No ringue com BIG RUSH

Nocauteados pelo trapper e produtor, conversamos sobre seu mais recente disco, conselhos paternos, bater a cabeça na parede e influências que misturam Travis Scott, Rick James e Noel Rosa

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Fotos: Gerente

Dentro de uma casa em Irajá, no Rio de Janeiro, Jorge Antônio ouvia Samba. Gabriel Almeida, seu filho, pesquisava músicas no Ares. Por ver a reação geniosa de seu pai quando ouvia o filho dizer “eu não consigo fazer isso” (sobre qualquer coisa que fosse), Gabriel aprendeu que essa frase não deveria ser usada. “Não é que você não consegue, você só não tentou até dar certo ainda”, aconselha – ele é cheio de punchlines como essa e ouvir seu último álbum, Ad Rb (2020), é como estar dentro do ringue. Nos rolês de carro com o pai, o rádio ligado o ensinou outra lição valiosa: ouvir todo tipo de música. Essas duas qualidades compõem hoje BIG RUSH, vulgo atual de Gabriel, um jovem apaixonado por música e que escolheu o Rap para se expressar.

Com voz que remete a Shawlin na época do Quinto Andar, Rush já teve muitas fases e se apresentou ao público em muitas sonoridades diferentes. A melhor plataforma para conhecer seu trabalho a fundo segue sendo o YouTube. Apesar de o Spotify contar com On Fire Mixtape (2019) – repleta de sons altamente qualificados para bate-cabeças –, o excelente Ad Rb (2020) e alguns singles de 2020, o YouTube tem tudo isso, além da mixtape Danger Zone (2019) e Antes do Rush! LADO A (2020). O último, em companhia de Ad Rb, forma a ideia de um único disco, que tem o objetivo de expor seu desenvolvimento como artista.

Enquanto o Lado A tem batidas de Trap envoltas em um estilo mais melódico e cantado, o Lado B vem como uma pancada: são 22 faixas, quase 50 minutos de Hard Trap, um outro Rush. As batidas são secas, violentas e em poucas faixas Gabriel canta. Na maioria, ele rima (e muito bem). O álbum é coeso, bem amarrado, e apresenta um rapper agressivo, impaciente e extremamente criativo, como é possível notar em exemplos como o interlúdio “Flo Rida” e a faixa “Jye!”. Em “Dz, Pt. 2”, Rush entra com um screaming, técnica comum em gêneros como Hardcore, Heavy Metal e Punk Rock, mas que também já foi usada no Blues. É um disco imprevisível, em que cada faixa te acerta de uma forma diferente, e são justamente essas surpresas que tornam o som e o artista, tão cativantes.

Gabriel contou que essa justaposição paradoxal do Lado A com o Lado B foi pensada com cuidado e coube ao Lado A contemplar seus vulgos anteriores à Fire Gang, quando ele passou a se intitular como Rush. Desde que começou a rimar na Batalha do Cemitério, em Irajá, ele já pegou no mic sob as alcunhas MC Almeida, na época dos raros freestyles, Rouxinol, quando começou a gravar, Rush e YFG Rush. Assim que a Fire Gang finalizou seus lançamentos, então, enfim, tornou-se BIG RUSH.

Pássaro famoso por cantar bem, Rouxinol caiu nas graças de Gabriel – ele até cita o conto Rouxinol e o Imperador (1843), de Hans Andersen, bela história sobre música, liberdade e originalidade, três coisas que imediatamente lembram sua trajetória. Voltando para a linha do tempo, o nome mais atual veio como uma tag mais sonora e curta, Roux… E Rush. Como parte da Fire Gang, ele produziu mais beats No Melody, e, antes da pedrada “Fire 1900”, colaborou com o beat de “Love and Choppa”, que tem mais de 25 milhões de visualizações no YouTube atualmente

Seu som é bem agressivo, esse Hard Trap muito presente em Ad Rb. Me fala um pouco mais sobre esse estilo e o que te chamou a atenção nele.

Energia. Eu gosto muito de falar sobre esse bagulho de energia, a energia que esse som tem é uma coisa que você só sente. Esse som mais agressivo tem uma energia muito boa quando você vai fazer um show. Tem música que as pessoas ficam só ouvindo, às vezes cantando. Pô, eu gosto de energia, tipo um show do Travis Scott – você não vai pra um show desse, você sobrevive a um show desse. Tinha uns sons que eu botava uma tag falando que você podia ouvir no fone, tranquilão, ou colocar na maior caixa de som que você encontrar e bater a sua cabeça na parede, sair pulando que nem maluco, sabe?

(Essa tag aparece na On Fire Mixtape (2019) e segue: Se você está numa casa de show e está tocando essa música no show, eu quero o maior mosh pit da noite agora. Se você está em casa, tira o fone, bota na caixa de som e bate a cabeça na parede”. Rush conta que quando criou a tag foi pensando que “esse som não ia tocar em show, então se a pessoa está ouvindo em casa, eu vou fazer uma coisa pra ela entrar na onda, pegar qual é a do álbum”).

Em “Disco Rush” e “flow Billie Jean” você expõe muito sua versatilidade, rimando em cima de um beat de disco, bem anos 1980. Pretende produzir mais coisa assim?

Estou produzindo ainda, mas vai sair um EP Disco Rush, uns beats com sample de Rick James, James Brown. Para fazer som assim eu só tento ser o mais diferenciado possível, fazer o que ninguém está fazendo.

Houve uma época em que Gabriel ouvia todos os dias religiosamente “Heartless”, de Kanye West, inclusive o 808s & Heartbreak (2008) é seu favorito da discografia do rapper americano. Além de Kanye, Rush tem Pharrell Williams como referência de produtor musical e Young Thug, tematicamente. Sobre o último, impressiona “o jeito que ele revolucionou o Mumble Rap, que é rimar umas paradas deixando meio difícil de entender o que a pessoa está rimando, mas cria uma sonoridade muito legal. Além disso, tem toda essa parada de ser você mesmo. Quando ele apareceu na cena foi muito criticado, tem um álbum que ele aparece na capa de vestido e geral criticou ele por isso”, diz relembrando o burburinho causado pela capa de JEFFERY (2016).

BIG RUSH abraça a ideia de encorajar as pessoas a serem elas mesmas, por isso, busca autenticidade sem concessões, mas não se engane: em Ad Rb (2020) o eu lírico vai fundo e é bem mais fechado do que Gabriel realmente parece ser. Ainda assim, a tônica do trabalho é a pungência. Com flows cortantes, a entrega do rapper nos coloca na mesma empolgação que ele, e, a partir do contraste entre os discos e as propostas, revela-se a multiplicidade do artista. E, especialmente, seu caráter imprevisível – tão caro ao Rap hoje em dia.

“Esse som mais agressivo tem uma energia muito boa quando você vai fazer um show. Você não vai a um show do Travis Scott, você sobrevive a um show do Travis Scott.”

Uma das músicas que eu mais gosto em Ad Rb é “Killa”. Nela, você fala “Quero botar o RJ no mapa e só depois disso eu vou estar realizado”. O que é botar o RJ no mapa, na sua opinião?

Eu falei sobre isso esses dias no Twitter, porque umas pessoas vieram falar que o Rio e São Paulo sempre foram lugares consolidados e, assim, eu até concordo com isso, mas sempre foi muito São Paulo – querendo ou não, Trap nasceu em São Paulo. Depois tiveram os nomes do RJ, GXLDEN, que trouxeram a coisa para cá e ainda são muito underground. Eu não estou falando de estar acima de nenhum estado. É que o RJ tem o lugar dele.

Três cariocas que já mudaram a cena (pode ser do Rap, Trap, Samba, qualquer gênero de verdade).

GXLDEN trouxe tudo isso pra cá, de falar a realidade, vivência de um jeito do Trap. Bloco 7 influenciou uma geração – comecei a fazer música por causa do JXNV$. Ah, vou ser criticado por falar isso, mas a Fire Gang, porque a Fire trouxe uma essência que hoje em dia é o que todo mundo faz. A gente não começou No Melody, que é esse Rap com uma batida sem melodia, mas a gente influenciou a cena toda do Trap. A gente mudou muito a cena e isso me assusta bastante, na real; em 2019, tudo aconteceu tão rápido, as coisas mudaram muito rápido, a evolução aconteceu muito rápido.

Se você pudesse passar o dia no estúdio com um artista, vivo ou morto, quem você chamaria?

Michael Jackson, um dia em Neverland. Não tem como, é o rei – eu ia aprender muito, com certeza.

Qual é o melhor conselho que você já recebeu?

Do meu pai. Não é nem um conselho, mas é sobre não falar “eu não consigo”. Sempre que eu falava isso, meu pai ficava muito puto, muito bolado, acho que por isso eu sou perseverante com música. Tudo que eu sei de música, beat, mix, tudo, eu aprendi sozinho vendo vídeo no YouTube. Eu nunca até hoje fiz uma aula de música. Não é que você não consegue, você só não tentou até dar certo ainda.

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ARTISTA: BIG RUSH
MARCADORES: Rap, Trap