Os mistérios do comum

Atletas, banda de um homem só liderada por Mario Cascardo, coloca o familiar sob a luz do insólito em álbum de estreia

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Fotos: Divulgação

Mario Cascardo elevou as brincadeiras com controladores a outro nível quando passou a traduzir tudo o que fazia no violão, seu instrumento nativo, para as teclas. “Os synths podem até fazer parecer que eu sou tecladista, mas não sou. É uma coisa bem mais de ir montando, editando as teclas. Não é um instrumento em que eu sou muito fluente, não”, avisa o carioca, responsável por Cedros Tanhang, disco de estreia do projeto Atletas, no qual, em linhas gerais, ele – munido de seus controladores – cumpre o papel de uma banda inteira. 

Nascido da vontade de explorar as possibilidades e texturas sonoras dos sintetizadores, o álbum começou a ser produzido em 2016 e representa um novo momento na carreira do músico, que já esteve à frente dos projetos Ivy Walker e mario maria. As canções, atmosféricas e progressivas, com em média mais de 6 minutos de duração, são, segundo ele, ligadas à ideia de ambiência. “Os synths foram importantes para o disco, mas também uma luminária de led que eu comprei na época, que ajudava a me debruçar sob o computador e criar um ambiente aconchegante para compor.”

Mas, ainda que Cedros Tanhang se escore na música progressiva, com sobreposições graduais de camadas, Mario pinta melodias e harmonias que, em meio ao caleidoscópio sonoro, bebem de um aconchego Pop. E com o Pop debaixo dos braços é que ele parte para experimentações. “Minha música parte de um lugar que é ‘do agradável’, sem esse lugar eu não consigo seguir adiante. A ideia é expandir o universo do agradável para outras coisas que aparecem: os ruídos, os crescimentos, outros instrumentos que ‘complicam’ a canção. Vai sendo algo agradável, mas organicamente situado em um contexto de experimentação. ” Essa mesma atenção para o singelo aparece nas letras – entoadas, discretamente, como mais um instrumento, em detrimento de algum protagonismo –, que, segundo ele, são inspiradas em expansões de emoções do cotidiano, pequenas alegrias e encontros com pessoas marcantes. 

O conceito de “Som Experimental” serve apenas se vier associado à ideia de experiência, à ideia de que a música é um ato do presente. “A experiência abarca tanto a busca por novidade, quanto a sua experiência pregressa. É um experimental que não quer apenas destruir o que é comum. Pelo contrário, é experimentar com o que está sempre à minha volta. ” Essa camada que divide o simples e o rebuscado, melodias pops e harmonias intrincadas, torna-se porosa durante todo o disco – mas coma presença constante de sintetizadores gordos que invadem moods lo-fi. Em “VHS”, guitarras cheias de fuzz se sobrepõem a doces melodias de voz; “Samsona” é uma viagem transcendental e imprevisível de synths; “Um Ano, Quatro” traz uma linha de piano cativante, com melodia de voz que chega a flertar com Beach Boys, até desembocar na introspecção (com picotes súbitos e edições atravessadas). E, ao mesmo tempo, “Siorit” é inteira guiada por um violão. 

Mario teve o músico Babe, Terror (Cláudio) como aliado durante sua jornada. “Desde que eu percebi que caminhava para algo mais progressivo, chamei ele pra me ajudar, porque isso é uma coisa muito da sensibilidade dele. E, com o que ele chama de mini orquestra, foi como o George Martin para os Beatles. Ajudou em arranjos e encorajava certas coisas que transformavam a música.” Segundo Mário, em meio a influências que vão de Todd Terj a Pink Floyd, passando por Four Tet e Caetano Veloso, o parceiro de viagem ainda trouxe a influência do Rock Progressivo feito pelo Genesis. “Acho que esse álbum tenta imitar um pouco o Tony Banks, tecladista do Genesis.”

Mas por que Atletas? “O atletismo é ligado ao desempenho que, em certo sentido, é antiartístico. E a gente vive hoje no mundo do desempenho: as pessoas têm que performar, ser eficientes. Um atletismo num sentido ruim. Eu gostei justamente de trazer essa palavra à tona, para perceber o que é ser atleta na vida de cada um. Mas não é uma questão de achar um significado final, é mais de brincar com essa ideia.” 

MUNICIPAL K7

Cedros Tanhang é o primeiro lançamento do selo Municipal K7, administrado Lucas Stamford, Stan Molina e pelo próprio Mario. E, como o nome do selo anuncia, o disco sairá no formato de fita cassete. No embalo da estreia do Atletas, o Municipal prepara o lançamento de outros projetos para os próximos meses: Crocodilo Slam, de Gabriel Artie, e fordmastiff e Fantasma do Cerrado, produzidos pelos próprios Lucas Stamford e Stan, respectivamente. 

A ideia de montar uma empreitada dedicada a fitas cassete partiu de Stan, que comandou o selo Cloud Chapel, com o qual Mario já lançou trabalhos autorais anteriormente. Segundo Mario, a fita simboliza uma preocupação com escutar música. “Mesmo que a pessoa não compre, o fato de a gente estar fazendo fitas representa uma dedicação. A fita é principalmente um significado que diz assim: pare para escutar.”

Colocar K7s na praça é também uma forma de andar na contramão da imaterialidade da música na Era do Streaming. “Quem gostou do disco deve trazê-lo para próximo de si, no seu ambiente. A gente vive em um mundo de perda dos ambientes. Não é um fetiche, é um objeto que testemunha uma relação afetuosa. A magia está em lembrar que a música é algo que você coloca no seu ambiente visível e tátil. Não apenas no ambiente eletrônico.” O lançamento oficial das fitas K7 será no dia 16 de janeiro.

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ARTISTA: Atletas