O amuleto que transforma luto em verbo

Compilação de remixes de “Pedra Preta” encarna a resistência e a pulsão de vida de que tanto precisamos agora; conversamos com artistas envolvidos no projeto

632 total views, 2 views today

Fotos: Arte: ESTÚDIO MARGEM

Hoje, sexta-feira, 15 de maio de 2020, o Brasil registra 14 mil mortes por conta da Covid-19. Não é fácil sempre bater na mesma tecla, mas o assunto, como todos percebem, é inescapável. E, como você poderá ler adiante, estranho seria começar esse texto de outra forma. (Está com gatilho aí? Aqui também). O momento atual é histórico, de perdas irreparáveis e busca por soluções urgentes. E vai além: quando acaba? O que de fato acaba? Não há garantias da volta de alguma suposta normalidade, e o mundo como o conhecemos até pouco tempo talvez nunca exista de novo. É hora de encontrar um novo “normal”. 

Mas, agora, trazendo o tal normal para a pauta, o grupo TETO PRETO sempre fugiu dessa convenção e constância. A resistência contracultural que tanto falamos já existe há muito tempo dentro deles e na cena independente eletrônica como um todo. “Depois da minha experiência péssima na entrada da música brasileira, o TETO significa a primeira banda em que eu pude ser respeitada, ouvida e levada a sério como compositora, artista e pessoa. Uma banda que me dá de comer para crescer e aparecer, um bando que reúne e reuniu artistas que eu admiro muito e que me admiram também”, conta Laura Diaz, dona da voz e também compositora do grupo.

TETO PRETO sempre transpareceu força e muita fluidez no que fez, seja nos palcos ou no play em nossas casas. “É uma delícia, porque os discos são quase romances com os quais a gente vai vivendo e escrevendo junto, vendo a história se revelar. Todas as músicas e letras têm muito do que acontece com a gente, com as tours, com a nossa vida e realidade.” Pedra Preta, álbum de estreia lançado em 2018, já era um grito poderoso de resistência. Agora, com sua edição remix, é um amuleto de transformação do luto em verbo. Novas camadas, desenvolvidas por talentosos artistas, expandem o universo sonoro e tornam seu espírito e sua pulsão de vida ainda mais necessários para o que vivemos agora.

1. S A F O (M A R I  H E R Z E R  R E M I X) – S Ã O  P A U L O/S P

Mari Herzer: “Safo” é minha faixa favorita do disco Pedra Preta, tem muita força e é pura dramaturgia. Quis potencializar isso, usei vários vocoders empilhados na voz da Laura Diaz para criar uma atmosfera mais sombria, que vem em parcelas – a faixa se divide em atos para marcar bem essa territorialidade afetiva. “Safo” foi uma poeta do período grego, da ilha de lesbos. Uma das poucas vozes femininas da antiguidade que ecoam na contemporaneidade. Também por isso o remix demandou muito cuidado com as texturas para que elas carregassem essa força que vem como um tsunami.

Esse trabalho foi rápido. Fui convidada para contribuir alguns dias antes de enviar o álbum para masterizar. Prometi finalizar minha versão da “Safo” em 4 dias e consegui. Fiquei muito feliz. Passei horas elaborando e pensando como faria a música renascer na minha interpretação.

2. I T A  (O S  F I T A  R E M I X) – R J

Cainã (Os Fita): Ficamos felizes com o convite e com a escolha da faixa. Fazer um remix com Tantão e Os Fita é um pouco diferente pois o Tantão é cantor e letrista então optamos por um caminho mais parecido com um “feat” nosso com o TETO PRETO. No final das contas, muita gente participou dessa faixa. A escolha da faixa também foi precisa. Ela faz uma alusão ao Itamar Assumpção, que segue presente na parte do Tantão (que chegou a conhecê-lo pessoalmente). Até que na última frase da letra ele menciona mais diretamente o Itamar. O processo não foi longo, se desenrolou em 3 sessões nossas, sendo uma para gravação de voz e duas para edição e algumas horas extras minhas e do Abel. 

Abel (Os Fita): Muita coisa mudou em relação a faixa original. Nem sei se o que fizemos é muito bem um remix. Temos um novo vocal, novos trechos de letra, é um trabalho um pouco diferente de uma concepção mais tradicional de remix. 

Acho que nesse caso, não existia um plano bem traçado para que sensações gostaríamos de trazer, essas coisas foram se definindo no processo, a gravação da voz do Tantão trouxe um outro material para faixa, rolou um duo com a Laura que funcionou super bem, um contraste muito bom entre as duas vozes que serviram como guia para editarmos as partes da faixa. Rola umas citações ao nosso modo de células rítmicas de funk, de convenções de bateria de escola de samba, samples desses universos. Acho que mesmo que sem ser uma ideia definida na hora da produção, acabamos seguindo por esse caminho, de trabalhar ao nosso modo com referências de música brasileira, que é uma coisa que o TETO PRETO faz também na produção deles.

3. E M  D + Ì V I D A S  (J O N N Y  R O C K  O L D S C H O O L R I D E R  M I X) – L O N D R E S/U K

Jonny Rock Oldschoolrider: Essa é uma faixa que eu realmente queria remixar, então foi super divertido. Demorou cerca de 3 a 4 dias tudo. Acho que minha versão ficou um pouco mais rock, animada. Queria apresentar como eu ouvi o disco. Tentei manter-me fiel à original, mas trazer meu toque pessoal do House old school psicodélico. 

4. B I C A (Z O P E L A R  E X T E N D E D  M I X) – S Ã O  P A U L O/S P

Zopelar: A ideia surgiu no ano passado. Primeiro o Johnny Rock e Os Fita (Tantão e Os Fita) nos procuraram com interesse em remixar as faixas que eles mais curtiam do nosso álbum. Como nossa agenda foi bem apertada ano passado, acabamos conseguindo formar o time completo somente esse ano e ficamos bem felizes com os resultados! Foi quase um ano de processo desde a primeira ideia de levantar esse álbum de remixes, porém a maior parte foi feita nos últimos meses. Foi incrível poder colaborar com artistas que admiramos e que também tem o TETO PRETO como referência musical! Cada arranjo nesse disco traz a bagagem e influência  de outra pessoa que está ali criando algo com a mensagem que a música já tem. Então mudou muita coisa porém permanece a essência de cada composição.

5. P E D R A  P R E T A  (V A L E S U C H I  R E M I X) – B R/C H I L E

Valesuchi: Eu queria fazer o remix de “Bate Mais” mas a Laura e Pedro me pediram fazer de “Pedra Preta”. Fiquei lisonjeada demais porque é o hit, provavelmente a música mais foda que saiu no Brasil nos últimos anos. No total, acho que fiz em 1 mês, entre começar a ouvir, gravar, reouvir, editar, mixar.

Tenho um método para fazer remixes. Primeiro, escuto a faixa completa, com muita atenção. Logo que importo, escuto os stems separadamente, e ao escolher os que mais gosto, tem um fenômeno muito divertido que é ouvir o que a sua mente vai enchendo com sons que não estão aí, com o ânimo que finalmente o remix vai ter. É muito eficaz, porque quando isso não acontece quer dizer que não tenho o muito que fazer ou mudar… o remix não vai rolar.

Ouvir os stems do TETO PRETO foi arrepiante, especialmente o acapella da Laura. Eu quis manter a estrutura base da faixa mas tentando levar para um feitiço mais sério, mais sexy, construindo uma tensão gostosa até ter o release maravilhoso do Rhodes do Zope. Não dava para mudar muito os stems e nem cortar, é realmente incrível. Quis honrá-lo.

6. G A S O L I N A (V I O L E T  R E M I X) – P O R T U G A L

  7. R A I O  (C A S I N H A S  F O F A S  R E M I X) – N A T A L/R N

Casinhas FofasA ideia do remix saiu assim que ouvi a faixa “Raio”, logo no lançamento do disco em 2018. Originalmente chamado de “Raio (Casinhas Fofas 909 Edit)”, essa foi a primeira tentativa de um voo mais alto com o  Casinhas Fofas, que veio com a necessidade de um projeto único que se dedicasse a experimentações maiores com o Techno e o House – já vinha flertando há anos nos meus projetos akaaka e harshdüst (duo de música experimental com o produtor de Bauru (SP),  R A D). Depois de um tempo com o remix rolando de maneira bootleg, sendo tocado por parceiros em pistas mundo afora, sem lançamento oficial, e então fui abordado pelo Pedro Zopelar com o feliz convite para finalizar a faixa para este disco de remixes que sai agora. 

Quando ouvi o disco, assumo que estava ansioso pela possibilidade de tentar experimentar com alguma das músicas e esta foi a que mais me chamou a atenção. As linhas de pads abertas, o vocal da Laura Diaz, que parece ter saído diretamente de alguma produção de progressivo nacional dos anos 70s… Tudo isso é um ambiente de conforto muito grande para mim, de um quentinho nostálgico no coração, pois foi exatamente o tipo de som que me fez se apaixonar de verdade por música, sintetizadores e experimentos sonoros, na minha adolescência. A ideia foi de adicionar linhas pulsantes de bateria, um four-on-the-floor sobre a ambientação onírica da faixa original, dando para elas ares de pista e pegando caminho na progressão da mesma. E o remix é exatamente isso. A faixa com baterias sobrepostas, que foram criadas com aplicativos de drum machine disponíveis na plataforma Android, como o DAW Caustic.

Utilizar de métodos “rudimentares”, alternativos ou de baixo custo de produção é uma marca que tento levar em minhas produções como forma de me testar a experimentar novas maneiras de se fazer música, e provar que dá para construir criações interessantes com pouco orçamento de produção.

8. B A T E  M A I S  (P I N I N G A  R E M I X) – S Ã O  P A U L O/S P

Pininga: Acho que ativamente montando e editando demorei mais ou menos 1 mês, mas a ideia dele já vem desde 2018, quando pedi a Laura alguns stems do álbum para ficar brincando nos DJ sets. Acabou que fomos nos encontrar pessoalmente melhor durante um show do Trava-Linguas da Linn da Quebrada na Saüle/Berghain ainda no fim de 2018. O Trava-Linguas consiste na Badsista e eu improvisando com sons/samples/tracks, ao mesmo tempo em que a Linn e a Jup improvisam letras e performances, um processo construído todo na hora e de formação única, totally FOMO. Usamos só um trecho da letra de Bate Mais e smashing o botão de cue na “BATE MAAAIS”, enquanto a Linn improvisava uma letra sobre raiva e com um beat mais acelerado. Os samples de bateria de metal (tudo ripado do youtube, e editando em vários pedaços pra encaixar na estrutura da letra) eu também usava durante os shows, daí em casa me veio a ideia de tentar juntar os dois e só acelerar o BPM um pouco. 

Ainda sou muito inseguro com produção e estou em processo de aprendizado, então cheguei a mostrar a primeira edição do remix ainda no ano passado para Laura, mas só agora no começo do ano que ganhei mais segurança pra terminar outras partes do remix. Amei fazer parte, a Laura me deu total liberdade para experimentar com o que eu pudesse e se empolgou com a ideia do metal desde o começo. Achei importante e fiquei feliz de ter essa oportunidade, porque sinto que luto uma luta contra cabeças que ainda fazem discussões inúteis sobre o que é ou não eletrônico, ainda mais num país como o Brasil, onde gêneros como Funk e Brega são os verdadeiros pioneiros da estética eletrônica, mas não considerados como tais em “festas de música eletrônica”. 

Por ser uma bateria de metal, mas totalmente digitalizado na forma de samples editados, e os outros elementos também serem plugins/synths virtuais, faz a track ser menos eletrônica porque está atrelada a um gênero que inicialmente, não é? Eu tento questionar sempre as bordas/limites de sons/samples em qualquer trabalho que eu faça, seja como Pininga ou com os projetos da Tormenta.

“Acreditar no outre é abundância: é compartilhar ativamente seu conhecimento, seus privilégios, seus equipamentos, seu tempo, sua dedicação, sua disposição, seu cérebro, sua criatividade y coração. Isso é saudável. Ninguém consegue ser selfmade em tudo, nascer sabendo.” – Laura Diaz

Para você, qual a importância de um remix? Como é possível colocar a sua assinatura e, ainda assim, preservar certas “marcas” da produção original?

Laura Diaz: Todo remix é a possibilidade de um universo inteiro. Como produtora de música, ainda estou começando aos poucos, importunando o Zopelar e o Carlos Issa o dia inteiro perguntando desconfiada sobre equalização, parâmetros da onda, filtro, equipo, qual pedal colocar antes do que, frequências médias bizonhas batendo, tudo do zero quase. Acompanho desde sempre as mixagens do TETO PRETO para aprender, entender minhas opiniões na composição. Por enquanto, desenvolvo minha identidade sonora no DIAZ e essas coisas todas com calma, já é bastante coisa. Agora, acho mó responsa fazer remix, ainda não estou pronta e admiro muito quem se dá bem nesse tipo de produção.

Foi a primeira vez que escutei não um, mas oito remixes nossos feitos por pessoas muito queridas e que respeito demais! É uma experiência íntima inexplicável, elétrica e deliciosa.

Zopelar: O remix tem tudo a ver com uma re-interpretação. É uma forma moderna de dar novos corpos para canções e produções que já existem, como é muito comum na música popular em que muitas canções são cantadas e gravadas muitas vezes por intérpretes diferentes. No remix sempre existem partes da faixa original dialogando com o estilo de produção de quem está fazendo. Para quem está remixando muito legal poder trabalhar com elementos de canções para adicionar vocais, acústicos e gravados em estúdio que muitas vezes não existem em suas produções solo para poder experimentar resultados além do que se chega no seu processo habitual. Já para quem está sendo remixado, a parte legal é ver como as ideias primordiais da música podem ir para lados inimagináveis em diferentes arranjos e interpretações.

Mari Herzer: Busco subverter completamente a faixa original. Deleto boa parte das peças de bateria e sintetizadores e deixo apenas o motivo da faixa original, seja uma voz ou uma percussão – faço um retrabalho a partir de uma célula musical. O remix é um diálogo não-verbal entre dois produtores musicais ou compositores. É muito gostoso de fazer.

Valesuchi: É um processo muito pessoal, mas é um jogo também. Eu prefiro deixar evidências claras da música, mas tem pessoas que desconstroem completamente e é muito legal também. Não tem regras!

Jonny Rock Oldschoolrider: Até agora, se não a maioria, todas as faixas que fiz eu já queria remixar. Por isso, o processo é: ficar animado, ouvir instantaneamente uma versão diferente em sua cabeça e, a partir daí, a jornada vai ser mais divertida quando você sentar para trabalhar com ela. Você deve amar o remix que você entrega, e ao amá-lo, presumo que ele se torne automaticamente parte de sua assinatura, por mais versátil que seja. Se você respeitou a produção original, acredito que o espírito das marcas será preservado.

Casinhas FofasO remix é uma desconstrução e reconstrução de uma obra e, para mim, pouco importa a proximidade com a criação original. Quem a reconstruiu consegue adicionar ali seu fragmento de criação. Estas marcas da produção original vão muito de acordo com a intenção ou o processo criativo de quem está remixando usar o que brilhou na faixa original como um salto para se criar algo novo.

Abel (Os Tantão): Musicalmente é super interessante os novos caminhos que as faixas acabam tomando, e como isso acaba por trazer novas possibilidades de circulação para uma determinada faixa. Acho que pra quem produziu a faixa original deve ser uma surpresa e também um exercício muito legal ouvir como outros produtores interpretaram e atuaram com aquele material. Para além disso, acredito que tenha uma importância para formação de uma cena, uma comunidade. Essas trocas entre os artistas é muito interessante, porque vai criando uma liga entre trabalhos, abrindo diálogos, formando parcerias e fortalecendo o trabalho de todos. Um disco de remixes ou uma coletânea desempenha muito bem esse papel, porque reúne de alguma forma diferentes projetos numa coisa só.

Pininga: Literalmente é um encontro de mundos. Que música e arte são subjetivos é fato, mas você poder retribuir essa subjetividade com a construção daquele imaginário e não só fazer parte de sua linguagem, mas aumentar seu vocabulário, acho que é um trampo que todo músico deveria aproveitar. Já existia no formato de covers em gêneros mais acústicos né… mas com remixes eletrônicos acredito que seja ainda mais interessante porque a possibilidade de caminhos que você pode tomar são infinitos. Vide o próprio projeto do Trava-Linguas, que é algo em constante transformação. A gente mesmo nunca sabia o que esperar de cada show. Tem uns ruins e a química não bate, mas tem outros bons e outros melhores ainda que a gente ainda fica com gosto de querer repetir, mas tem que saber aceitar que nunca nada é igual.

Como você acha que a música pode influenciar e mudar o futuro?

Zopelar: Nesses tempos estamos nos dando conta de como a arte é fundamental para vivermos. E essa necessidade se vê tanto na falta que estamos sentido de ir aos shows, festas, eventos culturais. Com o TETO PRETO, levando a mensagem da Laura aos palcos pude perceber como tantas mulheres precisam ouvir palavras e presenciar atos de liberdade. Percebi o quanto esse discurso influenciou a aparição de cada vez mais mulheres na nossa cena da música eletrônica e o quão empoderadas as minorias estão se tornando a cada dia. Acredito que a música, assim como a arte no geral, tem um grande papel de influenciar todos esses discursos. Eu aprendi muito sendo parte dessa mensagem que está escancarada nas performances da Laura e o Loic. Tenho certeza que o potencial da música e de um grupo musical pode mudar radicalmente o futuro de pessoas que sofrem com o preconceito, ódio e atitudes misóginas que tanto as afetam.

Mari Herzer: A música e outros fazeres artísticos, quando democratizados, instrumentalizam populações vulneráveis. De repente você vê pessoas saindo de uma situação de vulnerabilidade social rumo a um lugar mais confortável, com possibilidade de gerar renda com a própria música. Isso num contexto de mercado selvagem neoliberal, que é o nosso, atual. Depois disso, com a música, a dança, a performance…a arte no geral, pode capacitar uma geração inteira a operar uma revolução, a organizar pontualmente contra o sistema vigente, criando comunidades auto sustentáveis formadas por artistas, músicos e todo tipo de trabalhador. 

Jonny Rock Oldschoolrider: Ainda estamos vendo… Isso é trabalhado misteriosamente por séculos. Com a atual loucura mundial, a música é um dos elos mais fortes entre os humanos no momento.

Casinhas Fofas: Na condição atual do mundo, o futuro está influenciando a música.

Pininga: Atualmente, confesso que estou tendo pouca esperança… não em música em si, mas na forma de como guiávamos e éramos guiados pela “indústria”. Espero que a música agora seja o fio condutor de transformações estéticas e mercadológicas que já estavam insuportáveis antes dessa pandemia, e que com certeza tem mostrado sua verdadeira face agora com redes sociais como Spotify/Youtube/lives patrocinadas ganhando trocentas vezes a mais que qualquer produtor independente. Sabemos que só alguém do nível Anitta ou sei lá, Ed Sheeran, que realmente ganha algo vendendo música aí. Esperando também que formas e lineups de festivais/festas sejam mais abertas a outro sons, outras subjetividades/performatividades de sons e narrativas. Tenho visto muitos produtores/DJs ocupados em como traduzir o que tínhamos na pista para tempos de live/quarentena, enquanto eu acho que seria esse novo espaço de experimentação e educação do próprio público. Você não precisa sair/clicar apenas no que você quer/gosta de ver, mas se abrir a outras expressões e ver que ali todo tem um conjunto coeso, entre conhecidos e desconhecidos, criando um ambiente rico e plural, de que você sempre vai precisar do outro para poder se enxergar.

O que você faz quando tem um “bloqueio” na hora de produzir?

Laura Diaz: A gente vive em uma era muito louca em que as pessoas lidam com a agonia se preenchendo de tarefas… e mais agonia. O mito da produtividade, eu também me incluo nisso e fico brigando pra me desprogramar. Insisto muito que, para criação, você precisa de ócio e não do negócio. Ócio não é ser inútil. Ócio é liberdade para limpar a cabeça e a vida para que algo novo possa surgir. Luto para pegar alguma horinha da semana e do dia pra fazer o que eu quiser, sem taxímetro, sem tarefa, sem satisfação pra ninguém. A gente precisa ter horário pra começar a trabalhar e para parar, para fabriquinha fechar e o zap parar de pipocar.

Ninguém explica diretamente porque eu tive que terminar a travessia d”Os Sertões” (Euclides) ou “Heliogabalo” (Artaud) ou “Cem anos de Solidão” (García Marquez) ou “Pensar o Corpo Esgotado” (Hijikata) ou o “Elogio à Sombra” (Tanizaki) ou “O Programa de Transição” (Trotsky) para escrever o disco do TETO. Eu não TIVE QUE terminar esses livros para, em seguida, fazer o disco. Eu visitei esses estímulos para ter idéias que não são as minhas, farejar a liberdade. Nada na criatividade tem que ser “útil”. A arte, a poesia num sentido amplo, não é “útil” nesse sentido neoliberal ou mesmo stalinista, é metafísica.

E no entanto, na quarentena a gente vê como as pessoas não precisam SÓ de comida, saneamento, moradia e emprego. Todo mundo precisa da arte e sem ela, estaria enlouquecido já. A poesia existe nos fatos. Difícil é ver com olhos livres.

Zopelar: Estudar novas técnicas, tirar aquela música que você gostaria de tocar no seu instrumento, assistir tutoriais sempre trazem boas ideias pra começar algo novo. As vezes algo cotidiano como uma caminhada ou lavar uma louça também nos faz pensar em coisas que geralmente não pensaríamos quando estamos no estúdio com essa vontade de fazer algo do zero. Ter ideias musicais e inspiração é sempre tão importante quanto saber executá-las.

Mari Herzer: Sinto que às vezes preciso forçar um pouco, não desisto. Desligo o celular, a internet, tudo. Na era da informação é muito difícil se concentrar – o scroll infinito das redes sociais, o bombardeio de notícias em tempo real retalham nossa concentração e são uma ferramenta de controle. A gente se sente enfraquecido. Estou sempre lutando contra isso, então, no dia que sei que preciso trabalhar em alguma música nova, a primeira coisa que faço é não usar nenhuma rede social desde que acordo.

Valesuchi: Na real eu nem entendo essa ideia de bloqueio, pra mim parece ser uma coisa muito mental do ego, como se o processo criativo estivesse servindo um propósito pessoal e não ao contrário. Você que tem que se abrir para música acontecer e isso tem um milhão de métodos e caminhos, sem expectativas. Acho bom lembrar que é importante sempre tentar coisas novas, estar constantemente se desafiando e aprendendo.

Jonny Rock Oldschoolrider: É inevitável, o “block” vai acontecer. Eu gosto de fazer uma pausa no que estou trabalhando, ouço outra música que pode me inspirar… Nada relacionado com a que estou em processo. Vou ouvir um DJ que amo… Sinto que quando  ouço uma música ou um DJ que me inspira, tudo flui e me coloca de volta aos trilhos no que estou produzindo. 

Casinhas Fofas: Sinceramente, mais tento do que faço, sendo que o compromisso de se criar coisas novas é o contraponto com tudo que acontece em minha vida. Esse é um dos grandes demônios pessoais que me perseguem. Não quero soar negativo, mas também não acho que seja justo não pensar na ansiedade e dor que isso causa a muitos produtores e artistas. É um tabu demonstrar fraqueza, fragilidade, problemas e “bloqueios” enquanto se é esperado um resultado frequente com a pressão de exposição nas mídias sociais, disputa pelo mercado do streaming, disputa agora pelos views nos lives, disputa por não ser esquecido ou de realizar a estratégia de marketing correta, são tantas questões que surgem e parece só haver espaço para a autopromoção. Principalmente vindo de artistas do underground, ou de menor porte comercial, não é interesse do público saber o que cara está passando. Isso além dos óbvios desafios financeiros que enfrentamos.

Pininga: Vou jogar vídeo-game. Desde o começo da quarentena tive diversas crises de ansiedade e minha respiração vai e volta, me deixando sem cabeça pra nada, fico olhando pro além esperando vir a vontade de fazer algo. Mas mesmo nessa situação, estou tentando tirar algo, como por exemplo meu próximo projeto é uma mix onde gravo o áudio de todos os jogos que ando jogando, e quero construir uma mix-narrativa que entrelaça essas diferentes referências de sons/trilha-sonoras/efeitos sonoros.

Como a quarentena e a crise do coronavírus afetaram você, seu trabalho e a relação que você tem com as pessoas?

Laura Diaz: Em janeiro e fevereiro de 2020, o TETO PRETO saiu em tour por Paris, Berlim e Cidade do México. A gente ia sair em tour novamente agorinha, depois do dia 08 de maio, quando seria a festa de 7 anus da MAMBA. Cancelamos tudo. Para mim, que também trabalho nos palcos e atrás dos palcos, é bem claro que tudo mudou radicalmente. Enquanto eu e Cashu não temos previsão de quando poderemos voltar a trabalhar com aglomerações físicas com segurança, a MAMBAREC, selo independente da MAMBA NEGRA, está puxando a frente de ação com um calendário intenso de lançamentos digitais para 2020. Fortalecer e articular a cena é também fortalecer quem produz música original e fazer circular. Agora, no final de maio, teremos surpresas com muitos artistes querides para o aniversário oficial virtual da MAMBA de 7 anus.

Sobre o TETO, as nossas datas foram postergadas ou estão ainda em suspensão, ninguém sabe o que vai acontecer, nem quando. Tá todo mundo louque. De alguma forma, como banda já estava em sintonia com esse momento de incubação e mudança sem saber. A quarentena chegou, pro TETO, no mês entre tours que a gente tinha de imersão para começarmos a compor e descobrir o som do próximo disco, novos ciclos, novas fases. Estamos nos mantendo nesse foco e achando um tesão começar a parir esse novo momento da gente.

Zopelar: De forma bem dura! Estamos com toda nossa agenda cancelada, sem previsão de quando poderemos voltar a trabalhar novamente! Agora que baque inicial passou, estou tentando me concentrar nos trabalhos de estúdio e no que ainda pode ser feito e divulgado de forma on-line, porém a saudade e a vontade de sair para tocar e fazer shows é muito grande!

Mari Herzer: Tenho muito medo e incerteza. Estamos desgovernados, encarando um precipício, assistindo a um governo que tem como única estratégia implodir. É um movimento constante em direção à catástrofe, e a crise sanitária imposta pela Covid-19 só piorou essa característica necro governamental. Isso é muito triste. É possível que não possamos nos ‘aglomerar’ em festas por até dois anos. Também dou aulas e trabalho em um estúdio, mas aos poucos a renda desses lugares vem diminuindo. Agora sinto que é necessário me adaptar à nova realidade e elaborar outras formas de trabalhar em comunidade à distância…repensar como expomos nossa arte e atribuímos valor a ela. É importante compreender que estamos vivendo um período histórico e só saímos dessa agindo organizadamente e em grupo, com a força do outro – cada um em sua casa, claro.

Jonny Rock Oldschoolrider: Estranho, muito estranho. O trabalho é inundado com esperanças para 2021. Vamos ver. Conversei com amigos que não falava há muito tempo. Pode ser também que pessoas conectadas tenham perdido a conexão…O que acontecerá quando apertarmos as mãos novamente, eu não sei, mas eu sou uma pessoa que abraça muito, então espero fazer muito isso.

Casinhas Fofas: Já estava em um período de reflexão e digamos assim, “detox” de um estilo de vida que por vezes me deixava um pouco doente, apesar de ser o que mais amo no mundo (presente, agindo e trabalhando neste meio). Nessa busca pela paz mental, mantive a filosofia de tentar levar um pouco menos a sério minha necessidade de criar sempre, aparecer sempre, lançar algo sempre. Quando a merda toda do vírus estourou, eu estava mais envolvido com outros projetos como o meu de projeção mapeada (VJ BSOD), e trabalhando um pouco menos ativamente do que estive na cena eletrônica do extremo nordeste do país (RN, PB e PE) nos últimos dois anos. Inclusive, os últimos 12 meses foram muito interessantes na região, com a movimentação de diversos grupos, coletivos, o reconhecimento de música eletrônica como parte da programação cultural do tradicional carnaval de cidades como Natal e Recife. Tenho certeza que está sendo muito pensado como não deixar a peteca cair, quando (se) voltarmos à normalidade.

Pininga: Eu já estava me sentindo meio perdido por aqui no Brasil, não são muitas festas que me conhecem ou tem coragem de me chamar por meu som/set ser meio… imprevisível. Isso se estende um pouco pra todxs do nosso coletivo Tormenta. A gente experimenta desde com festas/lineups mais calmos, até mais acelerados/noise ou performáticos (Aun Helden e Ecto, que são performers hoje já consagrados na noite SP, tão com a gente se apresentando e indo nos roles desde o começo). O espaço para experimentar é pouco, e o retorno financeiro das nossas próprias edições é menor ainda…

Ia tentar a vida na Europa. Eu e toda equipe da Linn da Quebrada já estávamos com outra tour agendada para o meio do mês, e eu ia tentar esticar minha estadia a partir daí. Mas desde o começo da pandemia perdemos toda a tour, logo toda a grana que esperávamos fazer, sem previsão de quando e se vamos fazer a tour… Isso foi um baque grande pra mim, então ainda estou tentando achar meu chão enquanto estudo mais.

“A música e outros fazeres artísticos, quando democratizados, instrumentalizam populações vulneráveis” – Mari Herzer

Qual é o último sonho que você se lembra de ter?

Laura Diaz: Fumar maconha acaba com a lembrança mais detalhista dos sonhos. Adoro escrevê-los quando lembro, sempre anotei nos meus caderninhos oníricos durante a vida. É legal como a nossa escrita não dá conta das narrativas e coisas multidimensionais dos sonhos. Não é linear. Os sonhos são a nossa super “ágora”. Quando a gente dorme, os inconscientes transam nessa geleia geral sem censura. Um clássico, para mim, é estar em prédios ou na cidade abstrata escapando/protegendo meus amigos da polícia reprimindo, batendo, atirando. É bem caótico, mas pelo menos em sonho, eu ainda não fui presa.

Zopelar: Lembro de ter sonhado essa semana que estava buscando meu piano elétrico que está em reforma. Quando cheguei na oficina ele era um sintetizador gigante cheio de botões e faders que não existem…. É ansiedade que chama?!

Mari Herzer: Não tenho sonhado muito.

Casinhas Fofas: Oxe, te falar que faz uns meses que não lembro dos meus sonhos. Deveria começar a anotar quando acordo se não esqueço mesmo.

Pininga: Eu mijando nas minhas gatas! É difícil de lembrar de sonhos por fumar maconha todo dia por anos, então…

Como transformar o luto em luta? Na sua opinião, que tipo de estratégia mercadológica-cultural deve ser adotada pela cena como um todo?

Laura Diaz: O assassino ou sociopata, quando mata, efetiva o desejo de violência, frui desse “phoder” por alguns segundos. Em seguida, se esvazia por completo na “nadidão” dessa potência da qual ele fruiu breve e fervorosamente. Minha estratégia para arte é pegar essa vontade de potência, essa da mesma origem violenta que motiva o sociopata, e transformar ela em te-ato, circulação energética que cresce coletiva e exponencialmente. Toda a violência que recebo direta e indiretamente é uma corrente elétrica que me ajuda a ver onde eu não quero chegar, quem eu não quero ser ou me tornar. Numa sociedade que fomenta a morte, a gente precisa escutar o corpo responder com a pulsão de vida, de sobreviver. Não quero que o mercado se foda. Quero que todo mundo que está se fudendo possa foder juntes em novas posições tântricas nesse mercado. Como a Tropicália, eu ainda quero cantar na televisão. Quero entrar em todas as estruturas e implodi-las. Porque o sistema atual é um castelo de cartas marcadas e, pro futuro, não dá pé. Mas a gente existe e muita música boa tá sendo produzida, apesar de todas as dificuldades, aqui e agora.

Não é fazer bagunça, é sobre deixar fluir e circular um dos momentos mais ricos da história da música que está acontecendo agora no Brasil como um todo, muito além das nossas cenas independentes em São Paulo. Estamos crescendo e nos profissionalizando, estamos ficando afiades. Eu quero que nossa mercadoria seja vendida, quero que ela circule também, é lógico. Mas não quero isso a qualquer custo, esse não é meu objetivo final. Meu objetivo final é estruturarmos, a muitas mãos, um cenário nacional independente de produção artística profissional.

Zopelar: Lutar com o que temos! Publicar músicas nas plataformas digitais, fornecer mais conteúdos online, buscar parcerias com as marcas. Embora muitas dessas coisas parecem tão inalcançáveis nesses tempos de crise, é preciso resistir e seguir em frente, enfrentar esse momento mesmo como uma guerra pois sairemos muito fortes dessa crise quando tudo acabar! Tentar viver um dia a cada dia e ter esperança. Contar com a ajuda de instituições maiores que uma hora vão ter que sacar que o setor artístico precisa de apoio mais do que nunca diante dessa pandemia e do descaso brutal que governo atual do nosso país tem com a nossa a classe! Sobreviveremos e teremos muita história pra contar em nossas obras. 

Mari Herzer: Sinto que essa melancolia generalizada vem se arrastando há anos, desde 2015, quando nos vimos atados pelas forças fascistas que hoje devoram o Brasil. Entendo que o luto se transforma em força quando temos disciplina e rebeldia. Disciplina para elaborar uma nova forma de apresentar e vender nosso trabalho que é imagem e som, estudar possibilidades, ler, discutir com amigos e profissionais. E rebeldia suficiente pra reconhecer que este sistema está morto e não pode mais continuar como está. Ou recomeçamos ou deixamos de existir.  Precisaremos viver um êxodo urbano, ocupar um espaço que antes não foi ocupado. Adentrar instituições de arte, galerias, fazer festas de uma pessoa só, oferecer algo além da sensorialidade auditiva-visual que temos até então. Sinto que as lives em redes sociais ainda são limitadas, a qualidade do áudio é baixa, podemos ir além disso, estamos nos organizando.

Jonny Rock Oldschoolrider: A cena deve ser mais cuidadosa… cuidadosa no sentido de trabalho árduo, preocupada com o local e não apenas com o bem comercializado. A verdade e o talento irão crescer novamente.

Casinhas Fofas: Ouvi bastante sobre o clássico “transformar a dor em arte”, mas sabemos que o buraco é mais embaixo e grande parte da arrecadação de quem está no meio depende exclusivamente de festas, eventos, reuniões de pessoas. Ainda rola uma grande incerteza e muitas tentativas de acertar o que seria o ponto ideal para ao menos os artistas sobreviverem durante este período, e no mundo inteiro se é consenso de o setor de eventos será o último a se recuperar e o que mais necessita inovar. Já que não podemos contar com apoio federal, como acontece com países como Alemanha, há essa tentativa de sucatear a cultura por meio do governo, o sentimento de luto já vem faz tempo. Talvez seja um momento de se organizar as iniciativas independentes e demandar de, por exemplo, serviços de streaming um repasse de recursos mais justo, já que as pessoas não deixam de consumir música, muito pelo contrário. Ainda é cedo para sabermos o que realmente irá funcionar, e infelizmente enquanto isso acontece os artistas continuam criando, e muitas vezes passando fome. Ouço falar de mudança até na busca das pessoas por ouvirem coisas mais calmas, menos agitadas, talvez pela ansiedade que essa época nos causa, mas ainda acho cedo. Por enquanto, observo. Sei que grandes mudanças virão no mercado, na cena, e na forma de se consumir e receber capital para cultura.

633 total views, 3 views today