Os detalhes grandiosos de Frontinn

Conversamos com a produtora carioca sobre seu primeiro álbum, “Underlying Problems”, que acaba de ser lançado pela ODDiscos

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Fotos: Pedro Gutman / Luciana Mugayar

Ouvir as faixas de Underlying Problems, estreia da Frontinn no selo ODDiscos, é um exercício delicado de autoanálise contemplativa em plena época de incertezas sobre o futuro. Visceral, o primeiro álbum da produtora carioca é marcado por títulos que beiram o perturbador, cujas traduções falam de ideias como antecipando instabilidadee negação coletiva – muito pertinentes à situação de total desorganização política no combate à pandemia de Covid-19 no Brasil.

Esta ponte com o momento presente aconteceu de forma espontânea, conforme a artista, que também é residente da festa ODD, relatou ao Monkeybuzz durante entrevista.

Elementos de Industrial, EBM e Post-Punk são manipulados por meio de colagens em um processo que partiu de fragmentos apropriados de diferentes entrevistas, livros e filmes – reaproveitados em nomes de faixas, capa, vídeo e no título do álbum. “Para mim, sempre foi comum encontrar elementos que chamaram minha atenção, mudar o contexto deles e trabalhar com isso mais tarde; eles acabam sempre revelando algo e acho que essa força invisível que consolida e dá corpo para esses elementos inicialmente ‘deslocados’ faz todo o sentido agora nesse disco. A maneira como vivemos na sociedade se parece muito com isso de certa forma também. Viver nessa era hiper produtiva, com toneladas de informações e imagens que nos são entregues a cada minuto e perceber que, eventualmente, apenas um detalhe em particular chamou nossa atenção… Eu acho que este álbum são esses fragmentos e pequenos detalhes que me encontraram e foram importantes por algum motivo”.

Alusões ao cinema de Alan Clarke estampadas na capa do disco aumentam a sensação de distopia, com uma arte criada a partir de uma imagem do filme Elephant (1989). O título do longa se refere a uma citação do escritor Bernard MacLaverty, que traça um paralelo entre não conseguir resolver os problemas da vida e um elefante mantido na sala de estar causando enormes transtornos. Mas a imobilidade somada ao decorrer do tempo nos anestesia a ponto de nos acostumarmos a conviver com ele ali… causando. Outra coincidência melancólica com os dias de hoje.

Entrevistamos Frontinn, que falou sobre o processo criativo do lançamento, que deve figurar em listas de melhores discos do (difícil, mas prolífico) ano de 2020.

A criação do Underlying Problems foi um jeito de colocar à tona artisticamente sentimentos guardados dentro de você? Como ficou seu lado emocional durante o desenvolvimento do disco?

Eu acredito que fazer música, tocar ou ouvir, sempre é um ato que conversa com os espaços internos e uma forma muito potente de se comunicar com o outro… E acho que desenvolver um disco que é pensado como essa unidade requer uma capacidade de se envolver com o processo. Então, passei alguns meses compondo diariamente, e, apesar dos dias parecerem meio iguais, sempre surgia algo diferente e o disco foi tomando forma de um jeito que eu não havia planejado muito.

A estrutura do álbum está na utilização de fragmentos e pequenos detalhes que lhe encontraram e foram importantes por algum motivo. Conte um pouco sobre o processo de elaborar música a partir de elementos e sons que já existem.

As composições são todas minhas e trabalhei com samples que foram feitos com minha bateria eletrônica e o Casiotone MT-800. Já nos títulos das músicas e na parte visual do disco eu usei livremente trechos de entrevistas, textos, livros e filmes. E tem algo curioso que aconteceu no processo do álbum: embora os títulos tenham sido escolhidos em janeiro, bem antes dessa pandemia, eles acabaram ganhando um sentido inesperado neste momento. “Separação física”, “negação coletiva”, “em nome da produtividade”, “antecipando instabilidade”… O bonito do trabalho é que ele vai nos guiando pelo desconhecido e fazendo sentido conforme vai se revelando – e revelando a relação com coisas que a princípio desconhecemos.

Tecnicamente, de que forma ocorreu o processo de colagens e construção das faixas do Underlying Problems? Qual setup foi utilizado?

Neste caso foi montagem mesmo. Eu usei poucos elementos: um Casiotone MT-800 passando por um pedal de reverb e um sequenciador e o analog rytm. Eu acho que essa escolha de poucos elementos ajudou a manter uma uniformidade sonora e o Casiotone colou tudo, ficou quase como uma banda. Eu gosto dessa estrutura aplicada no ambiente de música eletrônica, no qual nós costumamos ter infinitas possibilidades, mas tudo pode acabar ficando um pouco escorregadio.

“Viver nessa era hiper produtiva, com toneladas de informações e imagens que nos são entregues a cada minuto e perceber que, eventualmente, apenas um detalhe em particular chamou nossa atenção… Eu acho que este álbum são esses fragmentos e pequenos detalhes que me encontraram e foram importantes por algum motivo”.

Você tem uma trajetória musical nascida no underground carioca, permeada por experimentalismos sonoros e intervenções artísticas em galerias de arte. O fato de você tocar mais intensamente como DJ em ambientes de pista, como na ODD e outras festas independentes, refletiu de alguma forma na sua percepção musical?

Sim, acho que o trabalho como DJ me incentiva constantemente a pensar e refletir sobre a relação do som com as artes visuais. Na verdade, não vejo essas atividades de forma separada, acho que elas se alimentam mutuamente. Me interessa muito a relação com o público e essa capacidade que o som tem de atingir as pessoas de forma muito direta, física e subjetiva, tudo ao mesmo tempo. E interessa muito aplicar esses fenômenos musicais no espaço, como ritmo, duração, intensidade, métrica e intervalo. Seja numa festa, seja num espaço de arte, propor um intervalo de um minuto, no meio de uma pista lotada e trazer esse momento de vazio num lugar que essencialmente busca estar preenchido o tempo inteiro… Conseguir propor esse momento de reflexão para o público e se fazer perceber pela ausência que é quebrada abruptamente com graves que atravessam seu corpo é uma experiência única e transformadora. É incrível conseguir articular essas sensações de aceleração e desaceleração e tentar mudar a percepção temporal do público, conseguir frustrar um pouco as expectativas do que seria um som adequado para aquele momento ou lugar. E quando finalmente acha que entendeu para onde aquilo vai, tudo muda de direção.

Quais elementos das sonoridades entre o Industrial e EBM são mais interessantes?

Interessa bastante a estrutura rítmica e a intensidade das máquinas, que é algo que me chama atenção para além do estilo Industrial. Eu gosto muito de pensar no uso dos materiais disponíveis e no serialismo da indústria e a ideia de repetição… E também de como a Música Eletrônica tem essa prática de ocupar os espaços industriais para experiências sonoras e, ao mesmo tempo, incorporar sons desse ambiente na própria música, de forma que som e espaço se tornam indissociáveis.

Quem são as pessoas da imagem da capa? Onde elas estão?

São personagens do filme Elephant do Alan Clarke, de 1989. Foi esse filme que influenciou o outro Elephant do Gus Van Sant, com o uso da steadicam. Fiquei muito impressionada com o filme, que trata basicamente de seguir o percurso de pessoas anônimas prestes a cometer assassinatos em série e aparentemente sem sentido ou conexão. Nessa repetição vamos nos acostumando com os assassinatos e eles vão se tornando banais…

“É difícil fazer qualquer tipo de projeção, acho que não apenas a cena musical, mas a vida já foi alterada, já é outra coisa. (…) Talvez seja uma oportunidade pra gente começar a pensar num jeito diferente de existir”

Você fez o vídeo de “Anticipating Instability”?

Eu recortei as sequências do filme em que os personagens caminhavam determinados, reenquadrando as cenas num zoom acentuado, perdendo um pouco a referência de origem e sentido. Os personagens estão sempre prestes a chegar em algum lugar, mas não chegam, não desenvolve. Gosto dessa ideia de ação contínua e de não chegar.

De que forma você imagina que será alterada a cena musical na qual você atua após este período de isolamento?

É difícil fazer qualquer tipo de projeção, acho que não apenas a cena musical, mas a vida já foi alterada, já é outra coisa. Eu vejo uma tentativa um pouco ansiosa de ocupar de forma muito natural um espaço virtual que não considero o espaço mais importante neste momento. E, claro, que me preocupa como vai ser a cena musical quando tudo isso acabar, se acabar, mas talvez seja uma oportunidade pra gente começar a pensar num jeito diferente de existir.

Tem algum equipamento, instrumento ou software de música que você esteja utilizando com bastante frequência nesta quarentena? Você está ocupando o tempo criando mais musicalmente?

Sim, tenho tido muito mais tempo com a música. Há dois meses vim para uma casa fora da cidade e trouxe tudo que eu podia do meu pequeno estúdio para cá, mas não tem nenhuma grande novidade em termos de equipamentos e tecnologia na minha rotina.

Como você imagina a primeira festa depois da quarentena?  

Eu acho que essa pergunta está sendo feita com bastante frequência… e eu na verdade não consigo imaginar uma festa muito diferente, eu fico pensando que elas já eram tão boas. Porém, nos encontrarmos de novo é que vai ser o mais importante.

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ARTISTA: Frontinn
MARCADORES: EBM, Industrial

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