Os novos voos de L_cio

“A calmaria sempre existiu no meu som, mas se tornou mais explícita nesse momento tão triste”; o produtor e multi-instrumentista fala com exclusividade sobre o EP “Bird”, lançado hoje pelo selo dsrptv

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Fotos: Camila Padilha

O refúgio na calmaria é uma busca presente há muito tempo na experiência humana, seja por abstração, autocuidado ou proteção. Como pássaros que, prevendo tempestades próximas, voam para longe, atrás de abrigo. De calmaria. Voar para longe do caos, do olho do furacão, é um desejo que permeia o imaginário muito antes de sabermos o que seria viver em uma pandemia.

Mas, em meio ao caos pandêmico instalado, essa ânsia por encontrar tranquilidade parece ter sido aflorada – e, na música eletrônica, manifesta-se de diversas maneiras e por meio de estéticas muito particulares. Longe das pistas, vários lançamentos recentes ressoam paz. Talvez pela falta de uma festa e a, portanto, ausência daquela forte e direta inspiração para uma track? Ou simplesmente pelo fato de se sentir angustiado, em um clima negativo e usar a arte para promover essa tal calmaria de que precisamos? Para depois, enfim, aquele caos eletrônico (que a gente gosta) voltar com tudo.

L_cio, por enquanto, convida todos para um voo distante, sereno e arrebatador. Com sua sensibilidade, o produtor e multi-instrumentista aposta em novos voos com o EP Bird, lançado hoje pela dsrptv rec. Em três faixas originais, L_cio faz questão de te levar para bem longe da atual turbulência cotidiana. Em uma conversa exclusiva, ele fala mais sobre o projeto, as parcerias e a ocasião perfeita para ouvir Bird.

“Os pássaros conseguem ouvir antecipadamente quando uma tempestade está se aproximando, porque mudanças meteorológicas emitem uma forte onda sonora que se propaga em longas distâncias, fazendo com que eles se agitem e migrem para um novo ambiente”. O que te fez (faz) lançar novos voos em busca de mais “calmaria”?

Sempre produzi de maneira livre e tentando refletir o momento que vivo. Com a pandemia, me senti muito inseguro quanto ao futuro e tentei me aproximar mais daquilo que me acolhia musicalmente. Assim, comecei a explorar mais possibilidades sonoras sem compromisso com a pista, mas exclusivamente voltadas à minha expressão. A calmaria sempre existiu no meu som, mas se tornou mais explícita nesse momento tão triste. O que mais quero é que a trovoada de sons volte com as festas e possamos ter as duas versões potencializadas na pista em breve.

De que forma a pandemia e a vida longe das pistas te influenciaram no projeto?

Penso que esse momento está sendo muito triste, e a música tem sido para mim um acalento e uma possibilidade de expressão que representa o que sinto agora.

Artisticamente, quão particular este lançamento é para você? O que há de diferente e semelhante em comparação a outros projetos de sua carreira?

Esse é meu segundo EP solo durante a pandemia. É muito especial pois foi planejado, produzido e finalizado com muito profissionalismo e alegria por parte do label e artistes envolvides.

Bird pode ser interpretado como uma reflexão instrumental sobre a urgência de uma reconexão da natureza humana com o seu espaço”. Como o espaço, o que é externo, influencia sua emoção criativa, suas produções?

Todos os espaços e referências visuais influenciam demais minha produção. Sempre que precisava dar um respiro à criação, ia a parques, exposições e tentava transmutar essas informações em inspirações para minhas composições.

Em meio à era digital e à correria da rotina, o que você faz para manter essa reconexão com o que é “naturalmente humano”?

Tento ter senciência – percepção de estar/viver no mundo – independentemente de contextos.

Logo de cara na primeira faixa, “Visionary Place”, você exalta o canto dos pássaros. Como foi fazer essas captações sonoras do ambiente?

A captação foi feita por uma amiga (Juliana) que mora na Índia. Um dia ela postou a revoada de pássaros pela manhã, aí mandei mensagem na mesma hora pedindo que gravasse para mim. Acabei processando um pouco o áudio (delay, equalizador) para que fizesse mais sentido à composição.

Percebo que neste EP a sua relação com a flauta está bem mais ampla e desenvolvida. Como ela pode te guiar em suas produções? [ou vice-versa]. Você acha que esse toque sonoro pode se tornar uma assinatura?

A flauta é o instrumento que toco desde criança e me ajuda demais a compor melodias. Explorar a flauta como elemento principal das músicas nesse EP foi ótimo para poder me expressar com carinho. Acho que o instrumento já tem sido minha assinatura faz um tempo e não me preocupo muito com isso. Uso a flauta quando acho que faz sentido, se não faz, simplesmente uso outro instrumento/synth.

Como funcionam as dosagens de “nostalgia” e “futurismo” na sua produção? Mesmo supostamente contraditórios, são duas atmosferas/estéticas que se harmonizam no seu som.

Essa sensação de nostalgia em tempos futurísticos foi trazida justamente pela intenção e pela tecnologia usada. Usei softwares, hardwares modernos, mas com o intuito de resgatar o que há de mais essencial nas minhas composições de forma mais simples e emotiva possível. 

Seu primeiro álbum foi lançado em 2018 pelo DOC, com Poema. O que mudou na sua forma de produzir – influências e referências – de lá para cá?

Não mudei muito na forma de produzir, mas evoluí bastante em planejamento e organização dos meus lançamentos. Agradeço a Monique Dardenne por isso!

Além de suas produções, você também é conhecido pelos ótimos remixes. Aqui, os responsáveis são Mari Herzer e dsrptv. Como foi esse contato? Para você, qual a importância de um remix? 

A Mari Herzer foi uma sugestão minha. Amo o trabalho dela e durante a pandemia lançamos uma faixa (“Teia”) juntos pelo selo Baphyphyna, no VA Nós . Acredito que o remix é uma forma de amplificar e ressignificar a música original, e nesse caso, os dois remixes cumpriram com esse papel de forma única e linda.

Qual é o cenário perfeito para escutar Bird?

Quando for possível, caminhando num parque olhando o balançar das árvores e vendo as aves voarem e cantarem.

Qual você sente que é o seu legado dentro da cena? E olhando para o futuro: daqui a alguns anos, de que maneira você quer ser reconhecido na história da música eletrônica brasileira?

Poxa, isso é difícil de dizer, mas gostaria que as pessoas lembrassem de mim e do meu trabalho com carinho – já seria muito bom saber que deixei boas memórias e música. O museu do DJ que a Claudia Assef organiza tem algumas recordações minhas que podem ser um indício de algo…

Texturas da dsrptv

Quem são os responsáveis pelo selo?

Alexandre, Augusto: Somos dois sócios na gravadora, que compõem tanto a parte burocrática quanto na curadoria, Augusto (Tha_Guts) e Alexandre.

Qual foi o primeiro contato com a música? Como foi? E com o gênero eletrônico?

Augusto: Na adolescência, ambos tivemos algumas bandas e projetos independentes. Já o contato com a música eletrônica se deu mais tarde, em ambos os casos na vida adulta. Durante a faculdade que o Alexandre começou a frequentar a cena eletrônica. Comigo, o contato foi um tanto incomum. Demorei um certo tempo para encontrar uma estética e lançar o projeto Tha_Guts, e na música experimental e eletrônica eu encontrei uma linguagem sonora que expressasse as ideias que antes estavam difusas na minha cabeça. Assim, quando eu frequentei a primeira rave, já havia lançado um álbum e começava a tocar em algumas festas em formato de live set. 

De onde surgiu a ideia de ter um selo?

Augusto: Antes da pandemia eu estava coproduzindo a festa PANCA com meu sócio Hotto (Base Poa) e chamamos o Alexandre, que trabalha com projeção e video mapping, para compor os visuais. A gravadora veio de uma ideia que já estava na minha cabeça há alguns anos e com a Covid-19 ela se tornou uma necessidade mais urgente. Naquele contexto, amadurecendo o projeto percebi que precisava de um sócio. Assim, o Alexandre se tornou membro da gravadora e um parceiro fundamental no seu desenvolvimento. Nosso principal objetivo como label é apresentar um catálogo consistente na questão de frequência entre releases e curadoria, que se traduza em um espaço de troca e liberdade para o artista. 

Quais são as maiores dificuldades e prazeres em ter um selo independente no Brasil?

Alexandre, Augusto: Hoje em dia uma gravadora desempenha um papel diferente do que há 20 anos. Curadoria e uma comunicação aberta com os artistas nos permite um catálogo coeso sem depender de um gênero específico. Dado a facilidade contemporânea na publicação das produções musicais, percebemos que a função de uma gravadora independente está muito em mapear e selecionar novas músicas nesse denso oceano de artistas. O maior prazer em trabalhar de maneira independente é que podemos focar 100% na música, lançando artistas que realmente acreditamos. As dificuldades são várias se colocadas em perceptiva com grandes managers, no sentido de limite de recursos e alcance. Portanto, temos como objetivo criar um vínculo orgânico com ouvintes que se identificam com a proposta.

Você já conhecia o L_cio? Como essa parceria nasceu? De onde surgiu a ideia de lançar Bird?

Augusto: No início da pandemia acabei me aproximando do L_cio e trabalhamos em algumas faixas em collab. O convite para lançar na dsrptv aconteceu logo no embrião do nosso catálogo e a ideia era apresentar um lado mais experimental dele como produtor. Após ouvirmos algumas faixas demos, fizemos audições e trocando feedbacks até chegarmos nesse resultado.

Existe algum tipo de narrativa nas sonoridades escolhidas neste e nos outros registros do selo?

Alexandre, Augusto: Temos o prazer de trabalhar com artistas convidados que produzem faixas para a gravadora, conectando a identidade do artista com a atmosfera da label. Sobre a questão da própria sonoridade, a identidade mutante e orgânica da gravadora veio durante o próprio processo, percebemos que não nos interessava ser uma gravadora definida por um gênero musical. Gostamos de falar que a dsrptv tem uma identidade sonora que amarra os lançamentos, guiada por esse som granular e texturizado, seja em uma faixa de Ambient ou em uma track 4/4.

Qual foi o maior aprendizado que surgiu com a label dsrptv?

Alexandre: Um dos pontos mais importantes para nós é o privilégio de participarmos ativamente na cena eletrônica brasileira ao mesmo tempo que estabelecemos uma conexão com artistas internacionais (Spookyfish, Canadá; Oowets, Japão). A gravadora também nos trouxe a oportunidade de entender o processo completo entre uma concepção artística em uma obra publicada. Acompanhar o time de profissionais que trabalha conosco, como Gabriel Rolim (artista visual), RHR (masterizador), entre outros que ajudam a fazer a label acontecer também aprendemos mais cada novo release.

Bird: FAIXA A FAIXA

L_cio: Meu processo de produção é bem simples e uso Ableton, alguns pluggins hardwares (Vermona Monolancet, Bass Station, AIRA TR 8-S…). As outras faixas usei a flauta, sons de aves e alguns synths do Ableton.

“Visionary Palace”

A faixa “Visionary Palace” é muito simples. Usei apenas 3 canais. Um deles é das aves gravadas no amanhecer na Índia, o outro é o take de flauta processada com EQ, reverb e delay – e por fim um canal com o áudio da flauta processado no software “Paulstretch” que literalmente estica o som em até 3 dias e o resultado é maravilhoso.

“We”

Na faixa “We”, trabalhei com 8 canais, sendo 3 de pads que se somam e completam a ambientação melódica da música (todos nativos do Ableton). Outros 2 canais são de ambiências de pessoas conversando e de ambiente urbano, que promovem organicidade. Usei mais 2 canais de texturas feitos no Absynth (plugging) e gravei a flauta a partir das harmonias criadas. A criação da melodia da flauta é bem livre e tento fazer uns 3 takes no máximo e depois editá-los até chegar na versão final.

 “Um”

Na faixa “Um”, o Gabriel Ide mandou algumas referências, aí criei a base com bassline e drum… posteriormente ele inseriu mais sons percussivos e melódicos e eu finalizei arranjando, gravando a flauta e mixando. O projeto mostra os elementos que usamos e como arranjamos as “partes” em uma narrativa. São 22 canais, em que temos elementos produzidos em synths do Ableton (pads,chords, pianos e stab), claps gravados em uma session que participei com Brandt Brauer Frick, ambiência de chuva gravada por mim, hats e shakers produzidos por Gabriel no Ableton e a flauta gravada e depois editada. O bassline foi tocado por mim no hardware Vermona Monolancet e o kick sampleado do youtube e depois processado para chegar na sonoridade que queríamos.

“Visionary Palace” [Mari Herzer Remix]

Mari Herzer: Essa faixa saiu relativamente rápido, ouvi algumas vezes e imaginei que seria interessante adicionar uma camada harmônica mais colorida e temperada, como é o que fiz com o piano. Para mim, a parte mais importante foi a gravação do piano mesmo. Eu desligo todos aparelhos que podem ter internet e me concentro apenas em fazer a música, sem distrações. Sento ao piano (na verdade, um teclado que tenho em casa) e estudo algumas escalas antes de começar. Para mim, entender o campo harmônico no qual vai trabalhar é o mais importante do processo. Só depois penso na parte eletrônica mesmo. Geralmente meus remixes só tem uma peça da faixa original, o que me dá mais liberdade para desenhar novos ritmos e melodias a partir do material bruto.

Umas 10 horas. Terminei em um dia.

Eu estava ouvindo bastante Debussy nessa época, lembro que fiz o remix em dezembro de 2020. A sonoridade impressionista dele, que me lembra o jazz às vezes, me deixa com o estômago cheio de borboletas, é muito bonita. Foi o que me fez gravar a intro do remix sem batida, apenas com piano.

Um” [DSRPTV Remix]

Dsrptv: Todos os remixes da gravadora são produzidos por diferentes produtores de nosso catálogo como uma espécie de “ghost producer” (se você conferir fazemos isso em todos releases). A ideia é realmente ocultar o autor como uma crítica a superexposição do nome por trás da obra na indústria musical e focar 100% na própria composição em si. Assim, o ouvinte acaba escutando a faixa sem uma ideia pré-concebida do que irá ouvir. Por isso, não temos como comentar sobre a faixa pois assim revelaria quem produziu.

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