O Herói de “Guava Island”

Em seu mais recente trabalho, Donald Glover exalta a si mesmo ao antecipar algumas canções inéditas através de uma fábula sobre o valor da liberdade

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Há pouco mais de dois anos, quando Childish Gambino lançou “Awaken, My Love!”,  escrevi que Donald Glover parece encarar “sua carreira de músico da mesma forma que a de ator”. Isso porque, a cada momento de sua trajetória, Glover incorpora personagens para cantar, adaptando o seu estilo musical para ressonar de acordo com suas referências. Mais do que isso, talvez: o fato do título do seu álbum estar entre aspas denota que o foco do artista é, de fato, a citação.

Agora, com o lançamento do filme Guava Island, essa lógica parece não apenas confirmada, como sublinhada pelo modo como Glover se posiciona no mundo. Se “Awaken, My Love!” fazia referência ao Funk de bandas como Parliament-Funkadelic, agora o artista expande a mimese para além de um estilo musical e evoca o estilo de vida de seus ídolos.

Em Guava Island, Glover assume o papel de músico rebelde, habitante de uma ilha tropical que emana a energia ensolarada do Reggae e da Bossa Nova. O filme conta a história de uma região fictícia (a trama foi filmada em Cuba, mas a mitologia parece alinhada à todo o imaginário da geografia vizinha, abarcando também a Jamaica, o Haiti ou a República Dominicana) controlada por um chefe de estado totalitário, que explora os habitantes da ilha em suas fábricas de produção e exportação de seda.

Glover interpreta Deni Maroon, um artista carismático, amado pela comunidade, e que pretende organizar um festival de música. A antagonismo de Guava Island acontece quando o líder da ilha tenta convencer Maroon a desistir de sua ideia, já que isso implica em um dia de folga forçada para os trabalhadores.

Com uma energia que evoca Jimmy Cliff em The Harder They Come, ou Prince em Purple Rain, Glover, em parceria com Hiro Murai (com quem também escreve o seriado Atlanta) faz de Guava Island um subterfúgio para exibir suas mais recentes canções. Há uma visão nostálgica, romântica e até mesmo ingênua no modo como a trama é construída. O que dita o tom do filme é sua introdução, na qual assistimos a uma animação, que conta a mitologia da ilha em forma de contos de fadas da Disney. Quem faz a narração da história é Rihanna, que interpreta a jovial Kofi.

No entanto, destoando do contexto criado por si mesmo, Glover assume uma persona sarcástica, como se acima do universo que ele mesmo construiu. Se algumas faixas fluem com leveza sob o céu rosado da ilha paradisíaca, já outras – como a encenação recontextualizada do videoclipe de This Is America – parecem encaixadas à força em um contexto estrangeiro. Há em Guava Island uma espécie de dissonância que transita entre a ingenuidade e a ironia, refletindo a falta de definição do próprio filme, que se ajusta entre o curta-metragem de um ator e o videoclipe extendido de um músico. Até mesmo Rihanna parece subtraída de sua própria importância, atuando no filme apenas como par romântico de Glover e servindo de audiência particular para suas canções.

Guava Island é um micro-conto de fadas para adultos. Possui, em seu tamanho reduzido, a energia concentrada de uma rápida jornada do herói que preza a livre expressão e a celebração da vida acima de tudo e apesar dos pesares. Embora aparentemente descompassado em relação a outros trabalhos de maior potência do artista, Guava Island serve bem como o refúgio paradisíaco para tempos de crise que ele próprio representa.

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Autor:

Discreto e silencioso. Falo pouco, ouço bem, porém.