O Relaxante Limbo de Kings Of Convenience

Último disco do duo norueguês se destaca pela sensação de imersão que causa no ouvinte, assim como um relaxamento profundo

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Há muitos motivos pelos quais escutamos música. Eu me identifico com muitos desses propósitos, mas o que está aplicado a todos os meus discos favoritos, sem exceção, é o escapismo momentâneo que ele te proporciona. Pelos minutos de sua duração, o desligamento é imediato, realmente nada mais importa. Dessa forma, um álbum que consiga me fazer esquecer do mundo é um disco bom (no mínimo, muito interessante). Quando pensei em um registro para falar um pouco na coluna de hoje, precisei de um tempo para pensar e quando me dei conta, já estava escutando o escolhido de hoje. Estou falando de um dos relaxantes musicais mais eficientes que já escutei: Declaration Of Dependence, do duo Kings Of Convenience.

O último lançamento de Erlend Øye e Eirik Glambek Bøe busca um novo nível de profundidade em suas composições. Enquanto em registros passados havia linhas de bateria que davam uma sonoridade um pouco mais upbeat e animada (principalmente ouvida em I’d Rather Dance With You, do disco anterior Riot On A Empty Street), o que escutamos aqui é uma total preferência pela ausência percussiva e total valorização dos instrumentos harmônicos como o violão, piano e violoncelos. Na verdade, o mínimo de percussão que ouvimos são os suaves esbarros da mão de um dos membros nas cordas de violão. Dessa exposição direta às melodias, nossos sentidos são tocados profundamente e aí temos uma sensação de relaxamento profunda.

As vozes dos dois membros merecem um destaque a parte, e estão contidas na lista de “casamentos vocálicos perfeitos” (entre os quais podemos citar as irmãs First Aid Kit e Simon & Garfunkel). 24-25 define bem essa particularidade que tão poucas duplas conseguem atingir em suas músicas. Com versos suaves e brandos, as vozes estão dispostas em intervalos harmônicos tão confortáveis aos nossos ouvidos que, somado aos acordes de violão amenos, faria um ouvinte desmaiar de sono. Não por ser tedioso (de maneira alguma!), mas criar uma imersão muito realista em um limbo tranquilizante.

É curioso ouvir em Kings Of Convenience influências da Bossa Nova. Os próprios membros já se mostraram admiradores deste gênero, então não é surpresa que houvesse algum toque tupiniquim nesse registro. A questão é como eles acabam criando algo novo e único a partir da mistura da Bossa e esse Indie Acoustic. Peacetime Resistance mostra os acordes quentes do gênero brasileiro, mas com uma batida mais dinâmica, criando assim uma mistura que relaxa ao mesmo tempo que é dançante. Outros destaques ficam por conta de Me In You (com a surpresa que é Erlend cantado, e não uma mulher), a divertida Rule My World e Mrs Cold com seu simpático solo de violão que deve agradar a todas as mamães a avós, arrancando suspiros e “ownn” de suas bocas.

Se eu ficar falando demais sobre o disco, vou acabar ignorando uma de suas partes mais importantes: o silêncio. Ouvir esse álbum quieto e cantando são duas experiências completamente diferentes. Ele requer tanto a atenção do ouvinte que precisa ser escutado tentando evitar cantarolar as melodias de suas faixas, afim de se obter uma completa e profunda imersão em suas faixas.

No final das contas, só posso recomendar muito o álbum para aqueles que procuram uma folga de suas preocupações. Só aviso para tomarem cuidado quando tiverem que voltar à realidade, vai ser difícil. Admito que me identifico com o título e deixo aqui minha Declaração de Dependência dele em todas as horas do meu dia.

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.