O pop da virada do milênio (ainda) está entre nós

Britney Spears, Backstreet Boys, Christina Aguilera e *NSYNC quebravam recordes nas paradas – e franziam a testa de boa parte da crítica especializada; hoje, mais de 20 anos depois, é possível revisitar esse período com olhar mais atento e, além de entender seu impacto, perceber como o pop é capaz de estimular afetos, desejos e revoluções pessoais e coletivas

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Fotos: WireImage

Em “1999”, Charli XCX e Troye Sivan cantam sobre a vontade de voltar para a época dos “Nike Airs, (do seriado) All That, do CD”, quando ouviam “…Baby One More Time” e podiam sonhar em “ver Justin Timberlake na MTV”. A música, lançada em 2019, é estruturada em cima de uma nostalgia que, como a própria composição ressalta, evoca “tempos mais simples” associados à infância de ambos (na data do título, Charli tinha 7 anos e Sivan, 3). É, também, sintomática de um fenômeno recente: a valorização da cultura pop da virada do milênio e a importância da música e dos artistas deste período e, talvez, a busca por uma certa segurança em meio ao caos pandêmico, a partir do mergulho no universo lúdico e milimetricamente produzido daqueles hits.

Essa redescoberta parece confirmar a percepção de alguns comentaristas culturais de que cada década passa por um processo de revitalização a cada 20 anos, influenciando também gerações que não as viveram. No caso dos anos 2000, podemos ver esse impacto em várias áreas, como na moda (as calças de cintura baixa e o uso de muitas cores, por exemplo), e na música, que tem sido particularmente abraçada pela Geração Z, o k-pop e o TikTok. Esse processo, inclusive, é mais complexo do que pode parecer, e envolve mudanças profundas na cultura, como o #MeToo.

Explico: nem sempre foi considerado cool gostar de pop ou ter admiração por artistas como Madonna, Janet Jackson, Mariah Carey, Spice Girls, Britney Spears, Beyoncé, Backstreet Boys, só para citar alguns. A crítica musical, majoritariamente heterossexual, cis e branca, historicamente apontou o pop como um gênero menor, frívolo, “vendido ao mercado” e, implicitamente (e, às vezes, explicitamente mesmo), “coisa de mulher e gay”, como, na década de 1970, havia sido a disco music. A sinceridade e o valor artístico estavam em estilos como o rock. Aqui, peço licença para contar um pouco da minha experiência.

Bem antes de virar jornalista musical, sempre fui fã de música e, especialmente, de música pop. Sou uma cria dos anos 1990 e minha primeira obsessão foram as Spice Girls. Foi uma febre: as músicas, os clipes, o filme (#JustiçaParaSpiceWorld) e os vários produtos (até pirulito!) em torno daquelas cinco artistas me fizeram perceber, ainda cedo, que a arte poderia causar abalos sísmicos internos e também na cultura. Mas esse meu gostar vinha acompanhado de uma certa vergonha que eu não conseguia colocar exatamente em palavra, ainda que, ali, ainda criança, já tateava.

Pouco tempo depois, essa sensação ficou mais latente quando o teen pop dominava as paradas, com Backstreet Boys, Britney Spears, Christina Aguilera e ‘*NSYNC tocando em todo lugar. Gostar desses artistas, se encantar com os vídeos em que criavam universos fabulosos a partir de coreografias intrincadas, era quase um atestado da sua própria superficialidade. Era um tipo de sensibilidade que, a menos que você contasse com a sorte de ter um amigo que dividisse o mesmo interesse, era saciada apenas pela televisão e, durante a popularização da internet, por fóruns e bate-papos para fãs que, no geral, dependiam das longas esperas pela meia-noite da sexta para pagar menos pela conexão discada e, assim passar o fim de semana online, consumindo esses conteúdos.

Era um momento, também, em que a MTV ainda era um canal com foco em música (ainda que começando a flertar com o formato de reality shows) e servia como ponte para novos conteúdos e para a construção desses ídolos. Era lá que aconteciam as estreias dos vídeos – anunciados com antecedência, transformando-os em eventos – e onde se podia consumir mais conteúdos de artistas pop, desde bastidores das gravações, no Making The Video, ao interior das casas deles, no MTV Cribs, quando o acesso à intimidade das celebridades ainda era mediado pelos meios de comunicação.

O sucesso desses novos astros pop se traduzia, além do impacto cultural, em números: Lançados em 1999, …Baby One More Time, de Britney Spears, capitaneado pela faixa-título, “(You Drive Me) Crazy” e “Sometimes”, e Millenium, do Backstreet Boys, com “Larger Than Life”, “I Want It That Way” e “Show Me The Meaning of Being Lonely” venderam, cada um, mais de 20 milhões de cópias ao redor do mundo. Também ascendendo neste momento, Christina Aguilera comercializou 14 milhões de discos e emplacou os hits “What a Girl Wants”, “Genie in a Bottle” e “Come on Over (All I Want Is You)”.

Eram trabalhos de artistas entre 16 e pouco mais de 20 anos, voltados para adolescentes. As melodias e refrãos que grudam quase imediatamente na cabeça tinham como principal arquiteto o sueco Denniz Pop (falecido em 1998) e seus pupilos na Cherion, gravadora que ajudou a moldar o som do pop na virada do milênio. Enquanto nos Estados Unidos o R&B era o principal som nas rádios, esses produtores se inspiraram no europop e deram uma roupagem que dialogasse com o mercado norte-americano, algo que já vinha sendo testado por Denniz Pop desde seu trabalho com o Ace of Base, no começo da década de 1990.

Denniz era DJ e tinha pouquíssimo conhecimento em instrumentos musicais. Usando bases eletrônicas, ele se pautava pela melodia e as letras deveriam ter um apelo imediato, capaz de serem cantaroladas por pessoas de diferentes idiomas. Entre os principais nomes da Cherion está Max Martin, produtor seminal na virada do milênio (e até hoje), com trabalhos para gigantes do pop, como Britney, Lady Gaga, Katy Perry, The Weeknd, Ariana Grande, Pink e Adele.

No ano seguinte, *NSYNC quebrou os recordes de melhor semana de abertura para um álbum com No Strings Attached: foram 2,4 milhões vendidos em sete dias, apenas nos Estados Unidos, na esteira dos sucessos “Bye Bye Bye” e “It’s Gonna Be Me”. O disco abraçava a fórmula sueca, mas também olhava para o que acontecia em seu país, onde o R&B se transformava a passos largos, experimentando com vários gêneros, como o hip hop, ska, trip hop, graças a produtores como Timbaland, Missy Elliott e The Neptunes. As canções começavam a fundir mais os gêneros, dialogando com o que nomes como Aaliyah, Kelis e Destiny’s Child vinham fazendo.

Artistas consagradas do pop, como Madonna e Janet Jackson, também continuavam suas aventuras sonoras e vivenciavam os últimos anos de dominação comercial (ainda que, nos anos seguintes, lançassem trabalhos brilhantes). Elas, juntamente a Michael Jackson, foram também responsáveis por incrementar um elemento essencial do pop da virada do milênio: as coreografias, que se tornavam parte quase indissociável da música. Tendência que, agora, 20 anos depois, volta com força puxada pelo TikTok e pela força do k-pop, gênero muito influenciado pelo pop do início dos anos 2000, estética e sonoramente.

Cenários coloridos que não negavam a artificialidade, mas a abraçavam, imaginando outras ambientações de futuro – como já vinha se desenhando desde a década anterior. Esse momento de transição, de uma certa euforia com o porvir e os avanços tecnológicos (e o medo dele, também, vide a apreensão em torno do “bug do milênio”), logo seria substituído pelo terror de uma nova era que se iniciava com os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. É como se, mais do que anunciar uma nova era, o final da década de 1990 e o primeiro ano da de 2000 marcassem um encerramento. Vários, na verdade – entre eles, a própria forma de consumir música.

Com programas como o Napster, Kaaza, eMule e Ares, baixar música se tornou fácil e a pirataria provocou uma queda drástica nas vendas de álbuns. A indústria tentou se adaptar com o iTunes, lançado em 2001, mas o mercado já mostrava transformações irreversíveis. A chegada do YouTube, em 2005, também transformou a dinâmica do lançamento e veiculação dos clipes, agora disponíveis a qualquer hora, marcando o crepúsculo da MTV enquanto emissora de música. E, também, a popularização das redes sociais muda a forma como os artistas se relacionam com o público, promovendo uma interação mais direta. Ainda na década de 2000, o pop estreitaria seu relacionamento com o R&B e hip hop, em uma fusão que, hoje, já se mostra indissociável, com trabalhos clássicos de Beyoncé (“Crazy in Love”, de 2003, é um marco), Gwen Stefani (o álbum Love.Angel.Music.Baby, de 2004), Justin Timberlake (Future Sex/LoveSounds) e Nelly Furtado (Loose). Estes dois últimos produzidos em 2006 por Timbaland e Danja, e, no ano seguinte, Blackout, de Britney Spears, que ditaria os novos caminhos do pop nos anos seguintes.

Voltemos para 2022. Além da reconfiguração da geopolítica do pop, com artistas latinos e asiáticos consolidados nas plataformas de streaming e influenciando artistas anglófonos, há uma mudança na atmosfera cultural que fomenta esse novo olhar sobre o pop da virada do milênio. A misoginia com a qual artistas como Britney Spears e Christina Aguilera foram tratadas, a LGBTfobia e racismo que por décadas pautaram a crítica musical, assim como a própria concepção de que tipo de sonoridade e estética podiam ser legitimados, têm sido revistos. O site Pitchfork, por exemplo, tem feito uma série de novas resenhas para álbuns que, à época de seus lançamentos, foram injustamente avaliados simplesmente por serem de artistas pop.

Nomes da nova geração, como Billie Eilish, Olivia Rodrigo, Harry Styles e BTS, também expressam constantemente sua admiração por aquele período e se apropriam, direta ou indiretamente, de linguagens do início dos anos ‘00. É um processo que, claro, ainda está se consolidando, mas que não mostra sinais de retração. Lembro de, em 2008, assistir a uma apresentação de uma ainda iniciante Lady Gaga cantando o single “Just Dance”, na qual ela aparecia com um óculos que transmitiam a frase “Pop music will never be lowbrow” (algo como “A música pop nunca será baixa cultura”). Aquilo me impactou muito porque era o que eu sempre tinha sentido, mas que, durante a maior parte da minha infância e adolescência, não era legitimado pela crítica e pela intelectualidade.

Nos últimos anos, vemos um processo de repensar o que pode a música, nas universidades, na internet e nos meios de comunicação. Seja ela capitaneada por grandes gravadoras ou provenientes de artistas independentes e periféricos. A pista de dança (literal ou figurativa) começa a ser valorizada por toda a sua força transformadora, seja no êxtase ou na dor. Enxergar a complexidade do pop é perceber a potência que ele tem de estimular afetos, desejos e revoluções pessoais e coletivas.

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