O Nó à procura do fio do tempo

Nostalgia, o caos da memória e sintetizadores oitentistas inspiram “Resquícios Cromáticos”, disco de estreia do quarteto paulistano

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Fotos: Bruno Lescher

Afinal, o que é o tempo? Uma grandeza física, uma linha que liga acontecimentos, a forma como percebemos sua própria passagem? Creio que, ao longo de 2020, começamos a nos relacionar de forma diferente com o tempo, seja o aproveitando mais ou se desgastando com sua sobra (e, às vezes, com sua falta). A verdade é que o tempo é percebido por cada um de nós de forma diferente. Nós só conseguimos experimentar a passagem do presente e o futuro é algo que ainda não é. E o passado é feito das memórias e lembranças – sempre sujeitas a reedições em nossas cabeças. O passado, portanto, também muda, ou pelo menos nossa percepção dele.

Essas discussões e percepções sobre a passagem do tempo formam a principal temática do disco de estreia do quarteto paulistano O Nó, o belo Resquícios Cromáticos. Em 10 faixas, o grupo passeia por suas lembranças de um passado recente e um período de consolidação da vida adulta – aquela época dos 20 e poucos em que a adolescência está cada vez mais para trás e, ao mesmo tempo, a vida parece estar só começando. Se a essência temática é nostálgica, a sonoridade também brinca com isso, principalmente trazendo referências aos anos 1980 e 1990, como o sophisti-pop e timbres de teclados e sintetizadores da época.

“Acredito que o disco possa ter essa característica nostálgica pois retrata um período de muitas mudanças nas nossas vidas, coisas que ficaram para trás, todo mundo ficando adulto, mas ainda se recordando das coisas que deram e não deram certo até aqui”, conta o guitarrista e vocalista Alexandre Drobac. “Ao mesmo tempo, esse olhar para o passado e toda essa nostalgia é o que nos permite notar que crescemos e que aquele momento da vida passou”.

Além da temática, o tempo é peça fundamental do processo de produção do disco. Cinco anos separam este registro de Quasar, EP de estreia do grupo, lançado em 2015. “Esse tempo tão longo não foi intencional, foi uma consequência de vários acontecimentos da vida que passamos ao longo desses anos, que foram esticando o processo de criação/gravação. Mas, no fim, acabou tendo um efeito interessante. Nossos gostos mudaram bastante e se refinaram e isso teve um impacto nas composições finais. Novas referências se sobrepondo, arranjos diferentes, riffs e linhas melódicas que não estavam no nosso radar no começo disso tudo”, comenta Matheus Perelmutter, responsável pelos sintetizadores e vozes.

Para o baixista Rodolfo Almeida, esticar o processo de produção foi decisivo para o resultado final do disco. “Amadurecemos junto de nossas referências e interesses musicais e artísticos e tínhamos sempre aquele projeto em andamento: todo ou (quase todo) fim de semana trabalhando nele, sempre aberto para incorporar o que quer que tivéssemos em mente no momento. Não acho que teríamos esse resultado, tanto em termos de temática quanto de sonoridade, se não tivéssemos nos permitido estender esse processo dessa forma — até mais do que gostaríamos”.

Outra decisão que impactou não apenas o tempo hábil para fazer um registro, mas também as escolhas das sonoridades foi o fato de trabalhar em casa, em estúdios caseiros. Se no primeiro registro da banda havia algo mais cru, captando os quatro tocando ao vivo, aqui há algo mais sintético e planejado, ainda que o resultado soe bastante orgânico. “Deu muito errado e muito certo. Cometemos muitos erros, mas criamos algo de que nos orgulhamos”, comenta Rodolfo. “O amadurecimento pelo qual estávamos passando, junto do que ouvíamos e o controle sobre o processo nos levaram a abraçar as limitações do nosso som e refletir sobre o quanto elas dialogam com os temas do disco. Com exceção do baixo e da guitarra, todos os instrumentos do disco são versões MIDI de instrumentos (desde a bateria, gravada com uma bateria eletrônica de estudo, até cordas, sax, metais e por aí vai). Isso era tanto por uma limitação, quanto uma escolha. Não queríamos emular um som ‘anos oitenta’, mas muito do que escutamos vem daí ou bebe dessa fonte: Yellow Magic Orchestra, Westerman, Tears for Fears, Marina Lima, e por aí vai”.

E, de certa forma, os timbres “falam mais alto” do que as vozes. Ainda que as letras sejam parte central das canções, a mixagem deixa de propósito a voz mais baixa, como se ele fosse mais um instrumento. “Desde o início do processo de construção do disco, a gente pensava na voz como mais um elemento, quase um outro instrumento, que estaria compondo as músicas. Nenhum de nós é um exímio cantor e também por conta disso decidimos que esse seria o caminho para as vozes”, revela Alexandre.

“Gostamos de acreditar que a memória é um arquivo ordenado que acessamos conforme a necessidade, mas ela se parece mais com um padrão sem começo nem fim de fragmentos que se sobrepõem e interagem de maneiras misteriosas à razão – e toda vez que revisitamos nossas lembranças, as modificamos e deixamos resquícios de quem somos hoje”

O resultado, então, pode ser dissecado em camadas. Essa nostalgia buscada pelo grupo está presente nos timbres, na forma como os instrumentos se apropriam de gêneros criados nos 80/90, em como os efeitos criam essa amálgama e também nas vozes e letras, que refletem um período de passagem. A nostalgia surge como um produto dessa interação, mas não como o único atrativo ou característica elementar do registro. É como um álbum de fotografias tiradas do Instagram – de uma só vez, nostálgico e moderno.

E por falar em fotos, outra inspiração para o quarteto é uma série de obras do artista plástico britânico David Hockey, que traz uma nova abordagem na arte modernista, ao experimentar diferentes possibilidades para a perspectiva e o uso de cores fortes, além de colagens e fotografia. O prolífico pintor tem uma obra extensa, mas a influência para a capa e as composições de Resquícios Cromáticos vem principalmente de seu trabalho com fotografias polaroid.

“Durante o processo de gravação, quando já tínhamos farto material gravado e estávamos tentando entender e dar uma cara e um sentido para aquilo que tínhamos feito de forma tão intuitiva, topamos com a série de polaroides do Hockney. Nelas, ele fotografa uma mesma cena de diferentes ângulos e perspectivas e organiza a composição para formar uma cena única. Essas obras pareciam para nós uma representação muito sensível e precisa da sensação de elaborar sobre o tempo: elas representam uma outra dimensão, que não é nem a cena completa e nem as suas partes individuais”, conta Rodolfo. “Percebemos então que isso conversava muito com a imagem mental que tínhamos, não só para a capa e identidade visual do disco, mas para como enxergávamos as próprias músicas: fragmentos separados, de texturas e cores distintas (e bem vibrantes, como no Hockney), que juntos formam um todo fraturado, impossível de ser registrado, acessado e relembrado perfeitamente”.

O grupo documentou em vídeo o processo de criação da capa, feita a quatro mãos por Rodolfo e Alexandre. Podemos vê-lo abaixo:

Inspirada pela polaroids de Hockney, a banda queria criar algo que capturasse a sensação fraturada da imagem e, para isso, voltou seus olhares para lugares marcantes da memória. “Fui ao Parque da Aclimação (um lugar que frequentei muito ao longo da vida e que guarda um significado especial de muitas memórias), aqui na região central de São Paulo, e tirei várias fotos de perspectivas diferentes de uma paisagem com o lago em primeiro plano, as copas das árvores e os edifícios ao longe. As imagens foram então organizadas em um grid quadrado e usei a composição como referência para uma ilustração digital. A ideia aqui era tentar reproduzir o que fizemos na sonoridade: usamos quase exclusivamente timbres digitais e MIDI, e faria sentido que a imagem também tentasse simular uma textura orgânica de forma digital, falsamente artesanal. Na paleta de cores e tratamento de iluminação, tentamos levantar imagens que fazem parte do universo simbólico do disco: clarões, névoas, espelhos, sonhos, tudo aquilo que turva ou põe em xeque a imagem”, explica Rodolfo.

Os rabiscos e sobreposições de cenas imaginadas (a praia, as silhuetas, o crisântemo) têm a ver com a ideia caótica a respeito da memória. “Gostamos de acreditar que a memória é um arquivo ordenado e sistemático que acessamos conforme a necessidade, mas ela se parece mais com um padrão sem começo nem fim de fragmentos que se sobrepõem e interagem de maneiras misteriosas à razão – e toda vez que revisitamos nossas lembranças, as modificamos e deixamos resquícios de quem somos hoje, como um caderno de anotações rasurado e reeditado”.

Além da capa, a proposta de expressar a obra a partir de um anteparo visual continua em clipes para as faixas “Vultos do Mar” e “Sonho Verde”. O segundo, produzido por Gabriel Rolim, já carrega referências estéticas mais evidentes da capa do disco, mas, para Mateus, ambos manifestam a unidade artística de Resquícios Cromáticos. “Os dois videoclipes foram feitos em parceria com produtores amigos, e a intenção era ser algo que representasse um meio de caminho entre a proposta do álbum e a linguagem profissional e estética deles também. Representar essa mistura do mundo onírico com o digital, essa atmosfera que se confunde entre a névoa da memória e ruído eletrônico. No fim, foi um caminho de mão dupla, com algumas imagens dos clipes servindo de referência e material para a construção da linguagem visual do álbum também, e acho que isso é o que conferiu um sentido de unidade bem harmônico ao todo”.

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ARTISTA: O Nó

Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts