O antiquário musical e afetivo de Crocodilo Slam

No disco de estreia, lançado pelo selo de fitas Municipal K7, o artista goiano mergulha nos recortes da própria vida ao som de uma trilha sonora de videogame

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Fotos: Divulgação

“Desde pequeno me vi nessa coisa de ficar coletando coisas: vídeos, colagens, clipes, músicas de jogos e eu não sabia muito bem o que fazer com isso. Até que entendi que podia pegar tudo o que eu guardava comigo para criar algo dentro do meu próprio quarto”, conta Gabriel Artie a respeito do momento em que vestiu a persona de Crocodilo Slam – nome inspirado por Vector the Crocodile, personagem da série Sonic the Hedgehog (o Sonic). Amparado pelo selo de fitas cassete Municipal K7, o artista, videomaker e desenhista acaba de lançar, no Bandcamp, o disco de estreia Nascido em Swampland.

Com recortes de música eletrônica, samples de videogames, gravações perdidas, monólogos e bases de violão, Crocodilo Slam preparou uma memória física das sonoridades que o acompanharam durante as viagens de ônibus e trens nas cidades de São Paulo e Yorktown Heights/NY, além do cheiro do aconchego da cidade natal, Rio Verde, em Goiás. Ao longo de 12 faixas, o artista costura as experimentações que testou desde o primeiro estalo musical, em 2017, até o fechamento do projeto, quatro anos depois

Segundo o artista, para ele, sempre foi muito natural que as coisas fossem feitas na pressa, mas com a música, a dinâmica foi outra. “Fui descobrindo muitas maneiras de brincar com os sons, de construir as coisas. Deixei as músicas andarem no ritmo delas. Naturalmente, elas ficaram prontas. Cada uma teve um jeito diferente de falar que ‘acabou’.

Gravado todo em casa, o que reforça o objetivo principal do selo que estampa o registro, Nascido em Swampland é cheio de synths progressivos e hipnóticos – que te levam na viagem de Artie com uma mensagem visual muito clara. Em entrevista ao Monkeybuzz, ele contou sobre os lugares em que esteve e esmiuçou as referências por trás de cada faixa do disco.

“Hoaxing Swamp”

Essa é a única o nome se manteve o mesmo. Guifrog’s Hoaxing Swamp é um site antigo que eu costumava acessar quando criança, em que o dono nos ensinava a usar o programa Paint para recortar e reconstruir cenas de videogames, especialmente do universo Sonic The Hedgehog. Lá, criei as minhas próprias situações cômicas, inesperadas, e até desenvolvi historinhas em quadrinhos. Cada pessoa que enviava seus “hoaxes” tinha direito à sua própria galeria no site, mas era necessário passar pela curadoria do ‘Guifrog’, o sapo e dono, que mais tarde fechou o site para se dedicar à música. Eu adorava toda aquela estética verde, de pântano. Desde aquela época eu já havia me apegado a um personagem, Vector, o Crocodilo, um detetive desajeitado que nunca largou seus fones de ouvido e que fez a primeira aparição em Chaotix, um dos videogames que joguei incessantemente quando mais novo. Foi com esse jogo que entendi o que era samplear. Hoje em dia fica evidente que tipo de influência esse universo exerceu não só em mim, como também na minha música. Em setembro de 2017, “Hoaxing Swamp” viria a se tornar a primeira música do Crocodilo Slam.

“Anarav”

Inicialmente, essa não ia estar no disco. Mas teve um momento que ela chegou e falou: “vou estar”. Não tive muito controle sobre isso, ela simplesmente encaixou de uma maneira que eu não tinha o que fazer. Acho que a inspiração do nome veio de um artista digital que eu gostava bastante, ele tinha um nome parecido, soava como isso. Quando fiz a música, quando eu estava ali nos estágios iniciais, esse nome surgiu e encaixou. Não consegui desassociar o nome do sample da música e ficou isso. Meio que uma palavra inventada. Para mim, ela indica uma espécie de um movimento do basquete, de você ir com a bola tentando entrar no ‘garrafão’ para fazer uma cesta. É um estilo de movimentação.

“Desde pequeno me vi nessa coisa de ficar coletando coisas: vídeos, colagens, clipes, músicas de jogos e eu não sabia muito bem o que fazer com isso. Até que entendi que podia pegar tudo o que eu guardava comigo para criar algo dentro do meu próprio quarto”

“Meio-fio da Rua 3” e “Quadra-18”

Nasci em Rio Verde, passei minha adolescência em Goiânia, joguei basquete em Inhumas, que normalmente é onde estou quando não estou em São Paulo ou algum outro lugar. O nome chega a ser até meio óbvio por remeter ao “é tudo Goiás”. Misturo os “pedaços urbanos” das cidades onde morei numa coisa só. Rua 3 é a rua onde passei minha infância, no último quarteirão da cidade, atrás do Cemitério Antigo. O quarteirão à frente da minha casa, do outro lado da rua, era uma reserva da prefeitura com árvores, córregos e brejos. Eu sempre estava indo lá, jogando basquete lá. É uma fusão das ruas.

“Backyard Mania”

“Backyard Mania” são os quintais das casas de subúrbio naqueles jogos antigos do Tony Hawk, do Playstation 2, sempre parecia que era sempre de tardezinha, e que apesar das texturas “realistas”, ainda podiam ser considerados jogos “lowpoly”. Na infância, também era uma mania minha e de outras crianças da rua ficar nos fundos das casas, das nossas ou alguma vazia do quarteirão, que tinham a ver com essas dos videogames.

“Losmic, dude!”

É um nome engraçado. O “dude”, inclusive, foi o Stan que colocou. Eu mandei o Losmic, e ele achou legal. Em 2019, surgiu uma oportunidade de eu ir para os Estados Unidos, juntar uma grana, trabalhar para um restaurante chinês, e eu fui. Foi bem pesadinho, mas foi uma experiência bem legal. Eu estava ouvindo muito Tyler, The Creator, meio que era o que mantinha a minha sanidade no meio daquela rotina. E era frio, não tinha como sair, quando não tava em casa, eu estava trabalhando e vice-versa. Dessa viagem, saíram vários sons, inclusive dessa. A gravação no início da música, que a neve faz um barulho engraçado, foi quando eu estava lá na neve.

“Sóbrio Frio”

Chegou em Sóbrio Frio a gente gostou. A música tem essa coisa meio natal melancólico. A parte dos sininhos já estava meio pronta, mas não era uma música ainda. Depois de conversar com o Stan, terminamos a música.

“Land Escapade”

Nascido e crescido num “Swampland”, no Hoaxing Swamp eu recortava e reconstruía minhas próprias aventuras no videogame, usando o computador. No Swampland em frente à minha casa eu fazia o mesmo, mas com as aventuras e brincadeiras típicas da infância, onde não por acaso nasceu a melodia do synth inicial de “Land Escapade”, a peça mais antiga que foi adicionada ao disco.

“Revoada”

Eu tinha gravado em 2017 em uma outra tentativa de banda com os meus irmãos, meu primo e um amigo nosso. Eles eram músicos também e a gente cresceu junto. Mas acabou que não deu muito certo. Algumas coisas dela, porém, foram gravadas no quarto do meu irmão, botei o celular ali e foi, eles nem sabiam que estava gravando enquanto a gente estava tocando.

“Lowpoly Reptile”

Talvez seja a minha favorita do disco, apesar de eu não costumar pensar nesses termos. A ‘réptil’ em questão seria a figura do próprio Crocodilo Slam, em algum de seus quartos espalhados pelo mundo, sintetizando o que ele entende como sua própria música e sua geografia que, num dado momento, só fazia sentido enquanto ‘cidadão simultâneo’ de Goiás, São Paulo e Nova Iorque. Essa música é menos um lugar, menos um movimento. É mais um personagem mesmo, o Crocodilo Slam falando, falando mais dele do que dos lugares que a gente visita. É a mesma coisa de várias músicas, pedaços tinham sidos gravados antes e encontrei um novo lugar para eles.

O estilo de 3D “lowpoly” surgiu devido à limitação dos videogames no final dos anos 1980, e que praticamente dominou a segunda metade dos 1990, onde, além das grandes empresas de jogos, existiu uma cena independente criada por pessoas em seus próprios quartos. Até onde eu sei, hoje em dia, jogos em estilo lowpoly são quase que exclusivamente independentes, com uma técnica praticamente artesanal, seguida e desenvolvida por pessoas que ainda acreditam nas possibilidades infinitas, falsamente ‘esgotadas’ pela grande indústria.

“Sidewalk Fantasielastic

Sempre joguei basquete à noite, ou de madrugada, na quadra do Parque Goiabeiras. A manhã, o início da tarde, quase nunca eram momentos aproveitáveis do dia. O entardecer, o início da noite, era sempre ali que o dia começava para mim. “Sidewalk Fantasielastic” é a luz alaranjada dos postes tomam conta das ruas e das calçadas, agora finalmente mais vazias, e revelam espaços transformados, caminhos pro “grande jogo” que sempre vai tomar seu lugar no parque.

“Zelo”

Ela é a que eu mantive mais violão mesmo. Achei ela perfeita para terminar o disco porque, para mim, ela conversa um pouco com a primeira. Elas compartilham de uma melodia semelhante, que não é muito óbvia, mas elas conversam entre si. O nome “Zelo” também nunca tive vontade de mudar, porque eu fiz e dei o nome. Ela me deu uma noção de como eu queria terminar o disco: com um certo zelo, tipo um fim de viagem, um chegar em algum lugar e ter tido algum certo cuidado para chegar nesse lugar. É uma música que sozinha não parece que faz parte do disco, mas ela só faz muito sentido depois de você ouvir tudo que veio antes.

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