O Último Disco dos Beatles

Uma análise de “Abbey Road”, álbum com uma das capas mais icônicas da história da música e considerado por muitos até hoje como “histórico” e “liricamente perfeito”

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A compreensão total do canto de cisne que é Abbey Road só pode se dar se analisarmos um contexto um pouco maior. The Beatles foi a ponta de lança de uma revolução estética no Rock, pelo menos foram o grupo que lograrou maior êxito em expressar esses novos conceitos em forma de disco sem que sofressem algum tipo de arranhão em termos de popularidade ou que comprometesse a existência da própria banda. Essa expressão foi o lançamento de Sgt. Pepper’s em junho de 1967. As divergências pessoais, aliadas à morte do empresário Brian Epstein dois meses depois do lançamento, levou os Beatles à lona pela primeira vez. Paul McCartney e John Lennon, os dois maiores compositores do grupo e pessoas totalmente diferentes, brigariam até o fim por um controle criativo e administrativo da banda, algo que nenhum dos dois conseguiu exercer de fato, apesar de McCartney ter chegado mais perto disso do que Lennon, que, ao fim das contas, parecia pouco interessado nisso. Correndo por fora vinha George Harrison, cada vez melhor compositor e acumulando canções guardadas, que não viam a luz do dia.

Os Beatles foram a Índia em busca de meditação e paz, mas não foram bem sucedidos e as brigas internas se acirravam. O fracasso de Magical Mystery Tour, filme que mostrava a banda viajando de ônibus pela Inglaterra, só piorou o relacionamento. O reflexo desse clima seria a principal característica do disco homônimo, lançado em 1968, conhecido por todos como The White Album. Era um álbum duplo, com o firme propósito de mostrar que os quatro poderiam sobreviver sem a presença dos amigos e, sobretudo, como artistas solo. Rumores sobre o fim da banda ficaram mais fortes quando o pacato Ringo Starr abandonou as gravações do disco por conta de desentendimentos com Lennon, que trouxera sua companheira Yoko Ono para dentro do estúdio. Desse jeito, o “Álbum Branco” mostrava o quanto a banda estava fragmentada e entristecida, algo que só se agravou com o supracitado fracasso de Get Back, o projeto que daria origem ao disco Let It Be, pensado por McCartney como um retorno da banda às origens do Rock’n’Roll do início da década, buscando simplicidade, sonoridades mais cruas e menos compromisso com as tendências modernas.

Abbey Road foi o 12° e penúltimo álbum dos Beatles a ser lançado. Saiu em 26 de setembro de 1969, tendo em seu título o nome de uma rua de Londres onde fica o estúdio de mesmo nome. A idéia para o título, porém, nem sempre foi essa. John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr pretendiam batizar o álbum como Everest, em homenagem ao engenheiro de som Geoff Emerick, que fumava cigarros da marca homônima. Eles chegaram a o cogitar uma sessão de fotos no Monte Everest e teriam até contratado um jato particular para ir até lá. A idéia para a foto da capa foi de Paul McCartney, diante do problema logístico em fotografar no Monte Everest em pouco tempo. Foi tirada em 08 de Agosto de 1969 em frente ao estúdio. A faixa de pedestres hoje é mundialmente famosa, tornando-se ponto para fotos de beatlemaníacos de todo mundo. Por seu trabalho em Abbey Road, Geoff Emerick e seu colega Phillip McDonald ganharam o Grammy daquele ano.

Abbey Road vai encontrar os Beatles protocolares e intuindo seu fim. Daí talvez venha sua beleza e polidez. Em 20 de agosto, ao finalizarem as tomadas de “I Want You (She’s So Heavy)”, os Beatles estiveram presentes pela última vez num estúdio.

Críticos de música ao redor do mundo formam um consenso sobre a relevância de Abbey Road para o catálogo dos Beatles e para o Rock’n’Roll enquanto gênero. Se ele não trazia qualquer inovação estética – exceto pela gravação em 16 canais, algo novo para a época – representava o máximo de perfeição que se poderia atingir num estúdio, no qual interagissem uma banda de Rock e instrumentos sinfônicos. Mais ainda: significava a união de uma estética musical desenvolvida pelos Beatles e pelo produtor George Martin, levada ao seu momento maior, no qual a competência de arranjos, músicos e a excelência das composições geraram um resultado assombroso e extremamente representativo.

“Foi um disco muito feliz”, recorda o produtor George Martin, mencionando o álbum no documentário Beatles Anthology, de 1995. Ele continua: “Eu acho que foi feliz porque todo mundo pode notar que seria a última vez”. Realmente, Abbey Road – gravado durante o verão de 1969 – foi o último momento dos Beatles em estúdio. Em janeiro do mesmo ano, eles estavam à beira do rompimento definitivo, exaustos e irritados um com o outro, sobretudo pelo fracasso das sessões de gravação para o LP Get Back, que foi abortado na época mas que foi lançado no ano seguinte, após algumas mudanças de direção em termos de produção e conceito, sob o título de Let It Be.

Mesmo com o fracasso, os quatro se reuniram nos mesmos estúdios da gravadora EMI em Abbey Road, Londres, poucos meses depois de Get Back ser abortado. George Martin fora novamente recrutado pelos Beatles para a produção (em Get Back fora cogitado o nome do americano Phil Spector) e, a partir do pedido de Paul McCartney, para que fizessem um disco “como costumavam fazer juntos”, Martin não guardou ressentimento de qualquer espécie e aceitou guiar o quarteto em seu último registro de estúdio.

As composições que deram forma ao disco mostravam que os Beatles chegavam a um nível estético altíssimo dentro do que se entendia por “Rock’n’Roll”. Além da conhecida capacidade da banda sob a forma de baixo-bateria-duas guitarras e vocais, o conceito de Abbey Road também comportava as habituais participações de orquestra, percussão e várias fontes inspiradoras, de diferentes origens. A canção inicial, Come Together, de autoria de John Lennon, já faz menção ao americano Timothy Leary, cientista famoso por estudar os efeitos do LSD como droga curativa de distúrbios psíquicos, que concorria às eleições para o governo da Califórnia. Claro que o LSD já rendera uma homenagem ainda maior por parte dos Beatles, materializada em Lucy In The Sky With Diamonds, lançada dois anos antes, no disco Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Canções que se tornariam clássicos no repertório da banda vinham em sequência : I Want You (She’s So Heavy), Here Comes The Sun, Something, Oh Darling, Maxwell Silver Hammer, Octopus’ Garden, além da suíte que compunha o original lado B, cheia de trechos e pequenas canções de Lennon e McCartney, devidamente encadeadas. Ao fim de tudo, a premonitória The End, com o verso clássico: “and in the end, the love you take is equal to the love you make”, ou seja: “no fim, o amor que você leva é equivalente ao que você faz”.

Tanto as canções isoladas como a suíte do antigo lado B, representam o que a banda podia fazer de melhor, sem abrir mão de algo que soasse novo, belo e importante. A revista Rolling Stone de setembro de 1969 dizia que o lado B de Abbey Road valia mais que todo o conteúdo dos três discos anteriores, a saber, o White Álbum, Sgt. Pepper’s e Magical Mystery Tour. Adjetivos como “histórico”, “dolorido”, “liricamente perfeito” serviram para caracterizar o disco junto aos formadores de opinião. Os fãs também fizeram sua parte e Abbey Road tornou-se o disco dos Beatles que mais vendeu em todos os tempos, indo diretamente ao nº 1 das paradas uma semana depois do lançamento, permanecendo lá por 18 semanas.

Toda uma geração hippie, talvez vitimada pela decepção das poucas mudanças ocorridas no mundo desde o início das mudanças e experimentos musicais, comportamentais e sociais, cantava simbolicamente esse verso ao constatar que nada daquilo fora em vão. Mesmo assim, com o slogan “the dream is over” (o sonho acabou), logo depois John Lennon anunciaria ao grupo sua saída, mas isso foi mantido em segredo até 1970, quando McCartney também deixou a banda pouco antes do lançamento de Let It Be.

COMENTÁRIOS SOBRE AS CANÇÕES

COME TOGETHER (Lennon/McCartney)
Gravada em 21, 22, 23, 25, 29, 30 de Julho 1969
A penúltima música a ser gravada para o disco e a primeira faixa. Composta por John, tem é no baixo de Paul sua marca melódica. A bateria de Ringo também é pura inspiração e George usa pela primeira vez num disco dos Beatles a técnica da ‘slide guitar’, que seria sua marca registrada na carreira solo. Feita meio por encomenda para o guru do LSD, Timothy Leary, John usou seu jargão, ‘Come together and join the party’ em melodia emprestada da música You Can´t Catch Me de Chuck Berry (mais tarde John seria obrigado a gravar esta música em seu disco Rock’n’Roll). Esta música recebeu inúmeras versões durante anos, como a de Aerosmith, Tina Turner e até de Michael Jackson.

SOMETHING (Harrison)
02, 05 de Maio, 11, 16 de Julho, 15 de Agosto 1969
Inspirada no título de uma canção de James Taylor – Something in The Way She Moves, Esta é sem dúvida a mais famosa canção de George Harrison, mas que por ser sido gravada pelos Beatles, é comumente creditada à Lennon-McCartney (inclusive por Frank Sinatra, que a gravou). Infelizmente John Lennon não participou da gravação desta música, pois ele e Yoko estavam internados devido ao capotamento de seu carro. Originalmente, a música terminava numa longa jam session e a orquestra de 21 músicos foi adicionada 3 meses depois da gravação original. Lançada também como single, foi o primeiro compacto a ter uma música de George Harrison no lado A (o lado B era Come Together).

MAXWELL´S SILVER HAMMER (Lennon/McCartney)
09, 10, 11 de Julho, 06 de Agosto 1969
Uma música de Paul no velho estilo de Sgt. Peppers. Originalmente deveria fazer parte do disco Let it Be, já que o filme mostra o grupo a ensaiando, mas só foi gravada meses mais tarde. A música conta a história de um maluco que mata todo mundo. Paul canta, toca guitarra e piano, e pela primeira vez num disco dos Beatles é usado um ‘Sintetizador Moog’, um avanço tecnológico na época que seria um instrumento famoso na mão de tecladistas progressivos como Rick Wakeman. John não participa da gravação, e uma ‘bigorna’ é tocada por Mal Evans para dar o som oco do martelo (hammer).

OH DARLING (Lennon/McCartney)
20, 26 de Abril, 17, 18, 22, 23 de Julho, 08, 11 de Agosto 1969
Paul por várias semanas gravou o vocal desta música assim que chegava aos estúdios até se dar por satisfeito. Música de Paul, onde tem um de seus melhores vocais. Paul toca baixo e piano, e John e George fazem a harmonia.

OCTOPUS´S GARDEN (Starkey)
26, 29 de Abril, 17, 18 de Julho 1969
A 2ª música de Ringo a ser gravada pelos Beatles (a 1ª foi Don’t Pass Me By do White Album). Com a little help from George não creditada, esta é meio uma continuação de Yellow Submarine, tornando-se o 1º sucesso de Ringo. Além dos instrumentos convencionais, Paul toca piano, e alguns efeitos como bolhas num copo dágua soprados por Ringo, e vozes modificadas por amplificadores são adicionadas. John se faz presente e faz a guitarra dedilhada.

I WANT YOU (SHE´S SO HEAVY) (Lennon/McCartney)
22, 23 de Fevereiro, 18, 20 de Abril, 08, 11, 20 de Agosto 1969
Escrita por John para Yoko, esta é mais um instrumental do que música, já que contém apenas 2 frases. A parte ‘She´s So Heavy’ vem de outra música de John, mas foram unidas numa só, e como de costume, tais músicas de John foram as mais difíceis já gravadas pelos Beatles. A guitarra solo é de John, que ‘toca’ o Moog até o final, quando a música é abruptamente interrompida (na verdade, é a fita de gravação que termina, e John achou interessante deixá-la assim na mixagem)

HERE COMES THE SUN (Harrison)
07, 08, 16 de Julho, 06, 11, 15, 19 de Agosto 1969
Outro grande sucesso de George Harrison. Composta nos jardins da casa de Eric Clapton, só um inglês sabe como um sol naquele país é bem vindo. Feita apenas com variações no acorde D (ré) da guitarra, é um dos trabalhos mais melódicos dos Beatles, ganhando apreciação tanto do público Folk, como dos jazzisticos mais ferrenhos. George toca os violões e o seu recém adquirido sintetizador moog (que mais tarde gravaria um disco solo só com o instrumento – ‘Eletronic Sound’). John só se fez presente na gravação dos vocais.

BECAUSE (Lennon/McCartney)
01, 04, 05 de Agosto 1969
Um dos pontos altos de Abbey Road, Esta música NÃO é de Paul McCartney, e sim de John Lennon num de seus momentos mais inspirados. Yoko tocava Moonlight Sonata de Beethoven no piano quando John pediu para tocá-la ao contrário. Daí surgiu a melodia de Because. Um dos melhores arranjos vocais já feitos pelo Beatles, dobrados algumas vezes. George Martin toca cravo, John guitarra, Paul baixo, e George Harrison seu moog pela primeira vez.

YOU NEVER GIVE ME YOUR MONEY (Lennon/McCartney)
06 de Maio, 01, 11, 15, 30, 31 de Julho, 05 de Agosto 1969
Na verdade, a junção de pelo menos 5 trechos diferentes de músicas. Este é um desabafo irônico de Paul McCartney em relação as finanças da Apple. Paul canta, toca piano e baixo. e no final John se junta a harmonia de Paul e George.

SUN KING (Lennon/McCartney)
24, 25, 29 de Julho 1969
Sons de grilos, ‘cowbells’ e água emendam a última música com esta dando início ao Medley do lado B do disco. John compôs a música usando a técnica do dedilhado que havia usado em Julia, do White Album. Mais um intrincado trabalho vocal do grupo, sendo a voz principal de John. George Martin toca órgão e o trecho em que cantam palavras em espanhol não quer dizer absolutamente….nada.

MEAN MR MUSTARD (Lennon/McCartney)
24, 25, 29 de Julho 1969
Composta na Índia, era originalmente para fazer parte do White Album. Música de John, e foi gravada junto com Sun King.

POLYTHENE PAM (Lennon/McCartney)
25, 28 de Julho 1969
Outra música de John composta para o White Album. John canta com sotaque típico de Liverpool.

SHE CAME IN THROUGH THE BATHROOM WINDOW (Lennon/McCartney)
25, 28 de Julho 1969
Gravada no mesmo dia de Polythene Pam, fala de uma história verídica uma certa fã que entrou na casa de Paul pela janela do banheiro, ou para outros ouvidos, da própria Yoko Ono.

GOLDEN SLUMBERS (Lennon/McCartney)
02, 03, 04, 30, 31 de Julho, 15 de Agosto 1969
Adaptação de um poema do século 17 de Thomas Dekker. Uma bonita canção de Paul, que toca piano, que muda abruptamente para…

CARRY THAT WEIGHT (Lennon/McCartney)
02, 03, 04, 30, 31 de Julho, 15 de Agosto 1969
Outra música de Paul, com vocais dele, George Harrison e um nítido Ringo Starr. John Lennon ainda no hospital não se fez presente. No meio há ainda a inclusão de um trecho de You Never Give Me Your Money, que prepara para…

THE END ( Lennon/McCartney )
23 de Julho, 05, 07, 08, 15, 18 de Agosto 1969
O final do disco e praticamente a despedida da banda. Coincidência ou não, cada um dos Beatles dá seu adeus. Ringo faz seu primeiro solo de bateria, e logo depois entram as guitarras de Paul, George e John (nesta sequência) e cada um intercala seu solo. Após o break, o grand finale: ‘And in the end, the love you take is equal to the love you make’.

HER MAJESTY ( Lennon/McCartney )
02 de Julho 1969
Esta pequena música depois de 20 segundos de silencio deveria estar no medley entre Mean Mr. Mustard e Polythen Pam, mas o resultado não ficou bom e o engenheiro de som Malcom Davies a incluiu na cópia de acetato do disco. Paul McCartney gostou e a musica acabou saindo assim também no disco original. Uma ‘homenagem’ de Paul a Rainha, num número acústico em que canta e toca violão.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.