O encontro – virtual, musical e sensorial – de Chico Bernardes e Christopher Bear

Os músicos nos explicam como se deu a conexão São Paulo-Los Angeles, que resultou no cruzamento de referências e em duas composições feitas em parceria

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Fotos: Reprodução/Helena Zilbersztejn

Nas quase duas décadas de carreira, Christopher Bear ganhou destaque principalmente como baterista da banda cult alternativa Grizzly Bear, que, desde meados dos anos 2000, é celebradíssima por crítica e público. A abordagem épica do grupo, sempre adepto do não óbvio como solução estilística, dá vida a músicas cheias de camadas que vão do Pop de câmara ao Rock Alternativo, passando pelo Folk psicodélico – sem deixar de encarnar a esquisitice acolhedora tão característica da banda. Morando em Los Angeles, Chris lançou no ano passado seu primeiro trabalho solo: Fools’ Harp, Vol. 1. Sob o pseudônimo Fools, o músico percorre uma espécie de nostalgia futurista em 13 faixas instrumentais.

Chico Bernardes é um jovem músico que lançou em 2019 um promissor e comovente álbum de estreia autointitulado. O trabalho navega pelo espaço-tempo: Joni Mitchell, Nick Drake e Lô Borges se encontram com Boogarins e Sufjan Stevens, e o repertório é referencial aos mestres e, ao mesmo tempo, lisonjeiro a contemporâneos. A idade de Chico é quase o tempo que Chris se aventura pela música, mas o cantor e multi-instrumentista paulistano impressiona pela carga sentimental de suas composições – a impressão é que ele já viveu pelo menos o dobro de sua idade.

Nos últimos dois anos, o isolamento acabou humanizando mais o Instagram e as redes sociais em geral. Ver uma estrela Pop tocando em casa, de pijamas, foi reconfortante e poder gastar tempo fuçando perfis por aí foi primordial para que encontros, antes improváveis, se tornassem possíveis. As possibilidades de uma “seguida” ou “curtida” conectaram artistas ao redor do mundo. Um exemplo dos milhões de vínculos impessoais e poderosos foi a união entre Chico e Christopher.

Devidamente conectados, Chris sugeriu a Chico que eles fizessem uma colaboração. Alguns dizem que os opostos se atraem, mas encontros entre pessoas que partilham das mesmas paixões são sempre poderosos. A conexão mental e astral pode criar laços eternos. Assim, Chico e Chris deram vida a duas canções que nos remetem a sentimentos e sensações analógicas. O passar do tempo na ampulheta, a adrenalina curiosa de um jogo de tabuleiro, a incerteza do novo encontro – olhos nos olhos, como diria o outro Chico. As faixas da colaboração saem pelo selo RISCO e ganham edição em vinil pelo selo espanhol Mapache Records.

Conectados em uma vídeo-chamada que faz ponte entre São Paulo e Los Angeles, Chico e Chris nos ajudam a entender mais sobre esse encontro generoso entre diferentes gerações – que se entendem muito.

 

Chris, como você descobriu o trabalho do Chico?

Chris: Não lembro exatamente como chegou no meu radar, mas ouço muita música brasileira, então acho pode ter sido alguma recomendação, talvez o algoritmo naquela coisa de “talvez você goste disso” tenha me mandado e claro que gostei. Acho que foi bem quando saíram os singles do primeiro álbum uns dois anos atrás. O que amei é que a música do Chico está bem amarrada à música mais antiga brasileira e ao Pop psicodélico feito ao redor do mundo, mas com uma sensibilidade moderna e ideias melódicas. De primeira, já bateu.

E você, Chico, quando começou a ouvir Grizzly Bear?

Chico: Eu tinha uns 13 anos e falei para o meu irmão que estava cansado das músicas do meu iPod e pedi umas coisas novas para ouvir. Aí ele me passou Tame Impala, Fleet Foxes, Grizzly Bear, as bandas indies contemporâneas, lembro que ele me passou também o Angelo De Augustine. Em 2014, eu tinha terminado um namoro e estava de coração partido aí andando na rua com os fones no ouvido dei play no Shields (2012) e bateu muito porque eu estava nesse lugar sensível, sabe? E os arranjos do álbum são sensíveis e isso clicou muito comigo. A partir daí, (o trabalho deles) sempre me inspirou a criar meus próprios arranjos. O Grizzly Bear é bem importante para mim.

Chris, o Chico é seu fã desde a adolescência, então, é natural ele imprimir na música dele referências do seu trabalho. Fico curiosa para saber como a visão dele te influenciou ou te guiou no seu processo para colaborar nessas faixas.

Chris: Desde o começo, sabia que a gente tinha muito em comum em termos de estética e sons pelos quais a gente se interessa, mas acho que pegando as versões demo dele, foi meio “Vou ouvir isso e existem dois caminhos, sendo não mudar quase nada ou pensar nisso de um jeito diferente”. Com “Quero Saber” foi um pouco mais a sensação de que tinha um groove ali, como um ritmo indo para algum lugar que poderíamos apenas adicionar, embelezar aquilo e aí transformar em uma coisa. Já em “Pra Próxima Vez” nós meio que acabamos reduzindo para mais ou menos apenas os acordes e os vocais e depois repensando toda a textura e isso foi muito divertido de fazer. Foi muito legal trabalharmos juntos desses dois jeitos, quase que reimaginando o que era a ideia inicial e também abraçando uma ideia existente e, ao mesmo tempo, expandindo, sentindo e embelezando ela.

E demorou quanto tempo para vocês criarem as faixas? Foram muitas vídeo-chamadas?

Chris: O que você acha, Chico?

Chico: A gente conversou mais por texto e mandávamos links um para o outro, gravávamos coisas e dividíamos um com o outro e a conversa era mais por texto. E aí uma chamada para ajustar as coisas.

Chris: E não foi uma quantidade louca de vai e volta. Acho que a gente rapidamente entendeu as direções que estávamos seguindo e, de verdade, eu senti que tudo veio naturalmente.

“Em 2014, eu tinha terminado um namoro e estava de coração partido, andando na rua com os fones no ouvido. Dei play no ‘Shields’ e bateu muito porque eu estava nesse lugar sensível, sabe? E os arranjos do álbum são sensíveis. O Grizzly Bear é bem importante para mim e sempre me inspirou a criar meus próprios arranjos” – Chico

Quando eu ouvi pela primeira vez “Quero Saber”, veio na minha cabeça algumas texturas e a energia do Yellow House (2006), algo entre o mistério e a aventura. O que vocês tinham em mente para os arranjos dela?

Chico: Acho que quando eu escrevi essa música, isso tem uns dois anos, ela parecia legal apenas na voz e violão, mas quando o Chris sugeriu fazer uma colaboração eu pensei “Nossa essa música tem essa coisa da curiosidade, a letra perguntando sobre coisas, querendo respostas sobre a vida e poderia abrir espaços para isso, uma colaboração”. E eu estava experimentando fazer uma demo, ela já estava estruturada, gravei mais algumas coisas, consertei outras e mandei para o Chris e ele foi enchendo de instrumentos, o que eu achei super legal, porque eu vi que ele tinha colocado um vibrafone. E na época eu estava ouvindo muito Steve Reich, Philip Glass, ouvindo muita coisa de minimalismo, aí ouvi aquilo e amei, porque eu não saberia ir por esse caminho escrevendo a música. Tipo, uma música com letra eu não saberia como misturar isso com uma abordagem polirrítmica, minimalista e o Chris me mandou assim e eu achei maravilhosa.

“Pra Próxima Vez” me trouxe a ideia de uma história de amor que se perde no tempo. E me fez lembrar de um relógio de pêndulo da casa da minha avó. O som da madeira e das peças de metais, dá para realmente você ouvir o tempo passando, sabe? Acho que ela poderia ser trilha sonora de uma série que fala sobre relacionamentos. Qual era o cenário para ela?

Chris: Quando o Chico me mandou, era mais violão e guiada pela voz, era muito legal, mas me deu a sensação de que a melodia era tão bonita e pensei “como a gente captura esse sentimento super íntimo e de um ‘calor próximo’”. Eu acho que é uma percussão suave e mínima na maior parte dela. Eu gosto de usar congas de uma forma um pouco menos tradicional, então não soa como “oi, aqui é o tocador de bongô maluco” (risos). Eu estava usando a lateral do tambor de madeira e tentando tirar mais aquele tipo de som tático e meio que emparelhar isso com um sintetizador que no cerne dele não é uma coisa analógica, mas tem um tipo de som meio “atordoado” e menos daquela sensação do dedilhado. Achei que seria muito bom trabalhar o vocal e dar mais espaço para ela existir ao redor, foi assim que comecei esse acorde. E foi incrível quando o Chico mandou de volta, porque a melodia da demo estava lá feita de uma maneira diferente. Eu entendo perfeitamente o que você está dizendo sobre o relógio de pêndulo, porque tem isso. Entre um piano e o lapsteel, há esse tipo de sintetizador “atordoado”. Mas encontrar essas pequenas melodias e o bandolim que você tinha foi mais ousado…

Chico: Eu lembro quando você me devolveu e tinha gravado a bateria, percussões, lapsteel e baixo e tirou a guitarra, aí com esses espaços a gente pôde preencher com pequenos elementos, então toda a melodia e as frases se complementam. É legal que no começo de tudo eu tinha algo como “I Used to Be a King” do Graham Nash, em mente, uma parada mais velha e você trouxe essa energia mais nova e eu fiquei “wow, é isso”.

E sobre a capa que a Helena Zilbersztejn fez, qual foi a referência por trás?

Chico: Ela ouviu as músicas e tentou fazer uma coisa diferente do que é a capa hoje. Ela tinha feito algo que era mais uma colagem e a gente tinha em mente algo mais como uma pintura, assim como ela fez a capa da Fernê. A gente queria algo mais naquela textura e aí ela mostrou algumas pinturas e a gente gostou dessa e o título, que é essa fonte desenhada, ela fez à mão.

Chris: Sim, acho que essa fonte casou muito bem com a ideia de ser uma coisa mais orgânica que estávamos procurando

“O que eu amei é que a música do Chico está bem amarrada à música mais antiga brasileira e ao Pop psicodélico feito ao redor do mundo, mas com uma sensibilidade moderna e ideias melódicas” – Chris

Chris, é a primeira vez que você trabalha com música que não seja cantada em inglês, certo? Queria saber se a sonoridade da nossa língua traz algo para você, talvez um sentimento que você traduza para os instrumentos. Já ouvi vários artistas dizerem que o português soa mais poético.

Chris: Bom, quando eu digo que sou muito fã de música brasileira não é brincadeira (risos). Grande parte da minha coleção é de música brasileira de fases diferentes. É grande parte do que eu ouço e acredito que eu gravito em torno disso. Acho que a essa altura eu deveria aprender português e em algum momento preciso ir para o Brasil só para visitar. Tenho na cabeça toda uma ideia meio maluca de fazer um álbum de disco brasileiro. Mas falando sobre a língua, eu acho que há cadência e ritmo diferentes na maneira como a linguagem funciona com as letras. E acho especialmente que em “Pra Próxima Vez”, como o Chico estava dizendo, os espaços que ela deixa e os arcos que a voz faz moldam quase como perguntas e respostas entre a voz e instrumentos. Mas, sim, foi muito divertido trabalhar em uma língua diferente.

Fiquei curiosa você tem alguns nomes favoritos?

Chris: Isso é difícil… Eu amo o Marcos Valle, tipo desde a fase “garoto bonito” ali na Bossa Nova, aí tem uns quatro álbuns em sequência ali no começo dos anos 1970 que para mim são alguns dos melhores álbuns da história. Eu amo a fase boogie-funk-disco dele. Amo o João Donato, especialmente o Quem é Quem (1973), esse álbum é maravilhoso, são escolhas de arranjos e de escrita muito interessantes. É jazzy mas também enraizado em melodias brasileiras. Eu sempre volto neles, mas claro que amo Gilberto Gil, Caetano Veloso, Rita Lee e todo esse universo mais conhecido.

E Chris você tem boas memórias de sua passagem pelo Brasil em 2013? Lembro muito desse show, até que você estava de boné no show de São Paulo.

Chris: Eu estava de boné? (risos). Acho que estava meio na energia de turista. Lembro de estar tão animado por estar aí, a energia do pessoal era muito boa. Eu queria que a gente tivesse tido mais tempo para poder passear, mas lembro que o público era incrível. Acho que estava chovendo em São Paulo e não pude passear pela cidade. Mas no Rio foi muito legal a gente tinha um amigo que nos mostrou as coisas, é o Gorky (o produtor Rodrigo Gorky), sabe? Ele mostrou lugares para gente e fomos em uma loja de instrumentos que comprei meu primeiro tamborim brasileiro, tentei aprender umas técnicas, mas era difícil (risos). Eu amei que o Gorky me deu um pen drive cheio de álbuns de música brasileira menos conhecida e isso abriu um novo espaço para conhecer mais sobre a música de vocês.

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