Os improvisos certeiros da Taco de Golfe

Com belo novo álbum na praça, trio sergipano fala sobre sua trajetória, influências de Jazz e conta como o estúdio serve de aperitivo para o palco

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Fotos: Beatriz Linhares

O power trio sergipano Taco de Golfe tem se mostrado um dos nomes mais interessantes da nova safra da música instrumental brasileira. A trinca, formada por Gabriel Galvão (guitarra), Filipe Williams (baixo) e Alexandre Damasceno (bateria), consegue criar uma vigorosa mistura entre Math Rock, Rock Progressivo e Jazz que se apresenta ainda mais potente em seu segundo e recém-lançado álbum nó sem ponto II.

“A gente começou despretensiosamente”, conta Gabriel, em conversa com o Monkeybuzz. ”Alexandre me chamou pelo Facebook para fazer uma banda, depois que ele postou uma faixa que coincidentemente também se chama ‘nó sem ponto’”. Segundo ele, nos primórdios, o grupo tinha a intenção de tocar algo mais próximo do R&B e do Funk dos anos 70, mas, logo no primeiro ensaio, enquanto tocava um cover de Radiohead, estabeleceu-se a conexão com um som, digamos, mais experimental.

Desde então, o grupo já lançou dois EPs (Cato e Erro e Volto) e o disco de estreia, Folge (2018). Em três anos de vida, o trio angariou admiradores para além do Nordeste e evoluiu sua sonoridade de maneira ambiciosa. “No Folge, a gente gravou as coisas muito espaçadas, teve baixo que só foi gravado meses depois das outras coisas, já nesse [nó sem ponto II], meio que gravamos a base, sei lá, 80% do disco, naqueles três dias”, conta Alexandre.

Em uma banda sem letras, boa parte do universo sonoro criado na mente do ouvinte vem dos títulos das faixas. “No início da banda, a gente explorava muito esse lance da aleatoriedade, pegava momentos e coisas para isso”, lembra Gabriel. “Quando estávamos gravando o Folge, no estúdio tinha um aviso assim: ‘espere o copo cair’, para pegar o copo de beber água. A gente achou um ótimo nome e aí ficou”. Já para o segundo registro as coisas foram diferentes. “A experiência que tivemos nesse último disco, de ouvir ele, passar viagens ouvindo de novo, achando ruim e achando bom permitiu que a gente pensasse sobre os nomes de outra forma. A grande maioria dos vem de viagens e de experiências assim”.

“Engraçado que o processo de escolha dos nomes das faixas é parecido com o nosso processo criativo no estúdio”, conta Filipe. “A gente tem várias ideias e sai gravando tudo, só depois sentamos para organizar”. Durante os dois anos que separam os dois projetos, o processo criativo foi incrementado por novas fontes de inspiração e influências. Em especial, o Jazz e seu caráter de improvisação. “Eu me sinto como uma criança num parque de diversão”, compara Alexandre, a respeito da imersão no Jazz. “Tento fazer o que vem na cabeça, às vezes vem uma ideia que é massa e tento segurar na música. Há coisas no nó sem ponto II que eu fiz na hora e nem sei como fiz, na real”, completa o baterista

“A gravação é meio que um esboço. Passei o final da minha adolescência ouvindo bandas que pegavam faixas de estúdio de 5 minutos e faziam uma jam ao vivo de 20. E eu pirava nisso. Esse é o apelo do ao vivo ” – Alexandre

Já as linhas de baixo de Filipe chegaram ao estúdio quase finalizadas e praticamente prontas para serem gravadas. “Ao contrário do Alexandre, eu cheguei no estúdio com as linhas prontas dos ensaios e das jams que a gente teve. Tentei deixar o máximo de coisa pronta para não ter que improvisar muito e não ficar inseguro na hora de gravar”. Outra mudança marcante para o baixista foi o fato de ter começado a usar palheta em algumas faixas, além de utilizar instrumentos diferentes. “Isso muda bastante seu ouvido e como você quer que as coisas soem”.

Coube a Gabriel e sua guitarra o papel de ajudar a colar as improvisações jazzísticas da bateria e o baixo cirúrgico em um todo coeso e contagiante – e, para isso, ele se escorou na ideia de ambiência. “As músicas estavam indo para um caminho que me deixava encarregado da atmosfera. Muitas vezes o baixo foi muito mais melódico do que a guitarra e eu tinha que fazer as camadas, fazer isso ficar preenchido. Esse disco tem faixas bem simples harmônica e melodicamente, que a gente resolveu explorar mais de uma forma ambiente”.

Mas é a vivo que a mágica acontece e a banda a concorda comigo nessa. “Quando a gente ouvia o Folge era uma coisa e quando a gente tocava era outra coisa. Parecia que tinha muito mais energia, mais pressão, a música era mais envolvente. Sinto que o Folge era mais engessado e plástico nesse sentido, esse [nó sem ponto II] soa muito mais próximo do que a gente faz ao vivo. Ainda não chegamos lá, mas estamos mirando”. Basta comparar as versões para “josé” – a de estúdio, presente no álbum, e a gravada na Dip Session, do Monkeybuzz, durante a passagem do trio por São Paulo, em dezembro de 2019. Ao vivo, tudo soa mais grandioso, mais explosivo. (À época, a banda apresentou a canção inédita em primeira mão).

“Penso na Taco de Golfe muito como uma banda ao vivo, não sei se isso é bom ou ruim. Mas sempre vejo como as músicas podem se transformar. Daqui a um ano a gente vai estar tocando melhor e com mais possibilidades do que fazer com elas”, aponta Alexandre. Com as habilidades afloradas e o espírito de improvisação encarnado, a banda se sente tão à vontade tocando ao vivo que enxerga o estúdio como um diagrama – cujo potencial é elevado ao máximo na hora de subir ao palco. “Então, a gravação é meio que um esboço, é aquilo ali, mas a gente se permite muito mudar. Eu passei o final da minha adolescência ouvindo bandas que pegavam faixas de estúdio de cinco minutos e faziam uma jam ao vivo de vinte, sabe? E eu pirava nisso. Eu acho que esse é o apelo do ao vivo”.

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ARTISTA: Taco de Golfe

Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts