nos bailes da vida: sérgio machado

Da parceria de longa data com Metá Metá à turnê com Racionais MC’s, o baterista fala sobre a importância de escutar música junto e aprender com o ouvido alheio

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Fotos: Thiago Selau

A série nos bailes da vida conversa com músicos, musicistas e artistas que, de show em show e de estúdio em estúdio, emprestam seu talento (a músicos, musicistas e artistas) por aí.

 

 

Sérgio Machado, de 43 anos, falou comigo logo antes de pegar mais um voo para mais um show da turnê do disco CAJU, da Liniker. Ainda assim, a entrevista não foi feita às pressas, muito pelo contrário. Não é uma situação exatamente estranha para ele – seis meses atrás, o baterista paulistano estava no Japão acompanhando Ana Frango Elétrico na turnê Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua. Já era fim de tarde quando Sérgio atendeu minha ligação em um parque, com muita vontade de falar e, apesar da bateria baixa, elaborando cada resposta com tempo dilatado e uma fluidez tamanha, como quem encontra um velho amigo numa sexta-feira ociosa de sol – coisa rara em São Paulo, do tipo que tem que aproveitar.

A turnê ao lado da Liniker é só uma das oportunidades de ver o baterista tocando por aí. Um destaque vai para o show de Colinho, em que Sérgio e Fábio Sá acompanham a cantora e multiinstrumentista Maria Beraldo. Neste show, os tempos quebrados da bateria e seu domínio do ritmo, ora frenético, ora sutil, são de tirar o fôlego. Você provavelmente também já viu Sérgio tocando; pode ter sido na turnê de 30 anos dos Racionais MC’s ou com os parceiros de longa data do Metá Metá, com Ana Frango Elétrico, Céu ou Criolo, com Ney Matogrosso, João Donato, Dominguinhos ou ainda com seu pai, Filó Machado.

“A câmera tem que ser trabalhada como um instrumento musical e a montagem como uma bateria”, dispara Glauber Rocha no corte de uma entrevista, republicado por Sérgio logo antes da publicação deste texto. A frase, dita com atropelo, ecoa uma das principais lições que Sérgio tirou ao lado do pianista Laércio de Freitas. “Olho na estrada, Sérgio”, repetia Laércio, como quem diz, tal qual Glauber, que o baterista é quem conduz a banda e cabe à bateria sustentar o ritmo do filme.

Hoje, Sérgio está desenvolvendo novos processos criativos, através da voz e da escrita. “A minha vontade de escrever veio quando eu passei por alguns dramas afetivos, algumas travessias pessoais, e eu acho que, se você for uma pessoa atenta e não for uma pessoa orgulhosa, você consegue aprender muito dentro de um relacionamento”, comenta. “Eu sou de uma outra geração, estou lidando com relações contemporâneas, vivendo um relacionamento não-monogâmico e isso tem sido muito interessante pra mim, inclusive pra observar o meu trânsito dentro desses lugares, como isso afeta minha percepção de mundo e, de repente, eu estou aprendendo muito com pessoas bem mais novas que eu. De longe, eu estou na melhor fase da minha vida.” Rompendo o hiato do seu disco de estreia, Plim (2017), Sérgio pretende começar a soltar faixas do seu novo projeto ainda em 2025, com uma escrita que parte do afeto e da dúvida, da turbulência ordinária do amor.

Hoje eu estava escutando a Discotecagem Comentada do Kiko Dinucci no Balanço & Fúria e me parece que todo mundo do Metá Metá tem um apreço especial e uma preocupação em criar a sua própria forma de tocar. Eu queria saber como que você encontrou a sua timbragem da bateria e se teve um momento que você pensou tipo “isso, isso aqui é meu”.

A diferença que eu tenho um pouco, talvez, do Kiko e do Metá Metá em geral é que eu tenho um trânsito maior com relação a estilos. Acabei tocando estilos muito distintos. Mas, dentro das coisas que me agradam muito hoje e que sinto que definem uma estética ou um conceito do que gosto, sempre encontro essa sonoridade mais quente, mais orgânica, mais antiga, com um processamento eletrônico, analógico ou digital. Também tem uma coisa que eu costumo chamar de pós-gênero, que é uma sonoridade que tem uma relação com alguns gêneros, mas não está necessariamente definida, mas também não é experimental, sabe?

Você toca com bastante gente hoje em dia, já participou de muitas turnês, com Céu, Maria Beraldo, Ney Matogrosso, Liniker… Me conta qual foi seu “maior” show e seu show mais underground.

Olha, de mais underground que me vem a memória acho que foi Negro Leo na Áudio Rebel. Show do Action Lekking, estava o Léo, Fabinho [Fábio Sá] e eu, a gente tocou no chão ali no meio da Audio Rebel e a galera ficou em volta da gente. Esse show eu acho que foi bem visceral, foi muito punk e a gente estava muito perto das pessoas.

Bom, show gigante você deve ter um monte para me contar.

Cara, esses shows com a Liniker agora da turnê de CAJU estão sendo bem marcantes. E eu lembro de alguns com o Criolo também, da época do Nó na Orelha (2011). Lembro de ser muito forte. Não só de ter um público gigante, porque você pode tocar num festival e tocar para um público gigante que não é o seu público, que é um público que está por ali. Agora, quando você toca em um show gigante que o público está ali para o seu show, para o show do artista com quem você está tocando, é bem impactante. Porque você sente uma energia de uma massa de pessoas se conectando através da música, o que é muito, muito foda.

“Dentro de uma produção, de um som, de um show, a bateria tem uma responsabilidade. Ela é a coluna que segura – ela tem um dever, uma obrigação de segurar uma estrutura”

Me diz uma música especial do repertório dos artistas com quem você toca.

Gosto muito do repertório de Ana Frango Elétrico, especialmente “Insista em mim” e “Camelo Azul”. E tem essa gravação da Liniker que foi bem especial também, que é “VELUDO MARROM”. Essa é uma música muito forte e acho que jamais esperava gravar uma música daquela forma e pegar tanto no show, uma música longa, uma balada, uma explosão muito grande e essa música provoca uma emoção muito grande nas pessoas. A Liniker vai numa parada profunda do que é o afetivo para além do que é o romântico, mas essa coisa humana, profunda, sem cair nesse lugar de querer ser elevado, sublime, mas um lugar do sentir mesmo real, visceral. Foi foda gravar essa música e tocar ela ao vivo.

Do Negro Leo, foi foda ter gravado o Action Lekking, o Desejo de Lacrar que é um álbum que eu produzi… “Eu Lacrei” é uma música que acho que traduz muito a genialidade do Léo. É uma coisa de uma poesia cênica, produz uma imagem foda e musicalmente é tipo um jazz, mas ao mesmo tempo é punk. Muito louco, o Léo é um artista que faz harmonias e melodias muito especiais. Com a galera do Metá Metá é muito louco porque todo disco sempre parece que é 70% do que é o Metá Metá. Para mim, é uma experiência ao vivo. Metá Metá acontecia uma coisa ao vivo que a gente tinha as músicas, as composições, mas a maneira como a gente tocava nunca era a mesma porque aconteciam desenvolvimentos incríveis de improvisação. Mas,eu gosto muito do MM3 (2016), em termos de sonoridade. Acho que é o álbum que eu mais gosto.

“Véu da Noite”, da Céu, do primeiro álbum dela, também foi uma coisa legal, muito diferente, uma descoberta muito foda para mim. Na época em que a gente começou a tocar junto e levantar coisas pro álbum da Céu, foi uma coisa que me acordou pra um lugar de uma pesquisa que não existia antes, sabe? Recentemente, Maria Beraldo me chamou para fazer o Colinho e ela me chamou justamente para agregar com as minhas pesquisas rítmicas; desse disco, eu gosto muito de “I Can’t Stand My Father Anymore” e “Crying Now”, até pela minha performance e de sonoridade da bateria mesmo. E eu tô fazendo as minhas coisas, Thaís, vou começar a lançar algumas coisas ainda esse ano.

“Toco estilos muito distintos. Mas, dentro das coisas que me agradam e que sinto que definem uma estética ou um conceito do que gosto, sempre encontro essa sonoridade mais quente, mais orgânica, mais antiga, com um processamento eletrônico, analógico ou digital. Também tem uma coisa que costumo chamar de pós-gênero: uma sonoridade que tem relação com alguns gêneros, mas não está necessariamente definida, mas também não é experimental”

Opa! Um disco seu?

Sim, vai sair um disco meu, com composições minhas e, pela primeira vez, vou atuar um pouco com a voz também.

Me conta mais sobre o processo do disco.

Ah, é um momento muito louco porque eu tô descobrindo uma expressão minha através da escrita. Realmente tô descobrindo. Também tem a ver com eu ter começado a perceber, ao longo dos anos, que a minha expressão através da bateria é algo… Bom, dentro de uma produção, dentro de um som, dentro de um show, a bateria tem uma responsabilidade. Ela é a coluna que segura, ela tem um dever, uma obrigação de segurar uma estrutura, o que não me permite muito ter toda essa viagem artística no som. Por exemplo, eu fiz a turnê de 3 décadas com Racionais MC’s. Toquei a turnê inteira, o Brown me chamou para tocar e, ao mesmo tempo que eu tava muito emocionado, eu tinha uma responsabilidade muito grande de manter aquelas batidas das músicas que tem um impacto fudido no público, nas pessoas que escutam e que amam Racionais da mesma forma que eu. Então, é uma coisa que não tem muito um barato de curtir e de tentar me expressar artisticamente.

Quando eu ia tocar com o pianista Laércio de Freitas, ele sempre me falava: olho na estrada, Sérgio. Que é o quê? Eu tô conduzindo a banda. O baterista é o motorista da van. Então, tá todo mundo tomando ácido, fumando um, ficando bem louco, tirando a roupa, só que o batera não pode fazer isso. Olho na estrada. Eu comecei a me escrever e estou me vendo na música de uma forma muito única, me expressando através da palavra… É uma coisa que eu quero muito fazer e que eu to caminhando pra isso.

“Quando eu ia tocar com o pianista Laércio de Freitas, ele sempre me falava: olho na estrada, Sérgio. Que é o quê? Eu tô conduzindo a banda. O baterista é o motorista da van”

Para você, o que uma pessoa tem que ter para ser um músico de gig? A resposta pode ser desde uma coisa concreta, como dominar um instrumento, até uma coisa abstrata, tipo gostar de qualquer tipo de música.

Para ser um músico, acho que é importante ter a cabeça aberta, conhecer vários estilos. Geralmente, quando um músico estuda muito, ele vai ficando com uma tendência de se tornar meio elitista, meio babaca… Não vou generalizar, mas acontece e, aqui no Brasil, eu sinto que a gente tem uma cultura muito plural, de muitos gêneros musicais – e a música brasileira é isso. Você vai ver o Gilberto Gil e, dentro da discografia dele, tem vários estilos musicais que ele traz, assim como o Djavan, João Bosco, Caetano, Tom Jobim, Milton Nascimento. Eu cresci nesse universo em casa ouvindo muito de tudo, então, para mim, é muito natural fazer esse trânsito entre as linguagens, e que às vezes é muito difícil para outros músicos. Outra coisa que um músico precisa ter é o prazer em ser um espectador desse mundo e aprender que cada linguagem tem seus códigos, o que vale em uma linguagem pode ser proibido em outra, sacou? Aprender isso leva tempo e é legal aprender com o ouvido alheio. Eu gosto muito de escutar música junto com outras pessoas. Às vezes, as pessoas vão cantarolar um instrumento, um som que eu nem tinha ouvido, nem tinha percebido ainda na música. Você aprende muito ouvindo música junto.

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