O ano novo de Julien Baker

A artista americana antecipa os passos seguidos em “Little Oblivions”, seu terceiro disco – previsto para fevereiro de 2021 –, e conta quais foram os aprendizados de “ter uma crise pessoal antes do mundo todo entrar em crise”

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Fotos: Divulgação

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De vez em quando, basta um pouco mais de fé. Depois de um ano denso em todos os sentidos, 2021 se aproxima e, com isso, uma possível mudança de energias – para quem costuma acreditar. Não à toa, para quem é de fé, como a cantora e compositora americana Julien Baker, os últimos anos trouxeram algumas lições. Seu novo single, “Faith Healer”, lançado no final de outubro, fala sobre entender novas perspectivas:

“Ela mudou bastante durante a mix e master e não seria o primeiro single. Lançá-la primeiro me deu medo, é como uma figura de linguagem, certo? Mas ainda fala sobre uma espécie de religião ou crença cega nas coisas. Não quero criticar qualquer sistema de crenças, mas, para mim, essa música fala sobre reavaliar minha relação com fé na minha vida e tentar entender o que é saudável ou não, e no que posso confiar”.

Além da track, Baker disponibilizou em dezembro o cover natalino “A Dreamer’s Holiday”, parte do especial de fim de ano do Spotify – provável último lançamento antes de entrar de vez no ciclo do novo disco. Little Oblivions será lançado em 26 de fevereiro de 2021 pelo selo Matador Records e surge após um período de introspecção e mudanças na vida da artista. Gravado entre dezembro de 2019 e o início deste ano, o terceiro álbum de Baker foi elaborado com calma durante o período em que ela parou de fazer shows e decidiu completar o diploma em artes na MTSU, faculdade de sua cidade natal, Memphis.

“Gravei as demos enquanto me formava. Nunca fiz um disco dessa forma, sempre tentei escrever músicas para que eu conseguisse arranjar, mas dessa vez buscava uma paleta musical mais ampla. Tive tempo para trabalhar uma música de um jeito, depois não gostar e começar de novo. Ter tempo para sentar, refletir, mudar coisas e ser mais exigente”, explica. O registro conta com o trabalho de Calvin Lauber na gravação e Craig Silvey na mixagem, dupla que já havia colaborado no segundo álbum da compositora, Turn Out the Lights (2017).

Baker assina a produção e toca quase todos os instrumentos – baixo, bateria, teclado e banjo. E os fãs dos primeiros trabalhos não vão se decepcionar: o processo de composição de Baker ainda começa em seu quarto, no piano ou na guitarra. “Quando humanos acham algo no qual se sobressaem, pensam que devem continuar fazendo dessa forma para sempre, e sou culpada nisso. ‘Bom, sou boa compositora nesse contexto e me sinto confortável com isso’. Mas quero ter mais opções. Não quero colocar limites na minha música. Quero dizer, há um limite em como toco bateria porque não sou muito boa, então deixei meio esquisito”, conta sobre o processo de LB.

No papel de produtora musical, a americana sente o que cabe em cada ideia, mas busca sempre o essencial. “Eu e Calvin, o engenheiro de som, pegamos algumas músicas e começamos a tirar coisas porque realmente não há espaço. Eu busco o que está faltando, então você adiciona e soa ruim e tenta por outro caminho”, explica. Atualmente, a dupla está pensando nos arranjos de TOTL em formato de banda completa, para um futuro pós-vacina. “Talvez essas músicas também não estejam prontas”, completa sobre o assunto.

Inspirações (e dilemas) de uma libriana típica

A capa do novo disco, uma pintura do artista Wylee Risso, conta com uma frase da música “Bloodshot”: “there’s no glory in love only the gore of our hearts”, algo como “não há glória no amor apenas o sangue dos nossos corações”. As investigações de Baker partem de observações reais, em comportamentos e expectativas. Em especial sobre a capa, explica a sensação: “escrevi quando pensava em como é difícil amar as pessoas, em ambas as perspectivas. Como é difícil amar pessoas que estão há dez anos na minha vida e como deve ser difícil para os meus amigos me amarem. Todo mundo tem suas coisas e desafios, então quando você pensa, não há recompensa, glória ou perfeição”.

Para entender o que vê à sua frente, ela busca uma lupa para analisar a situação – afinal, as aparências e as redes sociais enganam. A artista, nascida em 29 de setembro de 1995, se identifica como “tipicamente libriana”, então seria impossível não olhar para ambos – ou todos – os lados a cada instante. “Há o ideal de amar uma pessoa, quando você vê pessoas lindas no cartão de Natal, mas todos têm falhas que precisam ser trabalhadas e compreendidas. Ao mesmo tempo em que é necessário o amor, pode ser doloroso, muito mais feio do que bonito e idealista”, reflete.

Antes do mundo todo entrar em isolamento, Baker já havia voltado para a sua concha repleta de anotações, livros e instrumentos musicais. Então, além de investigar sentimentos, ela se debruçou em autores e sons. O dilema nesse caso se apresenta em forma de: “tocar guitarra por cinco horas ou saber tocar mais ou menos o banjo?”. A brincadeira com librianos também agrada: “amo quando citam meu signo porque é um jeito fácil de explicar minha personalidade e falar que tenho dificuldade de tomar decisões”.

O mundo da literatura também inspira Julien Baker, cuja lista de livros favoritos conta com The Sympathizer, do autor vietinamita Viet Thanh Nguyen, Cem Anos de Solidão, clássico do colombiano Gabriel García Marquez, Severance, do chinês Ling Ma, e Woman Talking, da canadense Miriam Toews. “Por um bom tempo, buscava leituras austeras, reconhecia apenas certos autores e busquei obras deliberadamente brainy. Agora leio as recomendações de boas ficções, porque sei que qualquer livro é tão importante quanto um de ciências sociais”, diz sobre a biblioteca particular.

“Me ajudou a lembrar dos motivos que me fazem levar música tão a sério: por ser tão longe dos meus sonhos mais loucos, pensar que as pessoas escutam o que eu tenho para dizer – e que isso paga as minhas contas”

Equipada para mudanças

O contato com o mundo acadêmico começou em 2015. Na época, Baker estudava engenharia de som, mas se transferiu para o programa de educação porque desejava ser professora de inglês no Ensino Médio. Os planos iniciais mudaram de direção quando ela começou a lançar músicas e receber atenção de público e mídia. Seu primeiro disco, Sprained Ankle (2016), jogou a artista diretamente para o coração dos fãs de Indie Rock sedento por novas narrativas.

Cristã e gay, participou da cena alternativa local na adolescência, quando tocou na banda Forrister e, logo na faculdade, começou a soltar suas próprias demos no Bandcamp. Aos poucos, a quase meia década de rotina de shows começou a se tornar instável: “Foi meio bom ter uma crise pessoal antes do mundo todo entrar em crise. Vivia um momento em que eu não sabia o que fazer com a minha vida quando eu não tinha toda hora do meu dia contabilizada para entrar em um avião, aparecer e ir dormir. Me sinto mais equipada para as mudanças de agora, mas sei que não é como muitos músicos se sentem. Saudades turnês!”.

Ainda que tenha decidido se formar, Julien Baker não deve permanecer por muito tempo nas salas de aula e, renovada, percebeu que a pausa foi importante para se encontrar de novo e entender que sua identidade não está grudada a seu trabalho. “Me ajudou a lembrar dos motivos que me fazem levar música tão a sério: por ser tão longe dos meus sonhos mais loucos fazer isso por tanto tempo, pensar que as pessoas escutam o que eu tenho para dizer – e que isso paga as minhas contas. Fiquei obcecada em fazer música boa e ser boa no que eu faço, então foi bom me olhar como Julian, uma aluna que toca guitarra, gosta de livros e corridas – é saudável dar um reset”, fala sobre a maturidade adquirida nos últimos dois anos.

Na época em que decidiu se afastar dos palcos, ela estava em turnê com o boygenius, supergrupo ao lado das também multiartistas Lucy Dacus e Phoebe Bridgers, mas optou por cancelar as datas. Outros colaboradores assíduos de Baker são Hayley Williams, Becca Mancari, Jack Antonoff, Matt Berninger, entre outros contemporâneos. “Todo mundo está sentindo falta. Meus amigos, as pessoas que faziam as turnês, a gente manda screenshot das notificações de memórias do celular. Lembra daquele show de um ano atrás?”, conta. Talvez uma das grandes saudades das turnês seja a exploração de novos lugares e vivências: “pegar um café, ir a uma livraria, loja de discos, andar por aí. Amo cidades americanas, mas nunca tive dinheiro para estudar fora, então, estar em Praga, por exemplo, é algo fora do comum. Me sinto abençoada. Fiquei acostumada com a vida em movimento, então ficar parada está sendo mais difícil do que imaginava”.

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ARTISTA: Julien Baker

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