonoridade universal, em diálogo com símbolos presentes em todo um continente. Para isso, assume uma postura destemida — explícita no próprio nome escolhido — e de reafirmação e confiança em sua autenticidade, em um caráter leonino. “Acho que isso é a minha maior pira. Essa busca incansável de ser autêntica e ser boa, me auto superar para entregar algo massa para as pessoas e sentir orgulho do que estou fazendo”.

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