O acaso da autodescoberta de Hélio Morais

Responsável pelas batidas energéticas de Linda Martini e dos Paus, o baterista se reinventa e abraça o Pop psicodélico em MURAIS, seu primeiro projeto solo

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Fotos: Ana Viotti

Existem várias motivações que os artistas podem elencar como as principais para dar início a algum projeto musical. Canções guardadas há muito tempo, um círculo social e cultural intenso, seguir os passos da família, uma mudança repentina de carreira. A resposta de Hélio Morais para isso, contudo, está na conta do acaso. Segundo o artista, que chega ao Monkeybuzz pela estreia de MURAIS, primeiro projeto solo da carreira, um piano, que fez parte de uma turnê europeia de Sufjan Stevens, foi o instrumento que deu a luz para uma porção de composições guardadas na gaveta.

Tendo Portugal como último destino da turnê, o piano do músico norte-americano acabou na mesma sala de ensaio dos dois grupos dos quais Hélio Morais participa há mais de 10 anos, Linda Martini e dos Paus. A coincidência se deu por conta do empresário que estava agenciando os artistas durante os shows. “Sou péssimo tocando guitarra e quando vi o piano, pensei: vou tentar. Piano é meio percussão, meio corda. E aí fui fazendo algumas coisas, mas sem pretensão alguma. Só que aí as coisas tomaram forma”, explica o artista.

Para quem estava habituado com as baquetas energéticas e a sonoridade acentuada das renomadas bandas portuguesas, Hélio Morais, aos 41 anos, precisou abdicar, pelo menos um pouco, da posição de baterista para se debruçar nas linhas que havia escrito nos momentos fora dos holofotes — e da figura à frente do estúdio HAUS, que impulsiona outros artistas com ambições musicais em Lisboa. O resultado foi lançado no dia 16 de abril, pelas gravadoras Sony e Primavera Labels, com a produção instigante de Benke Ferraz, do Boogarins.

A ponte aérea Brasil x Lisboa, inclusive, foi primordial para que o disco, com uma “embalagem mais pop”, enfim tomasse forma. Em uma vinda ao país em 2019, o artista foi a uma gravação do Boogarins no estúdio da Red Bull Station, em São Paulo — na época, o grupo lançava Sombrou Dúvida — e ao ouvir Dinho Almeida, cantor e compositor do grupo, Hélio teve o estalo: ‘‘Esse é o som que eu quero no meu disco”. Após esse encontro, o artista desafiou Benke a trazer esse tempero psicodélico para suas canções. A provocação foi aceita.

“É preciso ter fascínio pelo desconforto. É importante ter vontade e coragem ao mesmo tempo para colocar as coisas no mundo. Para mim, ter coisas para falar também foi fundamental. Escrever para a música é difícil”

A partir deste momento, a parceria dos dois se sucedeu e a busca de Hélio pelos próprios estímulos deram origem à estreia do projeto. No início, o artista relata a dificuldade de pensar em produzir o disco com alguém de Portugal, porque, idealmente, queria se distanciar da sonoridade dos grupos que participava. “Não queria soar como um sucedâneo do Paus ou do Linda Martini. Queria encontrar um espaço que fosse meu e que não fosse influenciado pelo que estava acontecendo em Portugal e especialmente nas minhas bandas”, explica. A mão de Benke, portanto, foi essencial para que os processos individuais de Hélio tomassem forma. “A influência dele no final das canções foi muito forte”, enfatiza.

Multifacetado, o artista buscou fragmentos específicos de cada uma de suas principais referências que foram de Portugal, The Man, Childish Gambino, Tame Impala, Unknown Mortal Orchestra até Boogarins, é claro. “Às vezes, nem era o disco inteiro, era algo como: ‘Gosto da bateria dessa música, gosto do baixo desta’. Era só um tipo de ambiente, uma vibe”, explica rindo.

Ao longo das 10 faixas da produção, com o auxílio de Benke, Hélio encontrou o próprio espaço e segurança para seguir como um dos nomes palpitantes da cena artística de Portugal, com um olho no Brasil. “Agora as coisas estão diferentes. Já me acho mais capaz de ser compositor o tempo inteiro, antes eu não tinha esse desejo. É legal chegar em uma certa idade e entender que ainda existem coisas para aprender e que te fazem ficar motivado”.

Ainda falando sobre os processos criativos e os caminhos que o levaram até MURAIS, Hélio também destacou os outros ingredientes que completaram a obra: “É preciso ter fascínio pelo desconforto. É importante ter vontade e coragem ao mesmo tempo para colocar as coisas no mundo”, explica. “Para mim, ter coisas para falar também foi fundamental. Escrever para a música é difícil. Uma vez perguntaram para o Nick Cave o que ele achava mais difícil: ‘escrever um livro ou escrever uma música?’ A resposta foi música, porque para fazer isso, é quase como ter que colocar uma galinha dentro de um ovo. Existe um limite de sílabas para respeitar”. Com essa linha de pensamento em mente, o Monkeybuzz pediu para que o artista destrinchasse o que está por trás de cada uma das faixas de MURAIS. Leia o Faixa a Faixa abaixo:

Benvindx

Essa música, na verdade, eu e o Benke estávamos pensando em uma “Theme Song” para o disco, então ele pegou alguns elementos de “Até de Manhã” e construiu essa introdução para o disco. Decidi chamar de “Benvindx” porque era isso que eu queria. Já teve gente que perguntou porque não tem o hífen, como quando escrevem para sinalizar que alguém é bem-vindo em um local, mas isso é uma canção, e eu queria que tivesse um nome próprio. E sem gênero. Na verdade, seria mais inclusivo se eu tivesse escrito com “e”, e não com “x”, mas tem uma galera que me acompanha que se eu tivesse escrito com “e”, eles não teriam entendido, poderiam pensar que é um erro. Com o “x”, as pessoas me questionam. E se me questionam, tenho a oportunidade de explicar. É só uma faixa de introdução do disco e eu queria que todo mundo se sentisse à vontade.

Manobra de Heimlich

Fraturei o pulso uns anos atrás, porque ando de bicicleta e teve um carro que passou por mim quase me derrubando e eu fui atrás do cara só para explicar que ele não podia fazer isso, que ele podia machucar alguém seriamente. Mas no processo, teve uma pessoa que me atravessou, muito de repente, e como eu estava atrás, não consegui frear. Bati contra ele e acabei fraturando o pulso. Então, enquanto eu estava em casa me recuperando, pensei: ‘Poxa, vou tentar fazer uma música só com a mão esquerda”. E aí fui colocando a mão nos acordes e a música foi se formando. A composição, tem um amigo meu, muito próximo, cheio de luz e talento, mas que às vezes tem dificuldade de colocar os sentimentos para fora, então fiz essa letra para ele. Chamei de Manobra de Heimlich, porque é justamente esse movimento de quando você se engasga com algo e tenta tirar.

Dentes Afiados

Essa narrativa que eu estava te falando de tentar usar uma linguagem inclusiva, de tentar ser amplicador, não tomar lugar de fala, mas de amplificar uma série de ativismos que eu acredito, tem me valido alguns dissabores, porque tem uma galera que se afasta, por acharem que você está sendo chato ao falar de política, enquanto querem que você só fale de música. Mas é como eu sou, se eu vejo uma coisa, eu não consigo ficar calado. Não faço essa separação entre a música que eu faço e o meu pensamento político, social, cultural, então essa música fala um pouco sobre isso: Dentes Afiados. É quase como uma voz dentro de mim falando para eu ficar calado, para tudo deixar tudo permanecer igual, mas eu não quero, né? E o instrumental, foi a primeira música que o Benke fez, que ele produziu. Um teste dele para ver se era esse o caminho que eu queria seguir com o disco e eu fiquei super empolgado com o que ele fez.

Marialva

É um personagem aqui em Lisboa, não sei se vocês falam isso aí, algo como “Chico Esperto” (um “sabichão”), um cara que pensa que sabe de tudo e que pode se infiltrar em todos os espaços, sem pedir licença para ninguém. O instrumental eu fiz em uma espécie de MPC, com uma base mais de Hip Hop, a forma de compor, eu decidi fazer meio que uma “diss”, não é para uma pessoa específica, mas é para um tipo de pessoa. Esse cara que acha que pode chegar no lugar e todo mundo tem que aceitar.

Até de Manhã

Essa foi inspirada em dois amigos, um casal heterossexual, não é exatamente a história deles, mas foi inspirada. Eles estavam juntos faz tempo, mas sempre com aquela coisa de “ah, eu estou, mas não estou com fulanx”.  Essa necessidade cultural de expectorar um papel de gênero de um homem não se mostra muito a fim, mas ele está lá super querendo. Chega até a ser ridículo. E aí, em um momento que ele não estava esperando, ela o respondeu na mesma moeda. Mas no refrão, eles querem estar juntos. Então é meio que essa coisa de “para quê ter todas essas defesas?”. Gosto de coisas verdadeiras e sinceras, não curto essa coisa de fazer jogo.

Acordadx

Como depois de “Acordadx” tem “Oi Velho”, que é uma música com um beat muito eletrônico, o Benke achou que fazia sentido ter uma transição de “Até de Manhã” para o “Oi Velho”. Então, ele pegou os mesmos elementos da música, juntou em um beat mais eletrônico, e aí acho que fez bem a ponte para a música. Foi só uma ferramenta de passagem mesmo.

Oi Velho

O instrumental dessa não era meu, era do Benke. Ele já tinha colocado esse instrumental no disco do Paes, o Wallace, na música “Espelhoz”. E aí ele sugeriu que a gente tentasse fazer alguma coisa com esse beat que ele usou e eu curti. Achei legal botar uma música em um instrumental dele com uma letra e melodia nova. Até teve uma piada porque o áudio no qual o Benke se inspirou para fazer o beat era um amigo dele falando para ele: “Oi velho, fala aí”, e aí eu me peguei nesse trecho e escrevi uma letra sobre o meu pai. Meu pai morreu faz tempo, em 2012, e eu tinha umas coisas escritas sobre ele, sobre a última morada dele, o último endereço. Fui visitar o hospital onde ele tinha morrido, de câncer, e eu tive que passar lá para saber o que tinha acontecido, porque foi tudo muito confuso. A sensação ficou na letra da música. Alguns versos também escrevi em Recife na casa do Benke e da Ana e gravei as vozes em Lisboa.

O Outono

É a mais antiga e a mais autobiográfica. Essa e “Oi Velho”, “O Outono” foi uma coisa que eu acreditava que poderia ser muito legal — falando de amor —, mas, por algum motivo, não acontece, e aí passa um ano e você se depara com essa mesma situação com a mesma pessoa, mas já passou um ano, então fica aquela coisa, né? Escrevi isso com o que eu estava sentindo na época, algo sobre o tempo estar nos dando uma nova oportunidade, mas, ao mesmo tempo, não rolou outra vez. Não era pra ser.

Catatua

Essa começou pelo refrão. Lisboa é uma cidade super pequena, então é fácil as pessoas saberem da sua vida, ainda mais se você for uma pessoa com o mínimo de exposição pública, seja porque é músico, ator, ou algo assim. E eu tinha terminado uma relação na época e queria ficar sossegado, na minha, sem ninguém se meter em nada do que eu estava fazendo ou com quem eu estava — e, na verdade, eu estava saindo com a pessoa que estou junto há oito anos. E a gente meio que criou a nossa relação sem falar para ninguém, nem para amigos próximos, porque a gente estava curtindo em ser livre um com o outro, sem ninguém falando sobre a nossa vida. Foi muito libertador para mim e pra ela.

Mas aí o refrão dessa música foi sobre uma pessoa que estava no nosso grupo de amigos, e era muito chata, porque sempre falava muito da vida de todo mundo. Mas aí, durante o processo, eu pensei: ‘não vou fazer uma música inteira para essa pessoa’. Então, no resto, eu fiz um paralelo com a Penélope, da Odisseia, de Homero, e acabei fazendo a música sobre esse tipo de pessoa, e não sobre ela diretamente.

Não sou Pablo, Nada Muda

Acho que essa é a música que eu fiz e menos sei da motivação, eu não estava triste, não era eu que estava sentindo aquelas coisas, mas já havia sentido aquilo em algum momento, em alguma relação. Acho que todos nós nos sentimos ressentidos em algum momento. Então busquei essa sensação e escrevi sobre esse sentimento de não importa o que a gente faça, ou mude alguma coisa, não vai ser isso que vai fazer a outra pessoa feliz. Não é porque você vai mudar, que a sensação da pessoa sobre você também vai mudar, as coisas têm que acontecer como tem que acontecer. É um pouco sobre isso.

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