O Jubileu de Ouro de Caetano e Gil

Dupla de compositores e cantores baianos faz cinquenta anos de carreira

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Tive a sorte de ver uma das três apresentações da turnê Dois Amigos, Um Século de Música no Circo Voador, Lapa, Rio de Janeiro, precisamente no domingo, dia 06 de dezembro. Fiz questão de enfatizar a data e a ocasião por conta do apreço pela história. Não é sempre que artistas completam essa marca no tempo e imagino que tal façanha tende a ficar virtualmente impossível à medida que formos avançando pelo século 21. Isso, no entanto, não é pessimismo, é apenas constatação das coisas mudando, talvez a dupla jamais imaginasse, ao dar os primeiros passos na música, que teria trajetória tão longa na música brasileira. Certamente, Caetano Veloso e Gilberto Gil não imaginavam que iriam tão longe, passariam por tanta coisa. As figuras dos dois senhores no palco do Circo não atesta, no entanto, qualquer dano causado pela idade. São duas mentes jovens, questionadoras, curiosas, ainda.

O que precisamos ter em mente sobre ambos é que Gil e Caetano Veloso encontraram caminhos próprios para dar suas versões da música brasileira, sempre tendo em mente que ela é algo plural, internacional, moderna. Enfrentaram muita burrice, foram combatidos por todos os lados, chamados de vendidos, exilados, escorraçados. Também foram alvo de descrédito, amargaram baixas vendas de suas obras, mas, em compensação, podem se orgulhar de assinar várias canções na trilha sonora das vidas de milhões de brasileiros, gente que cresceu em casas de classe média, não necessariamente conservadora, capaz de compreender o mundo como algo que vai além de sua porta, algo em que cabe mais gente. Gil e Caê serviram como cicerones para muitos se aventurarem em ritmos nordestinos, abraçarem o Samba carioca, dar as mãos para a Bossa Nova num por do sol em Ipanema, aplaudir Roberto Carlos num programa de auditório de domingo à tarde e, com sorte, despertar em muitos a vontade de ler, conhecer, questionar, escrever, compor, tocar.

Como testemunho vos ofereço o apartamento 401, do número 35, da rua Constante Ramos, em Copacabana. Lá foi a minha casa até os 22 anos de idade e posso confirmar que havia vários LP’s de Caetano, Gil, Gal Costa, Maria Bethânia, além de Chico Buarque, Ney Matogrosso, Fafá de Belém, trilhas de novela. Minha mãe, dona dos discos, era fã dos baianos, sabia suas canções de cor e bem cedo fui apresentado ao álbum dos Doces Bárbaros, lançado em 1976. Das canções do disco duplo, São João Xangô Menino e Esotérico, meio que vindas do passado distante para me abraçar, fizeram do calor abarrotado de gente do Circo um pedaço daquele sol da tarde entrando pela persiana na velha sala de estar, onde, minha mãe no sofá, eu no chão, brincando com algum carrinho, ouvíamos aquelas canções. Mais tarde, aos nove anos, quis começar a comprar meus próprios discos. Além das trilhas das novelas, de coletâneas de Disco Music, dois álbuns de artistas nacionais estão entre minhas primeiríssimas aquisições: Frevo Mulher, de Amelinha e Realce, magnífico disco de Gil, lançado em 1979.

Com Caetano o amor veio pouco depois. Com a massiva execução de Podres Poderes, faixa que puxava seu álbum Velô, de 1984, comecei a explorar a verve do baiano aos 13 anos. Daí fui para os primeiros trabalhos, voltei para o presente, esbarrei com Gil no mesmo ano, fazendo um dos mais sensacionais discos do Rock brasileiro dos anos 1980, Raça Humana, criminosamente esquecido nas listas dos “entendidos” em música do período e seus herdeiros hoje. É fácil entender: Caetano e Gil não são somente MPB, nem cabem apenas no Rock e, naquela época, quem ouvia o ritmo americano, “não podia” ouvir MPB. E vice versa. Já era assim na Tropicália, quando a dupla, mais um monte de gente boa, cismou de querer atualizar a música feita aqui, plugando-a no mundo, nas guitarras psicodélicas que soavam ao longe, nos Estados Unidos e na Inglaterra, preservando seus elementos identitários mais fortes, algo como o Tio Sam querendo conhecer a nossa batucada, como dizia a canção. Para isso, qualquer caretice presente constituía elemento complicador e todos sabemos: o Brasil dos anos 1960, especialmente a partir de 1964, era o lar da caretice. Não deu certo.Caetano e Gil testemunharam a mudança de direção do mundo nos anos 1980.

Surfaram na onda globalizante da década seguinte, aproveitando as benesses tecnológicas, mas também criticando a falsa democracia uniformizante que tentava se instalar. Sendo assim, para cada Pela Internet que surgia, um Haití era aventado, uma Fora da Ordem era colocada. Gravaram canções em inglês, espanhol, italiano, Gil fez as mais bem acabadas gravações de Reggae lançados no país, seja em 1979, 1981 ou em 2002, sendo que Caetano tem a marca histórica do primeiro fonograma do estilo em português, mais precisamente a introdução marota de Nine Out Of Ten, do incensado álbum Transa, lá de 1971. Falando nela, a canção também está presente no repertório da apresentação. “É muita emoção, é looping de passado e presente, amigo”, diria um improvável Galvão Bueno. Fizeram política, cantaram na ONU, venderam o primeiro milhão fazendo cover de canção brega dos anos 1970. Hoje, anos 2010, a dupla se dá ao luxo de subir ao palco com violões, evocando sua admiração primordial pela Bossa Nova. Cantam repertório de muitos anos, procedências e contextos.

Revisitam a Tropicália original, sua versão noventista, mas Gil deixa de lado seus sensacionais Refazenda e Refavela, de Realce entram apenas Super-Homem, A Canção e Toda Menina Baiana. Há um número espantoso de canções de rodinha de violão, de colégio, de Uerj, de UFF, de quem teve a sorte de crescer como testemunha de, vejamos, uns 40 desses 50 anos de carreira. Talvez a tarefa de criticar Gil e Caetano seja, à medida que o tempo passa, mais indicada para quem está ouvindo música há pouco tempo, justo para captar a modernidade permanente que eles conseguem obter apenas sendo os mesmos de sempre. Vai entender…Se alguma dessas apresentações passar perto de você, não hesite. Ou, se não passar, cate o DVD/CD que estará nas lojas para o Natal.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.