Os Netos da “C86”

A cassete, apesar de ter apenas 26 anos de idade, já é responsável por influenciar mais duas gerações de bandas, como Veronica Falls (foto), que não deixam a desejar ao som de seus “avós”

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Uma geração pode ser dada como um intervalo de 30 ou 40 anos. Entretanto, o mundo da música é muito dinâmico e, desde os pais do Twee e Noise Pop, lá da C86, até seus netos recém-nascidos, temos pouco mais de 20 anos. Mal nos deparamos com as bandas tidas como frutos diretos desse famoso cassete e já vemos novos vindo dessa segunda geração.

Se hoje uma artista independente ganhou espaço e voz, foi muito graças a essa importante fita cassete, a tal C86. Em 1986, a revista NME lançava no Reino Unido uma compilação de faixas de artistas sem gravadoras, como Talulah Gosh, The Orchids, The Pastels e The Field Mice, no estilo Do It Yourself (DIY), sem ligações com quaisquer gravadoras. A fita foi extremamente importante primeiramente para os artistas locais, mas, logo depois esse impacto positivo, se espalhou para os demais países, tornando a C86 como um símbolo da voz de liberdade dos artistas independentes.

Na questão sonora, os nomes que compunham o cassete e suas versões dos anos próximos ficaram marcados por serem responsáveis por criar uma sonoridade doce, sutil e com algumas adições de guitarras levemente barulhentas. Tratava-se da gênese de estilos como Twee, Noise Pop e Shoegaze, que surgiam e seviriam de insipração para bandas que viriam a seguir, como Camera Obscura, Architechutre of Helnsinki, Belle and Sebastian e The Radio Dept., entre outras, na primeira metade dos anos 90.

No início dos anos 2000, surgiu o que podemos chamar se segunda metade de “filhos” da C86, os chamados Nugazers – o novo Shoegaze. Tais bandas, como Ringo Deathstarr, Black Rebel Motorcycle Club, M83 e A Place to Bury Strangers, apresentavam um som hora similar ao cassete e, com seus toques particulares, adicionavam elementos de outros estilos.

No final de década de 2000, dava-se a luz à terceira geração, os chamados “netos da C86”. Apesar dos 23 anos que o separam do cassete original, 2009 fui um ano importante, quando surgiram os novos nomes do Twee, Noise Pop e Shoegaze. Nesse ano, tivemos os discos de estréia do The Fauns e seu Shoegaze, do Twee do Pocketbooks e o híbrido do The Pains of Being Pure at Heart, além do nascimento de bandas como Yuck, Allo Darlin’, Wild Nothing e Veronica Falls, que viriam a lançar seus discos de estreia um ou dois anos depois. Tais bandas caíram bem no gosto do público, sendo uma boa extensão da geração passada e recente dos anos 90.

Originária de Bristol, o The Fauns é um quarteto que lançou em 2009 seu homônimo disco de estreia, com um Shoegaze belamente embalado pela voz da vocalista Alison, se assemelhando a grandes artistas do estilo, como Lush e Ride.

Do mesmo modo, o Wild Nothing também nos traz um som mais brando, dessa vez com um toque de Dream Pop.

Representando o Twee, no mesmo ano temos o lançamento de Flight Pats do Pocketbooks. A banda londrina nos traz um clima doce acompanhado de guitarras e pianos suavemente tocados, mantendo a qualidade da primeira geração do estilo. Em 2011, sairia o segundo disco da banda, Carousel, gravado por Simon Trough, integrante do Allo Darlin’, outra representante dessa terceira geração.

Em 2011, uma das maiores surpresas que tivemos foi o lançamento do disco de estreia da nova banda de Daniel Blumberg, ex-Cajun Dance Party. Tratava-se de Yuck, banda que possui nítidas influências de bandas de Noise Rock, de Sonic Youth e Pavement e não deixa de lado o aspecto mais Pop como na faixa Georgia. Entretanto, é o seu som mais levado para o Noise que fez a banda cair nas graças da crítica e subir em palcos de grandes festivais, como o Coachella de 2012.

No mesmo ano, as garotas do Veronica Falls nos davam o ar da graça e lançavam o disco de estreia do trio. O álbum homônimo trazia uma sonoridade similar a bandas como Talulah Gosh, com vocal feminino suave, mas sem exagerar na doçura, e com uma aura envolvente intimista e que sabe explodir no momento certo. Logo no mesmo ano de estreia do disco, a banda tocou no festival SXSW, agradando a público.

Vinte e seis anos após o seu lançamento, a cassete C86 ainda se mostra totalmente influente na sonoridade de bandas que bebem de seu estilo, praticamente criado com nomes que marcaram mais no cenário underground, mas que logo após serviram de referência e ganharam uma linhagem até o momento. Uma certeza nós temos: essa linhagem não vai parar. Um exemplo é a banda The History of Apple Pie, a mais novata das citadas por aqui e que tem lançamento de seu primeiro material para Janeiro de 2013. E que venham os bisnetos!

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Autor:

Marketeiro, baixista, e sempre ouvindo música. Precisa comer toneladas de arroz com feijão para chegar a ser um Thunderbird (mas faz o que pode).