Nilüfer Yanya no papel de Nilüfer Yanya

Três álbuns depois, a cantora e compositora britânica está pronta para interpretar a si mesma com a ajuda da música

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Fotos: Divulgação

Se, em 2019, Nilüfer Yanya fez do seu disco de estreia, Miss Universe, um sistema imaginário de suporte à saúde mental, o WWAY Health, em 2024, foi uma técnica de atuação que norteou seu terceiro álbum de inéditas, My Method Actor. As canções desse trabalho serão o foco do show da artista no Cine Joia, no dia 12 de novembro, em São Paulo. My Method Actor vem de “O Método”, modo imersivo como alguns atores se preparam para um papel, usando experiências pessoais como gatilhos e também se colocando em situações que seriam vividas pelo personagem. Para fazer Taxi Driver (1976), por exemplo, Robert De Niro trabalhou como motorista de táxi pelas ruas de Nova York. Já no caso da cantora e compositora britânica de 30 anos, ela se preparou para mergulhar no papel mais importante da sua vida: o dela mesma.

“Estou aprendendo lentamente, por meio da música e da escrita, a ser quem eu realmente sou”, Yanya compartilha. “Como se eu estivesse estudando um personagem, estou conhecendo mais sobre mim, tentando ser mais eu”.

Essa jornada ganhou força agora, mas começou a ser trilhada lá atrás, em PAINLESS (2022). No seu segundo disco, ela não hesitou ao tomar uma direção distinta: deu alguns passos para trás em relação ao indie pop de Miss Universe e construiu um som ora contido, ora ainda mais ansioso do que o de 2019 – porta aberta em “Heat Rises”, do primeiro, e escancarada em “stabilise”, do seguinte.

Quando My Method Actor chega, Nilüfer está pronta para se ver no espelho, como o faz na capa do disco. Mas o fato de não olhar diretamente para si mesma e deixar que quem a observa só veja partes do seu rosto também diz muito: “Not gonna solve all my problems / I’d love to drown in my new costume”, canta na faixa-título. Até um ator de método não acerta na primeira tomada. Isso significa também que as temáticas que carrega desde o começo da carreira ainda a acompanham.

Relacionamentos, desejos, memórias e incertezas são alguns dos fios condutores das 11 faixas do disco que, em alguns momentos, se aproximam das metáforas do cinema para contar as histórias. É o caso de “Just a Western”, na qual Nilüfer diz que a sua vida é um faroeste, e em “Like I Say (I runaway)”, cujo clipe a traz como uma noiva em fuga, como a clássica comédia romântica estrelada por Julia Roberts.

“Estou aprendendo lentamente, por meio da música e da escrita, a ser quem eu realmente sou. Como se eu estivesse estudando um personagem, estou conhecendo mais sobre mim, tentando ser mais eu”

As canções do álbum foram escritas por volta de um ano depois do término da turnê de PAINLESS. E, apesar da autoinvestigação ser uma constante no trabalho, esse não foi um percurso solitário. Wilma Archer, que já trabalhou com Sudan Archives e Jessie Ware, se juntou a Nilufer como compositor e produtor, aprofundando o vínculo que criaram nos dois primeiros álbuns. “Como éramos só nós dois trabalhando no disco, foi bastante precioso e intenso ao mesmo tempo. Aprendi muito com o processo, me deu a chance de ir mais fundo e focar”, conta. “No passado, quando tive colaborações mais dispersas, era um pouco como estar em todos os lugares e, então, você não sabia realmente o que estava procurando, o que está tudo bem. Não acho que seja necessariamente algo que as pessoas sempre percebem, mas, para mim, parecia um passo importante.”

O som ao redor

O primeiro instrumento que Nilüfer aprendeu a tocar, ainda na infância, foi o piano. Depois de anos de estudo, as coisas mudaram de rumo quando ela se aproximou da guitarra. Seus dedos fluíam com mais naturalidade pelos fios do que pelas teclas. Na adolescência, seu gosto musical começou a ser moldado e, em grande parte, pela influência da sua irmã mais velha, Molly Daniel. “Ela me inspirou quando eu era mais jovem, tanto em relação ao meu interesse pela música quanto a seguir uma carreira nessa área”, divide. “Acho que copiei muito do que ela ouvia e ‘roubei o ouvido’ dela.” Hoje, uma inspira a outra. As capas dos álbuns e EPs de Nilüfer são assinadas por Molly, que também dirigiu todos os clipes da irmã.

Pixies e PJ Harvey são alguns dos sons que Yanya ouviu quando estava crescendo e que agora ecoam no que ela faz. Embora os riffs de My Method Actor não sejam tão sujos quanto os de PAINLESS, eles ainda fazem parte da personalidade musical da artista, algo que aparece de forma intensa nas primeiras faixas do álbum. A guitarra é a segunda voz de Nilüfer. Quando o sangue esfria, outras texturas entram em cena. Piano, baixo, bateria, synths e violoncelo confluem ao longo dos pouco mais de 40 minutos do álbum.

“Quando se trata de covers, é quase como uma tradição importante na música, porque você aprende muito com o processo e se abre para outro mundo musical, ao mesmo tempo. Muitas vezes sinto que há algumas músicas, como ‘Rid of Me’ [PJ Harvey], que me deixam mais confortáveis do que as minhas próprias canções, o que é meio louco”

As influências de Yanya também deixam seus rastros em covers. Em 2016, gravou uma versão de “Hey”, do álbum mais icônico do Pixies, Doolittle (1989), e na turnê de Miss Universe, incluiu a música no setlist. “Rid of Me”, de PJ Harvey, entrou na versão deluxe de PAINLESS e atualmente faz parte do repertório ao vivo. “Quando se trata de covers, é quase como uma tradição importante na música, porque você aprende muito com o processo e se abre para outro mundo musical, ao mesmo tempo. Muitas vezes sinto que há algumas músicas, como ‘Rid of Me’, que me deixam mais confortáveis do que as minhas próprias canções, o que é meio louco”, ri.

“Get on your dancing shoes”

Um ano depois do lançamento de My Method Actor, para Yanya, é como se um ciclo estivesse se encerrando. “Nós tocamos bastante e falamos muito sobre o disco. Ainda temos mais shows neste ano, como no Brasil e no México, mas estou pronta para começar a pensar em novas músicas”, assume. Uma parte dos seus últimos shows foi ao lado de Alex G, que lançou Headlights neste ano. Depois da América Latina, a artista segue para a Europa, onde vai abrir algumas datas para Lorde. “Estou animada e também bastante nervosa, porque são shows grandes, em estádios”, diz. Apesar da apreensão, ela está curiosa para ouvir Virgin, último lançamento da cantora neozelandesa, ao vivo.

Ainda que não tenha virado totalmente a página para um novo disco, Nilüfer já começou algumas experimentações. Disso nasceu Dancing Shoes, EP lançado em julho. “Acho que eu já estava meio que tentando seguir em frente quando fiz esse EP no ano passado”, pondera.

“Eu não sou boa dançando, mas todo mundo sabe como é dançar e a sensação que isso evoca. Pode ser algo romântico, triste ou feliz. É essa coisa que fazemos com nossos corpos. E como a música, não faz muito sentido, mas faz sentido ao mesmo tempo”

Ao voltar de turnê, revisitou os materiais que não entraram em My Method Actor. Com um novo olhar, voltou a trabalhar em quatro dessas canções ao lado do seu parceiro criativo, Wilma Archer. “Cold Heart” foi a primeira compartilhada com o público, em abril, e as outras vieram depois. Os sapatos de dança que aparecem no título do EP acenam à “Keep on Dancing”, faixa de abertura de My Method Actor. “É uma letra para a qual eu continuo voltando, acho que por ser bem emotiva”, explica. “Eu não sou boa dançando, mas todo mundo sabe como é dançar e a sensação que isso evoca. Pode ser algo romântico, triste ou feliz. É essa coisa que fazemos com nossos corpos. E como a música, não faz muito sentido, mas faz sentido ao mesmo tempo”.

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