O estranho caso de Eduardo Barretto

DJ virtuoso, colecionador de discos e produtor, EB junta forças com o baixista Nenê Vianna no disco autoral Gurupá

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Fotos: Victor Silva / Ilustrações: Marcio Natel e Ze Vessoni

Admirador de Kaytranada e inspirado pelo incomparável legado de J Dilla, Eduardo Barretto é um DJ que tem chamado a atenção tanto do público de Hip Hop quanto de amantes de música brasileira, Soul, Jazz, Funk e seja lá o que ele encaixar com precisão entre os rabiscos nos vinis. Em sua conta do Mixcloud, encontramos mixtapes temáticas, com uma seleção minuciosamente escolhida, cheia de scratchs e viradas saborosas. Curiosamente, são sets longos e muito dinâmicos, ou seja, alguns deles vão te tomar mais de 1 hora, mas tudo bem, porque você nem vai perceber o tempo passar. O set mais curto do perfil de DJ EB é uma mixtape de Elis Regina com seus breves 18 minutinhos e, caso você ainda não tenha ouvido, recomendo que o faça agora. Além de sets e mixtapes disponíveis na web, o talento de EB pode ser conferido ao vivo por aí: já há uns bons anos, ele é figura requisitadíssima pelos bailes de Rap, Soul e brasilidades espalhados pelo país – chegando ao palco do Coala Festival e à abertura do show de Arthur Verocai & BADBADNOTGOOD, organizado pelo Monkeybuzz no ano passado. Entre uma pista e outra, um show e outro, EB também é conhecido por seus sets especiais tocados inteiramente em compactos.

E a técnica se harmoniza à paixão pelo garimpo musical. Dentre os temas de EB, estão mixtapes de trilhas sonoras do Blaxploitation, tributos a J Dilla (com o maravilhoso nome I love Donuts) e Tim Maia, um mix de Rap Old School (de 1979 a 1991) e um medley da Erykah Badu. Eduardo começou a tocar com 14 anos de idade e foi o início precoce (e a busca por referências da velha guarda) que inspirou o nome de sua mais nova investida. Uma vez consolidada a ideia de viver de música, ele se pôs a produzir. O encantamento com o Hip Hop impulsionou a curiosidade por “esse negócio de cortar sample, pesquisar música antiga que ninguém conhece, achar um trecho daquela música, aí começar a pesquisar os sons que a galera sampleou” e o resto é história.

No ano passado, EB e o baixista de Jazz (e também produtor musical) Nenê Vianna engataram o projeto Estranho Caso, que já rendeu o ótimo Gurupá, disco batizado em homenagem à rua onde ambos moram, em São Paulo. A faixa-título entrou para uma compilação do célebre DJ Hum, intitulada Jazzy Beats Volume 1, cujo vinil eles orgulhosamente me mostraram quando conversamos sobre o projeto, planos e, obviamente, música.

O que vocês têm escutado recentemente?

Nenê Vianna: Rap antigo, década de 90 até uns 2000 e pouco. Cara, sempre escuto aquele Yancey Boys, que é o J Dilla e o irmão dele. Madlib e Freddie Gibbs, esse do Pete Rock que eu não sei o nome…

EB: Soul Survivor e muito A Tribe Called Quest e De La Soul. Estou fazendo uma mixtape do movimento que chama Native Tongues, então ultimamente é só De La Soul, Jungle Brothers, Queen Latifah, A Tribe. Mas também estou nessa lista aí [do Nenê]. J Dilla está sempre rolando, Madlib, Pete Rock, Kev Brown –de Hip Hop, né? Tem outras coisas também: música brasileira, Jazz pra caramba…

EB, me explica por que você toca com compactos? Quais são os prós e contras, por exemplo?

EB: Puts, eu sempre gostei de comprar disco, muito pelo lance de DJs que eu vi tocando e aprendi, tipo o Nuts. Sempre curti essa parada de ser do Rap, de fazer scratch, caras e bocas, tocar com o cotovelo, mas ele gostava de música brasileira e sempre pesquisou muito. Música brasileira sempre foi uma coisa que eu gostei, aí essa parada de vinil: comecei a crescer como DJ, queria ter meus discos.

Aí o compacto vem rolando uma onda já. Faz uns anos que lá fora e aqui no Brasil está rolando uma onda de compacto, muito por ser uma coisa fácil de levar pra tocar, tem música que só tem no compacto… Saiu um LP, mas a versão do compacto é mais livre, mais solta, porque era um teste da gravadora. Então tem muita música no compacto que é muito foda e não tem no LP. Tem artista que não lançou LP, mas tem 5 compactos que são fodas. Então tem muita música, tanto brasileira quanto gringa, que o compactozinho é demais.

Há uns 4 ou 5 anos, eu e DJ Sleep estávamos conversando e trocando ideia de disco, decidimos juntar um projeto, eu e ele, só de compacto. Pegando uma referência lá do Cut Chemist e do DJ Shadow, que fizeram uma mixtape nos anos 2000, que é só eles tocando compacto de música do mundo inteiro. Nessa influência, a gente fez e hoje só toco compacto.

Vamos lá, beats que vocês queriam ter feito.

EB: Só vou lembrar do J Dilla, né, muito foda…o “Runnin’” [do Pharcyde], com sample de música brasileira. Você fica de cara. O cara lá de Detroit, molecão, jovem, já se interessou por um disco de um saxofonista de Jazz com um guitarrista de música brasileira e no meio do som, lá nos 3 minutos e cacetada ele pegou um negócio…isso que é chocante. Você fica [pensando]: pô, preciso conhecer mais de música. Eu conheci esse disco através do J Dilla, sendo brasileiro que gosta de Bossa Nova, e foi o Rap que me mostrou esse disco.

N: Pete Rock, chama “Mind Blowin’”.

Como surgiu o Estranho Caso?

EB: Eu queria produzir, ter minha coisa própria. Meus amigos ficaram brincando com o negócio do Benjamin Button, que é a criança que já nasce velha e vai ficando nova, eles falaram que eu era isso aí: criança que já gostava de coisa velha. Aí eles erraram o nome, é O Curioso Caso de Benjamin Button, eles falaram O Estranho Caso. “Ah, você é o Estranho Caso”. Nessa mesma época, o Nenê tinha uma banda que fez um som com eles – aí o Gus, que é o vocalista, falou: você precisa conhecer o Nenê e vice-versa, aí a gente se conheceu.

Ele toca vários instrumentos e gosta de Jazz e de Rap – às vezes é difícil, porque você vai conhecer um músico e ele não conhece o J Dilla, não tem interesse em se aprofundar nesse lado. Ele já conhecia. Foi nessa época e eu pensei que tinha a ver, a gente é estranho: um instrumentista de Jazz, um DJ de Hip Hop, coisa que não é tão comum, mas tem tudo a ver. Aí a gente teve a oportunidade de morar junto e foi, rolou.

“Sem música não dá”

Quando perguntei o que música significa para eles, essa foi a resposta de Nenê quase de pronto. EB riu e reforçou: sem música não dá. Eduardo completa dizendo que música é uma forma de expressão. E, de fato, música é uma linguagem e, especialmente no Hip Hop, também é resgate, reinvenção, metalinguagem e referência. A partir do garimpo por música brasileira, seja para escutar, tocar ou conhecer, Eduardo e a DJ Mari G iniciaram um projeto chamado Comunicação Nacional. Consiste em um blog, no qual eles digitalizam a capa de discos que possuem, disponibilizam as faixas para download e tecem uma resenha rápida. “Foi mais nessa necessidade, de não conseguir achar as músicas. Caraca, você acha o disco de um músico japonês de 1900 e bolinha e não acha um Martinho da Vila para escutar, para baixar, essas coisas fáceis”, diz.

Me fala mais dessa experiência de construção de Gurupá. Quanto tempo isso levou?

N: Puts, anos. Foi na outra casa que a gente morava. Quando eu voltei do Rio Grande do Sul, há uns 5 ou 6 anos. A gente morava em um apê na Pompeia, começou lá e chegou aqui com 3 beats, acho. Nesse meio tempo, estragou computador, a gente ficou sem lugar pra nada, sem fazer nada, quando a gente veio para cá arrumamos tudo e falamos “Vamo terminar essa porra”. Ainda durou um tempinho, um ano e pouco.

EB: É porque, querendo ou não, a gente é muito enrolado. Esse negócio de fazer um milhão de coisas, tocando sei vezes por semana… Mas acho que de produção de disco foram uns 6 meses, ainda demorou mais um ano para finalizar conteúdo visual, capa, tudo isso.

N: Mas a gente começou o álbum mesmo há 6 anos. Porque a primeira ideia era isso: a gente ia fazer um disco só com sample do Hermeto Pascoal. Só que a gente fez 3 beats e achou outros samples, de outros caras e decidimos abrir. A gente não sabe se um dia vai sair a do Hermeto ou não.

Caraca, você acha o disco de um músico japonês de 1900 e bolinha e não acha um Martinho da Vila para escutar, para baixar

 

Inclusive, qual é o sample que vocês mais gostam do disco?

N: Ah, “Gurupá”. É foda, bate bonito.

EB: “Salve WG” é legal também. Acho que as duas, “Gurupá” e “Salve WG”.

“A música não vem pronta”

Pensando nos 5 anos de experiência com produção musical, os quais também representaram 5 anos em uma rotina no estúdio, Eduardo sentencia e Nenê assina embaixo: música não vem pronta. A magia para eles está na transformação e nada se compara ao êxtase do trabalho final – da captação de um som cru à inserção meticulosa de elementos até que a mixagem una tudo em uma faixa só. E no Rap a regra é cristalina: menos é mais. O disco não conta com muitos solos extravagantes ou arranjos ultra complexos, mas ganha o ouvinte pela composição criativa entre o orgânico e digital, além dos excelentes samples.

E apesar do belo disco disponível no YouTube e nos serviços de streaming, Nenê insiste que o brilho máximo de Gurupá está no show. À época do lançamento, foram feitos 4 shows em uma formação de sexteto: Nenê no baixo e sintetizador, EB com os vinis dos samples, guitarra, saxofone, trompete e bateria. Eles me garantiram que, apesar da agenda movimentadíssima de cada um, até o final do ano vai rolar mais um show. E, segundo eles, Gurupá vai virar um compacto: de um lado um som que não entrou para o disco e, no Lado B, a faixa-título vai ganhar outra forma, uma vez que eles pretendem convidar um MC para rimar em cima da versão original.

O álbum é dinâmico e ordenado, lembrando a continuidade harmônica dos sets de EB. Nenê diz que a dupla demorou quase três meses para definir a disposição das músicas, a fim de proporcionar a melhor experiência. Perguntavam para os amigos, enviavam versões e ouviram (muito). Esse cuidado alinhado aos surpreendentes samples é o que dá o tom do caldeirão de referências do Estranho Caso: o disco cita “Poema”, canção de Renato Guimarães composta por Fernando Dias em 1962; traz três beats produzidos a partir da obra de Hermeto Pascoal; inclui o verso de “Relax and Take Notes”, de The Notorious B.I.G (na faixa final, completamente desconstruído); e por aí vai. A partir da faixa “Sometimes Jazz”, descobri milhares de regravações de “Motherless Child”, inclusive uma belíssima de Louis Armstrong. Assim, muito mais do que olhando para uma ideia surrealista de fama e de popularidade comercial que o álbum poderia ter, Gurupá, Estranho Caso, Nenê Vianna e EB olham para o futuro e o passado, enquanto escrevem seus nomes no presente.

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ARTISTA: Estranho Caso