Os Diferentes Ângulos Para Enxergar Sigur Rós

“Valtari Mystery Film Project” deu visualidade às músicas em 16 vídeos feitos por diretores com toda a liberdade de criar o que quisessem inspirados pelo som da banda

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As oito faixas do álbum Valtari ganharam vida para além das caixas de som e fones de ouvido e foram parar nas telas – primeiro nas de computadores e portáteis com acesso à Internet e chegaram até aos cinemas. É o projeto The Valtari Mystery Film Experiment, no qual a banda islandesa Sigur Rós deu a alguns cineastas, em suas palavras, “um mesmo orçamento modesto e pediu a eles que criassem o que quer que viesse em suas cabeças ao ouvir as músicas do disco”.

De maio a dezembro, 16 pequenas obras resultaram da iniciativa, algumas chamando a atenção pelos seus criadores, pelos atores participantes (com direito a uma polêmica nudez) e, em vários casos, pela beleza das criações audiovisuais ao som de Sigur Rós.

Conheça um pouco de cada um dos vídeos de Valtari e veja-os abaixo.

Ég Anda, de Ragnar Kjartansson.

O primeiro dos filmes lançados tem uma longa introdução de dois minutos nos quais dois homens apenas comem até a verdadeira trama começar, mostrando como se faz a Manobra de Heimlich, aquela técnica para salvar pessoas que estão engasgadas. Já deu para entendermos que o que viria dali para frente não seria necessariamente muito convencional.

Varúð, de Inga Birgisdóttir

A artista que fez a capa de Valtari teve a chance de dar continuidade ao seu trabalho com a banda ao preparar o segundo produto do “experimento”. Seu trabalho é quase inteiro a câmera parada na paisagem e pequenas cenas acontecendo no espaço do quadro, com variações climáticas e pessoas se comunicando por sinais luminosos. Bonito, mas um pouco cansativo.

Fjögur Píanó, de Alma Har’el

A diretora de clipes como Elephant Gun, do Beirut, foi a responsável pela obra com maior exposição de Valtari, que ficou famosa não apenas pela presença do ator hollywoodiano Shia LaBeouf, mas também por sua nudez total em uma bela história de paixão e dor entre um casal. É uma pena que toda a polêmica tenha ofuscado um pouco a qualidade do clipe, embora tenha ajudado a levá-lo para mais gente.

Rembihnútur, de Arni & Kinski.

Ouvir Sigur Rós faz bem. Isso pode parecer uma constatação um tanto quanto óbvia para quem já acompanha a banda há tempos, mas é também o conceito por trás deste vídeo. Todo em preto e branco, ele traz diversas pessoas em estado contemplativo ouvindo a música onírica e quase transcendental dos islandeses. Bonito e sensível.

Ég Anda, de Ramin Bahrani

O diretor norte-americano decidiu mostrar como a natureza sofre à medida com que o homem realiza seus ditos “avanços” em tecnologias e empreendedorismos. Ao longo do vídeo, diversos animais aparecem indefesos e melancólicos perante a grandiosidade das criações humanas. Suas imagens bonitas, quando reunidas, passam facilmente a mensagem, conseguindo ser conceitual e acessível ao mesmo tempo.

Varúð, de Ryan McGinley

O fotógrafo também norte-americano já era conhecido da banda islandesa por ter cedido uma de suas imagens para a capa de Með suð í eyrum við spilum endalaust e ter feito o videoclipe Gobbledigook, do mesmo álbum. Para sua contribuição em Valtari, McGinley fez o que ele chamou de “um poema para Nova York”, com uma figura caricata andando pelas ruas sem movimento, como se soprasse sua vida em meio ao concreto.

Varðeldur, de Melika Bass

Um balé contemporâneo apresenta um monólogo em um cenário simples e pobre. Foi assim que a cineasta imaginou o videoclipe desta música. Ele se aproveita da colagem de timbres que constrói a faixa e apresenta uma obra conceitual que brinca com diferentes ângulas de câmera ao criar linhas e formas com os braços e o corpo da atriz.

Dauðalogn, de Henry Jun Wah Lee

A ilha de Yakushima, no sul do Japão, foi o cenário escolhido para esta obra, talvez até por guardar uma certa semelhança com as paisagens da Islândia, terra-natal do grupo. Além disso, as belezas naturais do local ganham um tom quase místico pelas lentes do diretor, que formou quadros fortes por uma câmera que se move ao ritmo da música.

Seraph (com Rembihnútur e Ekki Múkk), de Dash Shaw e John Cameron Mitchell.

O cartunista Dash Shaw teve colaboração do cineasta John Cameron Mitchell na animação inspirada por duas faixas de Valtari. O filme trata da violência causada pela repressão da sexualidade, com traços muito interessantes e dinâmicos. Diferente da maioria dos outros vídeos do projeto, este traz uma história com começo, meio e fim.

Ekki Múkk, de Nick Abrahams

O ator irlandês Aidan Gillen interpreta um homem perdido no interior da Inglaterra, observado atentamente por um caramujo com voz da cantora Shirley Collins. Ele trata de solidão com uma grande sensibilidade ao longo de seus dez minutos de duração.

Dauðalogn, de Ruslan Fedotow

Junto ao Experiment com os cineastas convidados, aconteceu o Valtari Mystery Film Competition, que premiou dois novos artistas – um escolhido pelo público e outro pela banda. O poético filme que mostra dois homens juntos e, quando um morre, o outro o carrega (o que parece ser um simbolismo para companheirismo e co-dependência para além da vida) foi o escolhido por voto público para integrar a coletânea de vídeos.

Skinned (Fjögur Píanó), de Anafelle Liu, Dio Lau e Ken Ngan

O vencedor da Competition foi este curta que, com uma forte poética visual, mostra uma pessoa se contorcendo e se livrando de sua própria pele. Parece ser sobre o desconforto de ser alguém ou estar em uma situação. É uma produção simples, mas bem feita e em harmonia com a música.

varðeldur, de Clare Langan

A artista irlandesa usou o simbolismo da água para ilustrar a fragilidade humana “congelada entre a vida e a morte”. A tela é inundada com planos bonitos editados na mesma calma da música – o que pode ser entediante para alguns, mas belo para quem estiver disposto a aproveitar seus mais de seis minutos.

Valtari (Ekki Múkk, Valtari, Rembihnútur and Varúð), de Christian Larson

Um dos diretores mais promissores que apareceram em 2012 levou um casal para uma fábrica abandonada e criou uma obra bonita que traz dança contemporânea em uma mescla de quatro faixas do álbum. Vai ser legal daqui a alguns anos, quando Larson ficar mais conhecido, olhar para trás e ver como este vídeo já trazia um pouco do seu estilo. É o meu palpite.

Varúð, de Björn Flóki

Em um ambiente parecido com o do vídeo anterior, mas também migrando para uma floresta, este Varúð contrasta bem os verdes e os cinzas. Uma curiosidade: Ó friður, do álbum Sæglópur é a música que toca durante os créditos no final – o que acaba dando uma coesão interessante com toda a obra da banda.

Leaning Toward Solace (Dauðalogn e Varúð), de Floria Sigismondi

A cineasta e fotógrafa encerrou o Valtery Mystery Film Experiment com um curta estrelado por Elle Fanning e John Hawkes que mostra um homem prestes a desistir da vida em contraste com a vitalidade de sua vida, que está sempre o buscando. É um dos melhores vídeos de todo o projeto e, não à toa, o deixaram para o fim.

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ARTISTA: Sigur Rós
MARCADORES: Clipe

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.