Há aquele ditado popular que diz que “o tempo é o melhor remédio”. E, de fato, a distância temporal entre um acontecimento decisivo e a desejada calmaria nos permite enxergar as coisas sob nova perspectiva. O amadurecimento pessoal, a revisão de desejos e ambições e uma reflexão mais sóbria a respeito das idas e vindas da vida fazem parte de Acrônico, segundo álbum solo do cantor e compositor Jean Tassy. Disponível nas plataformas digitais desde 19 de novembro, o projeto do artista brasiliense reflete uma jornada de autoconhecimento e transformação e explora questões profundas pós-pandêmicas com sensibilidade e autenticidade.
Desde pequeno, Jean tem interesse e se aventura pelo mundo musical. A avó o colocou na BSB Musical, em Brasília, onde aprendeu a tocar teclado, e, na adolescência, aprendeu violão em casa, sozinho, e já começou a compor. Aos 22 anos, viveu a experiência de fazer parte da banda Mesa Redonda e, além disso, era integrante do grupo de rap TheGusT MC’s. Foi a partir de 2018 que ele de decidiu investir em sua carreira solo.
Amanhã (2021), seu primeiro álbum, abordou a vivência de um artista durante tempos pandêmicos, vivendo em um fluxo BSB-SP, e é carregado de um tom, não por acaso, que une esperança e melancolia. O projeto contou com a participação de artistas como Marina Sena, Don, SPVIC (Haikaiss), Fleezus e Davi Sabbag.
Em Acrônico, o músico embarca em uma jornada de amadurecimento, lida com fantasmas e véus impostos pela sociedade, encara de frente dilemas internos – e, sobretudo, entra em contato com sua essência. Com um lançamento dividido em três fases, Acrônico marca uma virada de chave na trajetória de Jean, que traz o audiovisual como aliado essencial. Antes do lançamento do disco, no dia 14 de novembro, foi divulgado um curta-metragem no estilo coming of age, dirigido por Helder Fruteira e Carol Aó (a dupla Blue), em colaboração com Jean e Sabrina Destefani.
Ao longo do repertório, em meio a colaborações afiadas de nomes como Liniker, Don L, Wiu, Duquesa e Yago Oproprio, Jean incorpora um toque de brasilidade ao neo soul e ao R&B contemporâneo. É um som versátil e original que transita entre diferentes gêneros musicais – e de difícil categorização. Mas, para além do som, em Acrônico, os dias melhores, os quais o músico anuncia na faixa em parceria com Don L, parecem ter chegado.
Como foi o processo de produção de Acrônico? Quando e como tudo aconteceu?
Acrônico é o meu segundo disco, mas foi o lançamento mais complexo e trabalhoso que tive em toda minha carreira musical, pois precisei de muito mais investimento, tanto emocional quanto financeiro, para realizá-lo. As primeiras músicas surgiram em maio de 2023, quando tive uma vivência com produtor Iuri Rio Branco em nossa querida “casa hippie”.
Não é a primeira vez que você trabalha com o Iuri Rio Branco. Vocês já colaboraram em Amanhã e Ontem. Como é a parceria entre vocês no estúdio? E também para além do estúdio.
Trabalho com o Iuri Rio Branco desde o EP Ontem, meu segundo em carreira solo. Depois disso, nunca mais paramos de trabalhar juntos. Fizemos o EP Hoje, o álbum Amanhã e agora o Acrônico. Sempre tive um sentimento bom de trabalhar com ele, inclusive a nossa primeira música juntos, “Diz pra Mim”, é um sucesso até hoje. Temos muitos projetos para fazer ainda e tudo que a gente se entrega para fazer a gente tem orgulho depois. Somos amigos dentro e fora do estúdio e acho que isso deixa nosso trabalho mais conectado em relação a gosto musical e experiências de vida.
“Sempre senti que o ritmo de Brasília é mais lento, e isso não tem nada de ruim. Para compor e colocar os pensamentos em dia é incrível. E em São Paulo, o tempo é corrido e conturbado, o que também me atrai, para me bagunçar de forma positiva. Vejo o fluxo dessas cidades como fator fundamental para o que foi o meu trabalho”
Como foi o processo de chegar ao nome “Acrônico”? O que ele significa para você e esse disco?
Chegar ao nome do disco foi um trabalho muito complicado, mas a essência da ideia eu já tinha em mente. Realmente queria um nome que combinasse com todos os meus trabalhos anteriores e que fizesse sentido pra minha nova fase – e que ao mesmo tempo quebrasse o sentido de tudo que fiz até aqui.
O novo trabalho conta com colaborações de artistas como Liniker, Don L, Duquesa, WIU e Yago Oproprio. Como foram essas parcerias?
Quem me ajudou bastante na escolha dos feats foi o Iuri. Ele se conectou com o Wiu, Duquesa e Don L. E eu chamei a Liniker e o Yago Oproprio. Fiquei muito feliz com o resultado de todos os sons com cada um deles.


Você aborda um processo de amadurecimento pós-pandêmico, explorando como lidar com as próprias sombras, as máscaras sociais e os dilemas internos. Como foi mergulhar em questões tão pessoais? Quais desafios e descobertas surgiram ao longo dessa jornada? E de que forma esses elementos se refletem nas músicas e nas letras do álbum?
Eu já estava mergulhado nesses dilemas todos, e quem me ajudou a clarear e direcionar o olhar para isso foi a minha diretora criativa Sabrina Destefani, conhecida como Embrazada. A música “Beto” fala muito sobre essa questão do retorno às atividades, ao fluxo da vida. Já a música “Viveiro” fala de forma abstrata e metafórica de um afogamento em meus próprios pensamentos e com isso retorno mais maduro, com mais experiências de vida com relação aos fracassos. Junto disso, o verso “quem vai me dizer quando parar?” é como um grito pela minha própria forma de ser camaleão e me reinventar no mundo da música.
O primeiro single do álbum, “Dias Melhores”, com o Don L, traz uma mensagem positiva e esperançosa. Como é para você transmitir essa perspectiva através da música? E como essa visão de ‘dias melhores’ reflete o momento atual da sua vida e carreira?
Minha faixa com Don L ter sido a primeira a ser lançada antes do disco remete a minha expectativa de que virão, sim, dias melhores e estar ao lado de um artista que eu sempre admirei fortifica isso. A música se trata de uma voz de esperança para as pessoas, incentivando-as a buscar seus valores novamente.
“Queria um nome que combinasse com todos os meus trabalhos anteriores e que fizesse sentido pra minha nova fase – e que ao mesmo tempo quebrasse o sentido de tudo que fiz até aqui”
A autorreflexão sobre o momento pandêmico parece ser um tema forte no seu trabalho. Como você vivenciou esse ‘pré’ e ‘pós’ pandemia? Dentro de você, o que mudou nesse período e como essas mudanças se refletem na sua forma de compor?
No momento pré-pandêmico tive o lançamento do meu EP Hoje (2020) e o lançamento do álbum Amanhã (2021). Minha fé na arte quase morreu. Perdi a esperança nas coisas, como a maioria das pessoas passou também. Passei por problemas de saúde psicológica. Mas logo no pós-pandêmico, recuperei minha esperança com mais maturidade e responsabilidade emocional. Isso me ajudou muito na inspiração de compor e começar a produzir o Acrônico.
Quando e como surgiu a ideia de desenvolver o curta-metragem? Como foi produzir e desenvolver esse trabalho?
Sempre fui apaixonado por audiovisual, mas nem sempre tinha a estrutura ideal e equipe ao meu lado para executar algo do tamanho que combinasse com meus pensamentos e ideias. Porém, no disco Acrônico, tive minha diretora criativa Sabrina Destefani (Embrazada) e os diretores Helder e Carol (Blue) juntos comigo. Criamos e executamos um trabalho maravilhoso e acredito que será atemporal. Todos poderão assistir no futuro e não sentirão estranhamento – pois como o próprio nome diz, não se prende ao tempo.
Como é para você viver entre os polos de Brasília e São Paulo? Em que aspectos a dinâmica dessas cidades — seja a arquitetura, a atmosfera ou o ritmo de vida — influencia suas composições e seu processo criativo?
Sempre senti que o ritmo de Brasília é mais lento, e isso não tem nada de ruim, muito pelo contrário, para compor e colocar os pensamentos em dia é incrível. E em São Paulo, o tempo é completamente corrido e conturbado, o que também me atrai, para me bagunçar de uma forma positiva. Vejo o fluxo dessas duas cidades como um fator fundamental para o que foi o meu trabalho.
“Foi o lançamento mais complexo e trabalhoso que tive em toda minha carreira. Precisei de muito mais investimento, tanto emocional quanto financeiro, para realizá-lo”
Em uma entrevista ao Correio Braziliense, você mencionou que o show em Fortaleza (2022) como “um dos mais importantes da minha vida”. Poderia nos contar mais sobre como essa experiência moldou sua relação com o Nordeste e o que ele significa para você, além daquele dia?
O show de Fortaleza no festival Zepelim foi um marco na minha carreira, sempre quis cantar no Nordeste e quando vi um mar de pessoas cantando comigo naquela noite foi um choque de realidade. Minha maior referência musical é Djavan, e desde pequeno passava com minha família as férias em Maceió. Para esse ano, pretendo tocar bastante no Nordeste, pois além de ter fãs que sempre me cobram de ir cantar lá, é algo que mim seria uma realização pessoal para minha música e alma.
Qual é a sua faixa favorita de Acrônico? Por quê?
Uma das minhas faixas favoritas do disco é “Beto”, porque foi a que eu mais tive necessidade de expurgar e compor. Foi uma música que me tirou um peso das costas e senti que meu álbum estava, de fato, ganhando corpo.
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