Quatro anos após o álbum solo de estreia, Olho de Vidro (2021), a cantora, guitarrista e compositora baiana Jadsa apresenta um grandioso disco novo: big buraco. Produzido pela própria artista e pelo multi-instrumentista e arranjador Antonio Neves, com coprodução do compositor e produtor João Milet Meirelles, o projeto apresenta uma originalidade capaz de surpreender fãs antigos e um poder de síntese perfeito para conquistar novas plateias. Lançado pelo selo RISCO, em 29 de maio, o trabalho já soa como um dos maiores discos de 2025.
Interessada em uma intersecção entre musicalidades típicas dos anos 1970 e dos 1990, unindo os mundos analógico e digital, a baiana apresenta melodias diretas e canções que comunicam de forma muito rápida. E ainda que conquistem à primeira ouvida, é pela repetição que as camadas mais fundas das faixas se revelam, seja através dos arranjos provocativos, que vão do samba ao dub, do neo soul ao rock, ou pela abordagem personalíssima do texto cantado em português e inglês.
Percorrendo a circunferência de big buraco, encontra-se uma trama de referências e conexões entre o passado, o presente e o futuro da música nacional. Há ali a tradição cancional da MPB, com suas baladas sustentadas por teclas, sopros e violões, assim como menções diretas à Bahia natal de Jadsa, com Caetano Veloso e Olodum sendo citados nominalmente em “sol na pele”. Já “big bang” traz a participação do guitarrista cearense Fernando Catatau, figura célebre no cenário indie nacional desde os anos 2000. “big luv”, por sua vez, já havia aparecido em “technocoração (BIG LUV)”, do cantor, produtor e multi-instrumentista alagoano batata boy. Além disso, a própria discografia de Jadsa é relida, pois “no pain”, “1000 sensations” e “tremedêra” são composições que ganharam outras versões em Vera Cruz Island (2024), disco em dupla com João Milet Meirelles, no projeto Taxidermia.
Na entrevista que segue, Jadsa conta que buscou fazer um álbum que situasse seu trabalho de forma mais ampla, dialogando com as demandas do mercado ao mesmo tempo em que oferecesse uma crítica a elas. “Não é porque faço músicas um pouco mais tortas, quebradas e tal, que eu não componha melodias mais populares. Arrumei esta oportunidade para mostrar às pessoas que também sei fazer isso. Existe essa crítica, mas também existe o movimento para eu consiga acompanhar esse ritmo”, afirma.
Ela explica que gravou o disco em uma maratona de sete dias, no Rio de Janeiro (RJ), sem levantar uma pré-produção prévia, na qual cada faixa fosse planejada. Exercitando o diálogo e a cocriação, a ideia foi apresentar as composições aos músicos na hora de gravar. Talvez por isso a espontaneidade do registro soe alto, emanando um calor próprio, que magnetiza os fonogramas. big buraco é quente como um abraço, mas impactante como um beijo. Já que, no fim das contas, é um álbum sobre o amor em suas diferentes formas.
“Esse disco aborda muito esse lugar do amor, da paixão. Tipo, o básico para o ser humano. Falo de comer, dormir, beber, mas o amor também é básico. O disco inteiro fala sobre isso”, diz Jadsa.
A artista ainda enfatiza como o seu envolvimento com o teatro se destaca no projeto, cuja trama é encenada entremeada por quatro atos: “big bang”, “big luv”, “big mama”, “big buraco”. Segundo ela explica, o começo do disco, na verdade, seria um fim, o encerramento do que já foi, enquanto o fim seria um novo início, dando ao álbum um conceito circular e em eterno movimento.
Nas quatro faixas com o nome “big”, a palavra “big” é cantada mais de 150 vezes, invocando a expansão, o crescimento. Neste loop lírico, no qual as sílabas ecoam em cíclicas reverberações mântricas, big buraco se mostra amplo, repleto de ondas sonoras acústicas e digitais, em diálogo intenso com a cena musical contemporânea. Um buraco no telhado da rotina através do qual a luz do sol pode entrar e esquentar a pele. Uma brecha. Uma forma de conhecer mais e melhor uma artista que não cabe em um rótulo, mas cabe com certeza em cada vez mais palcos e playlists.

Queria começar pedindo para você apresentar o disco, como você o apresentaria para quem não conhece você?
Esse disco aborda uma linguagem brasileira de som, de palavra e do jeito que é tocado. Tem quatro atos — “big bang”, “big luv”, “big mama” e “big buraco” —, mas não existe uma ordem cronológica dentro dele, é um pouco cíclico. É um disco brasileiro, dramático, romântico e feito para todo mundo conseguir escutar e querer ouvir.
Conta mais sobre esse conceito ligado à repetição do “big”, essa temática que você trouxe e que conduz o disco.
No big buraco, queria que o nome chamasse muita atenção. A partir desse ponto, senti necessidade de botar esses marcos dentro do disco, não para as pessoas, mas para eu poder entender. Esses atos surgiram a partir da vivência que eu tenho do teatro e para relacionar com o nome do disco, para ter esse link dos “bigs”, esses momentos gigantes dentro de algo que já é muito grande.
Você falou de a história ser cíclica, quais que são as histórias que você buscou trazer?
Resumindo, o big buraco começa nesse “big bang”, que para mim não é o começo de um novo mundo, é o término do que veio. Ele finaliza o que vinha, dá espaço para o novo, e termina no “big buraco”. Então, a sensação que eu tenho é que, tendo esse término em “big bang” e terminando novamente em “big buraco”, ele nunca termina nem começa.
E um tema em que foquei bastante foi o amor. Sinto que o amor também é cíclico, tem várias camadas: do amor mais básico, o carinho, até essa paixão, o amor maior. Esse disco aborda muito esse lugar. Tipo, o básico para o ser humano. Falo de comer, de dormir, de beber, mas o amor também é básico. E o disco inteiro fala sobre isso. A temática desse disco é o amor.
O álbum teve um processo de gravação em parceria com Antonio Neves, como começou a relação de vocês?
Antonio foi aparecendo na minha frente, na minha música. Fui fazer um show no Rio de Janeiro, em 2023 — eu, Pedro Bienemann, meu baixista, e Bianca Predieri, minha batera —, e já queria muito tocar com Antonio. A gente lançou nossos primeiros discos na mesma época, com as capas preto e branco, então tinha uma similaridade. Aí convidei ele para esse show, na Audio Rebel, e foi foda. A gente não ensaiou e parecia que tinha criado tudo juntos, sabe? Depois, rolou meu show no Coala e chamei de novo. E aí eu falei: “Velho, esse cara é meu parceiro”. Ele saca as coisas muito rápido.
E como a relação evoluiu para a coprodução do big buraco?
Esse disco, em que eu falo do amor, das coisas cíclicas e do básico para o ser humano, não se resume aí. Ele se concretizou assim, mas o disco brinca com o mercado. Eu queria fazer um disco rápido e que as pessoas desejassem escutar de novo, corressem atrás dele, ficassem curiosas com o nome e tudo mais. Eu queria brincar com essa onda do mercado, em que você acaba de lançar uma coisa e de repente tem que ter outra. E aí pensei: “Antonio”. Porque ele é muito rápido, né? O pensamento dele é rápido, a conversa é rápida, ele pensa e faz.
E como foi a gravação de vocês?
A gente se juntou e combinamos de gravar o disco em Santa Tereza [bairro do Rio de Janeiro], em janeiro de 2024, com nossa produção, e que tudo seria meio novo para mim. Eu não estava em um lugar seguro, eu queria me colocar nesse lugar um pouco incerto. O amor é isso, né? Quando você pensa em um buraco, não sabe o que está dentro. Tem um espaço ali, né?
O disco foi feito em sete dias. No primeiro dia, foram guias e coisas de bateria que Antonio gravou. No outro, sopros, no outro, baixo, teclas, violão… A gente foi pensando nesses elementos a partir do momento em que a gente ia construindo as músicas. Então, foi um processo muito bom, porque a gente foi conhecendo as músicas fazendo elas. Não teve uma pré[-produção] para, quando chegasse lá, já fazer certo.
Você sente que esse processo ficou impresso no disco?
Ficou muito, está estampado, eu consigo escutar. As músicas são relativamente simples na harmonia. Tem, sei lá, três notas. Coisas simples. Mas a complexidade está nesse momento da troca, nessa conversa entre o músico e a música. Acho que está bem espontâneo.

Sobre a sonoridade, embora remeta às vezes à MPB dos anos 1970, com o teclado, o sopro e o baixo em destaque, também traz elementos contemporâneos, como o scratch, tem também o reggae, por exemplo. Qual era o som que vocês queriam tirar?
Tem o disco de 1971 da Elis Regina, que fiquei escutando demais. A característica desse disco é: bateria, baixo, teclas e voz. Algumas músicas têm percussão, violão… Mas esse disco me marcou, acho que foi o que me inspirou a correr atrás desses elementos. Entrei nesse universo, tipo: “Pô, tô fazendo um som com essa referência, mas é hoje. Qual parte dessa história brasileira musical consigo sintetizar aqui dentro desse big buraco?”.
E aí juntei dois períodos que amo demais, que é essa simplicidade, esse rock dos anos 1970 — com muito dessa cultura brasileira sendo cantada — e os anos 1990, que têm muitas junções rítmicas, muitos gêneros musicais juntos. Fiquei pensando nessa relação dos anos 1970 e o 1990. O 90 por esses elementos mais digitais e o 70 por ter esse apelo acústico e real, do sentimento true da galera.
Faixas como “big bang”, “big buraco” e “no pain” trazem nas letras as repetições de palavras, que é algo que também acontece em músicas antigas, como “Já Ri”. Queria ouvir você sobre a importância do texto cantado, sobre a sonoridade das palavras, sobre a repetição, essas intenções e ferramentas que você traz.
Essa coisa da repetição é uma parada que eu gosto muito. Mesmo depois de as músicas [serem] gravadas, sinto que ainda estou conhecendo elas. Acho que é por isso, por abrir novos caminhos. Sinto que a maior diferença do Olho de Vidro para o big buraco é que eu coloco os versos e refrãos um pouco diferente.
No Olho de Vidro, normalmente, tinha três versos e um refrão ou um riff que se tornava refrão. Agora, no big buraco, tem o verso e o refrão, verso/refrão. Está um pouco mais dinâmico, a gente consegue entender o que é verso, o que é a história e o que é a conclusão.
Não fica tão solto ou tão quebrado. É um pouco mais 4×4 [compassos]. É um pouco mais pop, mais palatável, você saber que o refrão vem depois desse verso e saber que, depois do verso, pode vir o refrão de novo, mas pode vir também uma pontezinha ali para o verso de novo.
Ainda continuo repetindo muito, é o meu jeito. Tem muito dessa repetição no big buraco, mas não tão quebrado. Agora foi um desafio, tipo: “Poxa, quero fazer uma coisa que as pessoas saibam o que vai acontecer, e não só fiquem esperando um momento estranho”.
“O disco aborda muito esse lugar do amor, da paixão. Tipo, o básico para o ser humano. Falo de comer, dormir, beber, mas o amor também é básico. O disco inteiro fala sobre isso”
Você é uma artista que, desde o disco anterior, ou no Taxidermia, muitas vezes foi descrita como uma artista ligada à “música experimental”, ou algo assim, e agora você está nesta busca mais pop mesmo. Esse movimento é um desafio em que sentido e o que lhe levou a isso?
Ah, eu sinto que foi um desafio porque, quando a gente faz muito uma coisa, a gente fica acostumado com aquele modo de fazer. Foi um desafio gravar esse disco por isso, por sair de um modo de fazer para outro, que eu também tenho. Essa é uma outra camada minha. Não é porque faço umas músicas um pouco mais tortas, quebradas e tal, que eu também não componha melodias mais simples, mais populares.
Arrumei essa oportunidade para mostrar que eu também sei fazer isso, que eu também tenho essa camada e que não é estranho. Sinto que as pessoas estão recebendo muito bem, mas foi um desafio, sim. Mas “foi”. Agora, está de boa, está tranquilo. Já consigo identificar o disco como meu.
E sobre o Taxidermia, seu projeto com João Milet Meirelles, tem um pouco dele em big buraco, né? João é coprodutor, “1000 sensations”, “tremedêra” e “no pain” saíram também no Vera Cruz Island. Como se cruzam esses universos?
Teatro, né? Teatro tem uma mania de costurar as coisas. Eu fui criada dentro disso e acho que a gente deveria fazer mais disso na nossa vida, de pegar elementos e se inspirar em você mesmo. Sinto que eu não “tento” fazer isso, isso “acontece” e da melhor maneira possível. Por incrível que pareça, essas músicas que gravei no big buraco são as versões originais. Quando mostrei para João, eu mostrei em voz e violão, nessa pegada.
Ao trazer as músicas da forma original delas, parece que elas acabaram sendo feitas para o disco [big buraco], né? Acontece, acho que vou fazendo essa mistura dos projetos, eu tento colocar um pouquinho sempre. É uma referência para que as pessoas que escutam Taxidermia consigam também ouvir o big buraco e para quem escuta o Olho de Vidro escute o Taxidermia. É fazer esse link, essa rede, pra galera poder chegar mais fácil e até para a gente mesmo se situar. Eu gosto de fazer isso, acho que deixa a coisa um pouco mais arrumada, azeitada.

“Quando a gente faz muito uma coisa, fica acostumado com aquele modo de fazer. Foi um desafio gravar esse disco por isso, por sair de um modo de fazer para outro, que eu também tenho. É uma outra camada minha. Não é porque faço umas músicas um pouco mais tortas, quebradas e tal, que também não componha melodias mais simples, mais populares”
Antes de ser o nome do disco, ‘big buraco’ foi um show, como foi essa vivência se relaciona com o álbum que veio depois?
Em abril de 2023, fiquei em cartaz no Centro da Terra [em São Paulo] com esse espetáculo chamado ‘big buraco’, eram todas as segundas-feiras com um espetáculo completamente novo. Cada segunda-feira, levei uma pessoa super importante para a minha arte e minha vida, meus amigos: Giovani Cidreira, Josyara, Marcelle, Marina Melo, Kiko Dinucci, Fernando Catatau, Alessandra Leão, Juçara Marçal… Pessoas que fazem a diferença na minha cabeça, que me influenciaram nessa minha maneira de fazer música.
A partir dessas quatro segundas-feiras, tive um pouco mais de segurança para poder fazer esse disco assim. Então, ele começou nesse espetáculo, né? Tá todo registrado no YouTube. Várias músicas que estão no disco estavam nesse show, mas completamente diferentes, de formação, de jeito de cantar. O disco estava sendo feito muito antes de a gente pensar na gravação.
Pode-se dizer que foi ali o início do conceito que você trouxe no disco?
Total, da rapidez do mercado. Tipo, a cada segunda-feira você tem que ter um espetáculo novo para que as pessoas tenham vontade de vir. E realmente faz sentido, se fossem quatro segundas iguais, a galera que foi no primeiro não ia mais. E eu entendo por um lado, mas é muito cruel, né? Então, [o disco] parte desse espetáculo, sim, dessa necessidade de ser diferente a cada segunda-feira.
E sobre lidar com o mercado, como é para você isso? Você se sente contemplada com o mercado que ocupa?
Me sinto demais. Eu acho que entrei um pouco nesse fluxo de tentar fazer coisas novas, de ter formações diferentes e cantar a música de maneiras diferentes, de ter ideias para que a galera que gosta de mim queira ir, queira frequentar esse show, escutar o disco, enfim, esteja curiosa para isso. É, me sinto contemplada, sim, mas acho que muito por correr atrás. Eu tô indo atrás da coisa, sinto que tem esse movimento.
Não sei se “crítica” é a melhor palavra, mas o disco traz uma reflexão sobre tudo isso, com essa questão do imediatismo do mercado, não?
Total. Eu não sei se eu danço essa dança. Eu acho que eu danço essa dança do mercado, ou pelo menos tento, mas é uma crítica mesmo a
não se ter muito respeito a tipo: “A música é nesse formato, o jeito que você faz é desse jeito”. Não, é o que o mercado precisa. Então você vai se moldando para estar dentro do jogo.
A crítica desse disco é basicamente isso. “Poxa, então, já que é tão quebrado, vou fazer uma coisa um pouco mais palatável, mais perto do que a gente espera”. Tipo assim: “Ah, eu quero escutar uma vez e cantar já. E me dê outra”. Então, sim, existe essa crítica, mas também existe o movimento para que eu consiga acompanhar esse ritmo.
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