O atual R&B mexicano a partir de sete artistas

Beats marcantes, graves envolventes e vozes aveludadas: conheça quem está colocando um tempero especial no tradicional gênero

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Fotos: Finesse Records

O México não é exatamente o lugar mais óbvio quando pensamos em R&B. O ritmo musical americano se popularizou na segunda metade do século 20, a partir da ideia de que era necessário categorizar os estilos dissidentes do Blues e do Jazz, ambos característicos da cultura negra. Com o passar das décadas, a ideia de R&B foi se tornando cada vez mais abrangente e sua linguagem chega a Rap, Funk, Soul, Rock, além de, atualmente, influenciar tendências de gêneros como Trap, Synth Pop e House.

A possibilidade de combinações vem sendo repaginada a cada geração e passa a ser assimilada em outros lugares para além dos Estados Unidos. Como no caso de alguns artistas mexicanos, que há menos de dez anos também decidiram investigar (novamente) essa sonoridade. Contudo, a relação do México com o R&B não é nova: nos anos 1960 houve, por exemplo, o icônico Royal Jesters, formado por cantores de ascendência mexicana em San Antonio, no Texas. Recentemente, o grupo, que trazia harmonias vocais cheias de Soul com toques latinos contagiantes, foi resgatado no imaginário por conta da utilização de “Take Me For A Little While” em “Ghost Town”, de Kanye West.

Pulando para 2020, alguns nomes vêm misturando timbres e propostas típicas do R&B a temperos latinos, como Chicano Batman e Kali Uchis. Ao mesmo tempo, a música Pop latina, cantada em espanhol, vive um momento de destaque no mainstream internacional. Antes de ser desbancada no ano passado por “Old Town Road”, hit de Lil Nas X, “Despacito”, canção de Luis Fonsi, Daddy Yankee e Justin Bieber, era a detentora do recorde de mais semanas no topo do Hot 100 (16). E há muitas outras reverberações da febre latina pelo mundo radiofônico. Ou melhor: a mescla certeira entre os grooves latinos e o poder de um bom Pop americano – seja com o talento de Rosalía ou por meio de samples quentes, como “I Like It”, hit estrondoso de Cardi B, que rememora um irresistível Boogaloo de Pete Rodriguez.

O circuito alternativo também passa por um período plural e efervescente. No México, a discussão vem sendo levantada por Girl Ultra, projeto da artista Marina de Miguel, nascida na capital, que lançou o primeiro trabalho em 2017, o EP Boys. “Minha ideia era usar o R&B, um gênero menos conhecido no meu país, desenvolvendo uma nova linguagem para traduzir a música que eu cresci escutando – anos 70, 80 e 90”, disse a cantora em entrevista ao site Scene. Ao lado de Coral Casino, Santa Bandida, Teen Flirt, Adrian Be e Phynx, Girl Ultra faz parte do casting do selo Finesse Records, criado em Monterrey, no ano de 2012, por David Oranday (Teen Flirt). O som do projeto pode ser definido como “The Future Mexican Label”, essa ideia de futuro inclui R&B, Trap e música de pista.

Entretanto, não são todos os artistas que se sentem confortáveis com a tag “R&B”, caso da cantora Fer Casillas, também parte da cena de Monterrey. “Este mundo me intimida porque vem de mãos dadas com uma cultura – a negra – que em algum nível está sendo apropriada. Insisto em não me casar com R&B, porque não é exatamente o que eu faço. Costumo ser chamada de Neo-Soul”, explicou ao site Remezcla. Ela aponta também que há várias camadas que não estão sendo discutidas, como a ausência de negros e a clara influência americana. “Há muita hype no momento, é fácil misturar nostalgia, beatmakers, moda e transformar isso em um fenômeno”, pontua Casillas.

Ainda assim, artistas espalhados por diferentes regiões do México dão contornos a uma cena que está se descobrindo – e justamente por isso é tão interessante. Conheça sete artistas mexicanos que flertam com o R&B:

Girl Ultra

Mesmo com a pouca idade, aos 24 anos, Girl Ultra, alter ego da artista Marina de Miguel, vê um novo movimento acontecendo. Nascida na Cidade do México, filha de pais artistas, cresceu escutando discos de Aretha Franklin e Natalia Lafourcade, e vislumbrou um destino na música quando ainda era pré-adolescente. Seu estilo foi lapidado nessa última década, ao longo dos discos Adiós (2018) e Nuevos Aires (2019), uma porção de singles e de colaboradores (Cuco, Ximena Sariña, Jesse Baez). “Conforme fui ficando ainda mais fã de R&B, percebi que queria abrir o gênero para a minha língua nativa. A gente não tinha uma cena acontecendo no México, me senti responsável para fazer isso acontecer”, explica Marina à Rolling Stone americana. O resultado? Canções românticas cantadas em espanhol, com beats suaves e timbres nostálgicos.

Kiddie Gang

“A banda mexicana que coloca nostalgia ao Trap e R&B”, diz o site Morbo sobre o quarteto de Monterrey. Formado há apenas um ano por quatro amigos e estudantes de produção musical – Foudeqsh, Bear Macklin, Kash Kiddie e Lee Flame –, o projeto tem alguns singles, e lançou o primeiro EP Vertigo durante a quarentena. A voz suave da vocalista Foudeqush canta sobre amores, vícios e sonhos escapistas. Rap, Indie Rock, Trap e Dance Music, além do próprio R&B, fazem parte das referências. O encontro do quarteto resultou em faixas desaceleradas, Lo-Fi e cheias de personalidade.

Noa Sainz

Nascida em Saltillo, Regina Isabel Vallejo sabia que desejava uma carreira nas artes quando, aos 16 anos, decidiu mudar para a Cidade do México e correr atrás de seus sonhos. Depois de estudar atuação e técnica vocal, criou a persona Noa Sainz em 2018 para lançar suas próprias composições. Seu primeiro single, “FYT”, apresenta de forma tímida alguns elementos de sua sonoridade – um Pop Eletrônico com toques de Reggaeton e R&B. Hoje, aos 22, tem contrato assinado com a gravadora Warner Music e almeja um futuro musical: “Quero ser um ícone mexicano”, diz em entrevista ao Remezcla. Todo o perfume vintage que Ultra Girl apresenta em sua identidade, Noa Sainz se aproxima da estética futurista – beats mais eletrônicos, estética sci fi e muitas cores neon. Suas referências musicais vão de Kali Uchi e H.E.R. até Pink Floyd. Ela já declarou que seu trabalho poderia se chamar “Pop Urbano”.

Clubz

Após o término da banda Husky, os músicos de Monterrey, Coco Santos e Orlando Fernández, decidiram criar um projeto novo, unidos por um amor em comum: o som dos sintetizadores. A sonoridade dançante da banda surge da pesquisa do duo por camadas, texturas, graves marcantes, solos de sax e pedais de guitarra. “Pensamos como será em 2030, quando as pessoas serão nostálgicas olhando para 2013. Quando olharem para tipografias, cores e pensarem: ‘nossa essa banda dos anos 2000 era legal’. Como as pessoas reagem hoje em dia com as bandas dos anos 80 e 90”, explica Coco ao site Remezcla. Há quase uma década na estrada, já se apresentaram em festivais como Primavera Sound e também assinaram com o selo e produtora de Barcelona, Canada Editorial. Possuem um disco lançado, Destellos (2018), um EP, Texturas (2014) e soltaram o último single, “PRONTO!”, no início de março.

Wet Baes

Há algumas contradições sobre a idade do produtor e músico Andrés Jaime, é possível que tenha entre 22 e 24 anos. Conhecido pela pegada DIY, ele busca misturar elementos das décadas passadas. Uma leve Bossa Nova, um Michael Jackson dos anos 1980, com bandas atuais como Phoenix e Justice. Inclusive, abriu shows de alguns de seus ídolos, como Mac DeMarco, Toro Y Moi, Future Islands e Breakbot. Começou a lançar músicas na metade da década passada, com o EP Youth attraction (2015) e segue sem um álbum cheio. Sua investigação criativa também passou a incorporar elementos espaciais, ele chegou até mesmo batizar seus últimos três EPs de Cosmovidencias (2019). “No final do dia, o espaço não é um lugar agradável, mas é onde você vai para aprender a ter foco e trabalhar – você morre se não fizer isso. Você não tem duas opções e sinto que minha vida entrou em algo similar”, explicou ao site Beatbites.

Fer Casillas

A artista batizou seu primeiro disco, Imágenes de Olga (2019), como uma homenagem a sua avó Olga, que ensinou Casillas a cantar desde criança. A mãe é professora de música e o pai é um grande colecionador de discos de Jazz. A herança familiar faz parte da identidade de seu trabalho solo. Contrariando a tendência eletrônica do momento, aposta em um som orgânico e explora experimentos com orquestração. Seu parceiro criativo é o produtor colombiano Juan Pablo Vega, responsável por coproduzir ambos os trabalhos. O músico contabiliza centenas de créditos em tracks de nomes como Ricky Martin, Alejandro Sanz, Paulina Rubio e até mesmo Laura Pausini. O desafio da dupla era encontrar um meio termo entre o som processado e as referências da cantora.

Babe Mija

A mais underground da lista, Babe Mija, projeto de María Palencia, tem poucas músicas online, mas todas merecem a sua atenção. A primeira track da sua página do Soundcloud é um cover publicado há seis anos de “I Heard Love Is Blind”, do disco Frank (2003), da Amy Winehouse. A vocalista compõe em inglês com algumas pitadas de espanhol, caso do single “Quetiapine”. Sua voz aveludada e seu jeito de cantar podem remeter a própria Amy, além de Joss Stone e Erykah Badu. Nascida em Mexicali, capital do estado Baja California, fronteira com Estados Unidos, ela atualmente aproveita a quarentena para finalizar seu primeiro EP, Santa Mónica, que deve sair em breve.

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