O Agridoce Caminho de Florence e sua Incontrolável Máquina

“Lungs” aposta em libertação emocional em sua forma mais crua e visceral

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Sabe aquele disco lançado há algum tempo que você carrega sempre com você em iPod, playlist e coração, mas ninguém mais parece falar sobre ele? A equipe Monkeybuzz coleciona álbuns assim e decidiu tirar cada um deles de seu baú pessoal e trazê-los à luz do dia. Toda semana, damos uma dica de obra que pode não ser nova, mas nunca ficará velha.

Florence + The Machine – Lungs (2009)

O álbum de estreia de Florence + The Machine provavelmente ganhou o nome Lungs porque carrega uma qualidade inegável e intrínseca: a de tirar o fôlego de quem ouve. Este álbum tem tantas faixas admiráveis, sensíveis e explosivas, que se tornou um trabalho único e uma grande estreia para Florence Welch. O composto e complexo instrumental casa perfeitamente à sua voz poderosa, que no fim das contas, acaba sendo o que está por trás de tudo.

Ao grande público, Florence infelizmente recebeu atenção com o lançamento do single Kiss With a Fist em 2008 que, na minha opinião, é a música que menos caracteriza o trabalho da cantora. É uma das canções mais desconexas do álbum todo, conceituamente falando. Traz um Indie Rock cheio de guitarras e bateria vibrantes, além de um clipe que não se conecta com a figura de Florence, ou à beleza encontrada em seu álbum de estreia, lembrando um pouco do que Kate Nash faz. Mas era inegavelmente uma canção grudenta, que logo caiu no gosto popular do cenário mais alternativo, fazendo com que a cantora ganhasse mais atenção e abrindo espaço para o que viria depois.

Felizmente, o single Dog Days Are Over veio em seguida com força total para revelar um outro lado de Florence. Por sorte, ele era ainda mais grudento do que o primeiro single, misturando harpas, tambores e palmas, tornando-se uma das grandes músicas do ano e dando ainda mais visibilidade para a cantora. Aqui, já existia um anúncio mais concreto de qual era a sua verdadeira figura.

Na mesma época, o fantasioso clipe de Rabbit Heart (Raise it Up) também chegou ao conhecimento do público, com uma música que trazia o instrumental característico e a voz potente e ao mesmo tempo angelical de Florence, sendo uma introdução mais real e palpável ao seu verdadeiro trabalho. No clipe, vemos a cantora quase como um anjo, lembrando uma mulher saída de uma pintura Pré-Rafaelita, utilizando uma grande quantidade da simbologia dos bacanais e a celebração grego a Dioniso, o deus do vinho, da celebração e alegria. Por vezes, lembrando também a “hora do chá” com o Chapeleiro Maluco de Alice no País das Maravilhas, o que pode ser ainda mais alegórico e divertido. A música é incrível e apresentava uma versão mais verdadeira do trabalho de Florence: lúdica, instrumentalmente grandiosa e mostrando a potência de sua voz.

O poderoso esforço do conjunto sobre este álbum pertence a uma Florence Welch que é tão corajosamente apaixonada quanto emocionalmente vulnerável. Sua música parece ter sido feita para ser apresentada por grandes orquestras, pela abundância de instrumentos e elementos clássicos que influenciam o seu som.

Lungs mostra a voz dramática e agridoce de Florence como um dos instrumentos que todos os outros acompanham dentro daquela atmosfera, como os impressionantes tambores rítmicos de Drumming Song ou a harpa bem executada em canções como Heart Rabbit (Raise It Up), Cosmic Love e Blinding. Seu tumulto emocional é o foco das canções, e ela emprega várias vertentes vocais que são costuradas dentro e fora das músicas, apoiadas por batidas cinéticas e notas delicadas de harpa, ganhando por vez ou outra a bela companhia do piano.

O órgão e tambores fúnebres mesclados à sua voz dão um tom de consagração a um hino tocado nas igrejas, como uma exaltação a uma causa, crença ou deus. Esse tom é ainda mais evidente no clipe de Drumming Song, que ganhou um vídeo dentro de um ambiente soturno de uma igreja clássica, onde Florence entoa sua música vestida com roupas pretas, acompanhada de outras mulheres. Não só aqui mas em todo o registro, ela exalta seus intensos sentimentos e evoca uma entidade maior: sua libertação emocional.

Essa vibração resplandece em You’ve Got the Love com a voz levemente rouca de Florence erguida em louvor, derramando suas emoções e apoiada por um coro e synths, enquanto ela grita “Time after time I think Oh, Lord, what’s the use? / Time after time I think it’s just no good / ‘cause sooner or later in life / the things you love you lose / but you’ve got the love to see me through”.

Cosmic Love é uma exaltação à entrega de uma Florence injustamente abandonada, evocando elementos da natureza como a lua e estrelas, os opostos da luz e escuridão, e um claro sentimento de solidão aliado à perda.

My Boy Builds Coffins é outro ponto alto do registro, trazendo a propulsão e dinamismo entre os intrumentos como piano e bateria, unidos à voz de Florence que parece uivar no refrão. Howl traz o desejo físico, e a quase erótica Girl With One Eye mostra que nem só de momentos grandes é feito o registro. Com uma intrumentação minimalista, temos Florence quase que em uma apresentação teatral, em um monólogo no qual ela está despida de si mesma, de sua voz e de seus instrumentos.

Blinding pra mim é uma das faixas mais bonitas de todo o registro. É quase que uma libertação, cantando a plenos pulmões a capacidade de passar sob os demônios de seu passado e deixá-los para trás. Esta é outra faixa que traz a doçura, aliada à percussão pesada com letras obscuras, elementos presentes no registro de uma forma geral. Um som de corvo no começo e vozes ao fundo dão a sensação de se estar perdida no meio da noite, dentro de uma floresta assombrada. Aqui, talvez a floresta seja a escuridão dentro de cada um, onde somos obrigados a enfrentar o pior de nós mesmos, em sonhos e desejos perdidos: “No more dreaming of the dead as if death itself was undone / No more calling like a crow for a boy for a body in the garden / No more dreaming like a girl so in love with the wrong world”. Uma das faixas mais viscerais, proporcionando intensas e obscuras apresentações ao vivo.

Lungs, como álbum de estreia, dá uma personalidade a Florence. Somos arrebatados com uma grande dose de uma pessoa complicada de verdade, que busca reconhecer e abraçar seus medos, inimigos e sentimentos. As faixas assumem um novo significado quando agrupadas, já que o peso do álbum não está só sobre as palavras, mas sim na história que nos e contada. Pontos específicos em cada canção são colocados como um quebra-cabeça, onde um grupo de palavras, uma referência a uma lenda, um personagem ou conto, farão com que você tome conhecimento do macro. Ouvir Florence + the Machine é como ser conduzida pela mão através de um mundo fantasioso cheio de histórias, onde uma garota que esqueceu de crescer foi abandonada. Saindo de uma obra por vezes Pré-Rafaelita, ela subverte seu trabalho evocando o gótico e exaltando o tumulto emocional, sendo tão incontrolável quanto a sua máquina.

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Autor:

Largadora por vocação. Largou faculdades, o primeiro namorado e o interior. Hoje só quer saber de arte, cinema, música, fotografia e sair correndo pelo mundo.