O Brasil segundo Jesse Harris

Músico nova-iorquino declara seu amor pelo país e se inspira em nossa cultura para suas músicas, como nos mostram estes vídeos inéditos

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A gente aprende na escola, durante as aulas de literatura, que os modernistas brasileiros eram “antropofágicos”. Eles absorviam o que era feito por outras culturas, digeriam os estilos e criavam algo novo dentro do contexto estético do país na época – algo sempre lembrado também ao se falar sobre o movimento Tropicalista. Ouvindo sempre isso do ponto de vista tupiniquim, é possível se esquecer que esse processo acontece também com qualquer outro artista de qualquer outra cultura ao se deparar com aquilo que é brasileiro. Jesse Harris está aí pra provar isso – e estes vídeos inéditos não me deixam mentir.

O músico nova-iorquino é um exemplo de alguém que, ao ter contato com aquilo feito no Brasil, deixou seus conceitos serem influenciados pela estética trabalhada por aqui para que ele pudesse repensar suas próprias maneiras de compor. Fã de nossa arte, ele declara: “O Brasil é para a música o que a Itália é para a culinária. Faz comida de ouvir”.

Mas que Brasil é esse que Harris ouve? Perguntar “o que é música brasileira?” para alguém nascido por aqui pode surtir as mais diferentes respostas, já que a variedade de ritmos e estilos é tão grande quanto a área e a população do país. Alguns poderiam mencionar vertentes folclóricas muito específicas como sendo bons exemplares do que é “brasileiro” e tem aqueles que logo pensariam no lugar comum do samba, enquanto outros, com ouvidos mais atentos ao que é contemporâneo, poderiam arriscar as referências estéticas que mais escutamos ultimamente, o resultado daquela “antropofagia” em versão 2013 que este milênio viu após Los Hermanos.

Ao escutar seus álbuns Sub Rosa (2012) e Borne Away (2013), arrisco afirmar que ele se aproxima mais desse último grupo, mas com um olhar atento, que talvez só um estrangeiro consiga ter mesmo, de enxergar bem o que digerimos de dois outros importantíssimos lugares-comuns da nossa música: Bossa Nova e Tropicália. Se o que hoje fazemos não poderia ser catalogado como nenhum desses dois, carregamos as influências diretas e indiretas do que os artistas dessas gerações/movimentos fizeram. Jesse Harris ouviu tudo isso, os antes e os depois, e se deixou levar pelo nosso compor.

Tendo o violão como base, seu trabalho me lembra nesse aspecto alguns outros internacionais que souberam aproveitar a música brasileira dentro de suas próprias estéticas: Da Noruega, vem Kings of Convenience, uma dupla declaradamente fã de Tom Jobim que, se não tem referências diretas em suas canções de sons brasileiros, não tocaria dessa forma se não tivesse tido contato com o que é feito no país; E também o saudoso Burt Bacharach, que ajudou a incorporar nossa Bossa à música Pop romântica feita nos Estados Unidos antes mesmo de Jesse Harris nascer.

É nessa linha entre o Pop romântico e o Jazz que Harris despontou, quando compôs Don’t Know Why, música que alavancou a carreira de Norah Jones em 2002 e colocou o moço no mapa dos compositores a se prestar atenção. Uma década depois, quando Sub Rosa saiu, o que víamos já era um resultado de uma imersão maior no som daqui, até por ele já ter trabalhado com nomes como Marisa Monte e Maria Gadú (que está no disco, assim como Norah Jones).

Borne Away, um trabalho menos Pop e mais introspectivo (e há provavelmente quem o chamaria de Folk por isso e pelos violões) de onde saíram estas músicas ao longo do artigo, já tem uma influência brasileira em outro viés. É algo mais enraizado mesmo, mais de compositor e cantiga, coisa de quem se deixou influenciar por nossa cultura em um nível mais íntimo, tanto é que ele deve agradar o público que tem escutado lançamentos como Sábado, de Cícero, mais mínimos e pessoais. Certamente, ter observado a busca pelo brasilidade que Tiago Iorc passou em Zeski ajudou em seu próprio processo (Jesse toca guitarra no álbum).

Jesse Harris afirma que gostaria de ter nascido no Brasil. Por mais impossível que seja mudar essa situação, sua música renasce a cada álbum um pouco mais perto de nosso solo, aproveitando o que ele absorve de melhor daqui, de sua Nova York e de onde mais for, antropofagicamente.

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ARTISTA: Jesse Harris
MARCADORES: Conheça

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.