A trajetória de Slim Soledad passa por jornadas externas e internas, perseguindo caminhos introspectivos e no próprio espaço físico. Uma trilha prolífica e que, sobretudo, atesta seu talento e sua resiliência. Natural de Guarulhos, ela imergiu nas artes a partir da música e da dança, o que, com o tempo, a levou para as pistas de São Paulo e para a cultura vogue de palcos globais. As primeiras memórias sonoras remontam à infância, quando ouvia a rádio Antena 1 com seus pais – o pai, inclusive, gostava muito de rap e dançava break. Na sequência, veio a adolescência, época em que Slim se apaixonou pelas festas de rua. “Durante toda minha adolescência, me interessei por dança e performance através das festas de rua. Minha paixão pela música e dança se conectou ali. Depois, comecei a fazer a festa Ch3rnobyl e a tocar a partir disso. A música sempre esteve presente em várias fases da minha vida”.
Mesmo após sua mudança para Paris, onde vive nos dias de hoje, as raízes brasileiras permaneceram intactas, tanto em suas produções quanto em uma ideologia de resistência, evidenciada também pelo trabalho com o coletivo Ch3rnobyl – um símbolo de orgulho da comunidade LGBTQIA+. “Nosso trabalho é importante para criar espaços e mostrar possibilidades, mesmo vindo de periferias. O coletivo foi e ainda é muito importante para nós. Temos planos futuros e queremos dar mais atenção à plataforma que criamos em São Paulo, continuando mesmo após a migração para a Europa”. De Guarulhos para a capital francesa, Slim enxerga o espaço como peça-chave para sua produção. A atmosfera e a sociabilidade das cidades fazem parte da forma como sua criatividade se constrói. “Guarulhos era um lugar barulhento, e isso me influenciou. Paris também é barulhenta e isso se reflete na minha música, às vezes mais pesada. Essa tensão da cidade me move. Lugares calmos me influenciam de outra forma. Cada lugar me dá um pouco de referência, criando a partir das imagens que tento traduzir sonoramente”.


“Essa imagem de uma viagem super introvertida e pessoal é algo que queria compartilhar. É sobre adaptação, transformação”
Space Manual For Those Who Can not Swim, seu EP de estreia, expressa esse diálogo entre espaço interior e exterior, prestando tributo à história, à força criativa e à resiliência de artistas negros e LGBTQIA+. Em nota, ela afirma que “o projeto é baseado no desejo de fazer uma viagem ao espaço sideral, diante de um medo antigo de não saber nadar, como se tudo tivesse se extinguido, e o desejo de poder se adaptar a outra atmosfera”. O conceito do projeto aglomera influências, referências e pesquisas diversas, que se conectam com o seu próprio ímpeto artístico. “Tem uma banda chamada Drexciya, cujo EP é baseado em uma civilização no fundo do mar. Isso começou a fazer sentido na tradução de sensações imagéticas com a música. Tinha muito medo de morrer afogada por não saber nadar. Muitas pessoas tentaram me ensinar, mas sempre fico desesperada, então essa sede de viver no espaço surgiu desse medo. Se não posso nadar e vivo no mundo da lua, poderia viver no espaço. Essa imagem de uma viagem super introvertida e pessoal é algo que queria compartilhar. É sobre adaptação, transformação”, detalha.
Mesclando techno, baile funk, electro e hard trance, o EP se desenrola como uma odisseia interna-externa, que explora o potencial de adaptação diante de medos e angústias existenciais. Para além de gêneros mais característicos da música eletrônica, faixas como “T.E.T.A. Intergaláctica”, um dos destaques do repertório, trazem ainda toques de samba, mais um sintoma da confluência de sons que passa pelos ouvidos de Slim. “Gosto muito de samba e acho que todo brasileiro acaba escutando bastante. Depois que vim para a Europa, comecei a escutar mais pagode. Era algo presente na minha casa. Cresci com muito forró e conheço todas do Calypso. Além do meu trabalho musical, sou super calma e escuto muita música melancólica, darkwave… E tem muitas referências que amo, tipo tecnobrega e R&B. No meu dia a dia, essas influências me moldam musicalmente e é o que quero mostrar. Sou uma menina super eclética. Adoro um reggae, um dancehall”.

“Guarulhos era um lugar barulhento e isso me influenciou. Paris também é barulhenta e isso se reflete na minha música, às vezes mais pesada. A tensão da cidade me move”
Vale lembrar que, em junho de 2019, Slim Soledad participou da série Yearbook of Techno, aqui no Monkeybuzz. Na época, ela fazia performances na noite paulistana, mas já carregava o desejo de produzir suas próprias músicas. À época, Slim mencionou a vontade de fazer um EP visual. “Eu lembro com carinho dessa entrevista! Ainda tenho muita vontade de fazer um EP visual, mas estou esperando o tempo certo para amadurecer o trabalho e ter um suporte suficiente. Mudou muita coisa desde então. Fiquei mais madura, meu gosto musical mudou e cresci profissionalmente. Estou muito orgulhosa do quanto cresci pessoalmente e profissionalmente”.
Faixa a Faixa de Space Manual For Those Who Can not Swim
“Rising the Sky”
Tem a ver com a sensação de subida, ar, de encontro com os cosmos. Foi uma das primeiras faixas que deram sentido ao EP, um chamado para viver essa aventura.
“Lost in Moon”
Dá continuidade à missão da anterior – a sensação de estar perdido na Lua, imerso na viagem.
“Transmission”
Continua a narrativa da missão, trazendo a sensação de comunicação e necessidade de conexão durante a jornada.
“Diciendo Adiós”
É sobre a descida, dando tchau para o espaço e voltando à Terra. Usei áudios da NASA para referências espaciais, trazendo sons gravados com satélites.
“T.E.T.A. Intergaláctica”
Essa é política e bonita, com várias referências. Passou por muitos processos antes de ser finalizada. É uma faixa que mostra muito da minha criatividade, misturando texturas, hard, samba e funk. É uma das faixas de que mais me orgulho.
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