O som do Blaxploitation

As trilhas mais memoráveis do movimento que revolucionou o cinema, a música e a cultura nos anos 1970

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Fotos: Divulgação / Monkeybuzz

Seja lá quais forem as intenções de seu criador, um filme nunca é apenas um filme. Para além de gêneros (e do lugar de disputa entre o papel social e o entretenimento), o cinema dá ao espectador a chance de investigar o mundo por outros olhos. Nesse sentido, o Blaxploitation, munido de histórias que, para um olhar mais desatento, parecem comuns, foi um movimento que soube, de uma só vez, ser divertido e potencialmente político. E representativo como nunca. Se os anos 1960 ficaram marcados pela luta pelos direitos civis dos afro-americanos, durante a década seguinte, esse embate foi expandido para a Indústria Cultural.

Mesmo com os ganhos sociais vindos da luta nos anos 1960, a violência policial continuava extrema. Há diversos relatos de que, à época, se houvesse mais de cinco negros em uma esquina ou em reuniões de bairros afro-americanos, os homens da lei eram cruéis – desde esguichos colossais de mangueira a ataques de cães raivosos. Tudo isso durante os anos 1970. E, se alguém se rebelasse, as agressões pioravam. O movimento Blaxploitation, acima de tudo, foi uma forma de revide e de justiça – por meio da arte.

É um cinema que sintomatiza e responde a seu tempo. Um gênero cinematográfico no qual os negros saem dos papeis coadjuvantes e se tornam heróis. Mas não simples heróis: cafetões, traficantes, gangsters, ex-soldados, ainda que por vezes à margem da lei, aparecem antagonizando o sistema, o homem branco. Sobretudo, o racismo estrutural e institucional. As sagas desses heróis às avessas – bem mais combativos e imprescindíveis que os mocinhos convencionais – foram construídas em b-movies, mas que traziam simplesmente os maiores nomes do Soul da época no comando das trilhas. O resultado é que muitas trilhas são ainda mais memoráveis dos que os filmes, o que, de maneira nenhuma, diminui o poder libertador e a função política das obras e de suas narrativas. Mas, para nossa sorte, além dos filmes que colocam o negro como dono de seu destino de maneira inédita até então, o Blaxploitation é um movimento que deixa também outro legado eterno: muita música da boa.

De Curtis Mayfield a James Brown, de Bobby Womack a Marvin Gaye, selecionamos dez trilhas que mostram a influência e a força musical desse momento tão único da cultura no século passado. Afinal, como cirurgicamente apontou Afeni Shakur (emblemática Pantera Negra e mãe de Tupac): “O movimento Black Power influenciou cada aspecto da cultura nos anos 1960 e 1970”.

Earth, Wind & Fire – Sweet Sweetback’s Baadasssss Song (1971) 

Melvin Van Peebles e seu Sweetback foram o ponto de partida do Blaxploitation. É o primeiro filme no qual o protagonista negro termina vivo e fora das mãos da polícia – e o primeiro a evidenciar que era possível obter lucro sem se prender às narrativas do sistema branco. Nenhuma produtora quis financiar a obra, então Van Peebles a bancou com o próprio dinheiro (além de US$ 50 mil emprestados de Bill Cosby) e não apenas dirigiu, como foi o responsável por roteiro, edição, produção e trilha sonora. A música foi escrita por ele, mas executada pelos então novatos do Earth, Wind & Fire. A banda, que veio a se tornar uma das mais icônicas e bem-sucedidas da história da música, havia acabado de lançar seu primeiro disco e viu seu nome chegar ao 13º lugar das paradas da Billboard com a trilha de Van Peebles – que não tem o mesmo tom revolucionário do filme, mas ainda vibra com funk de qualidade.

Isaac Hayes – Shaft (1971)

Depois do pontapé inicial de Sweetback, coube ao Detetive John Shaft derrubar todas as portas e aprofundar as transformações nas narrativas cinematográficas da época. O filme foi o primeiro do gênero a ser produzido e financiado por uma grande produtora – a MGM, responsável por obras como E O Vento Levou e O Mágico de Oz, mas que, na época, estava à beira da falência. A aposta deu certo: o sucesso de Shaft foi o suficiente para manter o estúdio de portas abertas e transformar o personagem principal em um ícone pop. Mas a faceta mais emblemática do filme segue sendo sua trilha sonora. Isaac Hayes se envolveu com o projeto, porque queria o papel principal, mas o diretor Gordon Parks deu a ele a missão de compor as melodias. E Hayes o presenteou com a trilha sonora perfeita: uma combinação esperta, sinuosa e, ao mesmo tempo, elegante de Soul, Funk e Jazz – arranjos orquestrais ao lado de riffs funkeados de guitarra que transformam qualquer atmosfera em cenas instantaneamente cools. Foi o álbum mais vendido na carreira de Hayes e lhe rendeu dois prêmios Grammy e um Oscar de Melhor Canção Original, com seu “Theme From Shaft” –  e o título de primeiro afro-americano a ganhar em uma categoria que não fosse atuação, em 1972.

Curtis Mayfield – Super Fly (1972)

Não há como falar da música do Blaxploitation sem falar de Super Fly. É um daqueles discos tão clássicos, que, mesmo mesclando todas as qualidades dos gêneros, é capaz de transcender qualquer rótulo. É uma das mais marcantes trilhas sonoras de todos os tempos – com cada linha e cada som compostos com maestria por Curtis Mayfield. Assim como o próprio Blaxploitation, Super Fly é um reflexo direto da geração que lutou pelos direitos civis na década de 1960. As letras, carregadas de consciência social e racial, falam sobre pobreza, drogas e o lugar do negro na sociedade de forma muito mais crítica do que a apresentada no próprio filme. Mas isso não faz com que a trilha destoe da obra: o discurso social vem embalado na combinação entre Soul e Funk de forma sexy, elegante, ardente, violenta e mais melodramática possível – tudo arrematado pelo falsete sinuoso e preciso de Mayfield, sua marca registrada. Super Fly inspirou muitas das trilhas que surgiriam a seguir, como o Black Caesar (1973), de James Brown, além de inúmeros outros discos de Soul, R&B e Hip-Hop anos a fora. São mais de 320 (!) músicas registradas no site WhoSampled, que contêm samples da trilha sonora. Disco e artista clássicos de marca maior.

Marvin Gaye – Trouble Man (1972)

Este é mais um exemplo de trilha sonora que se tornou muito maior que o filme em si. E não era para menos, já que foi lançada entre os clássicos absolutos What’s Going On (1971) e Let’s Get It On (1973), indiscutível fase mais aclamada de Marvin Gaye. Essa é a única trilha de seu catálogo, mas Gaye se esbaldou: com total autonomia criativa, o Príncipe do Soul, além de compor e produzir cada faixa, foi responsável pelos vocais, a bateria, o teclado, o piano e os sintetizadores do álbum. É uma obra majestosa, com arranjos de orquestra completa e espaço de sobra para os outros talentos de Gaye, além do gogó, brilharem. Ao contrário das outras trilhas da época, que mesclam crítica social com músicas sensuais e enérgicas, Trouble Man é focada no personagem principal do filme, Mr. T., e em seu mundo interior, criando uma viagem contemplativa e elegante por sua narrativa. Tudo isso transparece nas faixas, em sua maioria, instrumentais, mas que ganham força extra quando a voz inconfundível de Gaye aparece. Trouble Man se destaca das outras trilhas exatamente por isso: uma atenção preciosa à combinação de Jazz e Soul tão característica de Marvin Gaye, que é capaz de criar uma atmosfera sem igual.

Bobby Womack e J.J. Johnson – Across 110th Street (1972) 

Sobre a faixa-título, 50 Cent disse em entrevista à NME: “Foi a primeira música pela qual eu me apaixonei. Por causa da situação do povo afro-americano naquela época, existiam muitas músicas de protesto e eu percebi que era algo que realmente movia as pessoas à minha volta. Senti o poder da música de levantar as pessoas e a capacidade de as deixaram raivosas ou orgulhosas”. E os dois responsáveis por essa trilha sonora entendiam bem disso. Bobby Womack era um artista multifacetado: guitarrista, pianista e compositor (escreveu o primeiro hit dos Rolling Stones, “It’s All Over Now”, de 1964), trabalhou com nomes como Sam Cooke, Janis Joplin, James Brown e Aretha Franklin, além de ter desfrutado de uma carreira solo que se estendeu por mais de 60 anos. Ele foi o responsável pela voz e pelas letras, e as melodias ficaram a cargo de trombonista e arranjador J.J.Johnson. Sobre ele, o também trombonista Steve Turre resumiu: “J.J. fez pelo trombone o que Charlie Parker fez para o sax – ninguém hoje em dia estaria tocando nesse estilo, se ele não tivesse tocado antes”. Combine essas duas figuras e o resultado é uma obra memorável, repleta de arranjos orquestrais luxuosos, que misturam Soul e o Funk psicodélico dos anos 70 à dureza das ruas de Nova Iorque. Não à toa, a faixa-título foi a escolhida, entre tantas outras canções marcantes da época, por Quentin Tarantino para as cenas de abertura e finais do filme Jackie Brown (1997), sua homenagem ao Blaxploitation.

Willie Hutch – The Mack (1973)

Willie Hutch já era um compositor e produtor com alguns triunfos em seu catálogo, quando resolveu se aventurar pelas trilhas sonoras. Em 1970, o produtor Hal Davis, da gravadora Motown, o conhece por meio de um amigo e o convida para criar a letra de “I’ll Be There”, que havia composto para o The Jackson 5. Esta foi a canção que consolidou a carreira do grupo e a de Hutch, que foi contratado para a Motown e passou a trabalhar com artistas como Smokey Robinson, Marvin Gaye e Aretha Franklin. É isso mesmo: a mesma pessoa que escreveu “I’ll Be There” é responsável pela trilha sonora de um dos maiores cafetões da história do cinema – e o fez com a mesma maestria. A parte instrumental traz seriedade e emoção para as músicas, que se transformam tanto em histórias sobre amor quanto sobre prostituição, drogas e o convívio social da época. O personagem principal, Goldie, consegue ser contemplativo em um momento e dramático no seguinte, e a trilha sonora acompanha todas essas nuances. Foi um trabalho que deu ainda mais renome a Hutch e o levou até sua outra trilha de sucesso, a do filme Foxy Brown, no ano seguinte.

Roy Ayers – Coffy (1973)

Da mesma forma que o cancioneiro de Roy Ayers é um caldeirão de influências – Jazz Fusion, Funk, Soul, Disco –, Coffy traz consigo a melhor parte das trilhas sonoras que a antecederam: a inventividade de Mayfield, a irreverência de Hayes e o cuidado com o mundo interno da personagem de Gaye. Tudo isso cria vida sob as baquetas do vibrafone de Ayers, que consegue trazer um novo som para o gênero sem tirá-lo de suas raízes. É a trilha sonora perfeita para acompanhar a primeira heroína negra do cinema. Interpretada por Pam Grier, a personagem se tornou um ícone da época e deu espaço para outras protagonistas negras surgirem. A narrativa de Ayers tem a mesma amplitude de Coffy e caminha entre o elegante e o sóbrio, o dançante e o sensual, sem nunca perder seu atrevimento. E, apesar de ser um filme ousado e original, é outra obra que fica aquém da magnitude e da qualidade de sua trilha sonora.

James Brown – Black Caesar (1973)

Tudo que você precisa saber sobre esse disco é: foi depois dele que James Brown passou a se chamar (ele mesmo cunhou o apelido) de “Padrinho do Soul”. O som do Blaxploitation foi feito para James Brown e James Brown foi feito para o som do Blaxploitation – e os dois finalmente se encontraram em Black Caesar. Acompanhado de sua formidável banda, The J.B.’s (que alguns anos depois o deixaram para se juntar ao Parliament-Funkadelic, de George Clinton), e do magistral trombonista Fred Wesley, Brown criou um dos discos mais explosivos do gênero. O filme quase não consegue se manter no mesmo ritmo da trilha sonora – é porrada atrás de porrada. São as músicas perfeitas para um boxeador entrar no ringue; ou um traficante caminhar sem medo pelas ruas de Nova Iorque. Há também as canções instrumentais, como “Chase”, que explicitam a qualidade dos músicos e dos arranjos e produção de Brown. É abusando do funk e de seu gogó incomparável que o Padrinho do Soul transformou seu Black Caesar em um poderoso testamento de sua própria força.

Sun Ra – Space Is The Place (1974)

Se alguém poderia estender os limites do gênero para fora dos confins da Terra direto para o espaço sideral, esse alguém é Sun Ra. Em Space Is The Place, Blaxploitation encontra a ficção científica e o afrofuturismo numa só tacada. É um filme experimental, fantástico, não-linear, que conta sobre a guerra travada entre Sun Ra e o “Overseer” (algo como “Supervisor”, em tradução livre) pela comunidade negra. Sun Ra quer levá-la para outro planeta, onde podem viver sem violência e em equidade, mas, para isso, precisa vencer o Overseer – figura maligna que representa os vícios e fraquezas construídos pela supremacia branca. Essa é a tradução lógica da mensagem subversiva e subconsciente que existe na obra; no filme, tudo isso é tratado na fantasia, envolto pela mitologia existente em tudo que Sun Ra criava. E a trilha sonora segue o mesmo caminho cósmico, espiritual, mitológico e experimental do filme. Trata-se de uma amálgama singular do trabalho de Ra: o encontro entre o black power, o afrofuturismo, o free jazz, a new wave e a ficção científica.

Willie Hutch – Foxy Brown (1974)

Originalmente, “Foxy Brown” seria uma sequência para Coffy, mas o estúdio decidiu de última hora que queria um roteiro novo – e assim surgiu Foxy, com a mesma Pam Grier no papel principal e Willie Hutch na trilha sonora. O longa foi um marco cultural ainda maior do que se antecessor, não especificamente para a crítica, mas, sim, para a conjunção social da época. Mais uma vez, a mulher negra aparece como protagonista e dona de seu próprio destino, pronta e capaz de lutar contra o que viesse em seu caminho. A trilha sonora se mantém no mesmo nível de sua protagonista: intensa, dançante, pronta para qualquer parada, mas com momento de introspecção, romance e seriedade. A dobradinha Coffy/Foxy construída por Hutch deixa nítido seu talento para os arranjos e seu tino para mesclar composição musical e filmes.

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