O início do Blondie e o fim dos anos 1970

O embrião de uma banda reverenciada por novos artistas e vivíssima na cultura pop atual – e que, há mais de 40 anos, surgiu com a missão de “trazer a dança de volta ao Rock”

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Fotos: Richard Creamer

Poucas bandas possuem, tantos anos depois, o mesmo status cult do Blondie. Fundada na metade da década de 1970 pelos parceiros criativos e ex-namorados Debbie Harry e Chris Stein, o grupo americano conta com 11 discos, além de uma porção de registros ao vivos e gravações especiais. Inclusive, prometeram ainda neste ano: relançamento especial com material inédito da época entre 1974-1982, e um curta, acompanhado de disco ao vivo, Blondie: Vivir En La Habana, gravado em 2019, em Cuba. A estreia acontecerá ainda neste mês, no festival italiano de documentários musicais, SEEYOUSOUND, que vai de 19 a 25 de fevereiro.

Haveria também uma turnê no Reino Unido, ao lado do Garbage, no segundo semestre, mas que deve ficar para depois da pandemia. Atualmente, trabalham em novas composições com o produtor John Congleton, nome por trás do último disco, Pollinator (2017), que conta com colaborações de nomes como Dev Hynes, Charli XCX, Nick Valensi, entre outros. Sem dúvidas, Blondie é referência há pelo menos 40 anos e se mantém presente no coração da nova geração.

Somente em 2020, o hit “Heart of Glass”, de Parallel Lines (1978), apareceu em duas ocasiões: relançada no novo disco de Miley Cyrus, Plastic Hearts (2020), e em um episódio do remake serial de Alta Fidelidade, com Zoe Kravitz. A acolhida entre novos (e antenados) públicos também faz parte de um movimento dos próprios artistas: nos anos anteriores, a dupla fundadora revisitou os arquivos para – cada um à sua maneira – falar sobre o passado.

O guitarrista lançou dois fotolivros: Point of View: Me, New York City, and the Punk Scene (2018) e Me, Blondie, and the Advent of Punk (2014). Já a vocalista, ao lado da jornalista Sylvie Simmons – autora de I’m Your Man (2013), biografia do Leonard Cohen –, apresentou Face It (2019), o seu livro de memórias. Como conta na obra, a decisão de voltar à atividade no final da década de 1990, após 15 anos sem novidades do Blondie, partiu de Chris, que via como o grupo continuava sendo ressignificado na música e na cultura pop.

Antes de tudo

O embrião do que seria o Blondie estava sendo gestado alguns anos antes do debut homônimo em 1976. A cantora pulou entre diversos freelas antes de investir na carreira artística. Em Face It, Harry lembra da primeira vez que viu Chris – em um show da banda Magic Tramps, pioneira do Glam Rock. O músico era baixista e roadie do grupo encabeçado por pelo artista Eric Emerson (1945-1975), colaborador de Andy Warhol. Na época, a cantora dava caronas para o New York Dolls porque, acima de tudo, admirava o grupo. “Percebo que o que me atraiu tanto nos shows foi o fato de eu querer ser exatamente como eles. Na verdade, queria ser eles. Só não sabia como fazer isso acontecer. Naquele ponto, não havia nenhuma mulher fazendo o que eu queria. Claro, elas existiam – Ruby Reyner, Cherry Vanilla e Patti Smith (na época, só poesia)”, conta no livro.

Aos poucos, foi sendo absorvida pelo circuito, então não demorou muito para Harry entrar em um projeto. Ela logo se tornou uma das vocalistas do trio Stillettoes, formado ao lado de Elda Gentille e Amanda Jones, uma mistura entre R&B e Glitter Rock. A banda de apoio – toda masculina – era itinerante, e chegou a contar com Marky Ramone, Yung Blood, do Magic Tramps, e o próprio Chris Stein. Como banda, percorriam desde bares drags a até mesmo CBGB e Max’s Kansas City.

Foi em um encontro despretensioso que eles começaram a parceria que já dura quase cinco décadas. Ao saírem da banda, formaram Angel and the Snake, que logo se tornaria Blondie and the banzai babies, e depois teria o nome encurtado. “Uma leitura Rock das músicas Disco, minha ideia era trazer a dança de volta ao Rock. Um som retrô com Glitter Glam e Punk”, Harry escreve no livro.

A época também marcava o surgimento da cena musical gay e trans, que somada ao circuito Punk, foi a mola propulsora para a cantora subir aos palcos: “Criei a personagem Blondie pensando em androginia. Tinha muitas amigas drags, eu estava brincando com a ideia de ser uma mulher muito feminina enquanto liderava uma banda de rock masculina, em um jogo altamente machista”.

Os discos

Além das referências contemporâneas, a frontwoman era muito influenciada pelo grupo feminino The Shangri-Las e pelo visual de Marilyn Monroe Não é estranho que a primeira faixa que a dupla escreveu em conjunto se chame “Platinum Blonde, uma ode às divas do cinema – “Marilyn e Jeane (Carmen), Jayne (Mansfield), Mae (West) e Marlene (Dietrich)/ Elas se divertiam”.

A primeira tour de verdade aconteceu no verão de 1977, quando o grupo viajou pelos Estados Unidos como banda de abertura de Iggy Pop. Um detalhe: David Bowie acompanhou o frontman como tecladista em todas as 20 datas. Na época, a dupla vivia a fase do The Idiot (1977), primeiro disco solo do vocalista do The Stooges. A partir daí, o Blondie entraria em um ciclo de discos e shows, que só veria fim com a pausa da banda, em 1982.

Entre o primeiro e o segundo disco, Plastic Letters (1978), o grupo trocou de gravadora: deixaram a americana Private Stock, para entrar no casting da britânica Chrysalis Records. O trabalho conta com faixas como a divertida “Denis”, uma releitura de “Denise”, do grupo americano Randy and the Rainbows. O arremate foi tirar a última letra e dar um toque francês ao refrão. Este foi o primeiro trabalho a chegar ao topo das paradas, levando o disco ao Top 10 britânico.

A relação de Harry com os executivos das gravadoras nunca foi das mais fáceis. Na divulgação do primeiro trabalho, foi usada uma foto sua sem seu consentimento, porém, na segunda ocasião, mantiveram o erro: “A nossa nova gravadora não colocou os meus mamilos em destaque, mas eles fizeram uma oferta generosa com meu nome: ‘Debbie Harry will undo you’ (vai te despir)”.

Apenas quatro meses após o lançamento do segundo disco, entraram em estúdio para trabalhar no terceiro álbum, Parallel Lines (1978). Desta vez, gravaram no Record Plant em Los Angeles, com o produtor australiano Mike Chapman, o responsável por ajudar a moldar o som de bandas como Sweet e Suzi Quatro. A princípio, a gravadora não ficou feliz com o resultado, mas o registro se provou atemporal e chegou ao topo das paradas. Afinal conta com algumas das maiores músicas da banda – “One Way or Another”, “Picture This”, “Sunday Girl”, “Hanging on The Telephone” e a própria “Heart Of Glass”.

Antes do estouro, “Heart Of Glass” existiu com nomes diferentes – “Once I Had a Love” e “The Disco Song” –, mas só chegou ao formato ideal após passar pelas mãos de Chapman. Em entrevista ao site Ultimate Classic Rock em 2019, o produtor explica: “Tinha uma vibe reggae, também disse para eles que o nome era muito longo. Sabia que a música era um hit óbvio com o arranjo certo. Passamos o dia ensaiando até decidirmos que teria uma pitada de Donna Summer, algo que alegrou Debbie, ela amava a Donna”.

Mais de olho em Kraftwerk, do que em Giorgio Moroder, a dupla encontrou o equilíbrio que desejava por meio de um sintetizador e uma drum machine Roland. Em entrevista ao jornal The Guardian em 2013, Stein lembra do processo de gravação: “Isso era um grande lance na época (sincronizar o synth e a drum machine). Era feito manualmente, com cada nota e beat tocado ao vivo, não são loops”. Além de ser mais difícil de gravar, a faixa ainda despertou a ira dos roqueiros, que não entendiam a música dançante.

Segundo Debbie conta em Face It, eles não deram muita bola para os haters: “Os críticos de Rock odiavam Disco, a revista Punk escreveu um manifesto contra o gênero e as pessoas que gostavam. A música enfureceu os críticos, mas como dadaístas que somos, nos fez Punk em frente ao Punk”. Entre os apoiadores, Parallel Lines foi longe, garantindo mais espaço na mídia e uma rotina agitada de shows. Foi nesta época que tanto Debbie, quanto Chris, começaram a receber convites para filmes e projetos especiais – como o programa TV Party ou a trilha sonora do filme de Hip Hop, Wild Style (1982).

Logo em 1979, eles entraram em estúdio de novo com Chapman para gravar Eat to The Beat, que demorou três meses para ficar pronto. O australiano também seria colaborador nos discos seguintes – Autoamerican (1980) e The Hunter (1982). Entretanto, isso não queria dizer que foi fácil, a vocalista se sentia pressionada e não sabia qual caminho seguir. Segundo a própria, essa é a razão porque algumas músicas são mais minimalistas neste registro, como “Atomic”.

Este é o primeiro trabalho com apenas composições originais, além de ser o mais “Rock”, no sentido de externalizar a pressão que rolava nos bastidores. Foi também o primeiro disco em que o grupo tinha a concepção de que possuíam um público cativo, mas sedento por novidades. O resultado passa por Funk Reggae, Disco, entre outras misturas. Faixas como “Union City Blue” e “Dreaming” também foram parar no topo das mais tocadas. Em Londres, foram consagrados como ídolos, algo que Debbie chama de “Blondiemania”. Ainda naquele ano, quando estavam no Reino Unido, um programa da ABC foi acompanhar a turnê para uma matéria especial focada no New Wave e na ascensão do Blondie. Eles não sabiam que estavam só começando uma vida sob os olhares dos holofotes.

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