A luz colorida que varia entre o vermelho e o violeta, o som alto propagado por manobras precisas e pesquisas afiadas dos DJs nos toca-discos e a mistura de passinhos apurados e tímidos – coisas que você nota logo de cara ao chegar à Discopédia, festa que acontece no centro de São Paulo há 12 anos. Com a máxima de tocar “Música Preta de Todas as Formas” apenas em vinis, a Discopédia foi criada em 2012 pelos DJs Nyack, DanDan e Marco com o objetivo tocar os discos de suas próprias coleções. “A Discopédia surgiu da nossa necessidade de desabafar os discos”, resume Marco. Em meio à despretensão, o evento se consolidou mesclando música, dança, moda e empreendedorismo em um espaço acessível.
Da Discopédia, ressoam discografias contemporâneas e clássicas, que, além de serem trilhas sonoras para a pista, fortalecem vínculos e disseminam artistas novos e veteranos pelos ouvidos do público. “A Discopédia trabalha todas as esferas da cultura preta, desde o comércio até reforçar a comunidade. As pessoas vêm aqui terça-feira e brincam que é o culto de terça-feira. As pessoas se conhecem e têm amizades que se fortalecem aqui. A Discopédia mantém a cultura viva através do que importa, de fortalecer os nossos, valorizando a música, estética e comércio”, afirma Mari Ohime, artesã e empreendedora que expõe e comercializa suas obras nas edições do evento.
O sarau do vinil
Nyack, Marco e DanDan imergiram no mundo da música a partir de influências familiares e pela experiência na movimentação dos bailes de rua. Marco e DanDan nasceram nos anos 1970 e vivenciaram o desenvolvimento das equipes de baile que surgiram na década seguinte – como Circuit Power, Zimbabwe e Chic Show.
DJ Marco relembra que, além dos finais de semana com disco e churrasco nas casas das tias em Ribeirão Preto, os bailes de rua foram decisivo para sua paixão musical. “Nos anos 1980, os costumes eram outros e tinha menos entretenimento. Lembro que nas quebradas, o povo montava a caixa de som na rua todo fim de semana. Um vinha com a caixa, outro com toca-discos, um via com um pouco de disco e ia juntando. Nisso, tocava James Brown, Jorge Ben Jor e samba rock, coisas que eu não conhecia dentro de casa”, relembra.
Com o surgimento dos programas de rádio das equipes de baile na Band FM, os DJs começaram gravar as faixas e montar um repertório, além de tentar imitar as mixagens feitas. “O programa durava, em média, quatro horas e, a cada meia hora, tinha uma seleção. Eram seleções de melodia, samba rock, balanço, que era como chamaram o rap. Nós sempre gravávamos os DJs tocando, principalmente do balanço. Eu ouvia isso e tentava imitar”, recorda DanDan que cresceu vendo o seu tio montar as caixas dos bailes e começou na discotecagem por meio da dança e da vontade de também fazer a seleção das músicas. Crescendo nos anos 1990, Nyack se inspirou no próprio Marco para começar a discotecar. “Sempre gostei de música, mas, em 2003, quando eu entrei no projeto social Do Risco Ao Rabisco, lá na Zona Norte, conheci o Marco em uma das oficinas de DJ e comecei a me interessar em ser DJ. A partir daí que entendi que era possível viver de arte”.

De lá para cá, os três já colaboraram com diversos artistas da música nacional, além de desenvolverem os próprios projetos. Entre uma gig e outra e os garimpos em lojas de discos pelo mundo, Nyack e DanDan tiveram a ideia: uma festa para tocar os sons pinçados por aí, que nem sempre entravam em seus sets. “Eu e o DanDan estávamos em turnê na Europa – eu com o Emicida e ele com o Criolo. Nós estávamos comprando disco, mas não tinha lugar para tocar. Nisso, eu falei para o DanDan de a gente fazer uma festa só de vinil no meio da semana para gente tocar, trocar uma ideia e ouvir um som. Ele topou e chamamos o Marco pelo Orkut”, conta Nyack. Com a ideia e o convite, Marco chegou à reunião de alinhamento com o local da primeira edição. “Nós marcamos a reunião no Shopping Light e o Marco já tava com o pico engatilhado. Ele falou que seria no Executivo, quarta-feira, das 19h às 23h”, diz Nyack.
O nome inicial seria “Sarau do Vinil”, mas Nyack lembra que foi no dia do ensaio das fotos de divulgação que a festa foi oficialmente batizada. “Eu comentei que com ‘Sarau do Vinil’ as pessoas poderiam querer chegar com os discos delas e tocar na festa, e não era sobre isso. Aí o DanDan comentou que os nossos discos eram livros e nós tínhamos a nossa discopédia, e foi aí que ficou”. Na época, a quarta-feira veio como a opção da semana que melhor se alinhava às agendas dos DJs – Nyack e DanDan estavam em turnê com Emicida e Criolo, respectivamente, e, à época, Marco excursionava com Céu.
Mas, em 2015, a Discopédia – que já passou por lugares como Executivo, Sarajevo e Morfeus – se alojou na Trakers e mudou para as terças-feiras. Para os DJs, foi nesse momento que a festa se consolidou no calendário da cidade. A concorrência entre os rolês disponíveis e o futebol de quarta-feira foram os principais motivos para a Discopédia ser antecipada para o segundo dia útil da semana. “A Matilha começou fazer toda quarta-feira festa de graça e com show, então nós começamos a perder público. A estratégia foi dar uma pausa na festa e voltar junto com a reabertura da Trackers em um dia diferente, na terça-feira. Dessa forma, a gente não disputava público. Desde então, em 2015, nunca mais a festa foi fraca. Sempre foi festa cheia”, explica Marco. “O futebol de quarta-feira também foi um motivo para mudança. Eventualmente iam acontecer jogos importantes no dia”, completa DanDan.


“A Discopédia surgiu da nossa necessidade de desabafar os discos” – Marco
O vinil, a curadoria e os especiais
Seja qual for o tamanho da edição da Discopédia, apenas algumas grades de plástico, facilmente removíveis, separam o público e os donos da noite. Os toca-discos ficam próximos de grandes cases, que comportam diversos vinis – à espera de serem selecionados para a próxima mixagem. “O lance de estar no chão tem relação com a circularidade africana, para que as energias possam circular. Ela sai da gente, passa pelas pessoas e volta mais forte para nós. Nosso equipamento ser montado no chão é um resgate das block parties, do surgimento do hip hop e essa influência energética. Além disso, é a possibilidade das pessoas observarem o que estamos fazendo e se conectarem com aquilo”, explica DanDan.
A curadoria dos sons é ágil, unindo instinto, habilidade e conhecimento – repertório do disco, faixa e agulha no vinil. Sem setlist. “Nós escolhemos as faixas no decorrer da discotecagem, a escolha das músicas depende muito da música anterior”, conta Nyack. “Como já temos uma experiência, sabemos qual é o BPM da música e a maioria é de improviso. Não existe uma sequência ou setlist, é muito de sentir o que encaixa”, reforça DanDan.
Aficionados não apenas pela música, mas pela mídia física do vinil, os três DJs, juntos, têm uma coleção com cerca de 15 mil discos. Os vinis que, garimpo após garimpo, ampliam as coleções, são escolhidos pelos mais diversos fatores – capas chamativas, diferentes edições, a vontade de completar a discografia de um artista, além de, claro, determinados gênero ou canções do repertório. A pesquisa e a devoção se refletem na festa em edições especiais nas quais obras de diferentes nomes são homenageadas na discotecagem – de gêneros como R&B, rap nacional, reggae e pagode dos anos 1990 a artistas como Kendrick Lamar, Djavan, Jorge Ben Jor, Erykah Badu e Bob Marley.
“Com as mudanças geracionais, queremos reforçar nossa preocupação de falar sobre nossa música. Por isso, nosso lema é ‘Música Preta de Todas as Formas’, por mais que tenha o foco no hip hop, a cultura hip hop nasce de todas essas misturas. As festas de hip hop dos anos 1970 tocavam de tudo, nós tentamos fazer mais ou menos isso e manter essa essência. Ao montar os especiais, entendemos que cada artista e cada gênero têm uma importância na transformação musical do mundo – e até mesmo das pessoas individualmente. Quando fazemos um especial do Stevie Wonder, por exemplo, tentamos mostrar a grandeza do Stevie Wonder e o motivo dele ser importante”, explica DanDan.

“Nós somos libertos do ego, nesses 12 anos cada um aprendeu um pouco com o outro. E nesse tempo fizemos diversos especiais, como Beyoncé, Pagode 90 e Rage Against the Machine”, conta Nyack. A versatilidade musical e a pesquisa compartilhada entre os DJs ao longo dos anos possibilitaram que cada um deixasse o ouvido mais aberto para descobrir novos artistas e entender o que o público também espera escutar – e essa dinâmica ampliou a conexão entre os três e, sobretudo, dos três com o público da Discopédia.
“Tem o lance de ser DJ, que a gente está sempre aprendendo, que é se preocupar com o público e respeitá-lo. Temos a nossa pesquisa musical, mas é importante entender que as pessoas ouvem a música em casa, vem para cá ouvindo no fone e querem ouvir essa música aqui bem alto para cantar bem alto. E a gente precisa respeitar isso. Essa vibração mexe com o corpo inteiro, é o sangue que pulsa, é o grave batendo e para cada um bate de um jeito”, reflete Marco.
Nos eventos das equipes de baile dos anos 1980, nos quais a possibilidade de escutar determinados sons era exclusiva desses locais, a disputa pelo ineditismo de determinadas músicas fazia com que os DJs arrancassem o rótulo do disco para ele não ser identificado. Na Discopédia, os tempos são outros. Além de tocar um som que contagie a pista, eles destacam alguns dos discos da seleção os erguendo para o alto durante a discotecagem.
“A maioria das pessoas não teve o mesmo contato de escutar disco em casa como nós. De pai, mãe, tia, primo mostrar um disco, capa e ficha técnica. Você ler quem tocou num disco e ver o mesmo nome em outro disco e começar a fazer um link e pesquisar sobre. Fazendo os especiais, mostramos que o vinil continua vivo. E não é por causa de DJs, mas por conta de fãs e colecionadores de vinil. Sabemos dessa importância, de levantar a capa e mostrar que existe”, diz Marco. “E quando isso acontece, as pessoas tiram fotos das capas. Tem uma galera que começou a comprar disco depois que começou a colar na festa e traz para nos mostrar”, completa Nyack.
E esse tipo de “pedagogia musical” faz com que novos públicos tenham acesso a pérolas do soul, do rap, do R&B e de muitos outros gêneros. O dançarino Danilo Martins, 33, que frequenta a Discopédia desde 2012, conta que a vivência constante nos bailes comandados por Nyack, DanDan e Marco expandiu decisivamente seu gosto musical. “Aconteceu uma abertura de musicalidade para mim. Antes eu tinha uma mente pequena para a música e aqui eu descobri muitas coisas”.
Vale lembra que, segundo relatório recente do Pro-Música, o ano de 2023 viu um aumento na venda de mídia física de 32% em comparação a 2022. O aumento foi puxado pelo mercado de vinil, que vendeu 11 milhões e passou ser a mídia física mais consumida.


“Nós somos libertos do ego. Nesses 12 anos, cada um aprendeu um pouco com o outro. Já fizemos diversos especiais – Beyoncé, Pagode 90, Rage Against the Machine…” – Nyack
Lado A, Lado B, Lado C, Lado D…
Adrielly Amorim e Letícia Helena, ambas de 24 anos, me chamaram atenção quando as vi dando pulos efusivos e cumprimentos em uma roda que se abriu no decorrer da festa. Ao falar com a dupla de amigas, descubro que a característica que me chamou atenção foi justamente o que as uniu. “Nós nos conhecemos em um bate cabeça. Nós gostamos, mas geralmente só homens participam. Somos minas e queremos mostrar que dá para as outras minas encostarem também, é tudo nosso”, conta Adrielly. O espaço livre para dançar e o acolhimento são fatores que fazem as amigas frequentarem a Discopédia. “Só vinil, música original e as pessoas são muito respeitosas”, destaca Letícia, que cola no evento desde os 18 anos.
O amor pela dança também é o que faz o dançarino Daylor.z, 23, bater ponto todas as terças-feiras na festa: “Gosto da Discopédia por conta da dança e por ser um lugar livre, que não tem preconceito nenhum. É um lugar livre para dançar, não importa se você dança axé, hip hop, forró, você se sente livre”, conta. “Para mim, principalmente por conta da dança, a festa age como uma terapia. Posso estar com diversas questões, mas quando chego aqui e estou dançando, me sinto livre e sem culpa nenhuma”, resume Daylor.z.
A moda também se faz presente na Discopédia. Além dos espaços de convivência e jogos que a festa oferece, há mesas com a venda de produtos e acessórios de empreendedores periféricos. “Nem nós e nem a casa ganha nada com os expositores, para a gente o objetivo é manter isso e abrir esse espaço. E sempre tá chegando gente nova para conversar conosco sobre a possibilidade de expor”, conta DanDan.
Mari Ohime vende acessórios autênticos na sua marca Ohime Glam como forma de resgatar os ideais da sua descendência africana e asiática. Ela reforça que expor na Discopédia abriu portas para seu desenvolvimento como empreendedora. “Tô há oito anos na Discopédia. Conheci por uma amiga minha e eu vim primeiro como público, eu gostei muito do lugar, das pessoas e você pode notar que tem uma galera muito estilosa. Depois de vir como público, eu conheci a Anjo Negro, que vende na Discopédia há 10 anos, e comecei vender. Através da Disco eu conheci muitas pessoas e alcancei muitos lugares”.
“O lance de estar no chão tem relação com a circularidade africana, para que as energias possam circular. Ela sai da gente, passa pelas pessoas e volta mais forte para nós. Nosso equipamento ser montado no chão é um resgate das block parties, do surgimento do hip hop e essa influência energética. Além disso, é a possibilidade das pessoas observarem o que estamos fazendo e se conectarem com aquilo” – DanDan
O ponto de encontro de todas essas vertentes culturais promovidas pela Discopédia ser no centro não é por acaso. “É difícil para todo mundo chegar aqui, mas é difícil o mesmo tanto”, brinca DJ Marco. Atualmente acontecendo na Central 1926, perto da estação do Anhangabaú e do Terminal Bandeira, o evento também está próximo do comércio e das galerias que, além da variedade de produtos, conta com uma massa jovem trabalhadora. “Muitos dos nossos trabalham no centro. Então essa é a ideia também, depois do trampo você curtir um som, porque várias pessoas chegam do trampo para cá. Por isso que temos esse lance das primeiras 50 pessoas VIP”, explica DanDan.
Adrielly é auxiliar de limpeza e afirma que a festa acontecer no centro facilita o deslocamento. “Por ser no centro, fica de fácil acesso. Alguém que mora em Mauá, como eu, consegue vir. Eu trabalho na Vila Prudente e de lá consigo vir para cá com facilidade”. A localização e preço são preocupações dos organizadores, que precisaram reajustar os valores ao longo dos anos. “Quando começamos, o preço era 5 reais, a ideia é para galera ter acesso e curtir o som”, relembra DanDan. Hoje, a entrada é gratuita para os 50 primeiros, após a entrada fica R$1 5 até as 20h e R$ 25 depois das 20h.
“O preço de um baile dita e seleciona o público que vai. Não porque as pessoas não têm condições, pois muitas têm, mas é justamente abrir espaço para diferentes públicos. O que a gente acaba cobrando um pouco a mais são nos dias especiais porque têm atrações, mas, ainda assim, tem os lotes mais baratos”, reforça DanDan. “Temos experiência de mais de 30 anos de baile e manter a festa é muito difícil. Sabemos que fazemos uma festa legal porque também é legal para nós, a gente curtiria frequentar, tanto pelo lado musical quanto pela atenção que damos. Além do nosso público, outras pessoas que colarem vão curtir o rolê, que é o que acontece. Tem muita gente que vem e não sabe que a gente faz um rolê de resistência cultural, que tocamos só com vinil e buscamos manter um preço acessível para ela se manter. Pela experiência, sabemos que se aumentarmos o preço, ela vai acabar e isso não tem volta. É um estudo diário, a festa acontece todas as terças-feiras, mas aprendemos todos os dias”, reflete Marco.
Essas visões não ficam restritas aos organizadores. Durante as discotecagens, a interação com o público é contínua e, além das brincadeiras para convocar a galera, como o famoso ‘eu não senti firmeza’, entoado por DanDan, papos sobre pautas sociais e raciais são levantadas para criar uma conscientização e gerar movimentação entre os frequentadores.
“A gente costuma dizer que somos uma pílula dos bailes black das antigas. Somos uma equipe de baile, não no formato das antigas, mas tentamos de alguma forma manter a essência dessa coisa dos bailes. Nesses bailes, surgiram vários movimentos sociais importantes, porque é onde as pessoas pretas se encontram, podem dialogar e se expressar. Nós tentamos resgatar e manter isso”, examina DanDan, que no dia da edição em que batemos esse papo brincou, durante a discotecagem, com a atual moda das calças largas – e como isso era mal visto na época da repressão militar. “Quando eu falo, quero que as pessoas se conectem e se libertem mais ainda. Porque daqui a pouco elas vão para casa, voltam para a realidade e muitas vezes encontram os problemas que não queriam. Então, esse é um espaço de extravasar, se libertar, ser feliz e conhecer novas pessoas”, elabora DanDan.
Além de, há 12 anos, ser um espaço que mantém e propaga a arte negra, a Discopédia ocupa o centro de São Paulo com um ambiente acolhedor para espairecer durante a semana. Seja para conhecer músicas, escutar aquelas que você ama, firmar amizades e dançar – ou deixar a vergonha de lado para dar os primeiros passos. “A Discopédia me trouxe a liberdade de ser feliz. Quando estou aqui. é um momento em que eu me liberto, que me traz conexões com as pessoas. Poder proporcionar essa alegria, aprender com cada um, fazer nossas brincadeiras internas me faz feliz. Aqui eu estou em casa, é o meu lugar e estamos em família”, finaliza DanDan.
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