O disco de covers da Field Music

Saiba como o grupo britânico reimaginou diversos artistas, como The Beatles e Pet Shop Boys, em um trabalho que contém muita originalidade

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Field Music está no melhor momento de sua carreira. A banda britânica de Art Rock formada pelos irmãos David e Peter Brewis – esse último, ex-baterista da banda The Futureheads -, lançou o seu homônimo primeiro disco em 2005 chamando a atenção da mídia especializada na época. Após o segundo álbum, Tones of Town, a banda declarou um hiato para que cada um dos irmãos pudesse tocar o seus projetos paralelos. Dessa pausa, surgiram os grupos The School of Language, de David, e The Week That Was, de Peter. Novos ares parecem ter surgido efeito para a família Brewis, pois em 2012 o quarto álbum de estúdio do grupo, Plumb, foi indicado para o Mercury Prize, famoso prêmio britânico de música.

A fase é tão boa que o grupo decidiu fazer uma coletânea de diversos covers, alguns já tocados e lançados em singles e outros feitos especialmente para o disco. Determinar se um cover é bom ou ruim pode ser uma tarefa árdua. Muitos declamam que a reprodução de uma música famosa deve seguir milimetricamente cada detalhe da obra original. Outros preferem quando a obra é reimaginada, capturando um pouco sua essência, mas adicionando novas cores. No entanto, quando nos tratamos do disco de covers do Field Music , Play, a sensação que se passa ao final é a de a dever cumprido.

Se escutado aleatoriamente, sem saber que se tratam de covers, o ouvinte chegará a conclusão de que se trata de um bom disco ao longo de suas oitos faixas. Quando vemos que as reproduções passam por nomes como The Beatles, Syd Barrett, Leonard Cohen, Pet Shop Boys, Roxy Music, Robert Wyatt e John Cale, o espanto pode ser ainda maior.

Nem de longe, as versões neste disco são reproduzidas milimetricamente, no entanto, se trata da Field Music, com seu estilo próprio, tentando dar a sua cara para cada música. Por exemplo Terrapin, cover do Syd Barret, em nada lembra a versão psicodélica no violão de um dos fundadores do Pink Floyd. O tempo da música foi mudado, assim como a sonoridade dos versos da música. No entanto ,é um bom Indie Rock que se utiliza da letra do cantor.

Heart do Pet Shop Boys é menos baladeira e feita para clubes, e mais rockeira. No entanto, é ainda mais pessoal, e captura o sentimento proposto inicialmente pelos Pet Shop Boys. Um dos grandes covers deste disco é Suzanne canção clássica de Leonard Cohen. Ao trocar a condução no violão pelo piano e bateria, a música ganha ainda mais intensidade. Fato consumado quando o refrão é cantado pelos irmãos David e Peter Brewis. No final, a reprodução é mais épica que a original e soa como uma declaração de amor do grupo a um dos maiores compositores ainda vivos.

O cover de Don’t Pass Me By, dos Beatles, é talvez a grande reimaginação do disco. Enquanto a música original era quase um Folk bem feliz com seus banjos e bandolins, e uma letra melancólica contrapondo-a, “don’t pass me by, don’t make me cry”, o cover é muito mais pesado e dramático. Field Music praticamente refaz a música em uma tentativa acertada de unir o sentimento do som reproduzido com o que é dito em suas letras.

If There Is Something, cover do Roxy Music, mantém o mesmo riff clássico sem, no entanto, se resumir a ele. Cortando o tamanho da música e adiantando o solo da música, o grupo faz uma bela versão compacta da canção original. A levada ao fim é mais rápida e dinâmica, mas com o mesmo espírito da banda de Brian Ferry.

Duas versões podem ser consideradas as mais certinhas do disco. A primeira é Born Again Cretin do ex-baterista da Soft Machine, Robert Wyatt. Seguindo a mesma linha de Jazz viajado da faixa original, tem ainda uma cor ou outra a mais sendo colocada pelo Field Music. Porém, o cover de Fear Is A Man’s Best Friend, de John Cale, aborda a mesma base no piano, a característica principal da canção original, e deve agradar os mais puristas pois, esse sim, é um cover milimétrico.

Rent traz de novo os Pet Shop Boys a cena. As canções comparadas lado a lado, soam extremamente semelhantes, entretanto o cover do Field Music ganha notoriedade ao transpor a atmosfera do Synth Pop para o universo Rock. Perdendo talvez um pouco a superficialidade da original e dando mais teatralidade aos versos da música, o irmãos Brewis conceberam um cover sensacional.

Tais versões devem agradar até o mais cético dos fãs e tem como característica mais marcante, e um pouco paradoxal tratando-se de covers, a originalidade. A reinterpretação de atos parece muito mais pertinente ao grupo, que, ao colocar os seus toques pessoais nas músicas, acaba expandindo o universo da músicas reproduzidas, soando ao fim como belas homenagens aos artistas originais. Por isso que a vida deve continuar boa ao Field Music, pois em um mundo com tantas bandas distintas, identidade é uma qualidade respeitada e valorizada acima de tudo.

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ARTISTA: Field Music
MARCADORES: Cover, Novo álbum

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.