Os Ambientes Musicais de Brian Eno

Se você vir alguém falando que Brian Eno é uma figura-chave na música do século XX, que ele é criador de uma nova concepção sonora e que muitas das canções de gente como David Bowie, Talking Heads, U2, Devo, Roxy Music, King Crimson e outras tantas bandas e artistas queridos não seriam possíveis sem sua participação, não tenha dúvidas: essa pessoa não está exagerando. A influência de Eno é muito mais notada en passant, ou seja, discretamente. Nos anos 80, quando este escriba começou a ouvir música “seriamente”, havia uma grande celeuma sobre qual o verdadeiro U2, o anterior ao disco Unforgettable Fire, de 1984 ou aquela banda que aparecia cantando Pride (In The Name Of Love), com pinta de que queria ser americana a qualquer custo. Explico: o quinto disco do U2 chegava às lojas e ouvidos do mundo com uma sonoridade diferente dos anteriores. Na cabine de comando do estúdio encontrava-se Brian Eno, substituindo Steve Lillywhite, responsável pela sonoridade pós-punk dos irlandeses em álbuns como Boy (1980) ou War (1983).

Eno chegava com a missão de “atmosferizar” o som do U2, a pedido da própria banda. Onde antes havia um ataque bem direcionado de guitarra, baixo e bateria que secundavam a voz emocionante de Bono Vox, agora havia uma espécie de aquarela, levemente borrada e distorcida, como se o som quisesse escapar do espectro dos ouvidos. Não é exagero. Brian Eno, ex-integrante do Roxy Music, inventor de conceitos como o loop musical e produtor de grande influência nos anos 70, entrara a nova década como um ponto de virada na carreira do U2. Talvez ele tenha sido o responsável maior pelo estrelato atingido pela banda logo em 1985, quando já divulgava as canções de Unforgettable Fire.

A verdade é que os irlandeses sabiam o que estavam fazendo quando recrutaram Eno para a produção de seus discos. A presença do “não-músico” na concepção sonora dos álbuns fez com que a banda, sobretudo o guitarrista The Edge, adquirisse uma “marca registrada” musical, algo que pode ser observado em outras bandas ao longo do tempo. Eno sempre representou a curiosidade e a aproximação de uma visão acadêmica da música, sobretudo em termos de possibilidades e formatos. Seu conceito de ambient music mudou para sempre a música popular, ainda que a ideia de sua execução não passe pela noção de algo que vá ser ouvido no rádio ou executado na TV, mas que, de alguma forma imemorial, está presente em todos os momentos da vida do ser humano a partir do século XX. Eno conseguiu identificar nuances muito sutis, a ponto de turvar as noções primordiais de melodia e canção.

Brian Eno deixou o Roxy Music em 1973, após permanecer dois anos na banda. Ele ficava na mesa de som, a princípio, ou operava sintetizadores, sendo conhecido apenas como Eno e, vestindo-se como um dandi nas raras ocasiões em que subia ao palco. Quando se viu em carreira solo, Brian pode soltar sua mente e passou dois anos transitando num território fugidio e estranho, no qual concebeu alguns discos de música pop convencional, mas irremediavelmente diferente de quase tudo na época. Trabalhos como No Pussyfooting, Here Come the Warm Jets, Taking Tiger Mountain (By Strategy) e Another Green World surgiriam até 1975, ano chave na carreira de Eno. Ele desenvovera um sistema de gravação de sons em conjunto com o guitarrista do King Crimson, Robert Fripp, chamado de frippertronics, que consistia, basicamente, na repetição de sons extraídos da guitarra de Fripp, devidamente tratados por Eno em sintetizadores. Com essa ferramenta já testada e utilizada nos discos convencionais dos anos anteriores, Eno sentiu-se à vontade para aventurar-se em território totalmente desconhecido: a ambient music. O termo é dele, diz respeito a sons que podem ser percebidos “sem querer” em algum lugar específico, seja onde for. É uma música praticamente subliminar, presente, constante, quase imutável, que transforma e modifica ambiente e ouvinte, sem que isso seja totalmente perceptível.

Lançando dois discos em 1975, a ideia de ambien music já é perceptível em Another Green World, o primeiro dos álbuns, lançado em novembro, ainda no formato de canção pop de cerca de três, quatro minutos. Um mês depois, veio Discreet Music, algo totalmente diferente de tudo o que havia surgido na música até então. Com sobreposições de camadas sonoras, o primeiro lado do disco, chamado também Discreet Music trazia 31 minutos de música instigante e moderníssima, envolta numa aura de mistério. O lado B trazia variações de Eno sobre o Canon em Ré Maior, de Johann Pachelbel, compositor barroco alemão. O Canon é figurinha fácil em casamentos e mesmo trilhas sonoras de filmes, justamente por sua melodia triste mas extremamente agradável aos ouvidos. As improvisações de Eno estão longe do terreno erudito, mas também não podem ser consideradas versões pop da canção. Os dois anos seguintes seriam de projetos paralelos, além da produção de dois discos de David Bowie em 1977, Low e Heroes, gravados em Berlim. Eno também lançaria um de seus mais aclamados trabalhos, Before And After Science, um disco que pode ser considerado o ponto de partida de qualquer aventura pelos formatos da canção pop, no qual as camadas sonoras são diminuídas e acrescentadas, num processo contínuo de desconstrução e recriação de formatos, algo admirável mas complexo para o ouvinte comum. É o último disco em que há canções num formato pop de voz e instrumentos convencionais.

A partir de 1978, o conceito de ambient music tomaria forma a partir de uma série de discos que Brian Eno lançaria. O primeiro deles foi Music For Airports, concebido a partir de uma longa espera no aeroporto de Bonn, capital da antiga Alemanha Ocidental. Eno compôs quatro peças, duas para cada lado do antigo formato de LP, com repetição de acordes ao piano ou vocais, resultando em algo muito próximo de uma “música visual”, que vai adentrando os sentidos, se acomodando em algum lugar, de modo a permanecer presente quase sem ser notada. A série Ambient teve outros três volumes, que foram lançados até 1981. Nestes três anos, Brian Eno produziu três discos para o Talking Heads (77, Songs About Buildings And Food e Remain In Light), a estreia do Devo (Q: Are We Not Man? A: We Are Devo) e outros projetos colaborativos, além de um outro álbum notável, Music For Films, lançado no mesmo 1978.

O próximo “ambient” seria Vol.2: The Plateaux Of Mirror, lançado em 1980, em parceria com o pianista Harold Budd. Podemos dizer que é um disco em que a presença de Eno está nas sutilezas, uma vez que o piano de Budd é a estrela principal, ainda que a influência de Brian seja perceptível na maneira de Budd extrair sons de seu instrumento. O volume 3: Day Of Radiance, gravado com o percussionista Laraaji, na verdade, Edward Larry Gordon, músico e ator americano, que decidiu embrenhar-se em ritmos obscuros, após trocar o violão pela percussão. Eno produziu e “mexeu” nas sonoridades percussivas e criou um grande disco, que, curiosamente, é creditado a Laraaji, contando com três composições no lado A e duas no lado B.

O grande momento de Eno, no entanto, viria com o último volume da série, o impressionante On Land. Gravado em 1981, pouco depois de Brian Eno lançar seu disco colaborativo com David Byrne, a própria cabeça falante do Talking Heads, On Land é um trabalho que extrapola o conceito “música”. A proposta de música ambiente, antes possível em termos de locais controlados, geralmente interiores, é ampliada para a percepção do próprio ouvido humano num ambiente aberto, totalmente influenciado pela natureza. Com peças que ganharam nome de lugares que possuem significado nas memórias de Eno, Ambient 4 é o mais orgânico dos quatro discos, além de conter efeitos de percussão, baixo e sons da natureza, todos registrados e tratados por Eno de forma magistral, trazendo a ideia de construção de uma atmosfera sonora, mais que um ambiente sonoro, uma vez que o conceito foi ampliado aqui.

Dois anos depois, Eno faria Apollo: Atmospheres And Soundtracks, em parceria com o irmão Roger e o pupilo Daniel Lanois. Seus discos seguintes manteriam o conceito de música ambiente/atmosférica em voga e sua participação na carreira do U2 seria de máxima importância para ele e para a banda.

Por enquanto, ficamos com essa parte da história, a da música ambiente, nunca new age. Se ficou faltando algo em palavras, recomendamos expressamente a audição dos discos, com fones de ouvido e olhos fechados. Garantimos a satisfação total.

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MARCADORES: Redescobertas

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.