O Moderno Pop Brasil Anos 80

Muitos músicos marcaram época com um estilo popular na época; Veja nossa seleção

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Quando alguém fala em modernidade na música feita no Brasil, duas décadas surgem com destaque. Em termos estéticos e de discurso, os anos 1960, de movimentos como Jovem Guarda e Tropicália, aparecem logo à frente, como o momento em que a própria música Pop mundial surgiu, formatada pelos Beatles e contemporâneos, usando uma mídia nascente e elementos visuais. A outra década que se corresponde com noções evidentes de futuro e adaptação é de 1980, com a criação da MTV, evolução das técnicas de gravação e assimilação da música Eletrônica como ferramenta de produção musical. Claro, tudo isso já estava em curso desde o surgimento do Rock, que possibilitou uma revolução contínua no setor.

Num país como o Brasil, dono de música popular cheia de raízes e significados, mas periférico em termos de tecnologia e vinculado à lógica das gravadoras multinacionais, foi inevitável o estabelecimento de uma indústria musical, a exemplo do que havia nos Estados Unidos, na qual a mídia (rádio, jornal, TV) divulgava e viabilizava os artistas empregados das gravadoras que, por sua vez, faziam de tudo para assegurar a própria existência artística e econômica deles. Um dos fatos interessantes dos anos 1980 foi o surgimento de gravações em pé de igualdade com o que havia de mais moderno feito no exterior, com a assimilação das técnicas e modernização dos estúdios, além da própria influência exercida pelas gravações da época.

Podemos dizer, a partir de uma análise um pouco mais demorada, que as gravações Pop eram mais sintonizadas com o que havia de mais avançado e refinado na produção mundial, mais até que o nascente Rock nacional oitentista. O motivo é bem simples: o Brasil tinha uma tradição de excelentes músicos de estúdio, capazes de tocar vários ritmos, versados na noite e prontos para participar de registros em que havia demanda de saxofone, teclados, sintetizadores, baterias eletrônicas e demais instrumentos da época. As bandas de Rock, surgidas através do modelo inglês do início da década, devidamente inseridas no conceito Pós-Punk, em formações de baixo, bateria e guitarra, não apresentaram qualquer chance de comparação no quesito técnica, além de suas composições terem arranjos formatados apenas para estes instrumentos. Mesmo assim, é possível notar em alguns casos, o quanto foi importante a presença de produtores e estúdios consonantes com o que havia lá fora.

Esta lógica fez com que houvesse algo interessante na música nacional: ao lado da presença de genuínos popstars, surgidos na herança da música Pop pós-Jovem Guarda, de acento romântico e influência anglo-americana, os próprios integrantes da chamada MPB passaram a incorporar elementos tecnológicos modernos em suas gravações, levando o estilo para uma raríssima sintonia com a música Pop mundial. Abaixo segue uma lista de exemplos de popstars e artistas tradicionais da música nacional, devidamente sintonizados com as tendências estéticas mais modernas na época.

Fágner – Cartaz (1983)

Grande sucesso de Fágner, que estabelecera sua carreira através da fusão de música nordestina e pitadas de Progressiva, principalmente em canções como Revelação e Noturno. Aqui ele abraça uma versão brasileira de algo bem próximo do Tecnopop.

Ritchie – Casanova (1983)

Sucesso nacional de Ritchie, que teve seu primeiro disco, Vôo de Coração, entre os mais vendidos de 1983, graças a canções como Menina Veneno. Mesmo mais sintonizado com o Rock e o Progressivo, Ritchie conseguiu uma sonoridade moderníssima em seus discos.

Vinícius Cantuária – *Só Você (1984)

Hit nacional em 1984, colocou a carreira solo de Cantuária no mapa, ele que era egresso da Outra Banda da Terra (de Caetano Veloso) e d’O Terço.

Erasmo Carlos – Mesmo Que Seja Eu (1982)

O Tremendão foi um dos artistas mais tradicionais capazes de assimilar as novas sonoridades do início da década. Vários hits vieram de sua carreira vieram nessa época.

Roberto Carlos – Amor Perfeito (1986)

O Rei já mantinha um padrão de gravação internacional em seus discos desde o início dos anos 1970. Na década seguinte, manteve e ampliou o conceito, contrastando com o declínio em suas composições. Ainda era capaz de grandes registros, no entanto.

Gilberto Gil – Palco (1981)

Sempre moderno, Gilberto Gil vinha de um período de grande renovação/afirmação de sua música. A última etapa desse processo veio com Realce, disco de 1979. O trabalho seguinte, A Gente Precisa Ver O Luar (1981) traz essa verdadeira obra-prima de gravação Pop.

Biafra – Leão Ferido (1981)

Sim, ele mesmo. Ridicularizado por uma inteligentzia roqueira oitentista e padecendo disso até hoje, Biafra foi um dos maiores popstars do início da década de 1980 no Brasil. Seu disco Despertar (1981) traz arranjos de Lincoln Olivetti e participação de músicos como Leo Gandelman (saxofone), Robson Jorge (guitarra), Marcio Montarroys e Bidinho (trompete), entre outros.

Dalto – Muito Estranho (1982)

Grande compositor niteroiense, Dalto participou de várias bandas ao longo dos anos 1970, solidificando sua posição como artesão de canções no início da década seguinte. Co-autor de Leão Ferido (Biafra), ele teve este grande hit nacional, tema da novela global Sol de Verão.

Gonzaguinha – Lindo Lago do Amor (1984)

Espantosa rendição de Luiz Gonzaga Jr. ao formato mais Pop de canção. Versado nos ritmos regionais e canções de protesto, Gonzaguinha lançou seu disco Grávido, puxado por essa gravação de 1984 fez muito sucesso.

Chico Buarque – Brejo da Cruz (1984)

Até os mais tradicionais artistas da MPB incorporaram arranjos e climas Pop em suas gravações oitentistas. Chico fez uso de sintetizadores e baterias eletrônicas em seu disco de 1984 com grande sucesso.

Roupa Nova – Whisky A Go Go (1984)

Grandes tradutores da estética tecnológica nas gravações do período, os integrantes do Roupa Nova eram músicos de estúdio e viram de perto as mudanças se instalando. Ao mesmo tempo, compunham canções que se tornaram grandes hits nacionais.

Gal Costa e Caetano Veloso – Sorte (1985)

Acompanhada no estúdio pelo Roupa Nova, Gal Costa gravou um de seus melhores discos justamente nessa época de revisão estética. Bem Bom é uma verdadeira aula de técnica em estúdio. Essa canção, de Celso Fonseca e Ronaldo Bastos, foi o grande hit do disco.

Rita Lee – Nem Luxo Nem Lixo (1980)

Mesmo com experiência nos terrenos do Rock, Rita Lee mudou sua sonoridade para algo próximo do que se chama de AOR (Adult Oriented Rock) logo no início dos anos 80. A presença de seu marido, o guitarrista Roberto de Carvalho, contribuiu para essa reinvenção.

Caetano Veloso e Ritchie – Shy Moon (1984)

Dueto inesperado mas sintomático para um artista como Caetano, sempre desejoso de atrelar sua obra ao tempo. Aqui ele dava sua versão do Tecnopop em inglês.

Djavan – Lilás (1984)

Talvez o maior hit da carreira de Djavan, que substituiu o Samba de suas primeiras gravações por um híbrido de Blues e Jazz estilizado, eficaz e de momentos de grande beleza.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.