Os Homens que não Amavam as Mulheres

Trent Reznor e Atticus Ross capricharam na trilha do novo filme de David Fincher, criando a música certa para acompanhar a atmosfera ruidosa da produção

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“Cinema mudo” é um termo usado na cultura popular na mesma proporção que é repudiado pelos estudiosos da sétima arte. Por quê? É que mesmo os filmes sem falas já eram acompanhados de som desde os primeiros lançamentos, já que a música sempre foi parte integral das exibições. O desenvolvimento tecnológico na captação e reprodução de áudio desafiou os artistas ao longo do último século a não só se adaptarem ao novo formato, mas também a encontrarem novas e criativas maneiras de trabalhar no plano de fundo dos diálogos para deixar os espectadores sem palavras.

Na temporada 2011/2012, um dos destaques foi Os Homens que Não Amavam as Mulheres (The Girl with the Dragon Tattoo), digirido por David Fincher e com trilha composta por Trent Reznor (Nine Inch Nails) e Atticus Ross, a mesma dupla que levou um Oscar por A Rede Social (The Social Network, 2010), também de Fincher. É um daqueles filmes que alguns podem chamar de “barulhentos”, embora o termo mais apropriado seja “ruidoso”, com diversas interferências sonoras ao longo da trama, de maneira com que as imagens nunca estejam desacompanhadas de som – nunca são “mudas”.

As composições seguem a cartilha dos thrillers, com timbres graves e notas espaçadas aparecendo de repente em uma ambientação meio etérea, com alguns acordes que crescem em intensidade ao longo do tempo – ou seja, sabe aquela cena com alguém andando por um ambiente suspeito em que a música vai aumentando e você sabe que vai acontecer alguma coisa a qualquer momento? Exatamente isso. A diferença aqui é que a trilha apóia não só o que vemos na tela (e as falas dos personagens), mas também a grande quantidade de ruídos que intensificam os cortes de imagem e a ação em certas cenas.

A questão é que, ao longo das 2 horas e 40 minutos de produção, o silêncio é inexistente. Pra isso, os compositores se firmaram na atmosfera de suspense com músicas clean que você nem sempre percebe que estão ali, mas que ajudam a dar uma certa “ordem” a todos os elementos sonoros em cena. As exceções ficam com a ótima Immigrant Song, cover do Led Zeppelin feita com a ajuda de Karen O nos vocais, que abre o filme explosivamente, ou do clímax com uma música da Enya (que está tocando no lugar em que se passa a cena, não fazendo parte da trilha).

Os fãs do Nine Inch Nails vão reparar em algo familiar na cena em que Lisbeth vai ao apartamento de um cara pegar uma encomenda, ainda no início do filme. E se você não curtir a banda de Reznor, não tem problema, pode ir ver Os Homens que Não Amavam as Mulheres sem medo. Ele tem se mostrado cada vez mais um trilheiro de primeira – ainda mais na parceria com Ross – e conseguiu criar um trabalho quase minimalista que ampara a agressividade tanto dos ruídos, quanto da violência temática e gráfica da produção. Uma trilha sonora que sabe marcar presença sem fazer barulho.

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.