O espetáculo Vermelho Wonder

Na COVER STORY, Ivana Wonder e Márcio Vermelho falam sobre os motivos para seguir fazendo arte no Brasil, dão sugestões de como escapar da vida automática e compartilham as inspirações que promovem a união arrebatadora entre música, moda e performance

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Fotos: Lucas Sant’Ana/Monkeybuzz (feitas por videoconferência)

De um lado, a voz marcante de Ivana Wonder, o alter ego de Víctor Ivanon, que cantava desde muito pequeno no coral do colégio de Sertãozinho, interior de São Paulo. Do outro, referências dos anos 1980 e o sintetizador de Márcio Vermelho, produtor nascido em Araraquara que, além de atuar em projetos como Sphynx (ao lado de Pedro Zopelar), é uma das cabeças da ODD, festa conhecida em São Paulo pela cautelosa e atenta escolha de atrações – que ainda se estende no programa ODDCast. Vermelho Wonder é fruto desse encontro.

Enquanto Ivana performava na ODD, Vermelho já tocava sua empreitada e foi lá que tudo aconteceu. O produtor descobriu a voz única de Ivana em um vídeo de Facebook e, então, marcou uma sessão descompromissada – o primeiro passo para essa união simbiótica e arrebatadora. “Fizemos algumas audições das produções que estava fazendo na época e, depois de algumas horas, já tínhamos a nossa primeira música gravada. A partir daí, a parceria foi fluindo naturalmente”, conta Vermelho.

A construção da sonoridade do duo no EP O Corpo vem de referências oitentistas: das baterias aos sintetizadores, do vocal que navega pela dramaticidade e o deboche. Tudo colado por influências de Synth Pop, New Wave e Italo Disco. “Nos deixamos ser tocados por tudo o que nos emociona e inspira de alguma forma. Dois artistas que ouvimos muito nos nossos primeiros encontros foram Lena Platonos e Robert Görl”.

Nas performances ao vivo, enquanto Vermelho mantêm a pista em sincronia com seus beats, vem a grande voz e a personalidade de Ivana. Um casamento perfeito, usufruindo de um mecanismo de ampliação. Não é um set, não é um show. É tudo isso e mais. Criar um universo único, enaltecer o poder da comunicação visual e a emoção de produzir o agora: é isso que faz Vermelho Wonder acontecer com tanto brio, originalidade e uma energia subversiva inerente.

Por que fazer música? Qual é o motivo principal que guia a trajetória de vocês?

Márcio Vermelho: Acredito que música é a maior forma de arte que existe. É algo mágico e poderoso, que alcança todas as pessoas de formas e intensidades diferentes. Fazemos músicas porque amamos. É uma forma de expressão única que vai além do simples prazer sensorial.

Ivana Wonder: Por que não fazer música? Eis o nosso motivo e guia: MÚSICA! A expressão máxima e sagrada do sentimento. Obviamente, vamos balizando a nossos desejos e ambições com o que produzimos, mas o nosso trabalho parte de uma premissa muito natural: de produzir o que quisermos, quando quisermos, sem peso, sem cobrança exagerada. Isso torna leve e sincera a nossa produção musical.

Vocês trabalham com muita experimentação em performance nos shows. Como se dá a conexão entre arte x moda x música para vocês? O que aparece primeiro no processo criativo?

MV: Sempre partimos da composição musical, letras, arranjos, etc. Para cada música, criamos um universo próprio, uma narrativa imagética que é interpretada pela voz e performance da Ivana no palco. O conceito visual dos nossos looks e como nos expressamos através da moda em nossos shows são responsáveis pela Ivana. Para cada show, pensamos em algo diferente e convidamos estilistas que admiramos.

IW: De forma muito cotidiana, a forma como me visto representa muito de como estou me sentindo, o que passa pela minha cabeça e o que quero falar pra pessoas. O poder da moda, para mim, consiste nessa comunicação visual. Com certeza isso se liga a música, pois se soma com a performance vocal e as melodias criando um espetáculo. A junção desses diversos fatores cria camadas, dá profundidade de significância ao nosso trabalho.

“Tudo que não se critica, tudo que não se questiona, pode se tornar nocivo em determinado momento.”

A faixa “Espetáculos Extraordinários” fala sobre o medo. Qual é o seu? É fundamental encarar e ver de perto?

Medo é algo inerente a qualquer ser, somos movidos por ele. Medo traz à tona nosso maior (ou pior) potencial, ele nos coloca frente a um abismo onde a decisão pode ser fatal, e nossa existência nesse plano é o fato de estarmos no limite da morte a cada segundo. Com a pandemia obviamente essa fronteira se estreita e sentimos a respiração quente do medo em nossa nuca. Acredito que primeiro nada é fundamental, devemos encarar e ver de perto, sim, em algum momento em que nos parece plausível, caso contrário quem quiser se alienar e viver num mundo fantástico, viva!

Como tem sido a rotina de vocês durante a quarentena?

MV: Tenho mantido uma rotina rígida de trabalho em casa, passando o maior tempo que posso no home estúdio, produzindo músicas, gravando sets, participando de lives, produzindo vídeos e colaborando com o programa de rádio Interzone, que faço com o Mecatrônico.

IW: Eu sou designer e trabalho durante o dia em casa. Adoro a vida caseira, então tem sido um momento de intensa reflexão e análise do todo. Minhas noites se resumem a criar, compor, me exercitar e tomar garrafas e garrafas de vinho nos fins de semana.

“O Corpo” nasce da evidente depreciação da matéria “corpo”. Qual foi a coisa mais importante que vocês aprenderam a partir das incertezas que pairam sobre nós?

Não é de fato uma depreciação, é mais uma epifania fatalística da fragilidade e inconsistência desse aglomerado de matéria no qual habitamos e de como ele se dobra aos acontecimentos externos “…abandonado, deformado, pelos acasos”. Sobre as incertezas do mundo: não é como se o mundo já tivesse sido um cenário de panfleto de testemunhas de Jeová. Ele sempre foi incerto e cruel, mas nós, enquanto humanos, não aceitamos nos subjugar às ordens e ciclos da natureza, queremos dominá-la e apenas colhemos as consequências das nossas atitudes descabidas. 

O que mais temos aprendido, ou deveríamos aproveitar esse momento para tal, é que precisamos rever nossas lógicas, nossas relações de consumo, material, cultural, político, amoroso, etc. E mais ainda precisamos estudar, conhecer a história que nos trouxe até esse abismo, conhecer os fatos, os tiranos, os sistemas que já foram discutidos e/ou implantados no passado e o que, e como, podemos desmantelar a nossa própria destruição. Não existe forma de projetar futuro sem análise dos sucessos e fracassos do passado. A educação é parte fundamental da construção de um possível século XXII.

Qual a principal inspiração da faixa “Automata”?

Uma definição de automata é a seguinte: “Máquina que, com aparência de uma pessoa ou animal, imita os movimentos. [Figurado] Pessoa que não pensa nem age por si mesma, que tem comportamentos automáticos”. A principal veia dessa música vem desse cenário onde nós humanos criamos máquinas (autômatos) que nos copiam, que nos imitam. Mas de certo ponto vista nós somos autômatos de uma sociedade que nos deu funções muito bem estabelecidas e regras muito bem impostas introjetadas na nossa criação enquanto ser pertencente da sociedade ocidental.

A vida automática, quadrada, pode nos levar ao “fim”? Como escapar dessa dinâmica tão presente na vida capitalista?

Tudo que não se critica, tudo que não se questiona, pode se tornar nocivo em determinado momento. Como escapar não sabemos e quem tiver a resposta está mentindo! Precisaríamos ter uma distância muito grande da nossa existência para fazer essa análise cirúrgica sobre tal. Mas voltando a nossa pífia existência e nossos poderes limitados de consciência, acredito ser importante questionar, criticar suas escolhas, analisar suas vivências, se colocar em situações que fogem da sua órbita. Acumular conhecimentos e experiências são fatores essenciais para tentar “escapar” dessa dinâmica nefasta.

Qual foi a noite mais inesquecível de Vermelho Wonder? Por quê? Show no Teatro Oficina, em 2018. Toda a história e estrutura do Oficina elevou a nossa apresentação a um nível de emoção único.

“Espelho” traz uma distância que se faz sentir de perto. Como foi o processo de composição e produção?

IW: Basicamente como todas as nossas outras composições, o Vermelho me mostra alguma base ainda crua que ele está desenvolvendo eu ouço e tento entrar no mundo daquela melodia, na história que aqueles sons querem me contar.

A melancolia e a solidão [“Espelho”] são sentimentos que nos tomam conta nos dias de hoje. Como podemos nos encarar diariamente e transformar esse sentimento paradoxal em algo positivo?

IW: Não encaro a melancolia com algo negativo, já a solidão sim, por isso prefiro a palavra solitude – A GLÓRIA DE ESTAR SOZINHO. O prazer de apreciar sua existência solitária. Encontrar-se enquanto pessoa ímpar, permitir que o tempo, o espaço e o silêncio se façam úteis. É uma tarefa deveras difícil se encarar na solitude, não nos ensinaram a ser sozinho, é um processo eterno de auto-conhecimento, auto-valorização.

Suas produções e composições mostram uma força e resistência nítida. Como é lidar com esse embate entre sensibilidade X força, resiliência X desespero?

A sensibilidade não é fraca e nunca foi, nos ensinaram a ter posturas rígidas e firmes, mas somos movidos pela emoção e pela razão, ao mesmo tempo. É impossível dissociar essas duas forças. Esse choque do que aprendemos e como nos sentimos cria esses desespero de não saber lidar com as inconstâncias do mundo e da mente. É fundamental encontrar o equilíbrio, não acredito ser frutífero isolar as variantes.

Como é viver de música e arte em um país com uma história política tão conturbada e que elegeu o Bolsonaro?

É desafiador. Além do contexto dramático que estamos vivendo por conta da pandemia, convivemos com a tristeza em que a cultura sofre um desmonte radical durante esse governo asqueroso. Por outro lado, temos o estímulo de criar ainda mais e potencializar o poder transformador da arte como expressão social, política e humana. 

Produtos culturais marcantes que vocês consumiram durante a quarentena. Livros, discos, filmes, séries…

MV:

Disco: Michele Mercure – Beside Herself

Livro: Warchavchik. Fraturas da Vanguarda

Série: Counterpart

Filme: Mandy

IW:

Livro:  Devassos no Paraíso – João Silverio Trevisan, A fúria – Silvina Ocampo

Série: The Deuce 

Série Documental: Guerras no Brasil

Documentário: Meu amigo Claudia

“Vamos lançar um novo EP, ‘Criptogramas’, no próximo mês pelo selo In Their Feelings, com versões original e remixes do Zopelar. Nosso primeiro álbum está a caminho. Vai ser lançado, provavelmente, no último trimestre do ano.”

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