No ritmo da rabeca de Luiz Paixão

A trajetória do Mestre da rabeca é celebrada no álbum “Forró de Rabeca”, que marca seus 72 anos de vida e seis décadas de dedicação ao instrumento

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Fotos: Mateus Sá

A rabeca é um violino popular que descende da Península Ibérica e que, no Brasil, firmou-se sobretudo na região Nordeste, onde está presente em diversas culturas musicais. Feito artesanalmente, o instrumento é delicado e não é lá muito apropriado para crianças. Por isso mesmo os mais velhos escondiam a rabeca do menino Luiz Paixão. Porém, curioso e intrigado, ele criava suas formas de driblar a censura dos adultos. Todo domingo, havia uma festa com música sendo tocada em sua casa. Atento, ele escutava os familiares tocando e nos intervalos corria para pegar a rabeca e reproduzir os sons que tinha acabado de ouvir — bem baixinho para não chamar atenção.

De tanto tocar escondido, aprendeu “duas notinhas”, como ele diz. E ousou bater de frente com o seu Tio Antônio, rabequeiro que morava próximo a sua casa. “Eu falei pra ele: ‘Eu sei tocar esse negócio!’. Mas eu só fazia duas notinhas. Ele tomou a rabeca da minha mão, desafinou e cadê as duas notinhas? Não saía mais”, conta. Luiz então foi aprendendo mais e mais com o Tio Antônio (e outros mestres) e se tornou um dos maiores nomes do instrumento, tendo influenciado toda uma geração de músicos nordestinos. A sua trajetória agora é celebrada no álbum Forró de Rabeca, que marca seus 72 anos de vida e 60 anos de dedicação ao instrumento.

Nascido em 1949 no município de Aliança, Luiz Paixão teve uma vida árdua como muitos dos negros da Zona da Mata Norte de Pernambuco. Aos oito anos começou a trabalhar no corte da cana-de-açúcar e continuou na lida por cerca de quatro décadas — trabalho pesado que desgastou a cartilagem da articulação das suas pernas, rendendo-lhe artrose nos dois joelhos. Ao mesmo tempo, Luiz pertence a uma família de prestigiados músicos da região. O avô Severino Paixão e os tios Manoel e Antônio também eram rabequeiros e o pai, Odilon, tocava triângulo.

Mas a principal conexão musical-familiar de Seu Luiz talvez tenha sido com o primo de segundo grau Zé Alves, um famoso rabequeiro local. Apesar de não ter deixado nenhuma gravação, sua fama ainda circula e sua habilidade como instrumentista se tornou lendária. Zé Alves perdeu um braço — uns contam que foi devido a um acidente com um fio de um poste, outros afirmam que ele foi atingido por um raio — e reza a lenda que ele continuou tocando a rabeca usando o sovaco. “Diziam que ele tocava com a pata do capeta”, conta Seu Luiz, rindo.

Para além das lendas, o fato é que Zé Alves fez parte do cavalo marinho do Mestre Batista, um dos mais prestigiados grupos dessa tradição popular que combina teatro, dança e música. Após a morte de Zé em 1977, Luiz Paixão (que desde os 15 anos vinha tocando em grupos de cavalo marinho) foi escolhido por Batista para substituir o posto do primo. Assim, passou a ter contato com outros gigantes da música da Zona da Mata, como Biu Roque (sogro de Luiz e autor da faixa “Maria Pequena”) e Sidraque (que canta na faixa título do novo álbum). “Foi muito importante pra mim porque com Batista eu conheci todos eles e de lá já conheci outras pessoas, como Mané Deodato (voz e pandeiro). Você se ajunta com esse povo todo e vai aprendendo sempre”, narra o rabequeiro, atualmente vivendo na cidade de Condado.

Poucos anos antes de formar a banda Mestre Ambrósio, em 1991 Siba conheceu e chegou a substituir Seu Luiz na banda do Mestre Batista por um período. Ele também reforça a importância daqueles músicos: “Eu diria que o grupo de Mestre Batista é um grupo clássico, no sentido de que levou a uma super elaboração do cavalo marinho para um lugar mais elevado. A gente não conhece os antigos, mas o banco [grupo de músicos] de Batista destoa tanto dos outros que dá vontade de usar esse termo ‘clássico’, ainda que meio artificial. O banco de Batista ocupa um lugar bem especial na tradição”.

Produtor do álbum Forró de Rabeca, o carioca João Selva conheceu Luiz Paixão em um forró quando vivia em Olinda no início dos anos 2000. Para ele, a experiência de décadas tocando com o Mestre Batista e vários outros cavalos marinhos enriqueceram a música de Luiz. “Ele tocou com Batista e em praticamente todos os bancos da Zona da Mata. E por ter esse ouvido fantástico, ele conseguia fazer o fraseado de cada mestre. Cada um tem a sua entonação, sua rítmica, aquele seu jeito de botar nota mais pra frente ou mais pra trás, o seu balanço. E ele conseguia entrar na onda de todos. Isso acabou enriquecendo o jogo instrumental dele”, analisa. “Muitos rabequeiros ficam ali naquele mesmo banco, naquela mesma escola, acompanhando aquele mesmo mestre e acaba saindo muito pouco. Seu Luiz sempre circulou muito”.

Para o músico, produtor e pesquisador Caçapa (que escreveu o texto de apresentação do álbum e tocou com Seu Luiz), o rabequeiro também se destaca pela relação que possui com o forró, como é possível ouvir em faixas como “Baião Arrochado” e “Forró do Cambiteiro”. “Ele tem essa linguagem do cavalo marinho mas também tem uma linguagem melódica e rítmica de forró, principalmente o forró de oito baixos. Isso é muito claro nas composições dele. Eu acho que isso dá outras possibilidades a ele, enriquece. Muita gente só toca a rabeca em cavalo marinho”, pontua.

“Luiz Paixão tocou com Batista e em praticamente todos os bancos da Zona da Mata. E por ter esse ouvido fantástico, ele conseguia fazer o fraseado de cada mestre. Cada um tem a sua entonação, sua rítmica, aquele seu jeito de botar nota mais pra frente ou mais pra trás, o seu balanço. E ele conseguia entrar na onda de todos. Isso acabou enriquecendo o jogo instrumental dele” – João Selva, produtor de Forró de Rabeca

Em 2006, Luiz Paixão lançou o seu primeiro álbum, Pimenta com Pitu, produzido pela cantora e rabequeira Renata Rosa. O disco o projetou como instrumentista e compositor, fazendo-o circular pelo Brasil e também internacionalmente — especialmente na França, onde ganhou admiradores como o violinista Didier Lockwood, que o descreveu como o “Paganini da rabeca”. Forró de Rabeca consolida a arte de invenção do músico pernambucano.

Lançando pelo Selo Sesc, o álbum foi gravado no estúdio Gargolândia, localizado numa fazenda no interior de São Paulo. Os músicos ficaram hospedados lá por uma semana, com liberdade para usar o estúdio sem depender de horários fixos. A estrutura também permitiu que todos tocassem juntos, se ouvindo e se vendo, mas em diferentes salas — permitindo assim mais possibilidade de edição e corte na pós-produção, mas sem perder a espontaneidade do toque vivo. “Primeiro eu tentei gravar guias com o som das percussões e fazer eles gravarem por cima. Mas não era legal”, explica o produtor João Selva. “Eles têm essa coisa de acelerar e frear o andamento que é massa, faz parte da musicalidade. Então descartei esse clique, esse metrônomo, por mais que seja um clique orgânico gravado. A proposta foi gravar ao vivão mesmo, mas em um estúdio que desse pra separar os instrumentos”, diz ele, ressaltando também a mixagem de Gilberto Monte como “artesão do som” do disco.

“Luiz Paixão desenvolveu um jeito muito particular dentro daquele repertório da Mata Norte. É o jeito que ele articula, como ele toca, como ele divide o ritmo. A gente não tem uma teoria clara para explicar isso, mas ele é um rabequeiro que sempre tocou muito limpo — mais explicadinho, como diria o pessoal lá — e tem uma certa rítmica ‘mole’ que é muito especial dele” – Siba

Forró de Rabeca concretiza o desejo de Luiz Paixão de reunir os antigos companheiros de cavalo marinho e forrós na Zona da Mata de Pernambuco, além de músicos de gerações maiores que o acompanham em turnês no exterior. E capta também o virtuosismo e a precisão do músico, que desenvolveu uma técnica que ele chama de “tom cheio”. Consiste em tocar duas cordas da rabeca em um só golpe de arco, raspando uma corda no mesmo tempo da melodia, o que imprime uma sonoridade mais percussiva.

“Muitos rabequeiros fazem isso às vezes sem querer ou sem tanto controle. Mas Luiz faz uso dessa sonoridade de corda com muita precisão rítmica. Em muitas gravações dele você percebe que esse tom cheio está sempre no contratempo”, detalha Caçapa, exaltando a habilidade rítmica do mestre. “Não é a melodia principal que ele está tocando. É uma sonoridade que apoia, que dá um timbre diferente para a rabeca. E ele usa isso de forma rítmica”.

“Se ficar bom, ficou; se não prestar, o problema é de quem tá ouvindo. Eu sou é doido” – Luiz Paixão

Siba também destaca o suingue do rabequeiro natural de Aliança. “Ele desenvolveu um jeito muito particular dentro daquele repertório da Mata Norte. É o jeito que ele articula, como ele toca, como ele divide o ritmo. A gente não tem uma teoria clara para explicar isso, mas ele é um rabequeiro que sempre tocou muito limpo — mais explicadinho, como diria o pessoal lá — e tem uma certa rítmica ‘mole’ que é muito especial dele”.

“Muitos rabequeiros fazem isso às vezes sem querer ou sem tanto controle. Mas Luiz faz uso dessa sonoridade de corda com muita precisão rítmica. Você percebe que esse tom cheio está sempre no contratempo. Não é a melodia principal que ele está tocando. É uma sonoridade que apoia, que dá um timbre diferente para a rabeca. E ele usa isso de forma rítmica” – Caçapa (músico, pesquisador e autor do texto de apresentação de Forró de Rabeca)

O repertório do álbum combina novas composições autorais (“Baião Arrochado”, “Forró do Cambiteiro”, “Ciranda da Macaxeira” e “Farol de Olinda”) e gravações de domínio público, transitando pelo forró, coco, ciranda, cavalo marinho e baião. Ainda conta com momentos especiais, como “Pé de Lírio”, que é cantada por Maíta, esposa do rabequeiro que o acompanha fazendo coro e pela primeira vez assume a voz principal. O próprio Luiz Paixão também estreia nos vocais em “Maria Pequena”, música de autoria de Biu Roque, seu falecido sogro e companheiro dos tempos de Mestre Batista. “Quando a gente estava montando o repertório, Seu Luiz lembrou dessa música e cantarolou. Eu nunca tinha escutado alguém cantar essa música daquela forma”, lembra o produtor João Selva, que convenceu o rabequeiro a cantá-la em seus shows e, depois, gravá-la em disco — ainda que Luiz não conseguisse tocar seu instrumento e cantar ao mesmo tempo.

“Essa é uma coisa de Seu Luiz: ele está com mais 70 anos e ainda se permite correr esse risco para tentar coisas novas”, elogia Selva. Por telefone, o rabequeiro dá risada da sua chama de inquietude: “Se ficar bom, ficou; se não prestar, o problema é de quem tá ouvindo. Eu sou é doido”. O ímpeto destemido que levou Luiz Paixão a pegar a rabeca escondido da família é o mesmo que o mantém em contínuo movimento aos 72 anos. Sorte a nossa de poder ouvi-lo.

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ARTISTA: Luiz Paixão